quarta-feira, 30 de abril de 2014

Ideologia e amizades


Leio a entrevista de Vasco Pulido Valente ao I, no último fim-de-semana. Ficámos a saber que entre os seus amigos há quem “odeie” o que escreve ultimamente; e, em sentido inverso, o historiador “não consegue acompanhar” a deriva de esquerda de alguns companheiros. Percebe-se tensão e mágoa nas palavras. Os amigos a serem quase ex. Por motivos ideológicos.
E penso, então, como a questão está limitada geracionalmente: não encontrei, entre membros da minha geração, quem, alguma vez, se tivesse incompatibilizado com outrem, por motivos politico-ideológicos. (Por razões partidárias, de funcionalismo e aparelhismo, sim, ódios e ranger de dentes). Se cogitada, entre a minha geração, uma eventual zanga, entre amigos, por razões de ordem ideológica, tal ideia ou sugestão (académica?) talvez, mesmo, desse lugar a uma gargalhada, ou um encolher de ombros com que se tratam os doidinhos.
Se Luc Ferry vê nisto uma evolução positiva – já ninguém morre por grandes ideais, ou palavras, IGUALDADE, PÁTRIA, NAÇÃO, etc., mas apenas se dá a vida por quem se ama -, também o abandono, completo, do campo político e das ideias, levou a um desertificação hedonista/indiferentista que, quando os tempos ficaram menos prazenteiros, declinou em sentimento e indignação, mas não propriamente em criatividade para uma resposta (política) à altura, nem com um especial comprometimento com a coisa pública.


Pub: Exposição "Intemporal", de Nadir Afonso, no Museu da Vila Velha





Raras as exposições de relevo que passam por Vila Real. Uma oportunidade, pois, a não perder, esta (e o site Nadir Afonso pode, também, auxiliar, junto com o livrinho que acompanha a exposição, lá onde se fala dos motivos, da filosofia, da estética, matemática, geometria, traços originais do universo, cidades visitadas e amadas, do percurso do autor). 



Primeiro debate entre os candidatos à presidência da Comissão Europeia






terça-feira, 29 de abril de 2014

INTRODUÇÃO À POLÍTICA (III)


De forma lapidar, embora mantendo a caracterização da pessoa envolta em mistério, Pascal deixou dito, na sua conhecida obra Pensamentos que a pessoa é «um nada face ao infinito, um tudo face ao nada» (Pensées, nº72).
É, aliás, interessante lembrar que a palavra pessoa vem do latim «persona». Esta, por sua vez, descende da palavra grega «prosopón» que, à letra, significa máscara, o que sugere que só é possível aceder ao invólucro ou parte exterior da pessoa, enquanto a sua interioridade ou essência se mantém oculta.
Na tragédia grega, as pessoas ou personagens eram representadas por intermédio de máscaras. A máscara permitia a representação no teatro, já que por um seu orifício, ao nível da boca, surgia a voz da pessoa, sem que esta fosse vista, o que criava a ideia de mistério em redor do que, na essência, essa pessoa era.
Curiosamente, a compreensão do ser humano como ser em si – Immanuel Kant falará mais tarde na pessoa como «um fim em si», radicalmente distinto dos outros -, como um ser de valor absoluto, que transporta a memória da Humanidade e a leva para além de si próprio, e que, como tal, deve ser garantida e salvaguardada, não se desenvolveu entre os gregos.
Quem reconheceu a natureza absoluta da pessoa humana foi a cultura judaico-cristã.
Oposta à concepção religiosa dominante do paganismo, com a sua pluralidade de deuses imanentes, o judaísmo apresentou, em substituição, a visão de um Deus uno e transcendente. Esta visão de um Deus uno e transcendente preparou o cristianismo, que apareceu no Império Romano, concretamente no período de César Augusto, com o nascimento de Jesus Cristo, considerado como incarnação humana de Deus («E o Verbo se fez carne e habitou entre nós»).
Com o cristianismo surgem, de um lado, a noção de pessoa com uma particular carga transcendente, que conduz ao princípio da inviolabilidade da pessoa humana; e, de outro, a noção de humanidade, uma noção ampla que engloba todas as pessoas do mundo.
Ao comprometer-se com a criação do homem, ao modelar o homem à sua imagem e semelhança – como diz a Bíblia judaica, «Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele nos criou homem e mulher» (Génesis 1, 27) -, o Ente supremo transmitiu, a todos e a cada um, a transcendência que o caracteriza e, ao fazer a todos participar dessa transcendência, o homem logo surgiu, no acto da criação, como pessoa, e pessoa dotada de valor absoluto.
Ao conferir dimensão transcendente à pessoa – o homem é feito à imagem de Deus como seu «ikon», pelo que há no homem algo de divino -, transmitiu-lhe a capacidade de ir além de si própria. Mas isso não retirou à pessoa a possibilidade de ter uma dimensão imanente, isto é, a capacidade de ter autonomia e de agir em razão dessa autonomia. É, aliás, através da autonomia do ser, da sua imanência, que é possível reconhecer a liberdade e a inerente responsabilidade do agir humano.
Nos textos bíblicos, na narração da criação, depois de criadas as outras espécies, é criado o Homem. Este é criado no último dia, como que a conferir sentido pleno à criação - «Tendo-os criado homem e mulher, Deus viu que isso era muito bom» (Génesis, 2, 22). Por outras palavras, a criação do homem no último dia surge como o acto que atribui um sentido superior a todo o processo de criação anterior. Não admira que, a partir daqui, surja a noção de dignidade humana e se entenda que todas as vezes que a dimensão absoluta da pessoa é esquecida, menosprezada ou agredida, tudo no mundo e no tempo deixa de ter sentido, já que só o homem é capaz de dar sentido às coisas deste mundo. Daí falar-se na natureza inviolável da pessoa humana.
Em suma, com o cristianismo, o enigma da pessoa, se, por um lado, pela criação divina, se desanuvia, por outra, pela transcendência divina que lhe fica associada, adensa-se – o divino, no seu mistério, integra o próprio homem -, ao mesmo tempo que se abre, em permanência, ao desejo de compreensão. Além disso, foi essa transcendência divina inerente à pessoa - «o valor divino do humano» - que permitiu o surgimento e desenvolvimento da ideia de dignidade da pessoa humana.
Acresce que ao cristianismo se ficou a dever também a noção de humanidade.
Com efeito, o cristianismo não só proclamou que o homem é criado à imagem e semelhança de Deus como ainda que todos os homens são seus filhos. E, se a primeira ideia é revolucionária (e, simultaneamente, capaz de se desdobrar e dar origem a inúmeras outras ideias, também elas revolucionárias), a outra não o é menos, já que, por seu intermédio, se constrói a ideia de isonomia, ou igualdade entre os homens. Porque, se todos são filhos de Deus, então todos os homens são irmãos, e não há diferenças essenciais ou de natureza entre os homens: «Não há mais judeus nem gentios, circuncisos ou incircuncisos, nem bárbaros nem gregos, nem escravos nem homens livres» (Epístola de S.Paulo aos Colossenses, 3,11).
Esta noção de humanidade, fundada na igual natureza de cada pessoa humana – todos os homens são filhos de Deus e, por isso, irmãos uns dos outros -, tem consequências sociais e políticas decisivas.
Com efeito, dessa noção decorre a condenação da escravatura, já que a escravatura, em si mesma, não só contraria a natureza inviolável da pessoa, como se fundamenta numa grave desigualdade entre os homens, agora considerada injustificável.
Por outro lado, da noção de humanidade, com o sentido que lhe foi dado pelo cristianismo, resulta a abertura de espaço a uma noção de fraternidade alargada – o amor a Deus desencadeia o amor aos irmãos de cada um, o amor ao próximo -, e assume especial sentido na modelação da caridade.
Portadora de uma força aglutinadora entre os homens - «o que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também» (S. Lucas, 31) -, a caridade recusa a inércia e a passividade. Com efeito, por um lado, desenvolve-se em planos de interdependência entre os homens e implica que nenhum homem se possa alhear do que acontece aos outros: as alegrias e as tristezas são vividas em comum. Por outro lado, a caridade convoca o homem para a acção, e, em particular, impede-o de ficar indiferente ao infortúnio dos outros, às misérias e às desigualdades fácticas entre os homens que a realidade vai evidenciando.
Com o evoluir dos tempos, a noção de caridade vai sendo ampliada e vai-se consolidando no âmbito da cidadania, pela pertença da pessoa a uma comunidade política, e dando origem à noção de solidariedade.
Em segundo lugar, se todos os homens são irmãos e devem amar-se uns aos outros – não lhes fazendo o que não querem que lhes façam a si, bem como fazendo-lhes o que pretendem que lhes seja feito a eles -, então nasce daí o grande imperativo da paz entre as nações (que StºAgostinho desenvolverá na sua «Civitas Dei» e que, alguns séculos mais tarde, levará o holandês Hugo Grócio a fundar o Direito Internacional).
Por último, outra das consequências da noção de humanidade nascida com o cristianismo consiste em ter essa noção permitindo a gestação, ao longo da história, no quadro do pensamento e da prática políticos, de uma linha de força que, com o evoluir dos tempos, estritamente assente na ideia de dignidade da pessoa humana, se consubstanciou no discurso dos direitos fundamentais.
Como decorrência desse discurso dos direitos fundamentais, o exercício do poder político dentro dos Estados ou comunidades políticas passa a poder ser concebido como sujeito a especiais limitações, precisamente as decorrentes dos direitos inerentes à dignidade da pessoa humana.
O cristianismo – tão brilhantemente condensado no célebre «Sermão das Bem-Aventuranças», pregado no lago de Tiberíades – foi uma autêntica revolução espiritual, cultural, social e jurídica, que da Judeia passou, através de Roma, para o mundo inteiro. Sob a sua inspiração, o enigma ou mistério que acompanha a essência da pessoa – seja por esta ser criada por um Deus uno e transcendente, à sua imagem e semelhança, seja por nessa criação todos terem ficado irmanados na filiação divina – tem vindo a projectar-se e a manifestar-se ao longo dos tempos em inúmeras instituições, linhas de pensamento, práticas evolutivas, assim consistentemente sustentadas numa cultura – a cultura judaico-cristã -, que também foi alicerçando uma civilização – a chamada civilização ocidental.



In Uma Introdução à Política, Diogo Freitas do Amaral, Bertrand, Lisboa, 2014, p.199-203. O capítulo de onde este excerto se retira, A dignidade da pessoa humana, foi redigido por Maria da Glória Garcia.


Introdução à política (II)


Diogo Freitas do Amaral afirma no prefácio de Introdução à Política que "não existe nenhum livro deste tipo, escrito por professores universitários portugueses, com referência a problemas e com exemplos portugueses" (p.13) Pretende, nesta obra, harmonizar o registo académico, com uma linguagem acessível à generalidade das pessoas. Talvez com a ideia de chegar a um público o mais vasto possível, talvez por querer um registo académico em que a emotividade que coloca nas causas e opiniões políticas que sustenta (em particular, nestes anos mais próximos) desapareça, talvez por desejar menos opinião neste enquadramento, a sua descrição do Governo Passos Coelho é esta: 

"De 2011 até hoje (Governo/Passos Coelho) os compromissos que nos foram impostos pelo FMI e pela UE, como contrapartida da ajuda financeira externa, têm obrigado - e obrigarão provavelmente durante alguns anos - a uma tendencial aproximação do nosso sistema económico ao norte-americano, antes de poder regressar (se alguma vez conseguir regressar) ao modelo britânico ou ao francês" (p.456)

Quer dizer, aquilo que tem sido, no reiterado discurso público de Freitas do Amaral, a opção "neoliberal" deste Governo; o Executivo "mais à direita dos últimos 40 anos" (sic); deserto de referências realmente democrata-cristãs ou de sensibilidade social, surge, nesta obra, como "os compromissos que nos foram impostos pelo FMI e pela UE". No mínimo, omite-se o papel que joga a visão político-ideológica de quem governa (não dizendo que esta existe e que joga um papel também não o plasma neste momento da obra), remetendo-se para os compromissos internacionais do país - uma versão diversa da que temos ouvido ao autor do livro.


Introdução à política


Voltemos à história. E à petit historie. Vencendo um confronto muito seguido em toda a Europa política, frente a Ségolène Royal, Nicholas Sarkozy, a grande esperança da direita (europeia) na primeira década dos anos 2000, visita Lisboa, é José Sócrates primeiro-ministro português. Do diálogo com o então inquilino de São Bento terá resultado um curioso desabafo, do nóvel presidente gaulês, para o jornalista do Le Point que acompanha a viagem: se o PSF fosse assim, não saberia bem o que fazer (como me diferenciar deste). Sócrates é visto, por essa altura, em Portugal, como um líder pragmático, 'pós-ideológico' (tendo, de resto, ganho as eleições internas socialistas face a uma ala esquerda representada por Manuel Alegre). Uma boa parte da direita portuguesa aprecia-lhe as qualidades (em entrevista à Visão, se a memória não me atraiçoa, o então líder da CIP, referindo-se a Sócrates, diz: "Gosto de líderes autoritários"). A crise de 2008, as necessidades políticas, o oportunismo ou um rápido aggiornamento político-ideológico (os críticos assinalarão, com clareza, a primeira hipótese; Mário Soares garante a segunda) transformam o discurso de Sócrates, das eleições de 2009 em diante, em algo bem mais à esquerda do que até então se lhe ouvira.
Entre os ministros que compõem o primeiro governo de José Sócrates está Diogo Freitas do Amaral. Sempre que instado a pronunciar-se sobre - ou fazendo de motu próprio - a sua participação naquele Executivo, o Professor de Direito refere-se, sem hesitações, ao orgulho de nele ter marcado presença e, bem assim, ao modo como se revê na linha política então seguida.
É a esta luz que creio que vale a pena formular um juízo sobre a pertença político-ideológica daquele governo e dos seus integrantes, tomando, como contributo suplementar, a descrição que Freitas do Amaral faz (do período governativo de Sócrates; diga-se que, enquanto nesta sua mais recente obra, o autor toma o período governativo de Sócrates como uma unidade, em diversos contributos públicos havia feito questão de separar a governação prosseguida entre 2005-2008, e desta data até 2011; talvez para simplificar optou, agora, por um registo que sugere uma homogeneidade...antes contrariada pelo próprio), no acabado de publicar (pela Bertrand) Uma introdução à política (Abril, 2014; com a participação dos Professores Pedro Machete e Maria da Glória Garcia; sendo que o capítulo a partir do qual é citado o curto excerto que se segue é da exclusiva responsabilidade de Diogo Freitas do Amaral):


"2005-2011 (Governos Sócrates): sistema social-democrata pro-business, de inspiração ora norte-americana, ora inglesa" (p.456)



segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um "povo conservador"


     

Bem interessante a entrevista que o Expresso publicou, este fim-de-semana, com Frank Carlucci. As lutas interpretativas, do embaixador norte-americano em Lisboa (1974-1977) com o ministro da tutela (o “MNE” norte-americano à época, Henry Kissinger), sobre o caminho que Portugal seguiria no pós-25 de Abril são extremamente interessantes. Entre a perspectiva de que Portugal será, inevitavelmente, a nova “Cuba da Europa” – como julgava Kissinger – e a visão, diametralmente oposta, de que tal é “uma anedota” (Carlucci) se jogava o tipo de acção que se entendia ser necessária empreender em contexto, recorde-se, de guerra fria.
O interesse principal deste verdadeiro duelo de visões acerca do Portugal (pós) revolucionário reside hoje, a meu ver, conhecida a história realmente acontecida, no radical, no motivo último, do acerto do juízo/diagnóstico/prognóstico do embaixador em Lisboa em meados dos anos 70. É o próprio quem revela o modo como chegou à formulação que, então, expendeu. Tendo-se preparado para vir para “a mais difícil embaixada do mundo”, quis saber tudo sobre Lisboa, Portugal e os portugueses. Leu tudo o que pôde sobre este povo. Em particular, as memórias e anotações de um anterior diplomata americano na capital portuguesa. O que daí retirou, como principal conclusão, é que o povo português é (ou, pelo menos, era) “conservador”. O adjectivo é reiterado bastas vezes ao longo da entrevista. A importância do pároco de aldeia, a permanente devoção à Igreja são traços que compõem o quadro descrito por Carlucci.
Daí que Portugal tornar-se uma “Cuba da Europa era uma anedota”. Daí, também, a conclusão, que dá título à entrevista na capa do Expresso, de que um partido comunista mais inteligente – e na conversa com o jornalista do semanário isto é traduzido por “um partido comunista menos radica” – poderia ter conseguido o poder.
Fazendo parte da geração nascida depois do 25 de Abril, não me falta imaginação para compreender o que foi a censura até aquela data de 1974 – ao contrário do que sempre sugere Marcelo Rebelo de Sousa (vide, por exemplo, debate com Maria Antónia Palla e Joaquim Furtado, com moderação de Vítor Gonçalves, RTPInformação, 24/04/14), sobre a absoluta incompreensão, pelas novas gerações, do que a censura era. Diferentemente, julgo que não está muito presente nas mais jovens gerações a ideia de quanto a revolução portuguesa e as consequências que trazia/poderia trazer influenciaria um conjunto de países, não apenas do espaço europeu, mas, também, na América Latina. A escassa inteligibilidade desta circunstância resulta, creio, de tal ideia ser (um pouco) contra-intuitiva: como um país tão pequeno marcaria tantos outros, com dimensão e poder bem maiores e geografias diversas?
Para este facto, Carlucci, que se recusa a falar nos financiamentos norte-americanos a partidos e políticos portugueses nessa altura (em particular, a Mário Soares, que elogia, como se esperaria), alerta também.


domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura (1942-2014)




O homem dos clássicos e das Humanidades, uma referência absolutamente sólida na luta contra a «barbárie da ignorância», por uma educação a sério, o artífice laborioso da palavra poética, o tradutor maior, o cidadão empenhado (ultimamente, contra o acordo ortográfico), o homem que quis jantar com Steiner e acabou fascinado com Magris, que falava, delicadamente, da doença e da fraternidade nela, e que recusava a barbarização da Europa e o desaparecimento da referência cristã, um português cultíssimo e de grande categoria.


Atenas, hoje, por Luciano Canfora


A sus 71 años, Luciano Canfora, filólogo clásico, historiador y ensayista italiano, sigue haciendo cada día el trayecto entre la antigüedad y el presente sin perder el aliento. Es más, si uno queda con él después de una de sus clases en la Universidad de Bari o en la de Bolonia, tiene que tener en cuenta que sus alumnos siempre intentan que haga un bis como si se tratase de un cantante de moda. Debe buena parte de su fama internacional a sus investigaciones sobre el mundo griego, pero sus publicaciones —más de setenta— demuestran que su mirada crítica también se detiene en Julio César, Gramsci o la política italiana actual y su relación —de dependencia— con el verdadero poder.
PREGUNTA. Usted es uno de los más importantes historiadores del mundo griego, pero a la vez un observador constante, y muy crítico, de la situación política actual. ¿Cómo hace para ir y venir de un mundo a otro?
RESPUESTA. Nunca he sentido que fuese una contradicción. Es más, podría responderle con las palabras de un gran filósofo italiano que se llamaba Benedetto Croce que decía que “toda la historia es contemporánea, porque vive dentro de nosotros. Nos ocupamos del pasado porque tiene que ver con lo que ocurre hoy”. Pero la respuesta correcta es que yo comencé mi vida pensante partiendo de un ambiente familiar que era muy político y me he dado cuenta de que la antigüedad que me gusta tanto no es un cementerio, ni un museo de cera, es un campo de batalla, donde el enfrentamiento continúa. Me parece obvio. El pasado es el inicio de tantas cosas. Si, por ejemplo, yo pretendiese entender la democracia de un punto en adelante no entendería nada. Así que no es un capricho, sino una necesidad.
P. Una necesidad de investigar y una necesidad de contar. Usted empezó a publicar en 1968 —con 26 años— y sus escritos son ya más de setenta…
R. Al principio se escribe por búsqueda erudita. Me di cuenta de que había versiones contrapuestas del mismo hecho. Me gusta ver las variantes entre textos, tratar de confrontarlos y acercarme a lo que se llama la verdad. La verdad, que es una palabra gruesa, pero que tiene que estar en alguna parte, no puede no estar. Es como un hilo conductor único a través del cual yo he de afrontar una búsqueda. Y ese hilo es exactamente el de la política antigua, la relación entre los hechos y la narración de los hechos.
P. En El mundo de Atenas, uno de los últimos libros suyos —junto a La historia falsa— que se han publicado recientemente en España, usted sostiene que en el tiempo del imperio ateniense no existía ese mito, que esa idealización de Atenas viene después.
R. En su tiempo, Atenas no solo no era amada, sino que era odiada. El mito de Atenas comienza tarde, comienza ahora. Atenas al principio se convierte en una especie de universidad, un lugar donde hay muchos libros antiguos, las escuelas filosóficas todavía funcionan, es el tiempo de Cicerón. Es mucho después, podríamos decir que con la Revolución Francesa, con la Ilustración, cuando Atenas se vuelve a convertir en un modelo político. Es considerada una ciudad rica, dedicada al comercio, simpática. Montesquieu la amaba muchísimo. Atenas se convierte en interesante para la Ilustración digamos no jacobina. Durante la revolución se hacen un lío enorme porque hablan de repúblicas antiguas sobre el mismo plano, sin entender las diferencias. La reacción contra el modelo ateniense viene cuando comienza la Restauración, y se empieza a decir: “Nos habéis puesto como modelo una sociedad horrenda”. Por tanto, hay dos vías: una, la de los liberales radicales ingleses que pretenden que sea el precedente de whigs [el antiguo nombre del Partido Liberal Británico], y la otra, la de los conservadores alemanes, que decían que Atenas era peor que la Tercera República Francesa. Y ya se combate sobre tesis opuestas.
P. ¿Quién tiene más razón?

R. Seguramente los conservadores alemanes, que ven el aspecto negativo de una sociedad fundada por una parte sobre el privilegio, la esclavitud escondida pero enorme, y por otra, sobre un poder popular controlado. Esta es la situación al final del siglo XIX. Y se hace más dramática con la revolución rusa. Un gran personaje, alumno de Maier, de los conservadores, que se llamaba Rosenberg (como el teólogo), dice: “Atenas no es una sociedad comunista, es un Estado social en el que no se confisca la riqueza, sino que los ricos tienen que pagar para hacer funcionar la ciudad”. Atenas nos interesa por esto, porque es el primer experimento popular que no expropia, sino que utiliza, la riqueza para devolverla a fines sociales. Por otro lado, el pensamiento conservador o reaccionario dice: “Atenas es el precedente de Lenin donde el poder de todos es el sóviet, y por tanto es un modelo horrible”. La línea que idealiza Atenas es, por tanto, minoritaria.

P. Cuando habla de democracia, ¿se refiere al mismo concepto que entendemos ahora?
R. Me gustaría que fuese así, pero no. Yo me refiero a lo que decía el viejo Aristóteles. La democracia es el gobierno de los pobres, aunque no sean numéricamente la mayoría. El contenido de clase social cuenta para distinguir los sistemas políticos. Un sistema político en el que mandan, porque son la mayoría, los ricos no es una democracia, es una oligarquía. Hasta hace pocos años —ahora la crisis está cambiando las cosas—, en Italia las personas en buenas condiciones económicas constituían una mayoría numérica del país. Aristóteles habría dicho que “son la oligarquía” —esquemáticamente, porque lo puedes decir de una ciudad de 20.000 a 30.000 personas, no sobre un país de millones…—. Para mí la democracia no es el hecho de que gobierne la mayoría después de hacer el recuento de votos, es el Estado social, el hecho de que quienes no poseen la riqueza cuenten en la vida política y tengan el modo de hacerlo.
P. Teniendo esto en cuenta, ¿entonces ahora en qué sistema vivimos?
R. Ni en la historia ni en la historia política, nada permanece firme. Estamos asistiendo a un cambio importantísimo. El andamiaje es igual y sigue en pie —el Parlamento, las elecciones...— y aparentemente se sigue discutiendo sobre las leyes electorales, las coaliciones… Pero la realidad es que se ha desarrollado y consolidado un fortísimo poder supranacional, no electivo, de carácter tecnocrático y financiero que tiene en los organismos europeos los instrumentos para gobernar toda la comunidad, dando a un país más importante que los demás, Alemania, el papel de dictar las reglas. Uno podría decir, por tanto, que la democracia ha muerto, que solo permanece el cadáver que camina —se hacen elecciones, leyes…—, porque quien decide realmente lo hace sin contar con un parlamento.
P. ¿Quién decide entonces?
R. Una oligarquía fundada sobre los intereses de grandes grupos financieros, que son el verdadero poder. Comparada con ellos, la familia Agnelli, por poner un ejemplo, es una familia de mendigos, no pobres, pero cuentan poco y nada. Los grandes grupos financieros que tienen un poder mundial e ilimitado pueden decidir el destino de todos. El Parlamento Europeo que elegiremos en mayo es un seminario universitario, no tiene ningún poder real, solo aquel de crear una clase de parásitos muy bien pagados, preciosísimos para el sistema, porque sirven para hacer ver que existe un parlamento y que Europa no es completamente antidemocrática. Por eso les pagan tanto. Porque uno compra una persona si le da 10.000 euros al mes.
P. Pero si este retrato descarnado es cierto, ¿cuál es la salida?
R. Diré algo que igual parece anacrónico, pero en la situación actual de las cosas el único lugar en el que se puede explicar el mecanismo democrático es el Estado nacional. Porque tiene la medida en la que las clases contrapuestas pueden contar. Hoy el conflicto de tipo sindical de cualquier país es totalmente irrelevante, porque no tiene oídos que lo escuchen, solo dentro del Estado nacional. Así que o se cambia de raíz el pacto constituyente o cada uno se salvará a sí mismo saliendo antes o después. Creo que sería mejor la primera solución, que se haga con espíritu de justicia y se transforme en algo en el que todos se reconozcan, no solo los poderosos.
P. Y mirando el panorama de la política actual, ¿quién cree usted que puede acometer una obra de tal magnitud?
R. El momento es pésimo. Hace diez años yo estaba convencido de que los partidos socialistas tendrían un gran futuro. En Alemania estaba el Gobierno socialdemócrata; en España, también; en Italia, de vez en cuando aparecía algo así; también en Grecia… Parecía que, por una parte, Europa reconocía la necesidad de convertirse en una comunidad más grande y, por otra, una fuerza históricamente supranacional como el socialismo había alcanzado la dirección política adecuada. Pero no ha sido así. Y esto, ¿qué nos enseña? Nos enseña sobre todo que cuando llega una crisis terrible no somos capaces de dar una respuesta justa, que cada uno ha pensado en lo suyo y que no se ha conseguido contener a los poderes financieros. Un pensador liberal, Benjamin Constant, escribió que la libertad de los antiguos era opresiva, que prefería la libertad de los modernos. La riqueza es más fuerte que el gobierno. Y es verdad, él lo dice con entusiasmo, yo no, pero es cierto, los partidos socialistas no han sido capaces de plegar a la utilidad social el capital financiero. No era tampoco una empresa fácil. Pero no creo que haya alternativas al intento de volver a traer al movimiento socialista a los fines para los que nació.
P. Usted —no hay más que ver el entusiasmo que suscita entre sus alumnos— le ha dado un papel importante en su vida a la docencia. ¿Cómo está la enseñanza en Italia?
R. Una respuesta brevísima. El salario del profesor italiano es una quinta parte del salario del profesor alemán. De aquí viene todo, viene la desmotivación, la calidad escasa. Porque, ¿quién sale de la universidad para trabajar de maestro? Se puede decir que en la escuela terminan o los idealistas —y no son pocos y los admiro— o, sobre todo, una gran masa totalmente desmotivada y con una preparación pobre. En Italia más que en otros lugares las cuentas del Estado penalizan a la escuela. Ni en Francia ni en Alemania sucede esto. Y es grave que Italia haya hecho esta elección porque si la escuela va mal, en diez años todo irá mal.

ELPAIS, 26/04/14. Entrevista realizada por Pablo Ordaz.

sábado, 26 de abril de 2014

Do processo e julgamento de Jesus




Julgamento de Jesus é caso de estudo para o que um juiz nunca pode fazer - Renascença



Debate entre António Cluny, José Barata, Eurico Reis e Luís Fábrica sobre as lições que os juristas de 2014 podem aprender do processo e julgamento de Jesus Cristo. Não estranharão os leitores deste blog que a primeira das reflexões, sobre o dito processo, proposta pelo Prof. Luis Fábrica me pareça especialmente acertada acerca dos personagens e da realidade do procedimento em causa.

"Vila Real nos 40 anos do 25 de Abril"


A rebentar pelas costuras, como raramente sucede, com a comunidade política local, representativa dos diversos partidos políticos, em peso, o Pequeno Auditório do Teatro de Vila Real, para assistir, na noite de ontem, à estreia do documentário Vila Real nos 40 anos do 25 de Abril.
Do conjunto de depoimentos recolhidos pelo documentário, destaque maior para a figura do médico Otílio de Figueiredo, como catalisador do movimento oposicionista ao regime do Estado Novo, em Vila Real. Cidade que marcaria a diferença, a quando das presidenciais que abalaram o regime, em 1958, com o presidente da câmara local a receber/cumprimentar, tal como o comandante da polícia de Vila Real, junto à Gomes, Humberto Delgado, com surpresa deste, a quando da sua chegada à capital transmontana. O documentário, de resto, apresentará, ainda, um breve depoimento do então autarca, entretanto já desaparecido.
O retrato de um 26 de Abril de 1974 com um aglomerado considerável de pessoas junto à Avenida Carvalho Araújo – como as fotografias da exposição ontem inaugurada no museu do som e imagem atestam -, mas sem a dimensão gigantesca do primeiro de Maio do mesmo ano, expõe a passagem das incertezas à certeza democrática final. Para a esmagadora maioria dos que assistiam ao filme, o ineditismo do som de pequenos excertos dos que tomaram a palavra, junto à câmara municipal, nesse dia do trabalhador do ano quarto da década de setenta do século XX. “Temos que deixar de ser carneiros!”, exclamava, à época, o jurista – e futuro governador civil de Vila Real – Aires Querubim. Ele que, conjuntamente com os demais interlocutores deste registo audiovisual, deu nota das caras felizes, dos abraços espontâneos, da satisfação que corria pelos cafés da bila naquela primavera revolucionária.
Tempo que se sucedia a um outro onde a pequena urbe sabia de cor quem eram a meia dúzia de assinantes do jornal A República, uma informação conhecida pelos CTT e, logo, pela PIDE, sendo que os assinantes podiam, a qualquer momento, ser chamados a explicar a razão da assinatura (do periódico); a fortiori, quem transportasse o Avante, teria a prisão como destino certo (como indicado por um dos testemunhos escutados, relativamente à sorte que o pai deste conheceu).
Interessante o modo como se situou a estrutura hierárquica do R13 a quando do 25 de Abril, com algumas divisões a serem sanadas cordialmente, não existindo necessidade de dar prisão a quem quer que fosse, ou, também aqui, sem que derramamento algum de sangue tivesse havido. A esta estrutura hierárquica viria a ‘entregar-se’, disponibilizar-se para abandonar o cargo, o presidente do município na altura da revolução, Fausto Carvalhais, descrito, unanimemente, como alguém de uma grande dignidade, humildade e elegância.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pub: Hoje "Vila Real nos 40 anos do 25 de Abril", no Teatro de Vila Real



Foto: Hoje à noite. 

Abertura da exposição e estreia do documentário "Vila Real: Nos 40 anos do 25 de Abril", às 21h30, no Museu do Som e da Imagem.

Exposição e documentário.

"Vila Real nos 40 anos do 25 de Abril"

Estreia de documentário produzido pelo Museu do Som e da Imagem.

Às 21h30, no Pequeno Auditório.


25 de Abril


Dos múltiplos inquéritos realizados junto dos portugueses, no contexto dos 40 anos do 25 de Abril, aquele que mais relevou, a meu ver, foi o que visava aferir da relação entre pertença ideológica e a (significativa) data/acontecimento de 1974. Em 2014, felizmente, a bondade do 25 de Abril já não separa esquerda e direita: em ambos os casos/filiações, revelam-nos os estudos ora publicados, este referente é valorado positivamente. Trata-se, portanto, de uma (final) apropriação colectiva de um fenómeno – o que deve ser, também, motivo de satisfação para os que se sentiam mais próximos/ligados/vinculados/pertencentes e pertencidos à revolução (que não devem tomar esta colectiva valorização, do movimento de Abril, como uma perda, mas, precisamente, o seu inverso: uma vitória). Do mesmo modo, deve fazer reflectir os que sempre se sentiram na franja, nunca integrando, na sua identidade política, a data agora especialmente celebrada, pois que mais não restam do que moinhos de vento com quem lutar. Os adversários foram-se, pois que hoje, como os estudos de opinião provaram, perpassa pelo país o mesmo sentimento político positivo sobre o 25 de Abril de 1974. Numa palavra, o tempo de, face ao 25 Abril a sociedade se fragmentar entre a arrogância moral, de um lado, e o trogloditismo, do outro, finou-se. No acertado dizer de António Lobo Xavier, um discurso lamuriento, uma linguagem erodida e, logo, sem eficácia, sem força, seja sobre as conquistas de Abril por realizar, seja sobre o PREC que explicaria todos os males sucedâneos do país, tornou-se não apenas bolorento, como inaceitável.
Se a pacificação em torno do que não deve ser o discurso em torno de Abril pode, finalmente, ter sido alcançada, já os discursos sobre o presente e o futuro de Portugal continuam envoltos em uma ganga dispensável, suscitando o mais variado leque hermenêutico, que, no caso do mais alto magistrado da nação, um futuro preâmbulo dos Roteiros explicará em toda a sua extensão. No seu primeiro ano de mandato em Belém, Aníbal Cavaco Silva fez a melhor de todas as suas comunicações na AR, nesta data, sendo geradora de uma esperança que o futuro não veio a justificar. A reinvenção do discurso político, claro e limpo como o dia, ficará, assim, a cargo da geração próxima que ocupe Belém.



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Escola portuguesa vs escola norte-americana


E é assim que depois, quando no liceu um aluno vem de Portugal para os Estados Unidos, fica estarrecido com a facilidade do programa. Foi o que aconteceu com o meu sobrinho, que fez o 12º ano na América e me disse que a Matemática estava ao nível do que se faz no 9º ano português. Conheço uma miúda que se mudou de Nova Jersey para Lisboa e teve a experiência inversa. Estava habituada a ser muito boa aluna numa excelente escola americana, mas no 9º ano inscreveu-se num liceu de Lisboa e ficou-se pela média de 3. Duvido que o problema seja exclusivo da Matemática.

Mónica Leal da Silva, Diários de sala de aula, p.340.


Surprise, surprise: experiências em escolas portuguesas vs escolas norte-americanas


Depois de dois anos em East Lansing, o Liam teve mais um ano sabático e voltámos a Portugal. (...) A escrita era o que mais me preocupava. A nota mais fraca que a Leonor teve foi um 95 por cento e a Beatriz teve A nos dois exames do final do 4º ano. Mais importante, ambas as professoras lhes inculcaram hábitos de trabalho, de organização, de apresentação, de estudo, de autonomia. Bons hábitos como nunca tínhamos visto. Foi no mesmo pequeno colégio particular que tinham frequentado no jardim-de-infância, onde a comunicação entre pais e professores era constante. Acredito que aprenderam mais nesse ano em Portugal do que até aqui na América.
As minhas filhas são crianças normais, com pais disponíveis para as ensinar e ajudar. Escrevem e lêem bem nas duas línguas. Eu sempre lhes ensinei aritmética, até porque percebi cedo que a escola americana não lhes ensinaria, antes do 4º ano, por exemplo, a tabuada. Passou de moda copiar e memorizar a cantilena de cada uma. Não posso dizer que as escolas onde andaram sejam um modelo da educação na América ou em Portugal. Mas fiquei mais satisfeita com o ensino que receberam em Portugal. Lá, as professoras perderam menos tempo com lemas edificantes, ensinaram mais conteúdos e exigiram mais. Os resultados foram mais claros, a avaliação mais pessoal e pormenorizada, a motivação das crianças maior. Andaram para trás e para a frente com os manuais escolares, a mochila quase sempre pesada demais, mas aprenderam a estudar.


Mónica Leal da Silva, Diários de uma sala de aula, p.331.


Da escola portuguesa (II)


De todos os relatos concatenados para Diários de uma sala de aula; dos diferentes registos de professoras, alunas e mães, em apenas um caso se dá nota de uma aula, de uma turma, de uma dada escola na qual os trabalhos, em vez de começarem à hora estipulada principiavam, materialmente, 35 minutos depois (por causa do barulho, chamada, dança de cadeiras, etc.). Que daqui se consiga dizer que embora 90 minutos de aulas, em determinados níveis de ensino, possa ser excessivo, tal tem que ocorrer na medida em que 40 minutos é o tempo que as aulas – isto é, a generalidade das aulas, da generalidade das turmas, na generalidade do país - demoram a iniciar-se face ao horário estabelecido é algo que, para dizer o mínimo, não releva de qualquer rigor analítico. Já nem digo da escola portuguesa, mas apenas e só concentrando-nos nestes diários. Não sei se se trata de marketing para vender um livro; sei que como argumento relativamente ao (muito ou pouco) sentido de aulas com duração de 90 minutos – e nestes textos há quem reflicta, com interesse, sobre a pertinência de tais blocos em umas disciplinas e da pouca utilidade dos mesmos em outras - é pouco mais, ou menos (?), do que nada.


Da escola portuguesa


O contraste entre a alimentação nas escolas públicas americanas e nas portuguesas dava, por si só, um livro.
Os almoços em qualquer escola portuguesa seriam, aos olhos de qualquer americano, comida gourmet. Na América, apesar de haver escolas que ainda possuem cozinhas, houve um ímpeto quase generalizado no sentido de entregar a confecção das refeições a um serviço privado de catering. O resultado foi desastroso. (...) Na verdade há sempre muitos pratos com os chamados cheese products, uma espécie de sucedâneos industriais de queijo, absolutamente repugnantes e provavelmente nocivos, mas que contam como fontes de proteínas (...) Por outro lado, volta e meia há um susto com carne de vaca contaminada com E-coli ou outra bactéria e suspende-se o uso de carne de vaca nos almoços escolares. O que não se faz é desistir para sempre da compra de carne picada em fábricas de processamento de carne de péssima reputação, onde o produto final, baratíssimo, resulta da mistura de carnes e gorduras de diferentes peças de animais, em condições deploráveis.

Mónica Leal da Silva, Diários de uma sala de aula, pp.314-315.



terça-feira, 22 de abril de 2014

Documentários pascais


Vi o documentário que passou no National Geographic, Mistérios de Jesus, no Domingo de Páscoa. Esperava, francamente, melhor. No primeiro capítulo, digamos assim, sobre a Natividade, não é traçada uma linha de fronteira totalmente clara entre o que pertence ao domínio da história – tal como hoje a concebemos – e o registo puramente narrativo. Assim, se se realça o simbolismo da mirra, enquanto elemento que serve ao embalsamar do cadáver, assim significando, os Reis Magos, com essa oferenda, quanto a morte daquela pessoa (bebé que vão visitar) será tão importante, quase perpassa a ideia de que estes adivinhos conheciam toda a história subsequente, pelo que esta – a História – mais não foi do que um simulacro da realidade, onde, efectivamente, ninguém actuou, ninguém foi responsável, joguetes nas mãos do destino, dignidade perdida.
Depois, a ideia de associação de um cometa ao que foi a estrela descrita pela Bíblia que guiou até Jesus, releva, a nosso ver, da tal noção de que a ciência pode corroborar a fé, pode apresentar provas para esta. Se há provas, não há mistério, nem necessidade de abertura a este, nem fé. Bem sei os cálculos de astronomia feitos ao longo dos séculos para tentar provar que a estrela – ou um elemento que com ela pudesse parecer-se – existiu historicamente. Muito mais interessante me parece, no entanto, a abordagem puramente narrativa de que fala, por exemplo, Carreira das Neves, na qual a estrela aponta para o carácter extraordinário de Jesus, a sua singularidade e divindade (aliás, presentes, igualmente no episódio bíblico da matança de bebés por Herodes, a anunciar, já, a realeza de Jesus). Este o ponto central e que importa; não a Bíblia a fazer ciência. Também não fica claro no documentário se este leva completamente a sério – e se se interessa – pelo cometa (no sentido da abordagem científica; e sobre a matança dos bebés, a mando de Herodes, aos costumes diz nada).
Segue-se um tempo desmesurado oferecido à peregrina ideia de que Jesus terá estado no Reino Unido, aprendendo dos druidas as curas e os milagres. Sem um único facto a sustentar, sem um texto a remeter para essa zona, sem uma amostra de prova da sua passagem por Inglaterra, revela-se um exercício um tanto fútil aquele que o documentário realiza durante 15 ou 20 minutos.
A leitura do processo de Jesus também não prima pelo pormenor, nem pela exactidão jurídica (por exemplo, quanto aos poderes do Sinédrio). Mas, pelo menos ali, não se coloca um Pilatos à beira da conversão e a deixar à escolha de uma nação o nazareno ou Barrabás (aqui já opta, completamente, o documentário, por um registo histórico-crítico).

Já agora, para se ter uma ideia de quão complexa perdura sendo a hermenêutica dos textos acerca do encontro com o governador romano, Aslan chega a questionar a sua realização histórica (mais ainda, a parte relativa a qualquer discussão (filosófica) sobre a verdade) – na esmagadora maioria dos casos, Pilatos colocava “um rabisco” e não procedia a qualquer julgamento; só quando considerava muito perigoso o réu. Tal autor coloca, igualmente, em cheque a ideia de julgamento do Sinédrio, nomeadamente na hora descrita e em casa do sumo-sacerdote. Quanto à crucificação, esta era muito utilizada, porque, informa-nos, era “muito barata”. Mas não servia para condenar alguém à morte, pois muitas vezes, fruto da selvajaria (nomeadamente, perpetrada pelos soldados) até ao local da crucificação, já os condenados tinham perecido. O objectivo era amedrontar, intimidar: se beliscais a ordem (pax romana), é isto que vos acontece. Por isso, sempre as crucificações eram públicas e publicitadas. Os cadáveres, expostos, ficam à espera de aves e outros animais que venham sobre eles (daí, destes cadáveres das crucificações, ganhou o nome o lugar do gólgota, o lugar da caveira, diz Aslan). Está longe, este autor, é de explicar, ainda por cima com riqueza de detalhes, como faz Gnilka, como aqui se separavam procedimentos de judeus e de romanos (e, como, por isso, foi o corpo de Jesus recolhido e sepultado).


O regresso às aulas


Professor, agora vivo com a minha avó, porque os meus pais foram para o estrangeiro! Tenho muitas saudades deles! saudou-me, assim, a Joana, contando as suas novidades da última quinzena, antes que eu tivesse tempo de dizer o que quer que fosse, a modos de confissão e preparação para o trimestre final.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pub.: "A vida de Adéle", hoje, no Teatro de Vila Real


Cartaz do Filme

Às 22h, como sempre.


Dos "Diários de uma sala de aula"


Fico a saber pelos Diários de uma sala de aula que se sucedem casos de encarregados de educação que nas semanas que antecedem os finais de período vão à escola falar com professores de modo a tentar condicioná-los psicologicamente para que as notas dos seus educandos saiam beneficiadas. Estes encarregados de educação continuam a ser, na sua esmagadora maioria, mulheres. Raros são os casos em que é o pai a assumir essa condição, em uma nota cultural saliente. Regressando, ainda, à disciplina de Português, podemos constatar o caos gramatical nela presente: três terminologias a serem, simultaneamente, propostas, para mal dos pecados de professores e alunos. Em âmbito avaliativo, de notar as discrepâncias com que a dimensão "atitudes e valores" é cotada por diferentes escolas e professores. Desde 2005/2006, foram introduzidos nas escolas nacionais os testes intermédios, disponibilizados pelo GAVE, de modo a permitir uma melhor consciencialização, a docentes e discentes, de como decorreram as aprendizagens e o que há que fazer para estas melhorarem e, ademais, proporcionar a estes últimos um maior contacto com exames de tipo nacional. Dos dois diários, de duas professoras, publicados pela FFMS aquele de que mais gostei foi redigido pela Professora de Português. Nem faltou o "não se diz chateado", mas "aborrecido", com que a D. Eduarda nos brindava e que considero inserir-se em uma dimensão de elegância, "nobreza de espírito", não abastardamento da linguagem - abastardamento que, aliás, não raramente, é um dos factores propulsores de um olhar 'normalizado', indiferente, para a violência em redor - de que a escola deve fazer gala. É verdade que a teia burocrática chega a desesperar, mas o que sai dos diários é bem mais interessante, e complexo, do que a simplista versão apocalíptica com que foram apresentados.


A Europa e o Mediterrâneo


La crisis europea, en el fondo, no es una crisis económica. La crisis europea es una crisis mental, más aún: una crisis acerca de cómo imaginar la buena vida más allá del consumismo.
Muchos de los antieuropeos, los críticos que ahora levantan la voz contra Europa, son prisioneros de una enmohecida nostalgia nacional. En este sentido argumenta, por ejemplo, el intelectual francés Alain Finkielkraut: Europa ha creído que puede constituirse sin las naciones, incluso contra ellas. Quiere castigar a las naciones por los horrores del siglo XX. Pero no hay democracia posnacional. La democracia es monolingüe. Para que funcione requiere una lengua común, referencias vitales comunes y un proyecto común. No nacemos como ciudadanos del mundo. Las comunidades humanas tienen límites. Pero Europa no toma esto en cuenta. Por eso, la opinión pública europea no se puede entusiasmar con la Unión Europea.
Esta crítica a Europa, sin embargo, se basa en la mentira existencial nacional de que en la sociedad y en la política europeas podría haber un retorno idílico al Estado-nación. Da por hecho que el horizonte nacional es el marco para diagnosticar el presente y el futuro de Europa. A esas críticas replico: abrid los ojos y veréis que no solo Europa, sino el mundo entero, se encuentran en una transición en la que las fronteras que ahora funcionan han dejado de ser reales.
Todas las naciones se enfrentan a una nueva pluralidad cultural, no solo a través de la migración sino también a través de la comunicación por Internet, el cambio climático, la crisis del euro, las amenazas digitales a la libertad. Personas de la más diversa extracción, con diferentes idiomas, valores y religiones, viven y trabajan juntos. Sus hijos van a las mismas escuelas y tratan de tomar pie en el mismo sistema político y jurídico. Las naciones avanzan a todo gas hacia el cosmopolitismo.
Veámoslo con dos ejemplos paradójicos: la prensa británica rebosa de quejas sobre la UE. Es decir, el euroescéptico Reino Unido está anegado por una inédita oleada de opiniones sobre Europa. Y, por otro lado, China es desde hace mucho un miembro informal de la zona euro por su política de inversiones y sus dependencias económicas. Si el euro fracasa, China se vería afectada hasta el tuétano.
Como evidencian estos casos, cuando la globalización disuelve las fronteras, la gente busca volver a erigirlas. La necesidad de fronteras se vuelve tanto más fuerte cuanto más cosmopolita se hace el mundo. Eso resulta patente en el triunfo del Frente Nacional en las elecciones municipales francesas y es también una de las razones de la comprensión que encuentra Putin a su máxima “Rusia debe estar donde viven los rusos”. Sin embargo, el agresivo nacionalismo intervencionista ruso de Putin muestra que no se puede proyectar el pasado de las naciones sobre el futuro de Europa sin destruir ese mismo futuro. ¿No servirá, quizá, ese etnonacionalismo imperial de Putin como una saludable terapia de choque para una Europa asolada por el egoísmo nacional? Porque quien juegue la carta nacional vuelve a conjurar el autodesgarramiento de Europa, y eso sirve tanto para Putin como también, de otro modo, para Gran Bretaña y para la derecha y la izquierda antieuropeas.
A esto Finkielkraut replica que nosotros, los europeos, estamos traumatizados por Hitler. Hitler despreciaba la nación. Quería sustituir la nación por la raza. Hoy, sin embargo, somos las naciones las que tenemos que purgar las desmesuras racistas. ¿No será por este trauma con el Holocausto por lo que los alemanes quieren arramblar con todo nacionalismo?
No, es ahí donde tenemos un punto de partida común: la catástrofe de Hitler, el Holocausto y la Alemania nacionalsocialista. Pero es precisamente esto lo que nos condujo, con los juicios de Núremberg, al concepto de crimen contra la humanidad. Los soldados alemanes, o los guardianes de los campos donde se cometieron crímenes contra los judíos, se convirtieron a partir de ese momento en criminales, por mucho que el marco jurídico de sus naciones no persiguiera aquellos crímenes. Surgió así el derecho europeo, que relativiza el derecho nacional, y simultáneamente una nueva visión de la humanidad que abarcaba el mundo entero: la ética del “¡Nunca jamás!”.
Hoy más que nunca el mundo necesita una visión europea para acabar con los males de la globalización: el cambio climático, la pobreza, la desigualdad extrema, la guerra y la violencia. La lucha contra los riesgos globales es una tarea hercúlea. Y podría, incluso, generar una nueva idea de la justicia de alcance global.
Si Europa quiere superar su crisis de convivencia, otro de los consejos de Finkielkraut es que tiene que reencontrar su identidad en las grandes obras europeas, en los monumentos, en los paisajes de la cultura. Nada hay que objetar a volver a leer las obras de Shakespeare, Descartes, Dante o Goethe, o a dejarse hechizar por la música de Mozart y Verdi. Políticamente, a mí me interesa de Goethe su concepto de “literatura mundial”. Con él se refería a un proceso de apertura al mundo en el que la alteridad del extranjero se convierte en parte integrante de mi propia conciencia. En este sentido, Thomas Mann habla del “alemán mundial”, al que habría que añadir el “italiano mundial”, el “español mundial”, el “francés mundial”, etcétera. Es decir, una Europa de naciones cosmopolitas.
La belleza es para Camus, discípulo de Nietzsche, un criterio de la verdad y de la buena vida. Y el secreto de Europa, constataba fríamente, “es que ya no ama la vida. (…) Para ser humanos desde la desesperación, los europeos acabaron arrojándose a una desmesura inhumana. Como negaban la auténtica grandeza de la vida, tenían que fijarse como objetivo su propia excelencia. A falta de algo mejor, se han endiosado, y ahí comenzó su miseria: estos dioses son de ojos ciegos”.
¿Pero cuál es el antídoto, la fórmula idónea para una UE distinta en la que se viva la alegría del puro presente? Por ejemplo, el sueño de un “tálamo mediterráneo” (Michel Chevalier) en el que se amarían oriente y occidente, norte y sur. Surge así la imagen de una Europa de las regiones digna de ser vivida y amada.
El nexo aparentemente necesario entre Estado, identidad nacional e idioma único quedaría disuelto. La Unión, sus Estados miembros y sus regiones se ocuparían gradualmente del bienestar de los ciudadanos. Por un lado, les darían voz en un mundo globalizado; por otro, una sensación de refugio e identidad. La democracia adquiere múltiples niveles, tal como estamos empezando a practicarla ahora: el Mediterráneo como savoir vivre, como alegría vital, indiferencia, desesperanza, belleza y esperanza, es decir, aquella mezcla paradójica que nosotros, europeos del norte, imaginamos románticamente y proyectamos sobre el sur, como esos jardines meridionales “en los que florecen los limoneros” de los que hablaba Goethe.
Ahora bien, el espejismo de la deuda también ha impuesto un rostro gris y feo a esta existencia mediterránea llena de alegría de vivir y cosmopolita. Pero “el pensamiento regional y confederal del Mediterráneo ha sobrevivido a las grandes ideologías nacionales y políticas”, ha escrito Iris Radisch, “y es quizá la única utopía social del siglo XXI a la que le queda futuro”.
¿Qué es, pues, lo que podría reconciliar a los europeos con Europa? El anticentralismo. La superación de la nostalgia étniconacional en todas sus formas. Un camino de ida y vuelta a la belleza de las regiones. El sentimiento mediterráneo. Es una idea que Nicolas Sarkozy no supo o no quiso imponer en 2007 frente a la Europa alemana de una Angela Merkel imperial: gozar de la vida en lo pequeño y en lo irrelevante. La capacidad de saber buscar un acomodo en el caos del mundo. Respetar la naturaleza interna y externa. Buscar por el propio enriquecimiento la coexistencia con el extranjero y con el otro. O, en palabras de Gabriel Audisio: vivir bien y morir bien.

Ulrich Beck es profesor en la London School of Economics y en la Universidad de Harvard. ELPAIS, 18.04.14


domingo, 20 de abril de 2014

FÉ, CONFIANÇA


Por isso, a fé cristã não é menos do que um acto de confiança, livremente concedido à dedicação incondicional de Deus-Abbá, realizada na vida e na morte de Jesus, porque efectivamente reconhecida à luz da ressurreição. Não é menos, portanto, do que o reconhecimento comovido do dom de Deus que, desde a criação do mundo, confirma o desejo humano de viver e as expectativas humanas mais íntimas de viver bem. Poder reconhecer na história de Jesus e aceitar, contra todas as suspeitas pessoais, sociais e religiosas, que Deus é dedicação incondicional, também para mim, capaz de me resgatar de todas as formas de morte – das múltiplas formas de desconfiança e de autoprotecção que tendem a separar-me da fonte boa da vida e, consequentemente, de relações humanas justas -, constitui o coração elementar do acto de fé.


José Frazão, Entre-tanto, pp.62-63.


sábado, 19 de abril de 2014

Das perguntas que subsistem


O diálogo entre Pilatos e a multidão/partidários de Barrabás/"gentalha" (uma das traduções possíveis), a escolha entre Jesus ou Barrabás, presente em Mateus, tem sido, nos que se abeiram de Jesus pelo método histórico-crítico, seriamente questionado, senão mesmo desacreditado. Gnilka entende que as situações de Barrabás e a de Jesus foram tratadas autonomamente (do ponto de vista judicial). Só mais tarde, e pelo texto evangélico, se juntariam. Sanders vê no dito diálogo uma forma de aproximação a Roma - beneficiando disso, Pilatos, que sai melhor do que era no retrato - e, simultaneamente, uma culpabilização dos judeus. Ratzinger, no II volume de Jesus de Nazaré, assumindo o procedimento de Barrabás e Jesus num único acto, regista a objecção, para lhe responder: a acusação da existência de "tendência filoromana" nos Evangelhos, em particular no processo de Jesus, seria contraditada, ou faria pouco sentido, em virtude dos factos históricos sucedidos na época em que os Evangelhos são redigidos. Concretizando, as perseguições de Nero já se tinham dado, mostrando a imensa crueldade do Império (p.155) (para com os cristãos). Todavia, assim não se responde, ainda, aos que vêem, precisamente, no medo resultante da existência de tal crueldade, a motivação última para a referida "tendência filoromana".


O rumor (quase) perdido


E.P.Sanders, em A verdadeira história de Jesus, plasma a convicção de que, muito embora bebido no Salmo 22, o humaníssimo grito meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?, terá, mesmo, sido dito por Jesus (não sendo, pois um "motivo cristão" pós-pascal) na cruz. Cruz, esta, pese as diversas representações que dela temos, que era sensivelmente da dimensão da pessoa (por isso a necessidade de uma posição mais encolhida, nela, pelo crucificado). Se há crucificação, é porque foi ordenada pelos romanos e, assim sendo, há uma dimensão política clara no delito apontado. Cirene, de que ouvimos falar, a propósito de Simão, no relato da Paixão, nome sobre o qual talvez nem reflictamos, refere-se a uma geografia - Norte de África (Cirenaica), onde havia uma comunidade judaica (Gnilka). Da flagelação, temos os mais variados relatos de atingir uma crueldade inusitada (até ao osso; muito possivelmente, correspondendo a imagens, "orgia de sangue" (Halík), de Mel Gibson). Tal como Gnilka, Sanders vê o episódio no Templo, com os cambistas e vendedores de pombos, como o detonador do processo de Jesus. Todavia, fá-lo acompanhar de palavras que Jesus teria dito no mesmo instante. Mais prudente quanto ao imediato pedido de execução que Caifás teria feito a Pilatos relativamente a Jesus, Gnilka vê-o como possível, mas não o garante. Para Sanders, tal facto é indiscutível; tal autor não identifica as formalidades no procedimento de Pilatos, cuidado que Gnilka detecta. Os mais variados testemunhos revelam a personalidade violenta, sem escrúpulo, do governador romano...que, inclusive, seria deposto por Roma. Caifás teve também um extenso 'reinado'. Entre os poderes do Sinédrio não se contava o de executar alguém. Entre as obrigações do sumo-sacerdote, escolhido pelos romanos respeitando as tradições judaicas, estava a questão da paz social que Jesus, no Templo, teria inquietado. No dizer contemporâneo de Rui Chafes, "o perigo que Jesus Cristo representou (e ainda representa) é o de ser alguém para quem não existem leis, apenas excepções, alguém que aparece para questionar e desestabilizar o que está empedernido". "Dizia coisas belas, respondia com perguntas, ensinou que a finalidade de uma oração não é obter uma resposta: o seu desejo não era aliviar o sofrimento das pessoas ou reconstruir a sociedade, ele apenas tentou ensinar que não existe nenhuma diferença entre a nossa vida e a vida dos outros, que a história de cada indivíduo é a história do mundo, que todos somos um milagre que faz parte de um todo, que a nossa vida é o reflexo da extrema amplidão da nossa alma, que as coisas em si têm pouca importância e que apenas o espírito sobrevive" (p.43)


A erupção do singular absoluto


Depois da prisão de Jesus, os discípulos abandonam-no, fogem, rumo à Galileia. Já nada esperam Dele. Tal provará, sustenta Gnilka, que estes não sabiam, pelo menos de modo completo, quem Jesus era. Também por isso, pela fuga e por nenhuma espera(nça) mais terem, é que o acontecimento ressurreição é, verdadeiramente, tão extraordinário, tão fora de série, tão forte/determinante. Pelo anúncio desse evento, os discípulos dar-se-ão em absoluto (morrerão).


sexta-feira, 18 de abril de 2014

O tempo do Templo


Conhecida, igualmente, a assimilação dos deuses locais, pelos romanos na vigência do Império. Javé é respeitado. No Templo, reza-se, diariamente, também pelos romanos. Jesus rebela-se contra as práticas religiosas suas contemporâneas, justamente nesse Templo. Com este pano de fundo, já se compreende que os factos ocorridos nessa denúncia jesuana dos vendilhões diga respeito não apenas à autoridade judicial judaica - o Sinédrio [Grande Tribunal] -, mas, também a Roma. Se os hierarcas judaicos deduzem acusação - e, eventualmente, propõem sentença - é Pilatos quem decide. Como na oferta de sacrifícios diários no Templo também se joga a boa fortuna do Império, então o governador não dispensará a devida consideração do caso. A separação político-religioso, neste contexto, reveste-se de carácter precário - eis uma das importantes lições de Gnilka.


A ironia da história


Por demais assinalada a interpretação errada de Mateus que deu origem a um longo litígio entre cristãos e judeus. Muito curiosamente, de facto, Joachim Gnilka, em Jesus de Nazaré, uma busca essencialmente histórica, faz notar que não existindo, no séc.I, serviço militar para os judeus, era aos "círculos palestinienses" que eram recrutados os soldados que auxiliavam o governador romano. Ora, a troça e escárnio de Jesus, que os Evangelhos relatam, com fidelidade histórica, devem ser lidos, de acordo com o nosso autor, como sinal do ódio que os ditos "círculos palestinenses" tinham...pelos judeus (que viam Nele personificados).

quinta-feira, 17 de abril de 2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Da nossa escola. Retratos.




As melhores turmas, os melhores alunos encontram-se em áreas como as de Ciências e Tecnologias e de Estudos Socioeconómicos. Actualmente, só os alunos mesmo, mesmo muito vocacionados é que, desobedecendo aos desejos dos pais, seguem áreas como a de Letras e Humanidades. «Letras são tretas...Não dão emprego!», esta é uma frase vulgar entre encarregados de educação que vêem um futuro melhor para os seus educandos em áreas de carácter mais científico.

Catarina de Ataíde, professora de Português no ensino Secundário, Diários de uma sala de aula, p.75/76.


Já me aconteceu ir aos velhos dossiês, aqueles que guardo na garagem, desde os inícios da década de 1990, ver os materiais que usava antigamente, os testes que fazia nos meus primeiros anos de professora, as notas que atribuía e os trabalhos que exigia. Fico estupefacta com o que vejo, com os textos filosóficos que conseguia analisar com os alunos, com as monografias que faziam, com a exigência das perguntas que colocava. Em vez de ir subindo o nível, à medida que a experiência e os saberes foram sendo conquistados, opostamente, fui baixando o grau de dificuldade. Reconheço que mudei muito e que há anos que deixei de ser uma professora muito exigente.

Francisca Carreira Diego, professora de Filosofia no ensino Secundário, Diários de uma sala de aula, p.109.


Fraca filosofia, nenhuma lógica





Depois de vários anos de ausência, em 2012 regressou o exame nacional de Filosofia. Mas, agora, em novos moldes: é opcional. Mas o mais extraordinário: o aluno pode trocar uma das disciplinas da sua formação específica (Biologia e Geologia ou Física e Química; Geometria Descritiva ou História da Arte ou Matemática B; Geografia ou História, por exemplo). "Poucos foram os alunos que fizeram essa escolha e, pela amostra das minhas três turmas, só aqueles que têm dificuldades muito acentuadas numa das disciplinas específicas, apesar de serem também alunos fracos a Filosofia, é que procederam à inscrição no exame" (escreve a diarista Professora de Filosofia, p.111).

O factor 'competência da oralidade', na escola actual




Desde 2006, de acordo com a lei vigente, que a competência da oralidade tem um importante peso na avaliação global do aluno (25%; no Secundário, portanto, 5 valores) (p.80). Por consequência, o trabalho de adestramento de tal competência, mesmo de um ponto de vista muito pragmático, impõe-se, hoje, como outrora - p.ex., quando passei pelo Secundário - não sucedia. Para a diarista Professora de Português (o nome fictício é Catarina de Ataíde), quando se fala nas discrepâncias existentes entre nota de frequência interna e nota em exame (nacional) final não se atenta, devidamente, neste factor: no exame final, apenas a competência da escrita é requerida; a oralidade fica de fora, mas contou, e bastante, antes, na avaliação e classificação internas. Mesmo aceitando que tal elemento possa ter um papel a desempenhar na explicação da dita discrepância, nos dias de hoje, a verdade é que a decalage entre nota de frequência interna e nota em exame verificava-se, reiteradamente, em alguns estabelecimentos de ensino, antes de 2006 e, então, nenhuma operatividade a causa agora aduzida garantia. Dito de outro modo, não pode o leitor de resultados escolares ignorar, também, causas anteriormente mobilizadas para explicar a referida diferença de notas, como possível recurso para, ainda agora, as interpretar.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Do desaparecimento dos "alunos médios"


Os Diários de uma sala de aula não são puras descrições burocráticas do que se passa nas escolas, como poderia supor-se. Há sentimento e opinião forte - Maria de Lurdes Rodrigues continua a receber tratos duros nas palavras dos docentes. Uma das professoras diz que há muito mais proximidade e actividades com os alunos, visitas de estudo, etc., do que sucedia há alguns anos, mas daí não resultou a melhoria de notas. Mais concretamente, assume que tem alunos excelentes (15-19 valores) e fracos (7-10): "os alunos médios (12-14 valores) parecem estar em vias de extinção" (p.49). Uma constatação, o desaparecimento da "classe média do conhecimento", que Paulo Rangel já havia feito, mas relativa ao ensino superior, em um texto no blog Geração de 60, com meia dúzia de anos. A escola, a universidade, de resto, como estes relatos provam, numa se situa fora de um ambiente, de um contexto social, e o incremento das desigualdades pode, em alguma parte, contribuir para explicar esta tendência.