segunda-feira, 31 de março de 2014

Um jantar


Janto com um missionário que esteve 7 anos na Etiópia. Pergunto-lhe, entre outras coisas, que experiência ali adquirida, seria susceptível de ser transposta para cá, para Portugal, em âmbito religioso. Responde-me, sorrindo, “o jejum”. Duzentos dias ao ano, com os mais de 40 dias da Quaresma sustentados a uma única refeição, desprovida de carne, peixe ou ovos, feita à base de cereais.
Do ponto de vista litúrgico, as eucaristias dominicais duram 4 horas, entre as 4h e as 8h da manhã, celebradas por sempre mais do que um padre: vários sacerdotes, em cântico, se revezam, em respostas de fé sucessivas. Quase não há leigos a assistir.
Estes, os leigos, porém celebram baptizados ou funerais, por exemplo, tendo o catequista, em muitas ocasiões tal missão e ascendente social.
A língua etíope, onde o “não” não existe, garante, aproxima-se, muito, da língua de Jesus, e saber falá-la é, para o missionário, verdadeira felicidade.
Vive-se, naquele país africano, um judeo-cristianismo, um cristianismo ainda não verdadeiramente separado do judaísmo e, em particular, da pureza ritual (não se come carne de porco, por exemplo). Metade da população é cristã, metade muçulmana, sensivelmente, sendo que o poder está nas mãos dos cristãos. Não há perseguições, pois, como em outras zonas de África.
A população, nas aldeias, vive em verdadeiro regime feudal, agarrada às tradições ancestrais. Sem televisão e sem rádio, desconhece, inclusive, quem a governa, lá na longínqua e desconhecida capital.
A adaptação do missionário não se contempla fácil, já se imagina, e não é para todos. Há quem regresse a casa.


EXISTIR


Outro conceito religioso «grávido» de ateísmo, que não levaria a nada, era a noção de que o Deus cristão – supostamente o Deus supremo – é uma espécie de «ser sobrenatural», como os deuses, os anjos e os «espíritos» em geral (…)
Só quando o conceito de natureza se alterou, durante o Iluminismo, até abarcar todo o mundo real (…) é que o «sobrenatural» se transformou num aterro para tudo o que pertence ao Além. Não admira que, se «Deus» deve ser encontrado na companhia desses espíritos da água, fadas, papões e criaturas dos contos de fadas, mais cedo ou mais tarde, teria de ser expulso da sociedade das pessoas racionais e instruídas, ficando reservado apenas para as crianças, para os simplórios e para os ocultistas (…)
Assim, originalmente, a palavra «deus» não indicava qualquer «ser sobrenatural» especial, mas tinha um estatuto semelhante ao da palavra tesouro. Não se pode ir ao mercado e pedir um pão, seis bananas, dois sabões em barra e três tesouros. Para cada indivíduo, um «tesouro» representa uma coisa diferente; por outras palavras, no seu uso original, a palavra «deus» ou «deuses» não indicava seres, coisas ou objectos, mas uma relação.
O professor Lash é um excelente conhecedor e admirador das obras de Tomás de Aquino (…) Ele e eu temos conversado muitas vezes acerca daquela que será, possivelmente, a parte mais familiar da obra de Aquino, conhecida como as cinco provas da existência de Deus. Essas famosas «cinco vias» de modo algum podem ser interpretadas como «provas da existência de Deus», afirma Lash; constituem, pelo contrário, uma profunda e exaustiva meditação filosófica sobre se o uso do verbo «existir» faz algum sentido, quando falamos em termos da «existência de Deus». Deus existe de uma forma diferente de tudo o resto que existe na sua criação. Quando Tomás de Aquino põe a questão da existência de Deus, esta tem mais em comum com a questão «porventura os números “existem?”», do que com a questão «Será que os unicórnios existem?». Tomás de Aquino está muito mais próximo da «teologia negativa» do que habitualmente se pensa!(...)
Em primeiro lugar, porém, devemos ter em conta que espírito não é um espectro, «um fenómeno sobrenatural» ou uma «ideia», mas actividade. Afinal, Tomás de Aquino reflectiu sobre se «Deus» não poderia antes ser considerado de uma forma mais apropriada como um verbo do que como um substantivo. Para Tomás de Aquino, Deus não era um «objecto», mas actus purus, puro comportamento ou actividade! Um dos mais distintos especialistas britânicos na obra de São Tomás de Aquino, o sacerdote dominicano Fergus Kerr, acrescenta: «De qualquer modo, o Deus de Tomás assemelha-se mais a um acontecimento do que a uma entidade».



Tomás Halík, A noite do confessor, p.180-186.


domingo, 30 de março de 2014

Bola de ouro


Se a bola de ouro premiar regularidade com qualidade, não vejo como será possível afastar Luis Suárez das discussões pelo prémio, época 2013/2014 (ano civil 2014).
Diz-se, muitas vezes, que a Premier League é o melhor campeonato nacional de clubes de futebol, mas tal consideração não tem sido traduzida em reconhecimento individual daqueles que nela militam. Yaya Touré ainda não teve a distinção internacional que o seu futebol e a preponderância do seu desempenho, na conquista de títulos pelo City, justificavam; a superlativa performance de Cesc Fábregas, há alguns anos, no Arsenal não conheceu, do mesmo modo, o destaque merecido.


Rebuscado


Louçã esboça um sorriso irónico quando questionado sobre a adesão (material) de Sócrates ao manifesto dos 70, comparando, tal posicionamento, actual, do ex-PM, com a discussão tida nos debates entre ambos, a quando das legislativas de 2011. Tem e não tem razão Francisco Louçã. Tem razão, na medida em que José Sócrates, em tais debates, sustentou que o conceito de reestruturação era unívoco: reestruturação quer dizer perdão de dívida, não pagamos, ponto final (e, por consequência, a catástrofe). Nessa medida, apoiar um documento em que o conceito/a expressão é omnipresente pode, objectivamente, constituir uma incoerência: não devia assentir, Sócrates, em um documento cuja expressão dominante, e com cujo significado único, tem repercussões políticas/económicas/sociais com as quais, manifestamente, discorda. Sócrates, nos seus comentários – e não apenas os do último Domingo, com José Rodrigues dos Santos – evitou, sempre, a palavra (reestruturação). Centrou-se na substância do texto que, embora recorrendo ao conceito de reestruturação, pretende com ele, sobretudo, remeter para prazos e juros e não explicita um perdão de dívida (mesmo que muitos, em rigor, também assinalem como baixando juros e alargando prazos, já há corte de dívida). Se o conceito de perdão de dívida for este último, estrito, limitado, então a incoerência socrática seria completa. Se se entender que alterar juros e prazos é diferente de perdão de dívida, então a incoerência não é tanta assim face ao debate de 2011.
É que, como Louçã reconhece, nessa altura, como aliás agora, a sua proposta passa por identificar, na dívida, a parte, nela, que considera “ilegítima” e, pura e simplesmente, cortá-la. Sócrates revelou-se, em 2011 como em 2014, contra essa proposta.
O conceito de reestruturação, afinal, terá várias acepções (ou modos de cumprimento), ou foi utilizado erroneamente (ainda que utilizado de modo voluntário, como se percebeu na entrevista de João Cravinho à TSF, há uma semana, sendo que, inclusive, fez parte da estratégia de alargamento das possibilidades políticas com que Portugal se confrontava; sublinhe-se o papel da linguagem nesse alargamento) pelos autores/subscritores do manifesto, concluir-se-ia do ponto de vista de Sócrates.
E há ainda a hermenêutica do manifesto dos 70 promovida por Paulo Rangel: embora nas entrelinhas, o texto reclama o perdão de uma parte da dívida.


Contas certas


Pacheco Pereira assinala bem na Sic Notícias: para se aferir da justiça no modo como a austeridade, no sentido do modo como os sacrifícios são distribuídos equitativamente pelas várias classes socias, é feita pelo Governo não basta olhar para o lado dos impostos (progressividade fiscal). Aqui, efectivamente, quem possuía mais rendimentos, mais pagou, também do ponto de vista relativo (houve aumento da progressividade…o que, de resto, mereceu alguns aplausos à esquerda, em coerência: vide, nomeadamente os escritos de Paulo Trigo Pereira a esse propósito).
Há que perceber, adicionalmente, o modo como se faz, também a distribuição, após a receita obtida. É aqui que Pacheco Pereira encontra o busílis da questão, com o mundo do trabalho a ser fortemente desequilibrado, por vontade da maioria governamental, em desfavor do trabalhador.
Lembrei-me, neste instante, do cálculo da Comissão Europeia: 250 milhões de euros/ano é o custo para o Estado da baixa no IRC. Nos três primeiros anos, pelo menos, tal baixa não é auto-sustentável, a geração da riqueza, em virtude de tal baixa, não supre a diminuição da receita.


CRIAÇÃO


Nicholas Lash chama a atenção para outra grande confusão – em relação ao termo criação. Quando os físicos (e também, infelizmente, os cristãos desinformados do ponto de vista teológico) falam de criação, estão de novo a pensar em termos de um acontecimento de ordem física: o momento e o curso do «início do Universo».
Quando a Teologia fala da criação, está a referir-se a outra coisa – criação como o conjunto da realidade, de tudo o que não é Deus: as pessoas, os animais, o universo material, as obras musicais e tudo o resto em que podemos pensar. Nós somos criação. O importante para a fé e a Teologia é o facto de sermos criação, ou seja, de termos sido criados; como, quando e qual foi a «causa física» do Universo – isso são questões para a Física, que nada têm a ver com a fé ou com a Teologia (…) Essencialmente, aquilo que a Teologia nos diz com os seus ensinamentos acerca da criação é que nós não somos Deus, mas que, quer o entendamos quer não, todos nós – crentes, ateus, mosquitos e o planeta Saturno – estamos em relação com o mistério a que chamamos Deus. Este ensinamento é de enorme importância porque nos liga moralmente a uma atitude específica de respeito, humildade e responsabilidade; contudo, não tem qualquer importância e relevância para aqueles que procuram respostas sobre quando e como o Universo começou a existir, ou sobre os aspectos biológicos da evolução, etc.
Quando os cristãos confessam a sua fé mediante as palavras «Creio em Deus…criador do Céu e da Terra» não estão a dizer que pensam que «foi tudo criado ao princípio, nos bastidores, por um grande tio invisível e fantástico» - tais especulações não passam de um «assunto privado» de cada um, sendo completamente irrelevantes do ponto de vista da fé -, mas colocam-se, assim, numa atitude de respeito frente ao mundo. Afirmam que o mundo é um dom que lhes foi confiado.



Tomás Halík, A noite do confessor, p.123-125.


O MISTÉRIO DO SIGNIFICADO


Lash mostra como a percepção do conceito de Deus sofreu uma mudança importante na cultura europeia – e em particular britânica -, na época do Iluminismo. Isso aconteceu quando as pessoas começaram a usar pela primeira vez o conceito de Deus para explicar as causas do universo físico.
O professor [Nicholas] Lash explica que o conceito primitivo de causa em Escolástica era muito mais abrangente e diferenciado. Fazia muito mais do que simplesmente denotar uma causa física; esse conceito também abarcava sentido e finalidade – por que razão um objecto específico estava aqui. Nos séculos XVII e XVIII, os pensadores sentiam necessidade de encontrar e nomear um princípio específico, a partir do qual pudessem deduzir a origem e a actuação da máquina do mundo – e o conceito religioso de «Deus» ajustava-se bastante bem ao seu objectivo. Mais tarde, a ciência entrou numa fase em que descobriu que já não precisava de um simples princípio explanatório último, porque nada desse tipo era suficiente para explicar a complexa realidade do mundo – por isso, naturalmente, esse conceito foi rejeitado. Contudo, essa questão metodológica relacionada com o mundo da Física deu origem à errada dedução, filosófica e teológica, de que «Deus não existe».
No entanto, o Deus de que fala a fé cristã não pertence de modo algum ao mundo da Física. Deus não é uma «causa física do mundo», mas o mistério do seu significado.


Tomas Halík, A noite do confessor, p.122.



sábado, 29 de março de 2014

Pub: "Rei Édipo", logo, no Teatro de Vila Real


Foto: SÁBADO 29 | MARÇO | 22h00

"ÉDIPO"
DE SÓFOCLES
ACE/TEATRO DO BOLHÃO

Na cidade prostrada e dizimada pela peste, o rei Édipo procura obsessivamente a verdade que acabará por o destruir. Mas a lenda do homem condenado à nascença pelos deuses a assassinar o seu pai e casar com a sua mãe contém também o mito do herói que se recusa a fechar os olhos à realidade e que se cega a si mesmo quando consegue ver, finalmente, para além das aparências.

O japonês Kuniaki Ida regressa ao Teatro do Bolhão para encenar um dos textos fundadores da cultura Ocidental. Para além da extraordinária amplitude de leituras que propõe Sófocles — literária, religiosa, sociológica, antropológica, jurídica e policial (até psicanalítica, para alguns) —, “Édipo” mostra-nos hoje, nesta época em que se buscam paradigmas ou se aguardam destinos, a importância exemplar dos arquétipos enraizados na nossa memória cultural.

Num espaço cénico dominado por uma gigantesca e opressiva estrutura metálica, Kuniaki Ida procura recuperar as raízes do teatro grego primitivo. António Capelo, João Paulo Costa e João Cardoso multiplicam-se nos papéis principais, inclusive femininos. Pedro Lamares é o Corifeu, à frente de 10 coreutas.

Dando continuidade ao seu projecto nuclear de divulgação dos textos fundamentais da dramaturgia ocidental, a companhia propõe esta nova encenação de Édipo, no desejo que o texto clássico olhe, a partir da sua realidade atemporal, a nossa realidade do momento, pois «as nossas viagens ainda são as de Ulisses, os nossos trabalhos ainda são os de Hércules» (George Steiner).

Encenação: Kuniaki Ida
Interpretação: António Capelo, João Paulo Costa, João Cardoso, Pedro Lamares, André Loubet, Beatriz Frutuoso, Catarina Ribeiro Santos, Ismael Calliano, Ivo Luz, Joana Melo, Miguel Lemos, Pedro Roquette, Rita Lagarto e Rita Gigante.

Classificação: M/12 anos

"ÉDIPO"
DE SÓFOCLES
ACE/TEATRO DO BOLHÃO
Encenação: Kuniaki Ida
Interpretação: António Capelo, João Paulo Costa, João Cardoso, Pedro Lamares, André Loubet, Beatriz Frutuoso, Catarina Ribeiro Santos, Ismael Calliano, Ivo Luz, Joana Melo, Miguel Lemos, Pedro Roquette, Rita Lagarto e Rita Gigante.




Numa semana em cheio no Teatro de Vila Real, bom cinema e bom teatro, um Sábado clássico, para concluir.
Regresso a Sófocles, às 22h.


A entrevista de Durão Barroso - a táctica


Claro: quando Barroso diz que “o meu partido é Portugal”, fiz tudo para aliviar as condições de ajustamento, “estive uma hora ao telefone com a srª Merkel” para conseguir a baixa de juros e o adiamento dos prazos, fico muito mal emocionalmente quando vejo o nosso país assim, compreendo o jogo do governo e da oposição, mas já estou acima disso é natural que se veja, para utilizar a expressão do Prof. Marcelo – cujos comentários à entrevista que hoje passou na sic notícias são aguardados com expectativa -, um “fazer-se ao piso”.
Em todo o caso, se a sugestão para pelo menos os três principais partidos apoiarem um único candidato à Presidência da República tinha, afinal, como alvo do dito consenso a formar, o próprio Durão Barroso, parece-me muito difícil ter êxito, isto é, que o PS esteja, de algum modo, disposto a não apresentar qualquer candidatura em favor do presidente cessante da Comissão Europeia.

Em todo o caso, se a perspectiva acerca das presidenciais exposta por Manuel Maria Carrilho obtivesse comum vencimento – a saber, só dois candidatos poderiam reunir consistência internacional, determinante, para Portugal, neste instante: António Guterres e Durão Barroso -, então, em caso de abdicação por parte de Guterres, restaria Barroso e, na lógica apresentada pelo ex-ministro da Cultura, seria o único a preencher os requisitos para o cargo no actual momento histórico. Falta ao ex-PM português convencer, entre várias outras coisas, os seus concidadãos, mesmo no interior desta tese, como o seu reconhecimento internacional valeu mesmo aos portugueses. A entrevista, ao nível das presidenciais, deixou tudo em aberto; falta continuar a seguir sondagens sobre a matéria e conhecer potenciais adversários, para Barroso se decidir.


A entrevista de Durão Barroso - o passado do presente


Primeiro, a substância: continuamos a ter ininterruptos dados, versões, interpretações do Portugal de 2011. É fácil entender porquê: a legitimação política para agora não é, nem pouco mais ou menos, absolutamente dissociável, dos posicionamentos políticos de há três anos. Na entrevista a Ricardo Costa (Sic/Expresso), Durão Barroso afirmou que o PEC IV em grande medida era mais gravoso, do ponto de vista financeiro, do que o programa de ajustamento que lhe sucedeu, tendo prazos mais curtos para o cumprimento das medidas nele estabelecidas e tratava-se, no fundo, de uma mise en scene para português ver, dado que era materialmente um programa de ajustamento, mas formalmente surgia sob outra capa, para melhor aceitação política e social. Além do mais, garante Barroso, não conhecia, a Comissão Europeia, devidamente, as contas portuguesas.

A Comissão Europeia, disse também o presidente cessante, quando aconselhou o investimento público pretendia que este aumentasse, mas nos países com excedentes comerciais, não em quem estava em crise pronunciada. Desses gastos nacionais lavou as mãos.


sexta-feira, 28 de março de 2014

Das idas ao Teatro


Pareceu-me brilhante a interpretação de João Pedro Mamede (no papel de Sebastian Bosse):  um personagem incarnando, no olhar alucinado, na ansiedade nervosa do tique que prenuncia a decisão última, na incontida raiva perante o mundo, no ódio aos outros, nos desequilíbrios e incoerências, nas hesitações e na zona cinzenta que habita o homicida-suicida, o moralista social exacerbado, o desesperado existencial(ista), o lúcido louco crítico da sociedade, o homem falhado à luz dos cânones sociais, a (auto) confiança cega, a arrogância de quem nada já tem a perder.
Se, como um dia sustentou Whitehead, "toda a história da filosofia ocidental resume-se a uma série de notas de rodapé à obra de Platão", então também o teenager alemão, dos anos 2006, não pôde, mesmo sem deuses e gramáticas de culto, senão repetir, nas suas alegações, Coélet: "Ó suprema fugacidade, diz Coélet, ó suprema fugacidade! Tudo é fugaz! Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do Sol? Geração vai, geração vem, e a Terra permanece sempre a mesma. O Sol levanta-se, o Sol põe-se, voltando depressa para o lugar de onde novamente se levantará. O vento sopra para o Sul, depois gira para o Norte e, girando e girando, vai dando as suas voltas (...) Toda a explicação fica a meio, pois o homem não consegue terminá-la. O olho não se farta de ver, nem o ouvido se farta de ouvir. O que aconteceu de novo acontecerá; e o que se fez, de novo será feito: debaixo do Sol não há nenhuma novidade" (Ecl 1, 1-10).


Portugueses nos lager


Investigação para seguir com atenção.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Heresia, secularização


Tradição da Páscoa que mais gostas de celebrar em família? Caça ao tesouro. Como? Sim, a minha mãe esconde os ovos pela casa, e eu tenho que os descobrir, com os meus primos. Seguinte? Caça ao tesouro. Depois? Caça ao tesouro.


Pub: logo, festejar Dia Mundial do Teatro, em Vila Real






"A 20 DE NOVEMBRO"de Lars Norén
ARTISTAS UNIDOS

"A 20 de Novembro de 2006, Sebastian Bosse disparou sobre alunos e professores do seu antigo liceu antes de se suicidar. A partir do seu diário íntimo publicado na net, Lars Norén escreve um texto intenso, frio e clínico. Sozinho no palco, o actor expõe os mecanismos de humilhação que levaram o adolescente à vingança e ao suicídio e interroga a nossa responsabilidade".

Uma história e um texto contemporâneos, com várias questões de sentido, para seguirmos, às 22h.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Fora da Igreja não há salvação?


«Fora da Igreja não há salvação»

Esta afirmação de S.Cipriano foi originalmente dirigida contra os Rigoristas, que negaram a validade do Baptismo dos crentes que tinham apostatado aquando da perseguição da Igreja. Vale a pena notar que a interpretação desta frase no sentido de que «aqueles q        eu não são membros da Igreja Católica não podem ser salvos», foi rejeitada como herética pelo Santo Ofício do Vaticano a 8 de Agosto de 1949; com efeito, por abraçar esta heresia, o padre americano Leonard Feeney, SJ, foi excomungado pelo Papa Pio XII, a 5 de Fevereiro de 1953.


T. Halík, A noite do confessor, p.83.


'A noite do confessor' (II)


Entendamo-nos: a Escritura, mediatização incontornável na formação da identidade cristã, aponta numa direcção, num sentido; nessa medida, construir uma identidade cristã, indo em sentido diverso dessa direcção e sentido, constitui uma deturpação; coisa diferente é tudo vir detalhado e com livro de instruções – que não vem. Tempos novos trazem novos problemas e desafios. A hermenêutica do texto, em comunidade, implica, aliás, a permanente (re)interpretação dessa mesma identidade (Duque, 2003).
Para que direcção aponta, então, a Escritura? Para a lógica do paradoxo e do absurdo, onde, defende Halík, o crente permanece:

Jesus promete, na verdade, que «uma fé tão pequena como um grão de mostarda» realizará algo impossível e absurdo, algo sem precedentes e impensável. Mas não é uma questão de «feitos excepcionais» ou de «milagres» e de «dons excepcionais do Espírito» esperados por aqueles que só procuram sensações. As mais radicais expressões de fé – verdadeiramente absurda e impossível, néscia e louca, de facto, aos olhos «deste mundo» - não tem nada a ver com isso. Incluem o perdão quando eu me poderia vingar, e até «amar o próximo» e «oferecer a outra face» quando ele me fez mal; dar coisas que eu poderia guardar para mim; ser generoso sobretudo com aqueles que não me podem pagar; renunciar, «por amor do Reino de Deus», a algo que os outros consideram parte essencial de uma vida feliz (…) Se nós nunca sentimos que aquilo que Jesus quer de nós é absurdo, louco e impossível, então provavelmente ou fomos demasiado precipitados a domar ou diluir a natureza radical dos seus ensinamentos, mediante interpretações racionais e tranquilizantes, ou (sobretudo ingénua, ilusória ou hipocritamente) esquecemos com demasiada facilidade até que ponto – no nosso pensamento, costumes e acções – estamos enraizados «neste mundo», em que se aplicam regras completamente diferentes


Tomás Halík, A noite do confessor, p.53-54.


'A noite do confessor'



A Noite do Confessor

Halík diz que temos fé (religiosa) a mais. Traduza-se por credulidade. Milagres, coisas espantosas, tudo escrito na pedra sobre o que devemos ser e como fazer. Quando tais certezas se vão, e precisam de ir, isto é, quando esta fé (infantil) jaz, então se verá quem está pronto para aguentar a pequena fé, exigentemente pequena, que se mantém. Sem regressar à segurança do fundamentalismo, quando os restauracionismos não mais são possíveis; sem cair, de outra banda, na resignação e no desespero. É dura a cruz. Mas sem ela, não há maturidade, afrontamento da vida como ela é, com as escolhas e dilemas de que não é possível fugir. E não há tradição que permaneça se não se renovar. 


Sem-abrigo


Quando a realidade se dividiu em «objectiva» e «subjectiva», no início da era moderna, Deus transformou-se em sem-abrigo. Qualquer tentativa para situá-lo numa ou noutra das categorias resultou sempre na «morte de Deus». Deus não pertencia ao mundo das coisas, ao mundo das «realidades» visíveis, mensuráveis, prováveis e, acima de tudo, manipuláveis. Mas Deus também não é um «sentimento», um «pensamento» ou uma «ideia», mesmo que os pensamentos e os sentimentos humanos se possam ligar a Ele (até descobrirem, eventualmente, que nem sequer eles podem penetrar o seu mistério, podendo, na melhor das hipóteses, tocar na «orla do seu manto»).

Tomás Halík, A noite do confessor, Paulinas, Lisboa, 2014, p.54-55.


O mundo que aí vem, se vier






As pastilhas de Shakespeare, por Negroponte.

A queda da net e a importância das redes off line, por Dan Dennett.


Rádio local/europeia






Segui a entrevista de Francisco Assis que passou esta noite na rádio universidade. Novidade, para mim, curiosamente, apenas o que afirmou sobre matéria nacional/regional (quanto ao resto, em âmbito europeu, limitou-se a repetir o que tem dito na TVI24 e escrito no Público).
Assim, (mantém-se) firme defensor da regionalização; não acha que exista qualquer centralidade do Porto face ao interior como há, por exemplo, de Lisboa para o Porto e para o resto do país (a analogia, Interior-Porto, face a Lisboa-Porto ou Lisboa-resto do país, no seu entender, não se aplica); entende que face à questão de se saber se, em existindo, no futuro, a regionalização, no nosso país, devem ser duas ou uma as regiões a Norte, a preferência deve ir para uma região unificada que, justamente para evitar intra-centralismos nortenhos, deve ter sede fora do Porto. Vila Real seria uma boa hipótese - assim se recuperando uma velha ideia de Miguel Cadilhe -, embora não necessariamente a capital regional.
Um discurso pode marcar e mudar uma realidade e 500 não alterarem um centímetro, respondeu, por fim, dizendo que a política não se mede à estatística, aos que exibiam minguado número de intervenções ou produção de relatórios a quando da sua última passagem pelo Parlamento Europeu.
Ficámos, a saber, ainda, que o cabeça de lista do PS às Europeias controla tanto a formação da lista que lidera quanto o seu homólogo do PSD: nada.


Flash (IV)


Na entrevista concedida, faz hoje uma semana, a Vítor Gonçalves, na RTP Informação, Herman José afirmou que durante um período da sua carreira, finais dos anos 80/inícios dos anos 90 do século passado, durante a fase do "paraíso cavaquista", chegava a ganhar, publicidades e tal, 45 mil euros num dia.


terça-feira, 25 de março de 2014

Responsabilidade e criatividade na informação


Outra das coisas que disse na rádio foi que com os partidos a não chegarem a acordo quanto à mudança de lei, de modo a que os debates, nomeadamente nas televisões, para as eleições europeias não tivessem que incluir, em simultâneo, todas as forças políticas que vão a escrutínio – que, creio, serão 14, o que torna, de facto, impossível a discussão televisiva -, se abria, de novo, e à semelhança das eleições autárquicas (um vazio, então, muito bem preenchido e aproveitado pelo Porto Canal), um enorme espaço de responsabilidade e até de criatividade aos vários media, mesmo locais/regionais, para levar conhecimento e informação relevante aos cidadãos sobre o que está em causa, a avaliação do mandato ora findo, as propostas diferenciadoras nestas mesmas eleições. Recorde-se que numa sondagem muito recente, publicada pelo jornal I, 60% dos inquiridos não conheciam o nome de um único eurodeputado português. A nível local, honra lhe seja, desde há muitos anos, a universidadefm tem tido vários espaços dedicados às questões da UE.


Indagações (III)


Carl SAGAN, A Procura, in As Variedades da Experiência científica. Uma Visão pessoal da Procura de Deus, org. de Ann DRUYAN, Gradiva, Lisboa 2007. 


 

Ou pensem na escravatura, que Aristóteles defendia que era desejável, que fazia parte da ordem natural das coisas, que era exigida pelos deuses, que qualquer movimento para libertar os escravos era contra o propósito divino. E os donos de escravos, ao longo da história, usaram passos da Bíblia para justificar a posse de escravos. Mas actualmente, através de outra sequência incrível de acontecimentos a nível mundial, a escravatura foi praticamente abolida. E esta é mais uma coisa do passado que nos embaraça, que devíamos encarar ainda como uma revelação importante de um lado obscuro da natureza humana a que devemos resistir. As depredações cometidas sobre povos que já foram escravizados ainda não estão saldadas, mas fizemos progressos extraordinários.

Ou olhem para o estatuto das mulheres, acerca do qual o planeta está finalmente a ganhar juízo no nosso tempo. Ou até para coisas como a varíola ou outras doenças desfigurantes e fatais, doenças de crianças, que antes se pensava serem inevitáveis, uma parte da vida determinada por Deus. Os membros do clero defendiam, e alguns ainda o fazem, que essas doenças tinham sido enviadas por Deus como um flagelo para a humanidade. Agora já não há casos de varíola no planeta. Com algumas dezenas de milhões de dólares e os esforços de médicos de uma centena de países, coordenados pela Organização Mundial de Saúde, a varíola foi erradicada do planeta Terra.

Os interesses investidos no direito divino dos reis ou na escravatura eram muito grandes. Os reis tinham o seu interesse investido no direito divino dos reis. Os donos de escravos tinham o seu interesse investido na continuação do sistema da escravatura. E portanto creio que é importante recordar que já enfrentámos e resolvemos problemas muito mais difíceis do que este.

O único problema é que a ameaça de uma guerra nuclear tem de ser enfrentada rapidamente, porque o risco é demasiado alto. O relógio não pára. Não nos podemos permitir um ritmo descansado.

Imaginem que são linguistas. Estão interessados na natureza da evolução da linguagem. Mas infelizmente só conhecem uma língua. Por mais espertos que sejam, por mais completo que seja o vosso dicionário dessa língua - por exemplo, nahuatl -, estarão seriamente limitados na vossa capacidade de criarem uma teoria da linguagem abrangente, interdisciplinar, capaz de prever outras situações. Como podiam esperar sair-se muito bem se só sabiam uma língua? Se Newton estivesse limitado, ao trabalhar na teoria da gravitação, as maçãs e proibido de olhar para o movimento da Lua ou da Terra, é óbvio que não teria feito grandes progressos. É precisamente o poder olhar para os efeitos aqui em baixo, olhar para os efeitos lá em cima, e comparar depois os dois que permite e encoraja o desenvolvimento de uma teoria abrangente e geral. Se estivermos presos num só planeta, se só conhecermos este planeta, então estamos extremamente limitados na nossa compreensão até deste planeta. Se só conhecermos um tipo de vida, estamos extremamente limitados na nossa compreensão até desse tipo de vida. Se só conhecermos um tipo de inteligência, estamos extremamente limitados no nosso conhecimento até desse tipo de inteligência. Mas procurar os nossos homólogos noutro lado, alargar as nossas perspectivas, mesmo que não encontremos aquilo de que andamos à procura, dá-nos um contexto para nos compreendermos muito melhor a nós próprios.

Creio que, se alguma vez chegarmos ao ponto de acharmos que compreendemos por completo quem somos e de onde vimos, teremos falhado. Creio que esta procura não nos leva à satisfação complacente de sabermos a resposta, ao sentimento arrogante de a resposta estar mesmo à nossa frente e de só precisarmos de fazer mais uma experiência para a descobrir. Vai continuar como um esforço corajoso de saudarmos o universo tal como ele é, não para lhe impormos as nossas predisposições emocionais, mas para aceitarmos corajosamente o que as nossas explorações nos revelarem.

 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Flash (III)


Alfredo Relaño, director do As, diário desportivo de Madrid, de 63 anos, disse ontem, em El larguero, da Cadena Ser, que o clássico de futebol de ontem, Real Madrid-Barcelona (3-4) foi o melhor a que assistiu na sua vida. O director desse programa radiofónico, José Ramón de la Morena, considerou o penalty para o Madrid o principal erro de arbitragem que o encontro teve. Basta passar pelo L'Equipe ou La Gazzetta dello Sport para perceber como também eles não vão na conversa da justificação política e patética para esconder o talento maravilhoso que decidiu o jogo. Há peditórios para os quais, na Europa do futebol, já ninguém dá.


Identidade, o santo graal


Inquéritos recentes mostraram que os portugueses continuam a ver na selecção nacional de futebol e em Fátima dois fortes elementos identitários. Agora que tanto se fala da “geração mais qualificada de sempre”, então é tempo, também, consequentemente, de assumir outros traços, além destes, que nos vão caracterizando. Por exemplo, a investigação de qualidade e a publicação em jornais/revistas científicas de referência, em diferentes áreas, em muitos casos por uma geração jovem, mostram que nos distinguimos, igualmente, nestas áreas e que as apostas na Ciência e Educação valeram e valem a pena. A partir do artigo da Lara, foi sobre isto que falei, hoje, na rádio. A nossa independência, se a Educação (Universidades, Ciência) é soberania, como Adriano Moreira ensina, passa por aqui. Sem protectorados.


Conversas nos corredores


Diz-me ela, não sem razão, que só o conhecimento conta na avaliação. Caramba, não pode ser, só o conhecimento conta. O aluno teve 18 nos testes, 18 terá na nota final. Então e quando o esforço do aluno para alcançar um 13 é muito maior do que o outro para conseguir o 17? Os valores do esforço e do trabalho não contam? Os valores não contam? Sim, mas o talento deve ser penalizado? E como medir, exactamente, o quantum de esforço de cada um para alcançar a nota obtida? E como traduzir esse quantum na nota final? Serão os 18 obtidos sem esforço? Se sim, o que dizer da metodologia da avaliação? E não há já grelhas, nas quais atribuímos uma dada classificação, para atitudes e valores?


Pub: logo, no Teatro de Vila Real




A proposta de hoje é revisitar a China contemporânea. O filme foi recebeu o prémio de melhor argumento no festival de Cannes, 2013. Às 22h lá estaremos.


domingo, 23 de março de 2014

Limites


No início do século XX, Jacques Maritain (1882-1973) e Raissa Oumansov (1883-1960), judia russa emigrada em Paris, estudavam na Sorbonne nas áreas da filosofia e das ciências. Amigos inseparáveis, procuravam a verdade e um sentido para a existência. Confrontados com o pensamento materialista e o racionalismo científico, fizeram um pacto de suicídio caso não encontrassem resposta às suas inquietações.

Emília Nadal, Amizades e cumplicidades, in Communio, ano XXX, 2013, nº3 Julho/Agosto/Setembro, p.358-359.



Escrito no mármore


Só quem me ama me pode trair: esta afirmação constitui, por si só, um escândalo difícil de abraçar.

José Tolentino de Mendonça, em Nenhum caminho será longo.


Flash (II)


Em entrevista à Visão, Vasco Graça Moura afirma que Miró nunca foi grande pintor e os quadros que tanta polémica deram, recentemente, em Portugal, são de segunda ou terceira categoria; "refugos" de uma colecção. "Os mostrados deviam ser os melhores e nenhum era bom. Disso pode ter a certeza".


Dos insubstituíveis


        


Nunca mais ninguém escreveu, nos jornais portugueses, sobre a pintura renascentista, a missa em Latim, Cristina Campo, Florença, filmes clássicos, Antonioni, Igrejas italianas, viagens, o western, como João Bernard da Costa fazia. Tenho, até, a impressão de que nunca mais ninguém escreveu sobre pintura renascentista, a missa em latim, Cristina Campo, Florença ou igrejas italianas na imprensa portuguesa. Não contava caracteres, não queria saber de quem lê à pressa, desatento e sem deleite, contava-se entre os que anteciparam a imprensa como luxo e daí o direito do leitor a textos voluptuosos, espraiava-se num prazer que nos contagiava, em crónicas delicadas, cultas, sábias. Os Domingos eram assim.

Esta semana, perdemos a argúcia, o argumento engenhoso, a vivacidade carregada de inteligência e ironia, o gosto da antecipação, da cenarização com densidade, do sorriso malandro, da surpresa e do risco que os livros, os textos, as entrevistas, a participação em conferências ou debates televisivos e os posts de Medeiros Ferreira continham. Pensar de pernas para o ar, como sugeria Manuel António Pina. Foi, deste modo, que nos guiou até Mendés France, que a minha geração desconhecia, e contou de modo outro a história da construção europeia. Sublinhámo-lo, agradecidos, neste blog.


Só para os tontos não há insubstituíveis.



Flash


Em entrevista ao Expresso, Maria Filomena Mónica diz que esta é a primeira vez, desde Afonso Henriques, que há mobilidade (social) descendente, em Portugal.


sábado, 22 de março de 2014

Das idas ao cinema




A cena, de Like someone in love, retratada nesta imagem, a rapariga, estudante sem recursos económicos, saída do Japão rural para a megalópole de Tókio, "a selva", e que, para pagar os estudos, se vê forçada a prostituir-se, viajando no táxi, com os phones, a receber, do telemóvel, as inúmeras mensagens deixadas pela avó que veio à cidade e que tudo faz para estar com a neta que, por sua vez, a quer ver, mas impedida e obrigada, pelo 'patrão' a ir a um encontro profissional, é compelida a deixar os afectos, a vontade, qualquer espécie de desejo e liberdade, é das mais poderosas e violentas que encontrei nas mais recentes idas ao cinema. Um filme magistral, composto de uma ambiguidade primorosa.


Notas de leitura (III)


Apenas a Europa da Idade Moderna desenvolveu um conceito de cultura distinto do de religião, quando não um domínio que se lhe opõe:

em todas as culturas históricas conhecidas, a religião é elemento essencial da cultura, mais, é o seu centro determinante; é ela que estabelece a estrutura de valores e, assim, o sistema interno de regulação das culturas (…) Ela não existe desenraizada, como mera religião. Pelo simples facto de dizer ao homem quem ele é e como deve assumir o ser homem, a fé produz cultura, ela é cultura. Esta sua palavra não é uma palavra abstracta, amadureceu numa longa história e em múltiplas fusões interculturais, nas quais deu forma a uma figura total de vida, à convivência do homem consigo mesmo, com o próximo, com o mundo e com Deus[1].



[1] J.RATZINGER, Fé, Verdade, Tolerância, Universidade Católica, Lisboa, 2006, pp.56 e 64.


sexta-feira, 21 de março de 2014

O génio de Eça


Génio - Os 100 Autores Mais Criativos da História - Ampliar Imagem


Os Maias e O primo Basílio são romances realistas admiráveis, mas A relíquia é algo mais raro: um romance de um génio cómico absoluto, uma invenção que provoca o riso estrondoso”

Harold Bloom, Génio, Temas e Debates, Lisboa, 2014, p.738.


Bloom canoniza Eça de Queiroz como um dos 100 génios da história da literatura. Curiosamente, em vez de Os Maias, que não deixa de elogiar, escolhe A relíquia como obra-prima a tratar ao longo de 10 páginas (as que dedica a Eça), do seu último livro traduzido para português.


O leigo que lê o académico preferiria, largamente, Os Maias. E, se A relíquia pode fazer rir tanto o leitor de meados do século XIX quanto o de 2001, como diz Bloom, a verdade é que a narrativa não é minimamente verosímil no Portugal do séc. XXI. Bloom diz que Eça é praticamente desconhecido no mundo anglófono.


Indagações (II)


Carl SAGAN, A Procura, in As Variedades da Experiência científica. Uma Visão pessoal da Procura de Deus, organiz. de Ann DRUYAN, Gradiva, Lisboa 2007.  


Vamos matar-nos uns aos outros, ou ameaçar-nos de morte, em parte, creio, porque temos receio de nós próprios não sabermos a verdade, de alguém com uma doutrina diferente estar mais próximo da verdade. A nossa história é, em parte, uma batalha até à morte entre mitos inadequados. Se não conseguir convencer-vos, tenho de vos matar. Isso vai fazer-vos mudar de ideias. São uma ameaça à minha versão da verdade, especialmente a verdade sobre quem sou eu e qual é a minha natureza. A ideia de que possa ter dedicado a minha vida a uma mentira, de que possa ter aceitado uma verdade convencional que já não corresponde, se é que alguma vez correspondeu, à realidade exterior é uma tomada de consciência extremamente dolorosa. A minha tendência é resistir até ao fim. Farei praticamente tudo o que estiver ao meu alcance para não constatar que a visão do mundo a que me dediquei é inadequada. Estou a pôr tudo isto em termos pessoais para evitar dizer «tu» ou «vocês», de modo a não acusar ninguém desta atitude, mas gostaria que compreendessem que não se trata de um mea culpa; estou a tentar descrever uma dinâmica psicológica que penso que existe, e que é importante e preocupante.

Em vez disso, precisamos de um aperfeiçoamento das capacidades de explicação, de diálogo, daquilo a que se costumava chamar lógica e retórica e que era essencial em qualquer educação superior, um aperfeiçoamento das capacidades de compaixão, que, tal como as competências intelectuais, precisam de prática para serem melhoradas. Se queremos perceber a fé de outra pessoa, também temos de perceber as deficiências e inadequações da nossa. E essas deficiências e inadequações são muito importantes. Isto é verdade seja qual for a tradição política, ideológica, étnica ou cultural de que nos reclamemos. Num universo complexo, numa sociedade que passa por mudanças inéditas, como poderemos encontrar a verdade se não estamos dispostos a questionar tudo e a dar uma oportunidade igual a tudo? Há uma tacanhez de mente a nível mundial que põe em perigo a espécie. Sempre existiu, mas os riscos não eram tão graves porque as armas de destruição em massa ainda não estavam disponíveis.

No Ocidente temos dez mandamentos. Porque não há nenhum mandamento que nos exorte a aprender? «Compreenderás o mundo. Perceberás as coisas.» Não há nada assim. E muito poucas religiões nos incentivam a ampliar a nossa compreensão do mundo natural. Creio que é impressionante o modo como as religiões, em geral, reagiram tão mal às verdades surpreendentes que surgiram nos últimos séculos.

Vamos pensar por um momento na sabedoria científica prevalecente acerca de onde vimos. A ideia de que o universo, ou pelo menos a sua encarnação actual, se formou há quase 15 mil milhões de anos no Big Bang; de que a própria Via Láctea só se formou cerca de 5 mil milhões de anos a seguir; de que há 5 mil milhões de anos atrás, numa Terra em nada semelhante à que conhecemos hoje em dia, ocorreu uma produção em larga escala de moléculas orgânicas complexas, que levaram a um sistema molecular capaz de auto-replicação, e assim começou a sequência evolutiva longa, tortuosa e requintadamente bela que levou desses primeiros organismos, capazes apenas de fazerem cópias imprecisas de si próprios, à magnífica diversidade e subtileza de vida que embeleza hoje em dia o nosso pequeno planeta.

E crescemos neste planeta, presos de certo modo nele, sem saber da existência de mais nada além dos nossos arredores mais próximos, tendo de perceber sozinhos o mundo. Que projecto tão corajoso e difícil, o de construir, geração após geração, a partir do que se foi aprendendo no passado; o de questionar a sabedoria convencional; o de estar dispostos, às vezes com grande risco pessoal, a desafiar a sabedoria prevalecente, de modo que, gradualmente, lentamente, surja deste tormento uma compreensão quantitativa, bem fundamentada, em muitos sentidos profética da natureza do mundo à nossa volta. De maneira nenhuma uma compreensão de todos os aspectos do mundo, mas uma compreensão gradual, por sucessivas aproximações, de cada vez mais coisas. Enfrentamos um futuro difícil e incerto, e parece-me que ele exige todos esses talentos com que fomos dotados ao longo da nossa evolução e da nossa história, se quisermos sobreviver.


Uma coisa que me parece particularmente marcante na cultura contemporânea é o facto de nos serem propostas tão poucas visões positivas do futuro imediato. Os meios de comunicação mostram todo o género de cenários apocalípticos, de futuros horrendos. E costuma haver uma espécie de profecia que se cumpre nestes prognósticos. É raro vermos uma projecção para os próximos vinte ou cinquenta ou cem anos com um mundo em que caímos em nós, em que percebemos as coisas. Mas podemos fazer isso. Não há nada que diga que vamos falhar inevitavelmente nestes desafios. Já resolvemos problemas mais difíceis, e muitas vezes. Por exemplo, antigamente havia uma doutrina chamada «direito divino dos reis». Segundo ela, Deus dava aos reis e rainhas o direito de dominarem sobre o seu povo. E nesses tempos isso significava mesmo dominar. «Dominar» não era assim tão diferente de «possuir». E muitos membros eminentes do clero defendiam que isto estava claramente escrito na Bíblia. Era a vontade de Deus. Teólogos seculares eminentes, como Thomas Hobbes, defendiam exactamente o mesmo. E, no entanto, houve uma incrível sequência de revoluções a nível mundial - a americana, a francesa, a russa, entre outras - que levaram hoje em dia a um planeta em que ninguém, excepto algum imperador atávico de um país pequeno e jovem, acredita no direito divino dos reis. Tornou-se uma espécie de embaraço. É algo em que os nossos antepassados acreditavam, mas nós não, nestes tempos mais esclarecidos.

(cont.)

Sobre o mundo do trabalho


Caso prático para o Direito do Trabalho, por Francisco Teixeira da Mota, no Público.


quarta-feira, 19 de março de 2014

Era melhor do que o Rooney





"Alex, ele é melhor do que o Rooney!"

Comentário do assistente de Alex Ferguson, Martin, para o seu líder, após ter ido, propositadamente, ver jogar Anderson, no FCP, para, em definitivo, ser contratado pelo Manchester United. Palavras citadas na autobiografia do treinador escocês.


terça-feira, 18 de março de 2014

A melhor da minha geração




Vai ser Nobel, depois de passar pelo prémio Champalimaud. Para já, o paper em The New England Journal of Medicine. E quem não adivinharia, ao conhecê-la desde sempre brilhante, absolutamente brilhante em todas as matérias, disciplinas sem excepção, precocemente independente, madura, sem soberba e com uma grandeza por todos reconhecida? Feliz ao vê-la, agora, cientista publicada entre os maiores, médica por vocação, disponível para melhorar o mundo. Uma grande transmontana, uma cidadã universal. Com a vénia mais clássica, feita de memória, de eterna admiração. Parabéns, Lara!


Personagens


Dos personagens por si criados, Mário de Carvalho confidenciou à Ler que escolheria Lúcio Valério de Um deus passeando pela brisa da tarde.


Para o dia do pai







LUCA, Erri de, Em nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007.


Com as mãos entrelaçadas no ventre liso eu tocava a própria pele para sentir na ponta dos dedos a minha vida mudada. Era para mim o dia primeiro da criação[1].
Não me importava das consequências, de um momento para o outro eu já não pertencia à lei. Tentava lembrar-me, mas vinha só uma alegria, uma festa por aquele nicho no corpo que me fazia mãe sem ajuda de homem[2].
Com a ternura veio a gratidão. Ele tinha acreditado em mim. Contra todas as evidências, punha-se nas minhas mãos. Não movera no seu belo rosto um único músculo de suspeita, um franzir de sobrancelhas, um olhar oblíquo. Tinha acreditado em mim, sentia-me feliz e acalentada de gratidão por ele. Hoje sou tua mais do que antes, mais do que a promessa[3].
Choviam insultos sobre os seus ombros. Estava a deixar-se lapidar em meu lugar[4].
Não tenho nada de especial, sou o teu recipiente[5].
Mas foste colocado dentro de mim por um sopro de palavras, não por um sémen[6].
É também teu filho, Iosef, defendeste-lhe a vida. É teu filho duas vezes, porque deste também à mãe uma segunda vida[7].
Miriàm, sabes o que é a graça? (…) É a força sobre-humana de uma pessoa enfrentar o mundo sozinha e sem esforço, de o desafiar inteiro para um duelo sem sequer se despentear. Não tem que ver com o feminino, é dote de profetas. É um dom, e tu recebeste-o. Quem o possui é livre de todo o receio[8].
O engano não está com ninguém, Miriàm. O facto é que tu és a excepção mais especial, e eles não têm suficiente coração para o entender e julgar. É uma questão que requer amor à primeira vista, enquanto eles se atrapalham com os códigos, com os hábitos. Para eles tu és a pedra de empecilho, para mim és a pedra angular por onde começa a casa.[9]
Não nos pede apenas tributos, mas que reconheçamos a sua divindade. Nisso, connosco não vai levar a melhor. Estamos já atribuídos a outra propriedade, somos já caução paga para o mundo que há-de vir[10].
Não diga isso, meu homem, é Ieshu do verbo salvar porque tu o salvaste. É Ieshu, o salvo[11].
Não, Iosef meu, tu não és culpado, não fugiste e agora estás aqui. Foste o mais corajoso dos homens. O anjo guiou-te por uma noite, mas logo vieram os dias e ele não estava quando te puseste contra toda a comunidade de Nazaré, contra a tua família, contra a lei que me condenava. E foste isolado durante meses e calaste com a mesma firmeza com que os profetas falam. Tu és o mais justo dos homens na terra[12].
A viagem terminou e tu esperaste pela chegada para nascer. És um bom menino, sabes esperar. Agora nasce, que o teu pai espera por ti. Chama-se Iosef, quando entrar dizemos-lhe: querido Iosef, eu sou Ieshu, teu filho[13].
O teu pai na terra é um homem corajoso, tu irás parecer-te com ele[14].
Não vens do suor dos abraços, de nenhuma gota de homem, mas do vento seco de um anúncio. (…) Acostuma-te ao deserto que me transformou em tua mãe. Vieste dali, do vazio dos céus, filho de um cometa que desceu até ao meu degrau. Não é o recenseamento que nos desloca, mas uma via desenhada lá em cima[15].
Mas tu, filho de um vento sobre mim, serás um vaso de frases. (...) Basta pouco entre nós para acabarmos excluídos: uma opinião sobre um artigo de lei, sobre o amor, como o nosso Iosef, que foi banido pelo povo por nos proteger[16].
(Senhor) Promete-me isso: que não irás seduzi-lo aos vinte anos, tal como fizeste com o teu irmão Jeremias, que conheceste também enquanto ainda no ventre. Aos vinte anos é um alívio inflamar-se por uma ideia, por um impulso de verdade e justiça. Que não seja essa a hora do seu chamamento. Que não seja antes dos trinta, antes que seja homem feito, de escolhas meditadas. Então, se permanecer firme a tua vontade que mo pôs no ventre, eu própria irei oferecer-to como fez Hanna, mãe de Samuel. Ela levou-o passado três anos, concede-me a mim os trinta. Irei chamá-lo a agir, prometo-o. (…) Não digo: que assim seja. Digo: Que não seja antes dos trinta[17].




[1] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 20.
[2] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 20.
[3] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 26.
[4] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 30.
[5] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 36.  
[6] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 37.
[7] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 38.
[8] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 40.
[9] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 44.
[10] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007,56.
[11] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 63.
[12] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 64.
[13] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 73.
[14] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 75.
[15] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 77.
[16] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 79.
[17] LUCA,  Erri de,  Em Nome da Mãe, Quetzal Editores, Lisboa 2007, 82.