sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Na demanda do bom professor





Ao nível do professorado, empatia deverá significar, suplementarmente, o reconhecimento do outro, do aluno, como pessoa, que merece (o meu) respeito, (a minha) atenção e escuta, mesmo que a relação, em sala de aula, não seja entre iguais, existindo um grau de verticalidade (relacional), em virtude de diferenças ao nível da missão e do papel de cada um (subjazendo, a tal desigualdade, um grau de conhecimento, formação académica, especialização, maturidade bem diversos), e em que a conduta/atitudes e valores, mormente de jovens em formação, não podem deixar de ser escrutinados (Navarro, 2010).


Referências bibliográficas (IV)


O termo «ciberespaço» foi criado em 1984 por William Gibson, na sua obra de ficção científica Neuromante.

Referências bibliográficas (III)


A expressão «geração Y» apareceu, pela primeira vez,  em Agosto de 1993, num editorial da revista Ad Age.


Conceito clássico de 'profissão'


Durante séculos, o conceito de profissão esteve confinado, exclusivamente, a três actividades humanas: sacerdócio, prática da medicina e do Direito (Navarro, 2010). No quadro de comunidades em que o religioso assumia preeminência, a vocação tomava um carácter de (divino) chamamento (a uma determinada missão no mundo) que, nas sociedades modernas, se transmutou em serviço, ou desempenho, competente à sociedade. Que tal não seja (indevidamente) traduzido por uma tecnocracia asséptica, a realizar de modo burocrático, é algo que importa sublinhar. 


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Os meus dias (VI)


E, por vezes, um murro no estômago: sabe, o M. está assim, porque o pai ficou desempregado. E ele é muito sensível ao que se passa com os outros.

Qualidades parentais? Professor, o meu pai abandonou-me!


É verdade que vão expulsá-lo?, pergunta a avó do I., em lágrimas.


Sobre a 'teoria dos três mundos', de Popper (IV)


Neste contexto, Popper não quis – ignorava como – resolver a questão. O que pretendeu, ao invés, foi disponibilizar uma teoria original sobre o tema. Partiu da epistemologia que havia desenvolvido: os problemas e as tentativas de resolvê-los através de hipóteses, ou conjecturas precedem qualquer observação; a ênfase do filósofo no carácter teórico do conhecimento humano leva-o a acreditar que a nossa humanidade se encontra enraizada no “Mundo 3” (Popper, 2001, p.55). O excurso visou demonstrar que o “Mundo físico 1” se encontra aberto ao “Mundo 2” mental e que o “Mundo 2” se liga ou interage com o “Mundo 3”; que a autoconsciência humana é incompreensível sem a existência do “Mundo 3”. A autoconsciência encontra-se enraizada neste último (mundo). Geneticamente, o “Mundo 3” é tanto produto do “Mundo 2”, como o “Mundo 2” é produto do “Mundo 3”. Ou seja, “somos o produto dos nossos produtos, da civilização para a qual todos nós contribuímos” (Popper, 2001, p.55).


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A televisão e a política





A política é para passar na TvCabo. Cada vez menos nos canais generalistas. Impensável um programa de informação/debate político estar no ar na TVI – hoje, como no futuro. As afirmações são de José Alberto Carvalho, em entrevista ao Público e mostram uma realidade muito cristalina: também no audiovisual, quem não tiver dinheiro, é tratado como cidadão de segunda (ou de quinta), a quem bastam uns reallity shows, uns concursos pimba e umas novelas. Não me digam que não há espaço, e de que maneira, para um papel central na formação de uma informada/conhecedora cidadania, por parte de um canal público de televisão. Quem entende que sem outra formação (cidadã) estaremos sempre sujeitos às inevitabilidades não problematizadas e impingidas como se de verdades científicas se tratasse, tem aqui um bom campo de combate: por uma RTP (fora do cabo) muito melhor do que a actual.


Sobre a 'teoria dos três mundos', de Popper (III)


Há, em síntese, objectos que tanto pertencem ao “Mundo 3” como ao “Mundo 1” e outros que tanto pertencem ao “Mundo 2” como ao “Mundo 3”. Finalmente, há objectos que pertencem, exclusivamente, ao “Mundo 3” – ex: uma prova ainda não descoberta na qual um matemático está hoje a trabalhar e amanhã descobrirá (Popper, 2001, p.48).
Como os processos de pensamento no “Mundo 2” se encontram, presumivelmente, ligados aos acontecimentos no cérebro e, logo, a acontecimentos físicos no “Mundo1”, o problema corpo-mente está, em absoluto, lançado; quer dizer, e numa palavra: como, afinal, os nossos processos de pensamento se encontram ligados aos acontecimentos no cérebro no “Mundo 1”?
Sistematizando, com James Rachels (2009), diremos que ao problema corpo-mente foram oferecidas várias soluções:
i)o dualismo cartesiano – corpo e alma são substâncias diferentes (corpo: substância material; alma: substância imaterial; os factos físicos são factos sobre o corpo, enquanto os factos mentais são factos sobre a mente). A grande objecção que aqui se coloca “é que parece inconcebível que uma mente não física possa interagir com um corpo físico” (Rachels, 2009, p.115). Esta teoria, no séc. XX, “enfraqueceu por não se ajustar à imagem científica emergente da natureza das pessoas (…) a teoria desapareceu em grande medida da ciência e da filosofia” (Rachels, 2009, p.116/117);
ii) uma primeira teoria materialista - o Behaviorismo: uma vasta colecção de átomos é tudo o que (nós, humanos) somos – os nossos corpos não estão ligados a parte fantasmagóricas, afirma o materialismo. Os behavioristas buscam padrões de estímulo e resposta e formulam leis gerais que nos dizem como o comportamento é moldado por inputs físicos. Entre destacados defensores desta perspectiva, Gilbert Ryle sustentou não passarem os estados mentais de comportamentos: “estar furioso é ser agressivo, gritar, dizer palavrões, atacar ou virar as costas a alguém” (Rachels, 2009, p.119).
Depois de meio século de popularidade, também o behaviorismo seria rejeitado: cada um de nós tem consciência de ter percepções e/ou pensamentos ainda que não esteja a ocorrer qualquer comportamento; é insondável o padrão de comportamento inerente, p.ex., a ouvir uma composição de Beethoven; duas pessoas podem comportar-se de modo idêntico, ainda que repousem em estados mentais diferenciados;
iii) a segunda teoria materialista: identidade mente-cérebro: os acontecimentos do cérebro causam experiências mentais. As experiências do médico Wilder Penfield corroboravam a convicção de que a mente era o cérebro. Esta identificação foi vista como “uma das grandes descobertas da neurologia do século XX” (Rachels, 2009, p.123). Os acontecimentos mentais não são fantasmagóricos (como foi lida a hermenêutica cartesiana da relação corpo-mente), nem comportamentais (como defendiam os behavioristas), mas (são) neurológicos.
Se ‘sentir dor’ é semelhante a ‘ocorrências neuronais’, então, p.ex., pensando em outras formas (possíveis) de vida, com (existência de) outros seres, não compostos por neurónios, noutro planeta, a conclusão seria que a dor, neles, não existiria, o que é uma extrapolação que parece poder ser precipitada.

Tudo sopesado, “por agora, ninguém sabe como resolver o problema mente-corpo” (Rachels, 2009, p.136).


Mobilidade social





Vejam aqui a relação entre emprego (tipo de trabalho) dos pais e resultados dos filhos (nos testes PISA). Olhem, por um lado, para Portugal. Depois, vejam o desempenho de Finlândia, Japão ou Suécia. 


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Perdido


Há muito tempo que não me sentia tão perdido num filme como ontem ao ver Post Tenebras Lux


Sobre a 'teoria dos três mundos', de Popper (II)


Se proceder ao distinguo entre “Mundo 2” e “Mundo 3” poderá, prima facie, afigurar-se-nos como difícil mister, tomemos a dicotomia subjectivo/objectivo como critério pertinente de separação de fronteiras: o campo dos processos de pensamento subjectivos seria o do “Mundo 2”; o dos conteúdos de pensamento objectivos enformaria o “Mundo 3”. Todavia, Popper vai mais longe, situando, suplementarmente, problemas e argumentos neste “Mundo 3” (Popper, 2001, p.44).
Acometida ao filósofo a tarefa de demonstrar e desenvolver, pelo exemplo, a tese proposta, assentará Karl Popper, na imagem do arranha-céus – por um lado – e na descoberta dos números primos – por outro -, a dilucidação da solução que nos oferece em chave de leitura realista das relações corpo-mente.
Desta sorte, sublinhemos como o arranha-céus é construído com base em um plano, tributário, por sua vez, de uma, ou várias, teorias (“Mundo 3”) que afectam a consciência (“Mundo 2”) dos técnicos (arquitectos) que as manejam até ganharem operatividade no terreno físico (“Mundo 1”), onde podemos ver a laborar escavadoras, tijolos, pedra. Sobejam, do exercício vindo de descrever, consequências de montante no âmbito da pesquisa promovida: desde logo, o “Mundo 3” é real; em parte, autónomo e independente do “Mundo 2”; o “Mundo 3” exerce um efeito indirecto sobre o “Mundo 1”, através do “Mundo 2”; o exemplo evidencia a realidade dos três mundos (Popper, 2001, p.44/45)
Visando refutar, com assertividade, os filósofos que entendem existir os “nossos pensamentos”, mas não os “conteúdos em si” - trata-se, para tais pensadores, de abstracções, fantasias mentais -, a matemática é convocada a debate. A soma e a multiplicação são invenções humanas, mas as leis da soma e da multiplicação, não – sustenta Popper; do mesmo modo, os números primos – números indivisíveis que são o produto de si próprios pela unidade - não foram inventados, mas descobertos na sequência do acto de contar. Há uma existência em si, autónoma, independente destes conteúdos (leis da soma ou multiplicação, ou números primos). Números primos, aliás, analogia produzida, como a montanha do Everest, cuja existência é causa da sua descoberta (pela equipa topográfica indiana). 


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sobre a 'teoria dos três mundos', de Popper


Da Teoria dos três mundos, de Karl Popper

Detido sobre a vexata quaestio das relações corpo-mente - “trata-se do problema mais profundo e mais difícil da filosofia, o problema central da metafísica moderna” (Popper, 2001, p.42), Karl Popper, austríaco filósofo da ciência, interessado e motivado pelos fundamentos e metodologia das ciências naturais, pensador (contemporâneo) relativamente ao qual existe, hoje, consenso bastante face à solução, por si preconizada, de demarcação entre a verdadeira ciência e suas imitações, a saber, a apresentação, ou não, respectivamente, de teorias genuinamente falsificáveis (Blackburn, 2007) produziria, a 8 de Maio de 1972, em Mannheim (Alemanha), uma palestra, intitulada Notas de um realista sobre o problema corpo-mente (Popper, 2001), na qual apresentaria a sua singular compreensão do problema, expondo e explorando, detalhadamente, a teoria dos três mundos.
Subjacente à investigação sub judice o fundamental topoi da humana liberdade e, outrossim, da posição do homem no mundo físico.
De modo esquemático, procuremos, ab initio, delimitar os três mundos registados pelo filósofo de Viena: a) o “Mundo 1” corresponde ao cosmos/mundo físico; b) o “Mundo 2” é o do universo dos processos da consciência humana; c) o “Mundo 3” encontra-se nas criações objectivas, nos produtos, da mente humana; nas teorias (falsas, inclusive) (Popper, 2001, p.43). Concretizando, assinalar-se-ia filiarem-se, por exemplo, as obras literárias e artísticas, como as óperas e concertos de Mozart, no “Mundo 3”; ao “Mundo 2” pertencerem os processos de pensamento subjectivos; os acontecimentos ou os objectos físicos, como pedras, árvores, animais acharem-se no “Mundo 1” (Popper, 2001, p.44).


Pub: logo, no Teatro de Vila Real




Para ver a partir das 22h.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Descaracterização (II)


Manuel Carvalho, no Público:


O PSD sente-se desmemoriado. Não se sabe que livros anda a ler o primeiro-ministro, e ainda menos que reflexão produziu para deduzir tanta vitalidade social-democrata no seu partido. Não devem ter sido leituras de Bernstein ou de Gunnar Myrdall, nem o estudo da acção de Olof Palme ou de Willy Brandt. E, por simples causalidade, nem a inspiração de Sá Carneiro. Talvez Passos e o seu estado-maior acreditem com razão que as ideias e os programas políticos são evolutivos, que não se podiam aplicar num país aflito do século XXI as receitas de há 100 ou 50 anos. Talvez consintam que lhes basta um pouco de sensibilidade social e de amor pelo próximo para se reclamarem de esquerda. Ou talvez julguem que nestes tempos de relativismo baste salvar dos cortes quem recebe 500 euros por mês para proclamar uma política de justiça social e de redistribuição.




Inferno e a tarefa de uma vida





Não li (ainda) As cidades invisíveis, de Italo Calvino. Mas fixei, do breve excerto escolhido por Nuccio Ordine, em A utilidade do inútil (versão castelhana), a bela exortação de um personagem daquele enredo a considerarmos o inferno no aquém, realidade já manifesta, mas a nele sabermos distinguir o que e quem no inferno, não são inferno. E a esses dar-lhes espaço e fazê-los durar. Tarefa de uma vida, de facto.
Também há quem aceite o inferno e acabe por se (con)fundir com ele, deixando de ver que ele existe, adverte o sábio personagem.


Vítor Gaspar (II)


No livro de entrevistas conduzido por Maria João Avillez, Vítor Gaspar – “agora um deus da minha área política”, na expressão de António Nogueira Leite, em entrevista à TSF, na noite da última sexta-feira – faz a selecção dos economistas que lê e em que se inspira: Milton Friedman, Friedrich Hayek, John Maynard Keynes, Joseph Schumpeter, Douglass North (p.98). Dos menos conhecidos, Knut Wicksell e Frank Ramsey.
Keynes, “escreve maravilhosamente bem. É um prazer lê-lo” (p.101). Talento que hoje parece reservado, apenas, segundo Gaspar, a Paul Krugman: “um artista da língua inglesa” (p.102).
Se, para os autores ‘social-democratas’, o elogio se centra em qualidades estéticas (de escrita), diferente é o caso de outros economistas evocados: “Friedman é o autor que, ao longo da sua carreira, possui um programa de investigação com mais afinidades com questões que me têm ocupado” (p.100) e é alguém por quem o ex-ministro das Finanças português tem “uma rasgada admiração” (p.101). Milton Friedman que, aliás, ficámos a saber através desta obra, chegou a discutir, por escrito, um artigo de Gaspar (escrito em co-autoria com Otmar Issing).
Hayek influenciou o entrevistado de Maria João Avillez por “razões substanciais e por afinidades de interesses, mas também porque, em alguns assuntos que são muito importantes para mim, a sua abordagem afigura-se-me exactamente a correcta” (p.99).
Em outro tipo de leituras, dado que o entrevistado lê mais “não-economistas do que economistas” e gosta bastante de ciência política, escolhe John Rawls, Karl Popper, Robert Nozick, Hannah Arendt, Isaiah Berlin, Immanuel Kant, Michael Walzer e Michel Foucault (nestas escolhas, maior equilíbrio…ideológico).
Para finalizar com humor, Gaspar diz ter notado que desde que passou por Portugal Paul Krugman é muito menos citado…por cá.


Descaracterização


Pacheco Pereira, no Público:

O que é importante, é outra coisa, é a descaracterização do PSD como partido social-democrata. Eu sei que me repito, mas às vezes é preciso. O PSD é o fruto de uma síntese única na vida política portuguesa entre o liberalismo político dos nossos "liberais" oitocentistas, com sequência nalgum republicanismo moderado, na oposição à ditadura não comunista, na "ala liberal", com o personalismo cristão, compreendendo a doutrina social da Igreja, e por fim, last but not least, a tradição da social-democracia alemã e nórdica, ou seja do princípio de que o estado deve ter uma função essencial de garantir a justiça social, seja criando oportunidades iguais a todos, por exemplo, por via da educação universal e obrigatória, mas acima de tudo pela garantia de que os frutos da riqueza de um país, são distribuídos em primeiro lugar pelos que mais precisam. O PSD considerava-se um partido da "classe média", dos self made man, do mundo do trabalho intelectual e fabril, a que atribua o valor de elemento fundador da dignidade humana. Agora parece um blogue radical de direita, de gente que acha que a culpa de tudo é sempre dos mais fracos, trabalhadores dos estaleiros, funcionários dos escalões inferiores, velhos, pensionista e reformados.


Querer conhecer






Samuel SILVA, (entrevista) Hubert REEVES: “Não acredito que os seres humanos possam exterminar a vida”, Público, 15. 02. 2014, 32-33.



Publicou Um Pouco mais de Azul há mais de 30 anos, o livro que o lançou numa carreira com mais de uma dezena de títulos de divulgação científica. Tem também uma carreira científica notável. Cosmólogo, nascido no Canadá, fez de França a sua casa depois de se ter sido escolhido para director do Centro Nacional da Investigação Científica.
As mãos de Hubert Reeves traem-no quando tenta abrir uma garrafa de água. Aos 81 anos, a destreza física começa a faltar-lhe, mas a forma enérgica como expõe o seu pensamento permanece intocada. Continua a ler as principais revistas científicas “por prazer”, mas também “por dever”: “Se as pessoas querem que eu seja capaz de lhes falar sobre as últimas novidades, preciso de estar actualizado.” Reeves esteve na Porto Business School, na última quinta-feira, para uma conferência sobre Cosmos, Sustentabilidade e Responsabilidade, onde explora algumas das ideias do seu último livro editado em Portugal “Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação” (Gradiva). Em breve deverá editar um novo livro sobre o mar, a Terra e as placas tectónicas, dedicado ao público juvenil.

PÚBLICO – Ainda fala de ciência com o mesmo entusiasmo que tinha nas primeiras palestras feitas nas noites das suas férias em França, nos anos 1970?
Hubert Reeves – Tanto quanto consigo ver, sim. Para mim é sempre muito importante poder falar de ciência.

Quando percebeu que a ciência podia ser interessante para uma audiência mais vasta?
Era estudante e dava palestras em Montreal [Canadá]. Um dia fui dar uma palestra a uma escola de estudantes problemáticos. A directora da escola estava à espera que eles fossem grosseiros comigo ao ponto de ela e outro professor terem ficado à espera à porta, na expectativa de terem de me ajudar. Mas não houve problemas e para mim foi uma experiência agradável.

E nessa altura percebeu que a ciência não interessa apenas aos cientistas?
Sim, em particular a astronomia. É um assunto agradável, porque fala para as pessoas. É uma área onde podemos compreender, fazer física, mas também podemos sonhar. E isso é um bom tema para uma audiência. Esta história passou-se no Quebeque, de onde sou, e encontro alguma similitude com Portugal. Temos uma história análoga: quando eu era miúdo, o Quebeque era uma região muito religiosa, onde o conhecimento e o ensino eram completamente governado pelos padres e pela Igreja. Em 1960, aconteceu o que chamamos a “Revolução Tranquila” e isto mudou completamente as coisas. Costumava ser ensinada às pessoas uma verdade eterna e, de repente, foram deixadas no vácuo. Por alguma razão, a astronomia tornou-se muito importante para preencher esse espaço. E encontro coisas muito semelhantes em Portugal, depois de 1974 e da Revolução dos Cravos. Passou a haver um grande interesse em olhar para as questões do Universo. Havia gente que vivia numa espécie de certeza e, de repente, teve a necessidade de pensar sobre estas coisas. Agora as pessoas estão sozinhas e não há uma autoridade que lhes diga o que pensar.

Na ciência, é sempre preciso ter dúvidas?
Fundamentalmente, sim. Questionar tudo. Por que devo acreditar nisto? Em que devo acreditar? E, muito frequentemente, a ciência não dá a resposta. Uma questão simples sobre a bomba atómica: devemos fazer bombas atómicas? A ciência não responde a isso. Diz como se faz uma bomba, mas não diz se a devemos fazer.

Desde a década de 1980, quando começou a publicar livros, houve mudanças na forma como as pessoas acolhem a ciência?
A corrida à Lua abriu um grande interesse pela ciência e pela astronomia. E isto voltou a sentir-se agora com a exploração de Marte. Tinha sido dito que este interesse ia diminuir, que não ia haver um grande espectáculo como no tempo de [J. F.] Kennedy, [antigo presidente dos EUA], mas a Internet mostrou que o interesse das pessoas pelo tema ainda é muito grande.

Está no campo da divulgação científica há décadas e publicou vários livros. Qual é a grande diferença que sente com a Internet?
Todo o conhecimento está lá, o que não era de todo o caso nos anos 1970 ou 1980. O que não mudou é que continua a ser preciso alguém para intermediar. Mesmo que o conhecimento esteja lá, as pessoas que não conhecem não vão procurá-lo espontaneamente. E isso é um papel importante do “apresentador”, que é quem diz: “Aqui está alguma coisa que pode interessá-lo.” A Internet até tornou mais importante o papel do intermediário.

Nos seus livros, torna interessante ler sobre o assunto. Por que é que isso importante?
Se os livros tiverem apenas ciência árida, não vão despertar interesse em lado nenhum. A ciência diz-lhe alguma coisa acerca da sua origem e toda a gente está interessada em saber de onde vem e qual é a história. Mas é importante que alguém diga que a química, a física, a geologia, são todos capítulos desse sítio de onde alguém veio.

Acredita que a divulgação tornou as pessoas mais conscientes da necessidade de ter em conta as descobertas científicas?
Tem de haver alguma coisa entre a religiosidade – num sentido absolutamente naïf – e a ciência pura. Não é preciso fazer parte de nenhum grupo evangelista, nem negar toda a possibilidade de espiritualidade. As pessoas hoje podem decidir por si.

Como é que um homem de ciência vê o debate crescente nos EUA sobre o criacionismo?
É ridículo. Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo.

Mas já há estados dos EUA onde há a possibilidade disto ser ensinado nas escolas.
Acho que essa é mais uma questão política do que uma questão científica. Há uma pressão social e política de algumas pessoas com interesses. É difícil ver que um miúdo que tem algum cérebro possa acreditar que o mundo foi feito há 4000 anos. E é o caso. Acho que é inútil lutar contra o criacionismo.

O debate na Europa acerca da utilidade da ciência também é uma arma política?
Não vejo que seja esse o caso na Europa. Vejo antes neste sentido: acreditou-se durante todo o século XIX que a ciência traria felicidade ao ser humano e o século XX mostrou que não era assim tão simples. A ciência em si mesma não é garantia de tornar as pessoas felizes. E há uma decepção daqueles que pensaram que a ciência traria felicidade à humanidade.

Todo o conhecimento tem de ter uma aplicação?
É uma questão de escolha pessoal. Algumas pessoas, como eu, pensam que o conhecimento é importante por si mesmo, independentemente da sua aplicação. Queremos perceber este mundo, o que significa a vida. E algumas pessoas não estão interessadas nestas respostas. Mas há uma grande quantidade de pessoas que está interessada em ter um novo conhecimento na ciência. As pessoas têm o direito de saber como a ciência é uma descoberta.

Como olha hoje para o seu primeiro livro, Um Pouco mais de Azul, de 1981 [editado pela Gradiva em 1983], e a sua primeira experiência na divulgação científica?
Fico sempre muito contente quando algumas pessoas me dizem que foi importante para elas. Isso foi o que descobri entretanto, porque quando lancei o livro não tinha ideia alguma do que aconteceria. Quando algumas pessoas me dizem que foi muito importante, que o tiveram na mesinha de cabeceira, isso é gratificante para mim.

Ainda há pessoas que ficam chocadas quando diz que o Sol vai morrer em 5000 milhões de anos?
Não, acham que é tempo suficiente.

Mas quando se diz isso, parece haver uma ideia pessimista.
Por que diz isso?

Porque nos mostra que há um fim na vida.
Não necessariamente. Há outras estrelas, algumas das quais viverão muito mais tempo do que o Sol. Isso não significa o fim da vida no Universo. O futuro longínquo da física do Universo está cheio de incertezas, mas não diria que possa dizer-se que é o fim. Será realmente um problema, mas há outras estrelas que continuam. Se houver vida à volta dessas outras estrelas, a vida pode continuar.

No seu último livro diz que a beleza do mundo está ameaçada pelo ser humano. É uma ideia que explorou em O Tempo do Deslumbramento em que falava numa “pulsão de morte”. Estamos mesmo a caminhar para uma destruição da vida na Terra como a conhecemos?
Não sabemos. O futuro é desconhecido. Não acredito que os seres humanos possam exterminar a vida. Ela é muito robusta, muito mais adaptável do que pensávamos antes. Encontramos sempre novas formas de vida que são muito mais resistentes do que pensávamos e por isso ela continuará.

Mas não como a conhecemos?
A humanidade poderá não estar lá. Os vírus e as bactérias, ninguém sabe. São muito robustos e podem viver muito mais tempo. A questão é o futuro do ser humano. Possivelmente, mais tarde, outra espécie animal poderá desenvolver inteligência. Há poucos milhões de anos, uma espécie recebeu um dom da natureza e uma inteligência fantástica e é hoje em dia este dom que ajuda estas pessoas a viver num ambiente hostil. Mesmo que a humanidade desapareça, ninguém sabe o que pode acontecer dentro de 100 milhões de anos.

É como um historiador: pode entender o passado, mas não pode prever o futuro.
Nesta área, podemos dizer quais são os perigos, mas é impossível dizer o que acontecerá. Quase sempre as pessoas tentaram fazer estas previsões e falharam.

Como vê as alterações climáticas e o desentendimento entre os países nesta matéria?
Pensamos que se a temperatura subir dois graus [Celsius], o clima deixará de poder ser gerido. As previsões actuais são mais próximas de uma subida de três ou quatro graus e isso vai tornar a vida extremamente difícil.

Foi muito crítico com os discursos políticos sobre esta matéria. É importante começar a agir e não apenas produzir documentos?
O Protocolo de Quioto foi uma tentativa positiva, mas o sucesso não foi o que se esperava. A questão é sempre dinheiro. O Canadá, que há uns anos era muito verde, agora descobriu petróleo em Alberta e mudou completamente de política. O dinheiro está primeiro.

A conferência que deu no Porto foi complementada como uma apresentação de “boas práticas” de empresa portuguesas em termos de sustentabilidade. Este discurso chega de facto às empresas?
Há progressos em muitos casos e esforços que vão no sentido certo. Não sou de todo pessimista nesse sentido. Mas há sempre esta questão de dinheiro. O exemplo que dou é o de Fukushima, no Japão. Como é que um país que tem os melhores engenheiros do mundo e alguns dos melhores cientistas, decidiu colocar um reactor nuclear numa das regiões sísmicas mais activas e protegê-la com um muro de seis metros, quando se sabe que um “tsunami” chega a 20 metros de altura? Se fosse no mundo em desenvolvimento, podia dizer-se que eles não sabiam, mas aqui não. A resposta é que a segurança e o lucro não andam juntos. Isto é puramente humano e será sempre o problema. As pessoas correm sempre risco para ganhar dinheiro e, às vezes, mesmo que o evento possa ser muito raro, ele acontece.

O dinheiro e a sustentabilidade podem alguma vez ter um terreno comum?
É o que esperamos. Mas quando olhamos para o que acontece, temos exemplos claros contrários.

Os seus livros têm referências constantes à literatura e às artes plásticas. Como vê a relação entre a ciência e a arte?
A ciência diz como é que o mundo funciona. É uma operação racional, mental. A arte é mais o sentido de maravilhamento do mundo, da imaginação. Ambas são fundamentais para o ser humano. Se alguém está apenas no mundo racional, “seca-se”. Se está apenas no da imaginação, enlouquece. São dois pilares para um desenvolvimento saudável dos indivíduos. Essas pessoas estão impressionadas com o mundo, a nossa vida, o nosso corpo. Mas quando se é um artista, não se está apenas a contemplar o mundo, está-se a usar este poder da imaginação para criar. O cientista é o que tenta entender com lógica, o artista é o que tenta recriar algo que faz as pessoas felizes.

Há um par de anos publicou um livro para jovens. É diferente escrever para pessoas jovens e para um público adulto?
Escrever para crianças é particularmente difícil. É preciso manter a todo o tempo o seu interesse e compreensão. Quando se escreve, é preciso ter um objectivo e ter sempre em mente que os leitores vão continuar a ler. A dificuldade é esta: se eu usar esta palavra, o leitor vai entender? Tem de se evitar que a pessoa que está a ler o livro pense que não é suficientemente inteligente para o entender.






sábado, 22 de fevereiro de 2014

O livro de Vítor Gaspar, numa frase





"Vítor Gaspar arrependeu-se de se ter arrependido na carta de demissão"

António Costa, Quadratura do círculo, 20/02/14.


Momento


Muito inteligente, muito bem feito, no conteúdo e na forma, o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, no Congresso do PSD. Sábio, até. Um momento vintage do Professor.


Universidade






No Público:

A universidade de excelência

António Guerreiro


Durante quase dois séculos, desde a fundação da Universidade de Berlim, pelos irmãos Humboldt (Wilhelm e Alexander), em 1810, a palavra-chave do pensamento sobre a instituição universitária foi “ideia”: a “ideia de universidade”, implicando um processo e uma busca ilimitadas e incondicionadas (seguindo os ditames do conhecimento), representou um programa utópico nascido do Iluminismo. Nas últimas três décadas, a palavra mágica que se impôs, primeiro nos Estados Unidos e depois na Europa, é “excelência”. Os centros de investigação e universitários “de excelência” destituíram a “ideia” que tinha presidido à universidade moderna. De Hegel a Derrida, passando por Karl Jaspers e muitos outros, a ideia de universidade foi ganhando definição, em função dos desafios, das ameaças e das solicitações da época. Mas a “excelência”, apesar do amplo uso a que o qualificativo tem hoje direito, permanece um conceito vazio, embora dotado da força cega que lhe é conferida por uma triunfante ideologia da avaliação. Tal como dinheiro, a excelência non olet, não cheira. E, na medida em que é completamente privada de conteúdo, não é verdadeira nem falsa, mas presta-se ao acordo categórico, a um assentimento respeitoso de todos. Uma das mais fortes e mais citadas análises desta situação foi feita por um professor de Literatura Comparada da Universidade de Montreal, Bill Readings, num célebre livro de 1995, chamado The University in Ruins (o autor morreu num desastre de avião quando já tinha revisto as provas do livro, publicado pela Harvard University Press; há uma tradução portuguesa desse livro, pela editora Angelus Novus, de 2003). Readings mostra precisamente que o termo “excelência”, sugerindo virtuosas e altas realizações, é não-referencial e desprovido de significação, a não ser quando é determinado por critérios que acabam por ser exteriores àqueles que deviam orientar a universidade. O que pode significar a “excelência”, se partirmos da ideia — um dos factores da famigerada “ideia de universidade” — de que a universidade deve ter a capacidade de produzir conhecimento não consensual e até heterodoxo e oferecer alguma fricção — o contrário da complacência e da submissão — a um sistema que quer funcionar com toda a tranquilidade? Lembremos as recentes declarações de alguns políticos portugueses, a propósito das bolsas de investigação, para percebermos o que isto significa. O discurso da excelência pode ser ilustrado com esta “anedota” de que Readings diz ter tido conhecimento através de um colega — um ilustre colega, aliás — da Universidade de Cornell, Jonathan Culler: os serviços do parque de estacionamento da Universidade tinham sido distinguidos com a nota de “excelência” (e isso contava para a sua avaliação), na medida em que conseguiram um notável funcionamento, aumentando o espaço disponível e a eficiência do trânsito. Outros exemplos do mesmo tipo levaram Readings à conclusão de que a universidade, tal como ele a via já em 1995, estava a tornar-se uma empresa, da qual os estudantes da Universidade de Excelência são clientes. Entre nós, esta ideia de alunos como clientes pode ainda manifestar-se com algum pudor, mas é claramente explicitada como estratégia e programa de atracção de estudantes estrangeiros. A este modelo de universidade, enquanto sistema burocrático votado à busca da “excelência”, em que fica ausente a questão da integração da “cultura” (e sobretudo da cultura nacional) chama Readings “universidade pós-histórica”.



Habitus (V)


O regresso a uma sociedade “do Rei das três religiões”[1], isto é, uma sociedade com elementos de multiculturalidade – laços estabelecidos com culturas e etnias diferentes das de partida – e uma tripla filiação ao nível da cidadania[2] – ligação ao Estado-nação de origem; ao espaço europeu em que, portugueses, nos situamos; às comuns questões da humanidade em que nos inserimos. Assentes em uma ‘teologia do mercado’[3] a suscitar grandes migrações para as sociedades afluentes – nova emigração em massa dos portugueses, também, encontrando novos espaços de liberdade e configuração – e contratos laborais precários, em permanência, sendo que situações de desemprego e sub-emprego deixam de ser raras, tal como, portanto, a mobilidade profissional e residencial; presentes numa globalização, que nos cabe auxiliar, com o nosso específico contributo, a moldar; em que os novos espaços públicos se encontram na rede[4], assim se prospectivará, como atrás se adiantou, uma reconsideração, aturada, das novas condições de actuação/activação do habitus[5].



Em conclusão deste trabalho, dir-se-á que as virtualidades do conceito sociológico de «matriz de disposições» são manifestas: este permite explicar o empirismo e a lógica prática global dos comportamentos humanos, bem como a relativa pregnância de práticas sociais, apesar da volubilidade dos contextos e conjunturas e a reprodução social em geral[1]. Todavia, não podemos ignorar, do mesmo modo, e, bem assim, incluir nesta reflexão, a problematização de uma explicação das práticas sociais, em geral, e da prática científica, em especial, radicada em habitus específicos, arbítrios culturais, como podendo conter a validação da arbitrariedade, do indiscutível. Numa palavra, podemos aqui estar confrontados com o risco de relativismo[2](e dentro de uma mundividência cristã, sempre a convicção/crença de que a humana razão se iria alcandorar ao ‘objectivamente bom’, à verdade, se impôs como essencial).



[1] J.L.CASANOVA, o.c., p.63.
[2] Ibidem, p.64.


[1] Cf. A.MOREIRA, A circunstância do estado exíguo, Diário de Bordo, Lisboa, 2011.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] Cf. D.INNERARITY, O novo espaço público, Texto Editores, Lisboa, 2010.
[5] J.L.CASANOVA, o.c., p.61. “se não se trata, geralmente, de uma recomposição radical de disposições, há pelo menos razões para sugerir possíveis modificações efectivas nos habitus dos actores envolvidos, modificações essas que se deverão traduzir em inflexões nas práticas observáveis ao longo do tempo, que decorrem da existência de disposições regressivas e de disposições progressivas no que respeita à sua expressividade temporal. Uma perspectiva processual que sobreleve os efeitos de percurso (em termos de trajectórias sociais e, portanto, de alterações ao nível das condições objectivas, dos quadros de interacção ou mesmo dos grupos de referência dos actores) no processo de formação da matriz de disposições, pode, pois, contribuir para uma exploração das virtualidades teóricas deste conceito, através de uma teorização da reconfiguração do habitus e de uma diferenciação analítica entre disposições regressivas e progressivas”.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O telespectador abandonado





A noite gorda do debate político televisivo, a 5ª feira, ficou, desta vez, amputada: Quadratura do Círculo às duas da manhã?! Chovam cats and dogs na Liga europa! Onde anda Pacheco Pereira?!
Na concorrência, com alguma graça, Fernando Rosas, no bitaite da noite, chama a Francisco Assis “o profissional do ecletismo”.


Sobre o habitus (IV)


Se as instituições que, tradicionalmente, (con)formavam a pessoa – Família, Igreja, Escola, Forças Armadas, Estado – se encontram, em maior ou menor medida, em tempo de globalismo, vítimas de uma erosão que, entre outros, os ‘meios de desinibição de massas’ (P.Sloterdijk) proporcionam (e a eventual falha do projecto humanista, ‘ler amansa a alma’), em todo o caso cremos que aquela que documentos - seculares/liberais – como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, consideram a ‘célula fundamental da sociedade’ - a família - continua, mau grado todas as tentações alarmistas, a exercer um papel determinante na estruturação da pessoa. Questão diversa, e que emerge com grande premência e pertinência, é a de perceber as mutuações que a família vem incorporando. A célula da sociedade é a família; mas a família, nas décadas mais recentes, mudou. E mudou no sentido de considerar um pluralismo de modelos e experienciações - recorte de vivências familiares - que a afastam de uma aproximação monolítica (eloquentemente, quanto à nova situação vivenciada, o Papa Francisco acaba de exortar os católicos de todo o mundo a pronunciarem-se sobre o modo de acomodar, pastoralmente, tais transformações). Muito interessantemente, um conjunto de sociólogos chega, inclusive, a notar como, face às alterações verificadas no interior da família – aumento dos divórcios, diminuição da natalidade, fragilidade dos laços entre as pessoas - do ano 2000 até agora, passámos de três/quatro etapas na experiência vital de cada um, para oito ou nove momentos distintos[1]. Neste contexto, afigura-se-nos oportuna a sugestão de J.L. Casanova, quanto à contemplação da possibilidade de introdução, no nosso aparelho teorético, com vista à completa apropriação da complexidade hodierna (nomeadamente, na apreciação do habitus) de “uma noção como a de interhabitus, [que] introduzida por José Madureira Pinto, [e] centrada numa preocupação de revelação da dimensão relacional do habitus, potencia, igualmente, um entendimento mais dinâmico e menos essencialista da matriz de disposições”.


[1] Cf. Fernando Vela López (or.)  Atentos a los giros del mundo, San Esteban, Salamanca, 2006, p.185: um período, curto, em que a criança vive com os dois pais; momento, mais longo, em que a criança está, apenas, com a mãe (separada ou divorciada); tertio, adolescente vive com a mãe recasada e seu companheiro (padrasto do adolescente); quarta experiência, o jovem vive em união de facto com a sua noiva; quinto momento, casamento; sexto período, divórcio; sétima etapa, solidão e novo casamento; oitavo passo do ciclo vital, viuvez e ida para um lar ou residência da terceira idade; nona experiência, serão visitados, esporadicamente, por filhos e/ou netos. A consulta desta obra foi-nos sugerida pela leitura de B.DOMINGUES, A família: a felicidade controversa?, Público, 24/11/13, in http://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-familia-a-felicidade-controversa-1613654, consultado a 24/11/13.

Sobre o habitus (III)


Falar, portanto, de habitus é estabelecer que o individual, e mesmo o pessoal, o subjectivo é social, colectivo (Bordieu refere que "qualquer ação pedagógica é, antes de tudo, uma violência simbólica". Simbólica, porque não se cura, aqui, de uma dimensão física da violência; violência, ainda assim, porque imposta. E, completando, atente-se no facto de uma acção pedagógica só ser eficaz se acompanhada de autoridade legítima. Se a imposição estiver longe do arbitrário cultural de cada um, vai ser mais difícil tal adestramento).
Balizado o habitus no interior da conceptualização vinda de descrever, importaria, adicionalmente, procurar situá-lo face aos desafios das sociedades hodiernas e do modo como estas dialogam com/confrontam a sua caracterização. Em realidade, em múltiplos diagnósticos se tem oferecido uma imagem do nosso tempo como aquele que alberga, predominantemente, sociedades liquefeitas[1], onde os laços sociais se desvanecem, onde o fragmentário, o efémero, o perecível, o mutável adquirem especial preponderância (em detrimento do perene, do certo, do seguro, do previsível, do compromisso estável). Se uma comunidade é um laço de afectos[2], nem no interior de um mesmo meio social parece, em nossos dias, existir a convergência/comunhão de interesses e de propósitos de outrora (com uma coesão social muito questionada[3]). Neste sentido, a reprodução social, em trajectórias (pessoais/profissionais) bem menos lineares[4] do que em gerações precedentes, os habitus sucessivamente acrescentados de novas camadas (de pré-disposições) tornarão, eventualmente, a previsibilidade e as regularidades dos comportamentos mais sujeitas a uma maior complexidade de leitura (ainda que sem, de modo algum, obnubilar a capacidade explicativa que o conceito encerra, na dilucidação das práticas)[5].


[1] Cf. Z.BAUMAN, A vida fragmentada. Ensaios sobre a moral pós-moderna, Relógio D’Água, Lisboa, 2007.
[2] A. MOREIRA, O estado da nação, TSF, 10/11/13.
[3] Pense-se, por exemplo, nas dificuldades que os sindicatos vêm enfrentando num mundo pós-revolução industrial, ou no modo como a globalização vem afectando o tipo de filiações político-partidárias mais tradicionais (o caso de antigos votantes do PCF que se têm deslocado, eleitoralmente, para a Frente Nacional, em França, tem sido dado como exemplo-escola).
[4] Cf.J.M.PAIS, Ganchos, tachos e biscates. Jovens, trabalho e futuro, Ambar, Lisboa, 2001. A ruptura da comunhão de interesses, e até de linguagem, entre classe média e trabalhadores, vem sendo apontado como factor crucial para a perda de força de partidários da social-democracia que, conjuntamente com a democracia-cristã, forjaram, na essência, o contrato social que vigora na Europa e que constatamos muito ameaçado. Sobre esta quebra de interesses, leia-se, a título de exemplo, J.A. FERNANDES, A esquerda sem povo, Público, 24/11/13, in http://www.publico.pt/mundo/noticia/esquerda-sem-povo-1613668, consultado a 24/11/13. Acerca do pacto social europeu, engendrado, em simultâneo, por sociais-democratas e democratas-cristãos, leia-se T.JUDT, Pós-Guerra, Edições 70, Lisboa, 2010.
[5] M. WIEWIORKA, Nove lições de sociologia. Como abordar um mundo em mudança?, Teorema, Lisboa, 2010, mostra-nos como tendemos a descrever a nossa época como um tempo de feroz individualismo, contrapondo-o às identidades colectivas (a que antes, dizemos, pertencêramos). E, no entanto, observando de perto, o que verificamos é que “o individualismo moderno alimenta as identidades colectivas, não se limita a miná-las ou a destrui-las. Antigamente, no seio das sociedades tradicionais, quando as identidades se reproduziam, as pessoas singulares não tinham outra hipótese: o grupo, em nome da tradição, submetia toda a gente à sua lei e o indivíduo nunca era mais do que um átomo de um corpo social que se pretendia perpétuo. Mas hoje cada vez mais as pessoas singulares querem poder escolher a sua identidade, incluindo colectiva. Envolvem-se (e assim querem também poder desligar-se) enquanto indivíduos para partilhar por obra da sua decisão individual os valores do grupo a que consideram pertencer (…) Dantes, um jovem era muçulmano porque os seus pais, os seus avós, etc., o eram; hoje, e muito especialmente nas democracias ocidentais, ele explica ao investigador que o entrevista que a sua religião é fruto de uma decisão tomada individualmente”.