quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Os meus dias (IV)


De repente uns textos, centenas de páginas, sobre metodologias, procedimentos, formas e tal. Obrigatório. Uma prisão. Indómita, a vontade de regressar à liberdade do livro interrompido [Do livro sério, a sério, bom mesmo] Às vezes, irresistível. O respirar. Uma idiossincrasia, talvez. Outras vezes, indisciplina.


As minhas obsessões




Mais materialista, digamos assim, mais ideológica e menos metafísica, pelo menos em parte, a leitura de Jacques Ranciére – face à que fizéramos – de O cavalo de Turim, de Bela Tarr:

Na noite em que cai o silêncio final das personagens, está ainda a raiva intacta do cineasta contra aqueles que dão aos homens e aos cavalos uma vida humilhada, esses «vencedores» que, como diz o profeta nietzschiano do segundo dia, degradaram tudo aquilo em que tocaram, transformando-o em objecto de posse; aqueles, também, pelos quais tudo se torna impossível, uma vez que já tudo aconteceu sempre e que se apropriaram de tudo até mesmo dos sonhos e da imortalidade.


Jacques Ranciére, Béla Tarr. O tempo do depois, Orfeu Negro, Lisboa, 2013, p.119.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quanto maior formação e nível de rendimento, menos solidariedade


no Público:


Os portugueses com mais habilitações e mais rendimentos são os que dão menos importância à solidariedade, à justiça e aos valores democráticos. Esta é a apenas uma das conclusões do estudo da Universidade Católica Portuguesa e do Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano, que vai ser apresentado na quinta-feira em Mafra.
 As conclusões do estudo Literacia social: os valores como fundamento de competência, que vai ser debatido na Conferência Internacional sobre Literacia Social e que contou com o apoio da União Europeia, preocupam o investigador Lourenço Xavier de Carvalho, uma vez que serão as pessoas com mais instrução as mais propensas a ocupar lugares de liderança.
Quanto mais avançamos nos níveis de instrução, do 1º ciclo até ao ensino superior, a importância da justiça ou da solidariedade vai baixando progressivamente. São os mais instruídos e os mais ricos que desvalorizam a justiça e a solidariedade”, diz Lourenço Xavier de Carvalho, coordenador deste estudo que é também a tese de doutoramento em Ciências da Educação que apresentou na Universidade Católica em 2013.
Quando questionados sobre a importância de ajudar os outros, 86,5% das pessoas com o 1.º ciclo respondem afirmativamente, uma percentagem que baixa para 83,4% quando as pessoas têm o 2.º ciclo, para 73,5% quando têm o 3.º ciclo, que sobe ligeiramente para 76,2% quando possuem o secundário, desce para 59,2% quando têm bacharelato, ficando o valor mais baixo na fatia dos licenciados, mestres ou doutorados, com 53,1%.
A mesma pergunta cruzada com os níveis de rendimento revela que 86,4% das pessoas que ganham até 500 euros considera muito importante ajudar os outros, percentagem que vai baixando à medida que os rendimentos aumentam e que atinge o valor mais pequeno – 46,7% - quando chega ao grupo dos que ganham mais de 4 mil euros por mês.
No que toca, por exemplo, à importância dada a “lutar por uma causa justa” – o indicador usado para aferir a posição da justiça como valor social – conclui-se que os portugueses com mais instrução desvalorizam este aspecto. São as pessoas com o 2.º ciclo que mais valorizam a luta por uma causa justa (86,2%), ficando a fatia mais pequena (56,9%) para quem tem estudos superiores.
O estudo também indica que “as pessoas que têm muito baixos rendimentos, abaixo dos 500 euros, têm níveis de felicidade mais baixos” que “só são iguais aos dos níveis de rendimento mais elevados”: “Quem tem mais de 4 mil euros por mês é tão infeliz como quem tem menos de 500”, nota o investigador.
A explicação para estes dados poderá passar, segundo Lourenço Xavier de Carvalho, pela própria educação e formação que está a ser dada às pessoas: “Está associado a este fenómeno dos elevados rendimentos e dos elevados níveis de instrução serem um pouco contrários àquilo que é a harmonia social e o desenvolvimento pessoal”, explica Lourenço Xavier de Carvalho, insistindo que é preciso mudar o sentido da educação. “Continuamos a educar para o domínio material, para o domínio técnico, queremos formar profissionais competentes, que dominem bem as técnicas de cada área, e os currículos são cada vez mais técnicos. Mas na realidade não é isso que faz as pessoas mais ou menos felizes. É a dimensão humana, relacional, que está cada vez mais afastada dos currículos”, frisa, defendendo que “as prioridades do sistema educativo estão completamente erradas”.

Individualismo crescente

Para este investigador, quanto mais se avança na escala de instrução, mais os currículos são “técnicos” e “desprovidos da dimensão humana”: “As pessoas tornam-se cada vez mais competitivas, cada vez mais insensíveis ao sofrimento dos outros, cada vez se sentem menos responsáveis pelo bem comum. Acabam por ter as ferramentas de decisão, mas não têm as competências pessoais e sociais para serem bons líderes”, sublinha.
A leitura dos dados permite ainda verificar que, nos últimos dez anos, as pessoas tornaram-se mais tolerantes em relação a grupos discriminados na sociedade portuguesa, mas ao mesmo tempo mais individualistas. De acordo com o estudo, na última década, os indicadores relativos ao individualismo mostram que cresceu em média 10%. “As pessoas são mais desconfiadas do que eram, acreditam mais naquelas expressões ‘cada um por si’ e ‘olho por olho, dente por dente’.
Rendimentos e estudos à parte, o investigador verificou, porém, que, quando questionada sobre os objectivos de vida, a generalidade das pessoas revela uma aproximação a valores como “a honra, o amar e ser amado e a família”. Para Lourenço Xavier de Carvalho, é o sistema educativo e a competição que estão a afastar as pessoas do que “realmente as faz felizes”.
Neste aspecto, para a generalidade das pessoas - e não especificamente no segmento das mais letradas e ricas - a família surge no topo: “Ter uma família sólida passou a ser o mais importante de todos os objectivos de vida”, diz o investigador, precisando que a família surge como a “instituição de mais confiança para as pessoas” e em relação à qual estão dispostas a fazer mais sacrifícios. Em média, mais de 90% dos inquiridos valoriza a família - percentagem que baixa para cerca de 80% quando os níveis de escolaridade são mais elevados.
Apesar do individualismo crescente, nos últimos dez anos a maioria das pessoas - e mais uma vez, o investigador não está centrado nas variáveis do estudo/rendimento - também se voltaram mais para a espiritualidade num sentido lato, fenómeno ao qual não será alheia a crise: “1999 era o auge da materialidade, do investimento, lembramo-nos da Expo 98 e dos grandes investimentos públicos, atirava-se dinheiro para cima das coisas, dos problemas, para os resolver”, recorda o investigador.

Dez anos depois, as transformações ocorridas levaram muitas pessoas a procurar outras referências: “Em 2009 batemos no fundo, estamos no pico da crise, é muito provável que a movimentação das pessoas para a maior valorização do imaterial tenha a ver com essa experiência de crise, de perceber que, afinal, houve aqui uma ilusão de que o dinheiro, o prestígio, o estatuto, o poder, poderia resolver os problemas todos. E afinal o que resolve os problemas é a proximidade à família, são as relações harmoniosas, amar e ser amado”, nota.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Autenticidade


O silêncio não está sob controle
ninguém consegue activá-lo
sem transitar por ele

José Tolentino de MendonçaA papoila e o monge, p.41.


Os meus dias (III)


E perguntou-me onde se conseguia comprar daqueles livros. Vi-a surpreendida e entusiasmada, já me tinha dito antes, aliás, que coisas novas ali aprendia, e de novo a apanhei com o simples nome livraria.
Não são, apenas, nem sobretudo, os muito bons (todo o terreno) que dão sentido ao dia. Porque, esses, são-no connosco, ou sem nós – embora, ainda aí, tenhamos a derradeira esperança de potenciar o que a fortuna natural deixou. São os outros, que só ali despertam, aqueles a quem fazemos vibrar a corda interior da curiosidade que fazem jus ao brio da selecta preparada com pundonor.
Uma ida, renovada, à livraria, o livro como objecto sedutor, a capacidade de contrariar a máxima de que a vida não está nos livros? Valeu.


domingo, 26 de janeiro de 2014

O liberalismo político é auto-suficiente?


Se, na parte primeira de Um ensaio sobre a constituição da Europa, Habermas busca a genealogia da concepção de dignidade da pessoa humana (como inerente a esta), isto é, procura a resposta à pergunta sobre desde quando se considera que o humano possui uma dignidade (a ele imanente), mais ainda, que tradição nos legou a perspectiva de uma dignidade presente, não já (só) no humano como um todo, mas em cada rosto em particular, e encontra, como chaves de leitura, que

as raízes directas do conceito de dignidade humana na filosofia grega, sobretudo no estoicismo e no humanismo romano – por exemplo, em Cícero – também não constituem uma ponte semântica para o sentido igualitário do conceito moderno. Nessa época, a dignitas humana baseava-se no facto de o ser humano possuir uma posição ontológica distinta no Universo, posição especial que este assume, devido às propriedades da espécie, como ser dotado de razão e conseguir reflectir, ao contrário dos seres vivos «inferiores». O valor superior da espécie talvez possa justificar a protecção da mesma, mas não a inviolabilidade da dignidade da pessoa individual enquanto fonte de direitos normativos.
Faltam ainda dois passos decisivos na genealogia do conceito. Primeiro, era necessário completar a generalização a todos com a individualização. O que está em causa é o valor do indivíduo nas relações horizontais entre seres humanos, não a posição «do» ser humano na sua relação vertical com Deus ou com seres inferiores. Segundo, o valor relativamente superior da humanidade e dos seus membros individuais tem de ser substituído pelo valor absoluto da pessoa. O que está em causa é o valor incomparável de cada um. Estes dois passos concretizaram-se na Europa, através da apropriação filosófica de motivos e conceitos da tradição judaico-cristã, a qual gostaria de evocar brevemente.
A Antiguidade já havia estabelecido uma estreita relação entre dignitas e persona, porém, a pessoal individual, na sua estrutura de papéis, só emerge nos debates medievais sobre a semelhança do ser humano com Deus. Cada um aparece como pessoa insubstituível e inconfundível no Juízo Final. As tentativas de distinguir entre direitos individuais e a ordem objectiva do direito natural na Alta Escolástica espanhola constituem uma outra etapa na história do conceito de individuação. No entanto, o passo decisivo é dado pela moralização da compreensão de liberdade individual no pensamento de Hugo Grócio e Samuel von Pufendorf (…) Também para Kant, o conteúdo moral dos direitos humanos, que se exprime na linguagem do direito positivo, tem origem na dignidade humana entendida na perspectiva universalista e individualista

concluirá, o filósofo alemão que “Kenneth Baynes distingue esta abordagem – apoiando-se em John Rawls -, a partir de uma concepção «política» dos direitos humanos, de outra, a das concepções de direitos «inatos» provenientes do direito natural de que é suposto todas as pessoas usufruírem, devido à sua natureza humana: «Os direitos humanos são entendidos como condição de inclusão numa comunidade política». Concordo. Mas o próximo passo, que consiste em eliminar o sentido moral desta inclusão – que cada um, enquanto sujeito de direitos iguais, é respeitado na sua dignidade humana – é problemático (…) As próprias reivindicações normativas justificam-se com base numa moral universalista cujos conteúdos penetram, há muito, nos direitos humanos e civis das constituições democráticas, através da ideia de dignidade humana. Este nexo interno entre dignidade humana e direitos humanos é o único que permite estabelecer aquela ligação explosiva da moral ao direito, na qual é necessário proceder à construção de ordens políticas mais justas.

Esta carga moral do direito resulta das revoluções constitucionais do século XVIII. Quem neutraliza esta tensão também prescinde de uma compreensão dinâmica que sensibiliza os cidadãos das nossas próprias sociedades mais ou menos liberais para um aproveitamento cada vez mais intenso dos direitos fundamentais existentes e para o perigo cada vez mais agudo de deterioração das liberdades garantidas.

cremos que, por outro lado, Boaventura Sousa Santos, em Se Deus fosse um activista dos direitos humanos, pega, justamente, neste posicionamento – a ligação explosiva da moral ao direito que “permite proceder à construção de ordens políticas mais justas”; “um aproveitamento cada vez mais intenso dos direitos fundamentais existentes”, através dessa tensão [moral/direito] – e dele faz um upgrade: invocar os direitos humanos, por si só, pode não ser suficiente para que estejamos em presença do reclamar de uma ordem mais justa; neste sentido, direitos humanos não são, inclusive, superiores, necessariamente, ao nacionalismo, p.ex., como forma de luta contra a desigualdade (de renda), ou discriminação racial ou sexual. É a força reivindicativa com que esses direitos humanos são invocados que lhe darão a forma, a validade, a eficácia como “força contra-hegemónica” (face à “globalização neoliberal”). E essa força, por seu turno, encontrará em várias teologias (plurais) a seiva de que se nutre (seiva indispensável; teologias imprescindíveis).
Problemático, porventura, aqui o uso da expressão, por Habermas, de “uma moral universalista” – quando a sua indagação histórica pela concepção de dignidade humana o levara a uma traditio, em especial –, mas, ainda aí, com Boaventura Sousa Santos a percorrer os caminhos de teologias cristã, muçulmana ou hindu, se colocaria a questão da auto-suficiência do liberalismo político.




Da fragilidade institucional dos partidos portugueses


Pedro Magalhães lembrava, na passada semana, a Anabela Mota Ribeiro, no Weekend, do Jornal de Negócios, que o facto de o PS (português) não ter origens sindicais, como muitos dos seus congéneres trabalhistas (europeus), o transforma num dos partidos de centro-esquerda europeia “mais conservadores”. O politólogo observaria, ainda, a fragilidade institucional dos partidos portugueses, pelo que uma mera mudança na liderança do PSD, por exemplo, poderá fazer, de imediato, que a orientação (ideológica) deste partido, hoje acentuadamente liberal (na economia), pudesse mudar. “É isso que estará em causa” no pós-Passos, sustentou o investigador.



Comportamentos eleitorais: uma explicação, um círculo vicioso


Há algumas semanas, o Atual, do Expresso, publicou um ensaio de Jurgen Habermas sobre o estado da democracia no (nosso) mundo globalizado. Um dos pontos mais importantes do texto atinha-se à quebra do número de cidadãos (eleitores) que, ao longo dos anos, nas últimas décadas, se dirige às urnas. Incidindo, em particular, sobre o caso alemão, Habermas citou estudos que mostram existir uma significativa camada da população, socialmente desfavorecida, que, considerando não ser (devidamente) representada (politicamente), deixou, pura e simplesmente, de votar. Como tais estudos não são, evidentemente, ignorados pelos mesmos políticos implicitamente censurados (pela abstenção deliberada de muitos dos seus compatriotas), sucede o intensificar de um perigoso círculo vicioso: como os mais desfavorecidos não se sentem representados (nos políticos e nas políticas) não votam; como não votam, menos incentivos/estímulos recebem os representantes…para representarem uma clientela que, afinal, deixou de existir. Talvez isto explique muito, no comportamento eleitoral. E não só na Alemanha.




sábado, 25 de janeiro de 2014

A rosa é sem porquê




Podes interrogar a papoila
mas a papoila
nada responde

José Tolentino de Mendonça, A papoila e o monge, p.28.


Parábola do fariseu e do cobrador de impostos (Lc 18, 9-14)


O que se instala na perfeição
desconhece aquilo que só a indigência
revela

José Tolentino de Mendonça, A papoila e o monge, Assírio & Alvim, 2013, p.61.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Do efeito democratizador da ciência


MARIA LEONOR NUNES, (entrevista) Arsélio PATO de CARVALHO. A Ciência da boa Escola, JL / Educação, in JoXXXIII a qesta   uestrnal de Letras, n. 1129, ano XXXIII (08 a 21 de Janeiro) 2014, 1-2.

'Era um sonho antigo do professor universitário jubilado e cientista de prestigio internacional, sonho que há cinco anos se tornou uma realidade com futuro: o Instituto de Educação e Cidadania, em Oliveira do Bairro. Procura ser um "interface" entre as universidades, as escolas e a comunidade da região da Bairrada, propõe estudos avançados, incentivos aos alunos e actividades para as populações - e foi agora distinguido com o Prémio Educação Ciência Viva. Aqui se ouve o criador do que pode ser um modelo para outras geografias do país e para um ensino de excelência
Entrevista de Maria Leonor Nunes
....
A grande aposta é na Ciência. Porquê?
"Os programas do IEC assentam no pressuposto que as escolas e a sociedade em geral são capazes de melhorar as suas competências se colocadas em contacto com meios mais evoluídos. Desse modo, usa os conhecimentos científicos e a prática científica como principais instrumentos para elevar os conhecimentos e a experiência das colectividades escolares e dos cidadãos.

A necessidade de uma formação contínua e de maior qualificação dos portugueses são bandeiras dos tempos que correm. E são desígnios do Instituto?
O objectivo fundamental é dar poder às pessoas através do conhecimento, como arma de sucesso na vida. O IEC lançou uma dinâmica cultural e de aquisição de conhecimento para levar os cidadãos e as escolas da Região da Bairrada, uma comunidade predominantemente rural, a uma prática de reflexão e de intervenção nos problemas das escolas e da comunidade.

As zonas rurais do país têm especiais carências nesse domínio?
Ao longo das últimas décadas, muitos dos cidadãos das comunidades rurais foram, na prática, excluídos do exercício de cidadania activa devido a incapacidade de se adaptarem as novas exigências da sociedade e a uma longa tradição de baixa escolaridade. Abunda nesta comunidade a falta de ambição e a resignação a uma vida que não beneficia da riqueza cultural e material à  disposição da sociedade moderna. Este estado de espírito espelha-se também nas escolas.

De que forma o IEC se propõe intervir nesse sentido?
Assume-se como um interface entre as instituições de ensino superior e as escolas. E um protótipo de instituto essencial para quebrar com tradição de isolamento das populações e das escolas fora das cidades.

O insucesso e o abandono escolar continuam a ser um calcanhar de Aquiles do ensino português, apesar de melhorias acentuadas na última década. E são realidades particularmente graves no interior do país e nas zonas rurais. Pode o IEC contribuir para decrescer o abandono escolar?
Os programas que estamos introduzir nas escolas motivam muito os alunos e professores e criam novas dinâmicas. O contacto com os jovens cientistas que o IEC leva às escolas, o ensino dos cursos avançados em que são leccionadas matérias de interesse contemporâneo são transversais na motivação de todos, mesmo dos mais desmotivados. Estes são factores que decerto contribuem para motivar os alunos a permanecer na escola.

PLANO DE EMERGÊNCIA PARA JOVENS Cientistas.  Com que escolas trabalha o lEC?
Quase todas dos vários concelhos da Bairrada. E a capacidade de intervenção do IEC nas escolas, entre outras actividades, depende muito da rede de protocolos com os centros Ciência Viva e museus e da colaboração com as instituições de ensino superior.

As escolas precisam de mais autonomia. (...) É preciso dar uma volta à educação nesse sentido: poder aos professores e às escolas. Em que se traduz?
Participam nas actividades do IEC mais de 80 jovens cientistas doutorados. Todo o ensino experimental dos programas avançados é ministrado por esses doutorados, tomando partido deste capital humano, resultado do sucesso da Ciência em Portugal.

Mas ao que assistimos é à "fuga" desse capital para o estrangeiro.
Deve ser implementado um plano de emergência para evitar a emigração dos jovens cientistas. Neste momento de crise, não podemos perder os mais qualificados. Se Economia e a Educação tivessem tido o mesmo sucesso que a Ciência teve em Portugal nos últimos 20 anos, não teríamos chegado ao colapso financeiro. Não percebo a insensibilidade do governo a esta questão
….
Ambição à excelência. Em que consistem essencialmente os programas do IEC para a as escolas?
Estão enquadrados num programa geral designado "Estudos Avançados", que inclui cursos experimentais ministrados no IEC e nas escolas, para alunos do 9. ao 12. anos, cursos de ciências experimentais do 1.  e 2.  ciclos, conferências nas escolas e nas bibliotecas e a criação de clubes de ciência nas escolas. São trimestrais, com a duração de dez semanas, três horas por semana, ao longo do ano lectivo. E foram concebidos para se adaptarem a grupos diversificados de alunos, professores, associações de pais e cidadãos externos às escolas.

Quais os seus objetivos?
Potenciar as capacidades dos alunos com ambição académica, criando-lhes desafios que vão para além dos currículos escolares, e promover a motivação e o gosto pelo saber, pela prática das ciências. Implantar mesmo nas escolas a prática das ciência experimentais como método de aprendizagem, mas também como acção educativa para promover a motivação e a igualdade entre os alunos.

De que maneira se pode conseguir essa igualdade?
O seu envolvimento na aprendizagem experimental leva-os a descobrirem competências e aptidões que eles próprios ignoravam possuir. A prática da Ciência é das actividades humanas mais democráticas e disciplinadoras. Assim, o envolvimento directo dos alunos em trabalhos laboratoriais motiva-os, cria-lhes o gosto pelo saber e prende-os à escola. Este programa começa com o 1º ciclo. Outro objectivo XXXIII a qesta   uesté dinamizar as escolas da Região da Bairrada rumo à excelência, introduzindo novas actividades e fomentando nos directores e professores a vontade de as escolas serem mais autónomas e responsáveis.
....

Formou várias gerações. O que é fundamental para si enquanto professor?
Não sei ensinar apenas teoricamente, mas mostrando como se faz. Trabalhei no laboratório até muito tarde e penso que a melhor maneira de ensinar é realmente fazendo. O que é muito importante quando se ensina é transmitir estímulo, motivação e fazer com que os alunos sejam mais iguais no processo de aprendizagem. E acredito firmemente que a Ciência tem um efeito democratizador.







quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os meus dias (II)


O decorrer do ano trouxe mais alunos à cadeira. Professor contente. (Porque sabe que não foi cedendo à demagogia que os arrancou ao recreio).


Obrigações que convém lembrar


Eu considero uma obrigação colaborar, ou contribuir, na medida do possível, para melhorar aquilo que com alguma pompa poderíamos chamar o nível cultural dos meus concidadãos. Penso que todos temos essa obrigação, sobretudo se estamos metidos num trabalho ligado á criação cultural ou à promoção de valores da cultura. Quando escrevo um livro não estou a pensar que vou melhorar com esse livro o nível cultural dos meus concidadãos, mas quando empreendo uma actividade concreta ligada a um tema cultural estou a pensar que isso vai ter uma utilidade social concreta, sem dúvida nenhuma. Quando estou a escrever não penso em mais nada.


Vasco Graça Moura em entrevista a Ana Sousa Dias, O impaciente europeu, Ler nº131 (Janeiro 2014), p.30.


Pontos nos i's


Henrique Raposo, sem relativismos.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Os meus dias


As leituras feitas sem porquê não se perderam. Não. Descansem, ó utilitários, durmam em paz, produtivistas. São agora, até, mais preciosas do que nunca. Leio-lhes Montaigne, a começar a aula: se me intimam a dizer porque o amava, respondo: porque era ele, porque era eu. E logo a seguir, Santo Agostinho: agora, só as lágrimas me eram doces. As lágrimas sucediam a ele.
Quem dirá melhor a perda do amigo?
Precisamos de palavras, de saber dizer, de respirar fundo os sentimentos. Montaigne recria Horácio: amigo, “metade da minha alma”.
Assim vão os dias, e um só olhar inebriado, deleitado como eu, com os passos sublinhados, é a minha salvação.


Uma cor macilenta


Na quimioterapia estamos todos juntos numa sala, embora com algum recato de separação dos lugares. Isso sim, é uma experiência humana muito interessante e muito enriquecedora, um tipo de solidariedade diferente ao ver o meu semelhante a sofrer, sem cabelo, com uma cor macilenta. Isso sim. Se calhar até cria inibições literárias. Não pensei nisso.


Vasco Graça Moura em entrevista a Ana Sousa Dias, O impaciente europeu, Ler nº131 (Janeiro 2014), p.36.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Leituras a fazer


Eurobarómetro

Percentagem de portugueses que leram um livro, no último ano: 40%

Média de europeus que leram um livro, no último ano: 68%


Educação (literária)


O meu pai tinha uma razoável biblioteca, tinha sobretudo um culto enorme da literatura. Para ele, de resto, a literatura terminava no Proust. Pertencia a uma geração que cultivava muito a memória. Durante as refeições, fazia-nos citações e contava páginas de livros, sabia trechos inteiros do Eça, do Camilo…Isso teve uma importância enorme em condicionar a minha vontade para a leitura. E o contacto com a natureza através da ruralidade do Douro teve também uma importância muito grande. São horizontes diferentes. Ainda pertenço à geração que primeiro fazia um mês de praia e um mês de campo, ainda não era caro, havia propriedades. Em 1973 foi tudo vendido.


Vasco Graça Moura em entrevista a Ana Sousa Dias, O impaciente europeu, Ler nº131 (Janeiro 2014), p.36.


domingo, 19 de janeiro de 2014

O bom atestado


Marcelo Rebelo de Sousa, a julgar pelos excertos e interpretação dos mesmos (interpretação, que, como sabemos, infelizmente, tende a não assentar, apenas, no juízo do próprio jornalista e, não raro, lhe é soprada pela gente dos partidos que fornece a notícia), da moção de Passos Coelho, no caminho para novo mandato na liderança do PSD, dados a conhecer pelos jornais do fim-de-semana, é zurzido e deixado sem apoio do PSD em uma eventual candidatura à Presidência da República. A acusação principal feita pelo líder do PSD: “declarações erráticas”, “catavento de opiniões”.
Se, por um lado, bastaria recorrermos a alguns vídeos que compilam afirmações/promessas do candidato Passos Coelho, antes das últimas legislativas, para compreendermos, face ao que têm sido as suas políticas, o pudor que deveria ser observado durante um significativo período de nojo na utilização, face a outros, e como arma de arremesso, de expressões como “catavento de opiniões”; por outro, sabemos, por exemplo, o que é, para a liderança deste governo, um percurso não errático: José Luís Arnaut, poderia personifica-lo, tendo estado em todas as privatizações, sempre a direito, portanto.
Raramente Marcelo Rebelo de Sousa terá recebido tão bom atestado, dada a proveniência do mesmo.


O Crato que me interessava


Tenho seguido os debates, minoritários mas substantivos, no nosso espaço público, acerca da mudança dos programas do Português, no ensino Secundário. O aumento da ‘exigência’ no ensino pode, em realidade, ter várias declinações. Uma das que mais me interessa é a que torna acessível/obrigatório o estudo dos maiores cultores da língua portuguesa, ao longo da nossa história (cultores que, de modo insólito, haviam abandonado os curricula). Parece, claramente, que é este o trilho que agora se segue (o convicto regresso a estes). Invertendo a lógica de 2001. Uma opção que está longe de ser consensual, severamente criticada por muitos. Mas era precisamente por ser controvertida que existia uma ‘base social de apoio’ a uma reforma (dos programas) desta índole. Era este o Crato que me interessava.


Considerações intempestivas


Até a cedência ao sentimentalismo infantil de alguns papás, em certas disciplinas, releva mais da precariedade profissional de alguns docentes, remete mais para a nossa pobreza endémica, do que para qualquer outra motivação. Tal impõe-se com maior nitidez, ainda, em áreas opcionais/facultativas – que, no entanto, se aceda a um massajar do ego paterno, em exclusiva lógica de mercado (conseguir fixar a maior clientela possível [para futuro]), a recusa do pensamento/da crítica, não deixa de muito me impressionar.


Depoimentos urgentes (II)




Depoimentos urgentes




sábado, 18 de janeiro de 2014

" 'Desanimados': eis a nossa condição"


Hélia CORREIA (convidada), Com Respeito às Palavras, Público. Ípsilon, 17. 01. 2014, 30-31.


No rigor do latim, “indignado” é o que é tornado indigno. E eis, porém, que a palavra não se aceita a ela própria, empreende uma singular rebelião. Nega a humilhação que cai sobre ela. Vejam o quanto esta palavra é poderosa. Como deitou ao chão a sua origem. Como tomou nas mãos a sua vida.

I

Não tenho competência para escrever sobre os eventos da realidade. Começa a falha pelo léxico: nem sei se o termo “evento” pode usar-se aqui. Não aprendi o bom vocabulário. E quanto à organização para o discurso, saber onde ele começa e como acaba, mais o que pelo meio se vai pondo, tão pouco faço a mais pequena ideia.
Eu, quando tenho de falar com alguém do género bancário ou fiscalista, aviso logo que sou das “Humanidades”, isto é, completamente ignorante. E peço caridade lexical, paciência: essas virtudes superiores. Nunca se fica muito esclarecido, mas trata-se de não incomodar. Um resto de amor-próprio determina que escapemos depressa do cenário. A humilhação chama pela maldade e eu resplandeço quando ocasionalmente alguém me diz uma palavra cara que posso decifrar rapidamente, emudecendo o interlocutor: “Sei o que significa, vem do grego”, disparo. E já não é uma conversa. É uma espécie mitigada de motim. O anedotário da revolução francesa regista que os motins não causam dano, são como uma pequena bebedeira. Não vale a pena perder tempo com motins. Não vale, aliás, a pena perder tempo. Estrebuchamos no vazio e alguém ri.
Parece, às vezes, que o cenário da ficção científica assentou no planeta actual: que criaturas mais ou menos humanóides nos conquistaram pelo interior e desapoderaram-nos de tudo, esperança, dignidade e alegria. Vimos tanto clamor nas praças gregas, cólera e fogo com nenhuma consequência. É como se entre os protestantes e o poder não houvesse trajecto, não houvesse natureza contínua. Duvido até que conseguissem procriar se a carne de uns e de outros se encontrasse. Respiram ares diferentes e não faz sentido algum que certa retórica da esquerda os desafie a que experimentem a pobreza, a que tentem viver com o salário que destinaram para os indefesos. Provavelmente viveriam bem porque não se alimentam como nós. Nem dormem como nós. Talvez nem morram. A verdade é que pouco pensamento nós conseguimos produzir sobre eles. A desumanidade é um mistério.

II

Vejo como anda gente a reclamar que se dê espaço à imaginação. É uma herança daquele Maio de 68 que a queria no poder e fez com isso uma bonita frase. Aliás, não houve muito muito mais que herdar. Mas enquanto os filósofos confiam nos benefícios do receituário, longe deles e do fumo dos Gauloises está à espera a serpente, latet anguis. Os Le Pen crescem sem filosofia. E a imaginação, que faz? Distrai. Melhor será dizer que nos engana. A alegoria cibernética que eu acima explorei trouxe um sorriso a este texto enquanto texto. E mais além não vai. Fornece uma dinâmica de jogo e entretém vagamente até cansar.
Sim, porque é de cansaço que se trata. De exaustão, no sentido de não termos nem uma gota que nos dessedente. Eu tenho o pensamento habituado à escrita metafórica e aqui estou a criar uma imagem enganosa. Se procurar um modo de dizer exacto, brutal, limpo, em que a palavra perca os seus ademanes de palácio, não acharei em “exaustão” o termo certo. Ninguém caminhou tanto que se sinta quase a morrer por desidratação. No “país de poetas”, caímos automaticamente numa coloração vocabular que muito raramente dá bons textos. De tão familiar, não a estranhamos. Até deixamos que trabalhe contra nós.
Por que aceitamos que se fale, por exemplo, nas “gorduras do Estado”? O Estado não tem metabolismo. Tem excesso de despesas, muitas delas em mordomias e em disparates. Um Estado não “emagrece”: corta nos gastos, e a escolha para os cortes tem critérios, e os critérios não se aplicam ao acaso. Aquilo que se chama ideologia, a moldura mental com que um comum destino se interpreta e planeia, decide a escolha. E escolhe-se cortar naquilo que é empecilho ao projecto, no que se quer extinguir ou, pelo menos, fazer partir para onde não se torne visível. Com a metáfora sobre o corpo obeso dá-se a volta ao assunto, transformando-o em algo humanizado e censurável. Fica fora do alcance da razão - nos labirintos do imaginário, naquilo que culturalmente assimilámos a ponto de esquecer - a simpatia pela causa. Dentro de nós, a ideia do descuido, da glutonice, da preguiça, enfim, do Sul, facilmente coabita com a ideia de punição e de dieta rigorosa. Tomar medidas para emagrecer é justo e bom. Se implica sacrifícios, são sacrifícios de ginásio, desses que conferem certa estética ao suor. Só um bulímico se recusa a entender e a estimar um regime que assegura saúde e elegância a quem o siga. Alcança longe, a manha da metáfora.
É necessário estarmos prevenidos contra os efeitos destas redacções. Há, no deslize para as figuras de compêndio, quase um tropismo, uma procura de consolo. Isso empobrece a agudeza do olhar. Sei que aquilo que eu disse muita vez - “Hoje o nosso inimigo não tem rosto”, para significar que é mais difícil reconhecê-lo, assinalá-lo e confrontá-lo, não é só uma frase retórica e inútil  -  partilha essa tendência viciante para a baixa literatura que nos dá a ilusão de intervir pela palavra. O que a expressão “sem rosto” cria é uma distância e, mais que uma distância, uma abstracção. Junta-se aos nossos medos ficcionais. Começámos com o Feiticeiro de Oz, vamos ao Orwell e a lição que retiramos é que, no fim, acaba tudo bem, os livros fecham-se e as crianças vão para a mesa. Bettelheim explicou que serventia têm estes entrechos. Um adulto já não beneficia com semelhante kit de aprendizagem. Corre o risco de hipnose. Vai pelo sonho. Estou convencida de que sonhar leva a que a musculatura se atrofie.
Temos que chegue de pequena literatura. Os governantes descobriram o filão e desataram a usar sem pejo os melhores truques da Academia. Metaforizam desalmadamente e é com muito sucesso que recorrem aos artifícios da prosopopeia, como novos Pessoas ou Camões. O que é o Bojador ao pé de um Estado pejado de gorduras, de mercados que são como velhos senhores que não tomaram a valeriana e atiram os criados escada abaixo nos maus humores da indigestão? Que mulher fabulosa é essa Europa a quem nós temos simplesmente de agradar sem compreender bem os seus caprichos? A Rainha de Copas da Alice, que tanto atormentou a minha infância porque gritava “Cortem-lhe a cabeça!” sem que se vislumbrasse uma razão, grita outra vez. Mudou apenas de idioma. Eles declaram: “Ela quer”, “ela ameaça”, “ela não anda nada satisfeita” e a cada um desses avisos nós levamos os dedos ao pescoço, com receio de que a cabeça já não esteja lá.
Quanto a enredos, tecem-nos com brilho, sobre modelos de novecentos. Por que tenho pensado ultimamente no Conde de Monte-Cristo quando leio os jornais? Porque vemos enredo semelhante, com o injustiçado que enriquece e acaba por ser dono do destino daqueles que o maltrataram. Edmond Dantès agora é angolano. Naturalmente, há um pedido de desculpas, uma genuflexão, talvez. The end?
Eles, os novéis cultores da ficção, vão-se referindo muito à “narrativa”. Por “narrativa” hão-de querer dizer o encadeamento temporal das acções. Mas vão mais longe ao conseguirem sugerir a malignidade da intriga, a vontade de drama que é aquilo que enche o texto de pathos e produz no leitor surtos de acidez moral. Conhecem bem o ofício: não se deixam manietar pelas questões da lógica, da verosimilhança ou da coerência. Mentem com toda a glória, porque não? Não é toda a grande obra uma mentira? É só preciso que quem mente minta bem. Minta na sua glória de poeta. Os governantes mentem com virtude.
E, no entanto, as pessoas não apenas clamam contra o prodígio criativo como até se declaram indignadas. Por causa da palavra “indignação” é que me pus a rabiscar o texto. Porque é uma palavra extraordinária. Deu a volta por dentro de si mesma para contrariar o seu significado. E tratou disso logo que nasceu, não houve aqui evolução semântica. No rigor do latim, que julgaríamos incontornável, vemos surgir uma palavra derivada pela prefixação do in negativo, que transforma um conceito no oposto. “Indignado” é o que é tornado indigno. E eis, porém, que a palavra não se aceita a ela própria, empreende uma singular rebelião. Nega a humilhação que cai sobre ela. O indignado, dizendo-se indignado, renega a sua condição, rebela-se. Vejam o quanto esta palavra é poderosa. Como deitou ao chão a sua origem. Como tomou nas mãos a sua vida.
Isto pode parecer prosa de exaltação, mas não passa de simples constatação linguística. Provavelmente precisamos disto. Enquanto os outros fazem literatura e a temática Dickens encontra no país uma oportunidade para se impor, tornemos nós ao simples, ao sensato, ao denso e intenso uso das palavras. Com o abuso do estilo, fomos deixando para trás a frescura das origens, a fisicalidade da palavra, ela que é parte do real e nele se inscreve. Sei que o caminho para a abstracção foi útil e foi bom porque nos fez aceder, por exemplo, aos conceitos. Mas, mutatis mutandis, assim como Hölderlin teve certo desígnio ao traduzir Antígona, também eu gostaria de repor a primeira energia da linguagem, recordando a nudez inicial. Falemos de “catarse” - que se aplica à gritaria das manifestações. Serve a catarse para energizar? Não serve. Uma catarse é má medida. Uma catarse era concretamente vómito de ressaca. O alívio de estômago a seguir a uma bebedeira. Era deitar para fora e ficar limpo. Transposta para a lição do teatro, assim durou, implicando sempre uma transformação. É isso o que se quer saindo à rua? Que a vivência nos lave do mal-estar? Falar não deve aliviar do mal. Pelo contrário, deve torná-lo inteligível e discutível. Torná-lo, a bem dizer, manipulável. Um material exterior e que, com esforço, consigamos dobrar. Nós precisamos tanto de catarses como de sonhos. Temos de levar outra intenção para as ruas.
O que é manifestar? É dar a ver. Dar a ver com as mãos. Não necessariamente mãos em festa - a etimologia é duvidosa. Provavelmente mãos conflituantes. Há com certeza uma finalidade para juntar num desfile a multidão, mas nós não somos já gente de ritos, não somos gente de re- ligação. Temos de inaugurar tudo novamente, a começar pelas frases de incentivo, pois as que ouvimos, de tão velhas, tão usadas, perderam o vigor. Estão transformadas em ladainhas de beatitude. Aliás, as mais das vezes não serviam como motores de mobilização, fracas de rima, rastejantes de sentido. Mas enquanto se caminhou a passo forte, enquanto, a velocidades várias, se manteve uma leitura histórica das coisas, uma certeza de alma potenciava aquele vocabulário esmaecido.
Se hoje as pessoas continuam a marchar é porque, à força de repetição, os sapatos estão enfeitiçados. Não é de dança, mas de espasmo, o movimento. O grito que invectiva já não faz estremecer o seu destinatário. O seu destinatário olha para “aquilo”, chama-lhe “aquilo”, e vai à sua vida. Mostra um grande talento para apoucar. Nós que talento revelamos? O da fé? O da brava teimosia? Repetimos os nossos argumentos... “até à náusea”: assim acaba a frase que herdámos da retórica latina. Não é possível refazer a língua? É, sim.
A nova poesia portuguesa já deitou as metáforas ao lixo. Está cheia de real e de um real sujeito a um olhar e a uma oficina que lhe conferem, numa mesma nota, estranheza e ressonância familiar. E há jovens cientistas muito atentos ao uso não utilitário da palavra, mais atentos, direi, do que muitos literatos. Eu tive o privilégio de falar, para uma sala de lotação superesgotada, sobre a pouca importância do enredo nos textos. Isso interessou-os extraordinariamente. Num mundo apoquentado por gravatas, eu vejo os meus amigos estudantes e doutorandos de Cultura Clássica, em não pequeno número, dispostos a cruzarem experiências e saberes como se tudo começasse agora e a Antiguidade nos tocasse. Se deles não vier o apetrecho que nos ensine a ver, e a ouvir, e a clamar com outro assomo de energia, se aplicarmos ao “hoje” o alfabeto que aplicámos ao “ontem”, nada lemos.

III

A nitidez que existia nas velhas ditaduras, os claramente vistos Bem e Mal, a ausência de dúvida nas causas, os perigos a que o corpo se arriscava, alimentavam plenamente a alma. Não era porque o inimigo tinha um rosto que a resistência se tornava articulada com a própria vida, como uma moral. Não tinham rosto os espiões da PIDE. Havia nomes, sim. Mas também temos nomes agora. A diferença é que o novo poder não ameaça directamente com prisão e com tortura. Por um reflexo quase biológico, a violência, o assassinato, o corte da estrutura vital cria mais vida. Era esse o princípio que levava uma revolução a triunfar.
O grande golpe é o que se dirige à alma. O meu sentido de “alma” é o que vem da anima latina, claro está, a instilação da vida que nos torna activos e pensantes. Qualquer torcionário aprende cedo que a alma não se tira com a faca mas com manobras de desorientação e de abatimento. O sopro anímico extingue-se depressa, bem mais depressa que o bater do coração, e sem sujar. “Desanimados”: eis a nossa condição. Bem mais difícil de remediar do que a de meros “oprimidos”, pela diferença que existe entre ter ânimo e não ter.
O ânimo requer o alerta dos sentidos. Não por caso, entre os soldados na batalha, alma era sinónimo de coragem. É de coragem que necessitamos, da coragem de ver e rejeitar. Não vamos pelo sonho. Assistimos, tempos atrás, a uma breve ardência, quando se encheram praças a Oriente - chamou-se a isso a Primavera Árabe - e o mundo pareceu fácil de abraçar. Víamos o real? Não, não o víamos. E, no entanto, ele move-se sem nós. Move-se sem parar. Quando acordamos, não temos senão cinza nos cabelos. Há um gesto possível? Há um gesto. Pelo menos, sacudi-la. Pelo menos, neutralizar a fábula, desmascarar os efabuladores. Ainda não conhecemos os seus rostos. Somente os rostos dos pequenos servos. Conhecemos, porém, os artifícios.
Por que usam a palavra “austeridade”? Porque há nela uma certa ressonância de coisa justa, de atitude respeitável. Alexandre Herculano foi austero. Sóbrio, frugal, um tanto seco na expressão, honesto, incorruptível - isso mesmo. A austeridade é um estádio a que se chega num percurso moral muito esforçado. É um modo de vida, uma atitude pela qual alguém opta, numa escolha inteiramente pessoal, quando recusa render-se ao luxuoso e ao supérfluo. Classificar alguém de “austero” significa que lhe atribuímos qualidades pouco usuais no cidadão vulgar. Ouvimos a palavra e logo o nosso dicionário subconsciente nos assinala que é para respeitar, acatar e temer. Se há uma “austeridade” que castiga é porque andámos na dissipação. Pressupõe-se que nós baixemos a cabeça sob o pecado que a palavra implica. Na verdade, não há “austeridade” aqui. Há alguém empurrado para a miséria. É um processo involuntário, imposto por uma força superior, neste sentido de que não pode desobedecer-se. E imposto, no sentido, também, da inocência. Estamos a pagar o quê, porquê? Em que momento é que prevaricámos? Foi a comprar mais um televisor, foi a escolhermos uma sala com lareira? Nós aprendemos, no devido tempo, que não podemos alegar ignorância da lei se a violámos, mas havia uma lei contra o conforto? Havia alguma lei que proibisse os filhos de viverem como tinham vivido os patrões dos seus pais? Devo dizer aqui que o consumismo me desperta uma viva repugnância, que admiro e sigo, porque quero, a vida “austera”. Mas, porque eu ando de transportes públicos, entenderei que a compra de um automóvel deve entregar o cidadão ao agiota? Estou a falar de pequeninas coisas, de minúsculas coisas que não chegam para lançar uma pessoa no inferno. O grande gasto, o gasto vil, onde se oculta?
Não, não nos pedem a “austeridade”. Eles exigem a pobreza e as suas consequências. Não, não fizemos mal. O que fizemos foi por fraqueza de desprevenidos ante a perversidade dos banqueiros. Não nos aliciavam com empréstimos? A bruxa má não estava a oferecer maçãs? Ficaremos agora deitados no caixão, narcolépticos, à espera de algum príncipe?
Vamos de história em história, adormentados.
Uma palavra envenenada estraga o mundo. Basta atentarmos em “democracia”, palavra vinda de tão longe, trabalhada, moldada, experimentada tanta vez. Parece ter sofrido uma anquilose, uma patologia da velhice que a transformou numa entidade rígida. E o conceito que lhe corresponde imobiliza, prende, como num propósito de teia. Diz-se: o eleitor votou em liberdade. E essa liberdade manietou-o. Mais não pode fazer do que esperar pelo próximo processo eleitoral. E censuramos os abstinentes que nos respondem que “não vale a pena” - quando os factos lhes dão toda a razão. Porque a democracia está disforme, ainda que insistamos em louvá-la.
Se olharmos sem a ilusão veremos quão irreconhecível se tornou. Veremos como finda o seu processo ali onde devia ter início. Melhor dizendo: finda o que, em rigor, é perene. A palavra “escrutínio” significa, para nós, simplesmente, a contagem dos votos. Mas escrutínio não é apenas isso: é vigilância. É observação continuada, é um exame de comportamentos. Por alguma razão os ingleses, experientes neste assunto, ainda aplicam a expressão under scrutiny aos governantes. O sustentáculo da democracia está na possibilidade e na probabilidade de cada cidadão vir a ser eleito e, uma vez eleito, prestar contas. Essa é a superioridade da República e a sua beleza. O voto é só um expediente técnico que o espaçamento temporal vicia.

Como se leva isso à prática não sei. Mas sei como se leva ao pensamento. E sei que o pensamento é o que faz levantar a cabeça. Estamos num tempo novo, rodeados por luz e escuridão para as quais não temos nem mapa nem farol. Temos modelos tão inspiradores como remotos. Certo é que a palavra é a obra do humano e a palavra não cessa de existir. Com palavras se fazem os fascismos, e Magnas Cartas e as Constituições. Cultivá-las, estudá-las, não nos salva talvez. Mas dignifica-nos. E se podemos aprender algo com o passado, antes de o perdermos completamente de vista, é que a dignidade se conquista e que a indignação a isso ajuda.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Para começar o fim-de-semana


Foto: COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO

Programa de Anne Teresa De Keersmaeker, com música de Debussy, Beethoven e Schoenberg

Sexta 17 | Janeiro | Grande Auditório | 22h00

A Companhia Nacional de Bailado continua a sua digressão nacional com a reposição das três obras de Anne Teresa De Keersmaeker, proeminente coreógrafa belga, que permitiram aos seus artistas o inequívoco reconhecimento do público pela interpretação deste exigente repertório. As composições musicais de Debussy, Beethoven e Schoenberg são a génese para três singulares ligações com a dança, expressas sublimemente por De Keersmaeker.

Este programa de Anne Teresa De Keersmaeker é composto por três obras fundamentais do seu repertório: L’après‐midi d’un Faune de Debussy, Grosse Fuge de Beethoven e Noite Transfigurada de Schoenberg. A relação da coreógrafa com a música, que lhe valeu o título de “chorégraphe musicienne”, está bem patente nesta selecção inédita de peças que a Companhia Nacional de Bailado terá o privilégio de interpretar.

Duração: aprox. 100 min. (com dois intervalos)
Público-alvo: M/3 anos
Bilhetes: 7€/5€

Uma ida ao Teatro de Vila Real, para ver a Companhia Nacional de BailadoPrograma de Anne Teresa De Keersmaeker, com música de Debussy, Beethoven e Schoenberg. Às 22h.