quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Match point


Um Poço - mas sobre ele o Céu -
E ao lado o Céu, lá fora o Céu,
Porém um Poço -
E em cima dele um Céu.

Mover-se, e o resvalar -
Olhar, era cair -
Sonhar - minar a Trave
Que a sorte me equilibra.
Ah!Poço! E sobre ele o Céu!

Só na fundura penso -
Nem aos meus pés pergunto -
Que, a direito sentados,
Nem a suspeita aqui
De Poço - com léguas sob si -
Igual o seu Circuito.
Semente - Verão - sepulcro -
A quem e que juízo?

Emily Dickinson (traduzida por Ana Luísa Amaral), Duzentos poemas, 19.

O lugar literário das grandes verdades


Se Susan Neiman reclamava o romance, mais do que o ensaio, como privilegiado campo de florescimento das indagações últimas, George Steiner, em Pós-Cultura (ensaio de 1970, inserto, agora, em Extraterritorial, 2014), escrevia que "se tantos livros de não ficção exibem uma escrita superior à de grande parte dos romances actuais, são mais sérios e contêm verdades vitais mais intensas, isso significa que a grande época do romance passou" (p.182). Não se contradizem, porém, os autores se percebermos que Neiman identificava no grande romance russo, Dostoievsky e Tolstoi em particular, uma especial possibilidade de aceder ao essencial (da condição humana).

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Terreno desconhecido


José Ignacio Torreblanca, ElPais, 30/12/2014:

El drama se representa en Grecia pero la obra podría pasarse en cualquier teatro del sur de Europa. Porque a estas alturas es probable que sólo queden dos tipos de ciudadanos en la Europa azotada por la crisis. A un lado tendríamos aquellos que piensan que las políticas de austeridad, aunque injustas e ineficaces, son inevitables dado el grado de postración de sus gobiernos, la ausencia de alternativas y los costes que tendría una rebelión contra dichas políticas. Al otro lado, tendríamos aquellos que, pensando igualmente que las políticas de austeridad son injustas e ineficaces, consideran que han sobrepasado lo admisible y están dispuestos a rebelarse contra ellas. Que las alternativas no estén claramente dibujadas y su coste sea sumamente incierto no parece disuadir a este grupo de su convicción de que el cambio de políticas requiere un cambio radical en los gobiernos, de ahí fenómenos como Syriza o Podemos. Las próximas elecciones griegas serán en realidad un referéndum al que sólo concurrirán dos opciones: las de los que temen hundirse aún más y las de los que piensan que ya han tocado fondo y quieren arriesgar lo que les queda. Tal y como están las cosas, ninguna de las dos opciones es racional: ni los resultados de las reformas son lo suficientemente buenos, rápidos ni equitativos para validarlas en las urnas ni las promesas de los rupturistas son lo suficientemente plausibles como para concederles la confianza que piden. Por eso, los griegos acudirán a las urnas el 25 de enero armados meramente de su fe en el futuro. No deja de resultar una increíble paradoja que la política económica de la eurozona, que presume de haber diseñado los instrumentos de gobernanza más complejos de los que nunca los Estados se han dotado, sólo pueda validarse por la fe. Eso sí, una fe ejercida democráticamente: Abraham no pudo convocar elecciones anticipadas cuando el Señor le pidió que sacrificara a su hijo. Algo hemos progresado.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Correspondência


Será que o mais importante da carta de Sócrates a Mário Soares é a pergunta cuja origem o autor faz remontar a terceiros: "onde estão os seus amigos?" e cuja resposta é "tenho agora comigo [os amigos] que sempre quis ter"? Aguardemos os próximos capítulos.

Da série "só neste país"




O fundo (hedge fund) de Bernard Madoff alcançou os 65 mil milhões de euros. Dez vezes mais do que a concorrência. O maior fundo de investimento do mundo. Apesar de alertada para isso inúmeras vezes, com documentos (de 19 páginas, de 2005, intitulado O fundo de Madoff é uma fraude) assinados por um investigador privado especialista em fraude financeira, apesar de artigos que questionavam a rentabilidade, imune às oscilações do mercado, a autoridade de supervisão, SEC, não viu motivos para questionar seriamente Madoff. Hoje, ninguém daquela estrutura de então foi demitido ou sancionado (apesar do forte escrutínio de comissões de inquérito). Foi Madoff quem se entregou às autoridades, confessando o esquema Ponzi que concebera, quando, na sequência da crise do subprime, os milhares de milhões lhe foram sendo solicitados por uma elite financeira europeia e norte-americana (da selecta Palm Beach na Florida), composta por membros da realeza, por actores como Kevin Bacon, realizadores e produtores como Steven Spielberg, grandes figuras como Elie Wiesel. Mas, ainda e muito, por milhares de aforradores, por todo o país do tio Sam, que assim caíram na desgraça. Um dos sócios de Madoff, que cumpre pena de prisão perpétua, e o seu filho mais velho, que se formara, como o irmão, em Economia e trabalhava em Wall Street (com o pai), suicidaram-se. Ganância, estupidez e ignorância são trazidos a debate como motivações de um investimento no fundo que, de demasiado bom, não podia ser, como não era, real. Dos 65 mil milhões só foram recuperados 9 mil milhões. E as vítimas permanecem com as vidas desfeitas. Desde que liderara o Nasdaq, Madoff tornara-se intocável e a justiça norte-americana assentiu que não teve cúmplices, assentiu em não os investigar, aceitou que mulher e filhos nada sabiam (de um esquema em que não havia investimento algum e no qual era sempre necessário angariar novos clientes). Também o papel de bancos e, bem assim, fundos europeus que enviaram a Madoff os clientes ficaram por escrutinar. Tudo isto que se pôde ver no documentário do Observatório do mundo - Madoff o maior vigarista de Wall Street (TVI24/PBS) fosse cá e diríamos que só neste país.

Guterres e o mundo de hoje




Na muito interessante entrevista que António Guterres deu, este Domingo, a Teresa de Sousa, no Público o que mais me tocou foi a reflexão de ex-PM de que é por não haver, hoje, a Ocidente ideologias que dêem voz aos que não têm emprego, aos que estão sem dinheiro, aos que se encontram desesperados - é por não haver quem, do ponto de vista político, dê expressão, "empatize" com estas pessoas - que muitas procuram preencher o vazio em movimentos religiosos extremistas. Para quem gosta de pensar o político, aqui está um grande desafio. Outra ideia forte a reter é a de que a ausência de solidariedade para com a Turquia - não lhe tendo sido permitia, como devia, no entender de Guterres, a entrada na UE - ou com as primaveras árabes - não as financiando devidamente, como, por exemplo, sucedera com a revolução portuguesa - teve um preço bem elevado na radicalização de sociedades que não seguem pelos mais democráticos dos caminhos. Em termos de compreensão geoestratégica, a ideia de que a anarquia pode ser a nova ordem, na medida em que a um mundo bipolar sucedeu, com a queda do muro de Berlim, um mundo unipolar, mas agora uma multipolaridade se impõe, sem que nada se faça sem os EUA, mas sem, também, que os EUA, sozinhos, possam grande coisa - hoje, não seria possível replicar a solução política para mudar a situação timorense, como aconteceu no final da década de 1990, porque só a palavra de Clinton agora não bastaria. Obama tentou construir o futuro no Pacífico, mas foi o passado - do Médio Oriente, de uma Rússia que queria reverter uma humilhação anterior - a impôr-se. E há uma boa parte do mundo para a qual ninguém olha - como se o sofrimento do Sudão do Sul, por exemplo, tivesse menos valor.
Pensar-se que o Euro seria causa da integração política europeia foi um erro - o grande logro, como Soromenho Marques já explicara em "Portugal na queda da Europa" - e não é pela "renacionalização das políticas" que lá vamos, mas, precisamente, por esse reforço de integração.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Bondade

Lobo humano (pessimismo antropológico)


Mas eu acredito no Inferno. Para a minha fraca mente, o Inferno parece muito mais exequível do que o Céu. Sem dúvida porque o Inferno é uma coisa de aparência mais terrena. Consigo imaginar os tormentos dos danados, mas não consigo imaginar as almas desencarnadas suspensas num cristal para toda a eternidade, a entoar louvores a Deus. É natural que eu não consiga imaginar isto. Se conseguíssemos cartografar o Céu com rigor, alguns dos nossos cientistas promissores começariam logo a traçar planos para o aperfeiçoar, e os burgueses venderiam roteiros, a dez cêntimos cada exemplar, a todas as pessoas acima dos sessenta e cinco anos.

Flannery O'Connor (traduzida por Paulo Faria), Um diário de preces, p.20

"A vida não pode ser só isto"


A vida não pode ser só isto. Uma afirmação tanto intuitiva/poética quanto política - sublinhe-se política.

Cada vez mais cada um de nós tem de levantar a mão, e tem de esbracejar. Temos de ouvir os poetas quando dizem: "Não pode ser só isto". Um grande manifesto político seria dizer: "Não pode ser só isto" (...) A vida não pode ser só isto. Uma sociedade não pode ser só isto. Os nossos dias não podem ser só isto. E ganhar espaço para trazer ao de cima, para verbalizar, para dar estatuto político e público a dimensões que são empurradas para uma clandestinidade nos nossos quotidianos. No fundo, porque é que estamos aqui? Qual é o sentido das nossas vidas? O que é que fizemos, o que é que não fizemos? (...) É importante transferir esta questão para o domínio da sociedade. Chutar estas questões para o domínio pessoal, é aquilo que a sociedade faz, enxotando responsabilidades. A sociedade que não se constitui como projecto humano, é uma sociedade que perde a sua coesão interna. O que é que nos une? É a contribuição tributária ou a condição humana? É importante que esta reflexão seja feita e que, em termos sociais, em termos culturais, haja espaço para ela acontecer. É muito preocupante a situação de marginalidade a que a produção cultural hoje é votada. O que se reflecte nos teatros, o que se faz no cinema, o que se escreve nos livros, o que se debate na filosofia, não é uma margem para uma mão de especialistas ou de fruidores daquele tipo de discurso. É um contributo fundamental para a própria sociedade descobrir o seu caminho, as vias da sua possibilidade.

José Tolentino de Mendonça, em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro, no Jornal de NegóciosWeekend, pp.6-7.

Sobre o futuro da educação



A propósito desta peça do Observador.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Começar 2015 com o essencial


Preparando a primeira crónica radiofónica de 2015, lendo sobre educação. Por um lado, a mudança estrutural preconizada, nas mentalidades - finalidades adstritas à educação -, nos pressupostos antropológicos - em que se ancoram metodologias, pedagogias, conteúdos a ensinar -, nos currículos no muito interessante capítulo dedicado ao tema, por Jeremy Rifkin, em A terceira revolução industrial (Bertrand, 2014). Depois, atento ao conjuntural com as notícias (do I, peça de Pedro Raínho) sobre as mudanças no ensino na Finlândia, onde os cadernos de duas linhas - já vos falei aqui deles - já eram. A partir de 2016, fim do ensino da letra cursiva, promoção da escrita em letra de imprensa, desenvolvimento da capacidade de escrita rápida em teclado (preparação para o mundo laboral, onde o interesse pela caligrafia anda próximo do zero e a escrita em teclados é, essa sim, quotidiana). A confederação de pais portugueses, contudo, não quer importações acríticas de modelos exógenos e entende que se estão a formatar as crianças, sem espaço para o cunho pessoal impresso na letra (que não: há espaço para perfil próprio, também na letra de imprensa, respondem os finlandeses). Enquanto isso, conta o jornal, uma professora norte-americana, de 25 anos, ganhou prémio de 7 mil dólares por ter concebido uma das ideias mais inovadoras, neste ano, no ensino daquele país: contar a história dos EUA, fazê-la transmitir/compreender aos alunos, através de uma única ópera em que estes participam e para a elaboração e operatividade da mesma várias cadeiras/disciplinas são convocadas. A professora em causa chama-se Meredith Moonvey. Ela que reinveste, de imediato, na ópera, os dólares ganhos criativamente.
Finalmente, o Sol (por Rita Carvalho) dá nota do atraso em que ainda se encontra o processo de transferência de competências educativas para os municípios, relatando que, muito embora o processo de selecção e recrutamento de professores continue centralizado no Ministério da Educação, a componente de até 25% do currículo, a poder ser definido no âmbito local, é visto, pela Fenprof, como contrariando a ideia de que nenhum papel caberá às autarquias na selecção de professores. Na peça são, ainda, esgrimidas perspectivas quanto à capacidade dos municípios - seja através do seu Executivo, seja através dos Conselhos Municipais de Educação, para os quais alguns reclamam alterações legislativas de modo a acomodar membros que consideram essenciais nas decisões a tomar e que hoje, por força de lei, não podem ter assento ali - de poderem, ou não, gerir este processo como deve ser.


Ouro negro?


Cerca de metade do Orçamento russo é coberto pelas receitas do petróleo; este, representa cerca de 2/3 das exportações russas. Com a crise na produção, durante uma parte do ano, e com a queda do preço do petróleo, na outra parte, Angola perdeu 2,5 mil milhões em receitas advindas do petróleo, comparando com o período homólogo do ano anterior (para 2015, Angola espera um défice orçamental de 7% do PIB e um crescimento de 9,7%).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O povo e o "povo da televisão"


Sobre "Alentejo, Alentejo", Kathleen Gomes, em peça assinada no Y (Público), descrevendo uma das cenas do documentário e retirando, com o realizador Sérgio Tréfaut, as devidas consequências. Muito bom:

" 'Está tudo pronto para o concerto do Tony Carreira?' Os cantores do grupo deixam o local cabisbaixos, humilhados. O que se vê nessa cena é o triunfo de uma determinada representação do povo, criada, alimentada e reproduzida pela televisão, que contaminou todas as dimensões da cultura portuguesa. Alentejo, Alentejo é a vingança. 'O simples facto de mostrar este universo ou que estas pessoas têm valor é uma maneira de dizer: isto tem valor e a merda que vocês estão a ver na televisão não tem valor. A Teresa Guilherme devia estar por detrás das grades. Fazem crimes todos os dias, não contra a humanidade, mas contra a alma dos portugueses' [diz Sérgio Tréfaut]".


Sobre o "povo da televisão", já António Guerreiro havia escrito um excelente texto:



Vidas por viver


Golpe Mortal, golpe Vital para Os
Que até morrerem não se tornaram vivos -
Que, vivos fossem, morreriam, mas
Quando morreram, começou a Vida.

Emily Dickinson (traduzida por Ana Luísa Amaral), Duzentos poemas, p.13.

[Agostinho da Silva, em alguns dos seus ensaios, dizia que há gente que morre sem nunca ter vivido]


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Há 100 anos

O presépio de Torgueda (II)


Olhando detidamente o presépio de Torgueda. Um desafio.

João M. Duque, em Dizer Deus na pós-modernidade, convocando a recepção heideggeriana de Nietzsche, dirá que o que fala na, ou constata a "morte de Deus" é aquele que O procura. E que, em realidade, o que morre é o/um conceito idolátrico de Deus (aquele que para tudo, para cada situação tem uma prescrição [imediatamente assimilável] e que substitui a responsabilidade do indivíduo; em Um diário de preces, Flannery O'Connor escreve: "não quero que seja o medo a fazer-me ir à Igreja. Não quero agir como uma cobarde, ficando junto de Ti só porque tenho medo do Inferno" p.19). Na verdade, o que morre não é Deus, mas o ídolo. E Tomás Halík assinala que há poucos lugares onde tanto se note a presença de Deus como na sua (sentida) ausência. Por isso, os grandes santos e místicos amaram tanto a noite, a escuridão. T.S.Eliot, referindo-se ao Pascal por detrás dos Pensées, observa que o desespero e desilusão nele presentes "são análogos à aridez, à noite escura, que é um estádio essencial no progresso do místico cristão (...) um desespero que era um prelúdio necessário ao, e um elemento do júbilo da fé" (Ensaios escolhidos, p.73).

O presépio de Torgueda



 João M. Duque, em 'Dizer Deus na pós-modernidade', creio que citando a recepção heideggeriana de Nietzsche diz que quem fala na, ou constata a 'morte de Deus' é quem O procura. E que, na verdade, o que morre é um conceito idolátrico de Deus (digamos, aquele que para tudo tem uma prescrição e substitui a responsabilidade do indivíduo; em "Um diário de preces", Flannery O'Connor escreve: "Não quero que seja o medo a fazer-me ir à Igreja. Não quero agir como um cobarde, ficando junto de Ti só porque tenho medo do Inferno"). O que morre é o ídolo. E Thomas Halík diz que há poucos "lugares" onde se note tanto a presença de Deus como na sua ausência. Por isso, os grandes santos e místicos amaram tanto a noite e a escuridão. T.S. Eliot, discorrendo sobre o Pascal por detrás dos Pensées, dirá que o desespero, a desilusão deste era "análoga à aridez, à noite escura, que é um est´adio

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Resignação


Doravante, deixa-me pedir-Te com resignação - o que não é nem pretende ser um afrouxar das orações, antes um orar menos febril -, com a consciência de que este frenesi é causado por uma ânsia daquilo que desejo, em lugar de uma confiança espiritual.Não pretendo fazer conjecturas. Quero amar.

Flannery O'Connor, Um diário de preces, p.17.

Bom Natal

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Cândido




Convenhamos: uns anitos depois de Alan Greenspan...

"Toda a minha vida adulta andei a ler Hayek, Friedman, a escola de Chicago, o liberalismo político clássico. E após a crise internacional, mas sobretudo neste mês muito intenso na comissão do GES, tudo isso abalou de forma muito profunda as convicções que eu tinha sobre o liberalismo. Neste momento, estou com mais suspeitas, com a convicção, de que o liberalismo económico tem uma contradição insanável com a natureza humana. O agente económico deve ter regras fortes e devem existir instituições que forcem a sua aplicação. Caso contrário, a ganância, a prevaricação, o instinto de fuga às regras...(...) vou fazer-vos uma revelação: já não sou liberal (...) E olhe que me custa dizer isto. Até estou comovido (...) O Estado tem de ter força (...) Eu sempre me considerei um liberal. Às vezes até de uma forma ardorosa. Publiquei um livro, há largos anos, que se chamava É difícil ser um liberal em Portugal. De facto, é difícil, agora, para mim".

Carlos Abreu Amorim, ontem, em entrevista ao Público.

Pub: logo, "Alentejo, Alentejo", no Teatro de Vila Real



Festejar, em Trás-os-Montes, com este filme-documentário de Sérgio Tréfaut, a justa vitória alentejana como património imaterial da humanidade. Há uns anos, uma semana em Serpa, fez-me fã.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Reformar


Um dos adquiridos, que data pelo menos desta última década, para a nossa vida política, de um conjunto de experiências eleitorais no interior dos partidos é o de que aquilo que se passa na existência de cada agremiação partidária e, em especial, a escolha de um programa e seus representantes, não é algo que diga, exclusivamente, respeito aos militantes dessa força partidária. Em sociedades abertas, a comunidade interessa-se, os media escrutinam, e a democracia pode revitalizar-se em momentos em que, em virtude de uma dada disputa eleitoral, em público e às claras, se discutem concepções sobre a cidade, planos ou projectos para esta. São momentos, aliás, de raro privilégio, de atenção concentrada dos cidadãos, para que um partido possa afirmar-se.
Esta perspectiva, válida para o todo nacional, é-o, ainda, no âmbito local. Nesse sentido, e pensando-se na noticiada eleição (próxima) para a concelhia de Vila Real do PSD, com natural expectativa os cidadãos interessados na coisa pública procuram em jornais, rádios, televisões ou sítios da internet locais que pensamento, que políticas, que ideias se propõem para a cidade, atendendo a que não pode deixar de se esperar que as candidaturas que possam surgir resultem de uma ambição em concretizar uma estudada ideia sobre o concelho.
Sendo, sem dúvida, importantes os nomes, as pessoas que corporizam uma ideia ou projecto, não menos fundamental é que estes – a ideia ou projecto – existam mesmo. Que não se navegue à vista, nem tudo termine em opções casuísticas. E, em sendo mais do que uma as candidaturas, que se confrontem visões sobre as escolhas a prosseguir.
Assumir esta necessidade de clareza - quer quanto ao leit-motiv de ambições políticas, quer quanto aos conteúdos programáticos - é que seria, não nominal mas substancialmente, politicamente incorrecto.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Hollywood ending


Na entrevista que concede a Francisco José Viegas, na Ler, de Dezembro (2014), António Lobo Antunes conta, divertido, uma semana em Gotemburgo, escutando o francês inventado por Norman Mailer, o francês que todos desconheciam porque pura e simplesmente não existia, dito solenemente em discursos, ouvidos, bebidos, atentamente, em silêncio, por um público reverente, vertidos, depois, pelos jornais suecos, como intervenções interessantíssimas sobre literatura (produzidas por Mailer).

Bons exemplos





Leio no mais recente número da Ler que a Rádio 4, britânica, vai passar, a 1 de Janeiro (2015), uma adaptação radiofónica do Guerra e Paz, de Tolstói, em 10 horas seguidas de emissão (apenas interrompida pelos noticiários das 13h e das 18h). Francisco José Viegas, que assina a curta peça, e a propósito do serviço público, escreve que "o ministro Miguel Poiares Maduro (...) se fosse homem para isso, pensava no assunto".

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Livros, livros, livros





*Vale a pena ler livros novos de ficção?, perguntava-se Pacheco Pereira

*Pegando na questão, António Guerreiro prosseguiu conversação.

*E regressou a ela.

*Pacheco Pereira retorquiu.

*Modos de ler, modos de ser, por António Pinto Ribeiro.

"Educação Europeia" (III)


O poder da arte.

Pegou no violino...De pé, no meio da cave malcheirosa, vestido com trapos sujos, o garoto judeu cujos pais tinham sido massacrados num gueto reabilitava o mundo e os homens, reabilitava Deus. Tocava. O rosto já não era feio, o corpo desajeitado já não era ridículo, e, na sua mãozita, o arco transformara-se numa varinha mágica. Com a cabeça lançada para trás, à maneira dos vencedores, e lábios entreabertos num sorriso de triunfo tocava...O mundo saíra do caos. Adquirira uma forma harmoniosa e pura. Logo no começo, o ódio morreu e, aos primeiros acordes, a fome, o desprezo e a miséria fugiram, quais larvas obscuras que a luz cega e mata. O calor e o amor viviam em todos os corações. Todas as mãos estavam estendidas, todos os peitos eram fraternos (...) O garoto continuava a tocar...E, subitamente, Janek teve medo, teve medo da morte. Uma bala alemã, o frio, a fome, e ele desapareceria antes de ter bebido na sua alma o Graal humano, nascido da peste e do ódio, dos massacres e do desprezo, com o suor dos homens e as suas lágrimas de sangue, entre o grande sofrimento do corpo e do espírito, entre a cólera e a indiferença do céu, o trabalho incomparável dessas formigas humanas, que, durante uns anos de vida miserável, foram capazes de criar beleza para a eternidade.

Educação Europeia, Romain Gary, p141.

Um sistema opaco




Agora que a Rússia parece estar em estado de sítio, vale a pena olhar de novo para o homem que substituiu Boris Ieltsin aos comandos do gigante que parecia (re)despertar. Fazê-lo através de Rússia - a empresa de Putin  (documentário da PBS, transmitido em Portugal pela TVI24, no programa Observatório do Mundo) é mergulhar num pantanoso universo de corrupção.
Vladimir Putin, nascido numa família de classe trabalhadora, em S.Petesburgo, segunda cidade do país (80% dos negócios fazem-se em Moscovo), em 1952, ingressou no KGB e nele fez carreira a partir dos anos 1970, passou pelo governo municipal de S.Petesburgo (onde foi, seriamente, acusado de corrupção), sendo, aí, adjunto (com salário oficial de 400 dólares, mas detendo, misteriosamente, património valioso), chegando, posteriormente, a ministro dos assuntos parlamentares e a director da polícia do Estado (com salário de 1000 dólares mês). Se Ieltsin se vê a braços com um escândalo de corrupção, relativamente ao qual não tem por onde fugir - o caso Mabetex -, assina um decreto de demissão e nomeia Putin seu sucessor interino. Este, no próprio dia em que é nomeado, assina o seu primeiro decreto: imunidade para Ieltsin e família. Este não pode ser detido, interrogado, revisto. O processo judicial é travado. Entre um simbólico palácio que a oposição garante ser seu, e se estima valer 1000 milhões de euros, entre suspeitas de desvios do Orçamento que especialistas em corrupção ouvidos no documentário situam em 30% (desse Orçamento), ficam, ainda, os dados objectivos de umas Olimpíadas de Inverno, em Soshi, que são as mais caras da história e ultrapassam os gastos das seis anteriores somadas. O gasto total com estes Jogos Olímpicos ascende a 37 mil milhões de euros. Entretanto, quem denuncia gastos exorbitantes e relações promiscuas com os negócios tende a ser perturbado, perseguido, agredido, espancado (até à morte). Arkadi Rotenberg é o amigo multimilionário, da área da construção, que consigo prosperou (beneficiando de grandes encomendas do Estado). Membros do inner circle de Putin, que entretanto se afastaram, estão agora, por exemplo, retirados em Londres ou Tallin. Pelo meio, organizações como a Bankwatch - ONG checa especialista em (na luta contra a) corrupção - ou Sherpa são chamadas a deslindar esquemas de transferências bancárias extremamente complexos. Em França, é aberto processo relativo a caso que envolve a Vinci com a Administração Russa. Putin declara receber doze mil euros mensais que, segundo os seus críticos, não lhe permitiriam possuir, por exemplo, a impressionante colecção de relógios de luxo que vai ostentando.

Crítica




Lendo, hoje, a crítica que Gonçalo Mira faz, no Público, às últimas obras publicadas por Gonçalo M.Tavares, ou atentando no que escreveu, no ExpressoPedro Mexia sobre a tradução de Não sabemos mesmo O que interessa, de Paul Celan, parece estar a perder pertinência aquela crítica que Pacheco Pereira fazia a recensões de livros que, em Portugal, só diziam bem (dos recenseados; dos livros e seus autores); "em Portugal, não há livros maus" (atirava, com sarcasmo, JPP). Na medida em que atribuía tal postura a uma mentalidade tributária do medo do conflito, legado por décadas de ditadura, significarão estes exemplos, que contrariam a sua tese, uma corrente em que o respeitinho já não está, ou está menos, presente? Mudança de mentalidades?

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

"Educação Europeia" (II)


Para ele, educação europeia são as bombas, os massacres, os reféns fuzilados, os homens obrigados a viver em buracos, como animais...Mas eu aceitei o desafio. Podem dizer à vontade que a liberdade, a dignidade, a honra de ser homem, enfim, tudo isso, não passam de um conto de fadas, pelo qual as pessoas morrem. A verdade é que há momentos na história, momentos como aquele que vivemos, em que tudo o que impede o homem de desesperar, tudo o que lhe permite acreditar e continuar a viver, precisa de um esconderijo, de um refúgio. Por vezes, esse refúgio é apenas uma canção, um poema, uma música, um livro. Eu queria que o meu livro fosse um desses refúgios; que, ao abri-lo, depois da guerra, quando tudo tiver acabado, os homens reencontrassem o seu bem intacto, que soubessem que puderam obrigar-nos a viver como animais, mas que não conseguiram obrigar-nos a desesperar. Não há arte desesperada, o desespero é apenas falta de talento.

[Educação Europeia, Romain Gary, p.62]


[Etty Hillesum, nos Diários, dizia que "nunca caímos nas suas garras"[nas garras dos nazis], porque há uma dimensão intocável, há uma dignidade em que ninguém pode mexer ou alterar, há uma relação que permanece para além de toda a tentativa de a destruir: "Muita gente me acusa de indiferença e passividade e diz que me rendo de mão beijada. E dizem: «Cada pessoa que consiga escapar às garras deles deve tentar fazê-lo e é uma obrigação. E eu tenho de fazer alguma coisa por mim mesmo». Esta é uma frase que não bate certo. Neste momento toda a gente anda, com efeito, ocupada a tratar da vidinha, a fim de se safar, e no entanto é preciso que um certo número, um número grande até, vá. E o esquisito é o seguinte: eu não tenho a sensação de estar presa nas garras deles (...) não sinto que esteja nas garras de ninguém, só sinto estar nos braços de Deus (...) É o sentimento de inevitabilidade e a aceitação dela, e ao mesmo tempo saber que, em última instância, nada nos poderá ser tirado", p.249/250]

A música e a dignidade humana


A mulher colocou um disco na grafonola.
- A Polonaise, de Chopin - anunciou.
Durante mais de uma hora, os partisans, alguns dos quais tinham caminhado mais de dez quilómetros para estar ali, escutaram a voz, o que há de melhor no homem, como que para se fortalecerem; durante mais de uma hora, homens cansados, feridos, esfomeados, acossados celebraram assim a sua fé, confiantes numa dignidade que nenhuma torpeza nem nenhum crime poderia atingir. Janek nunca mais esqueceria esse momento: os rostos duros e viris, a grafonola minúscula num buraco na terra, as metrelhadoras e as espingardas no colo, a jovem mulher que fechara os olhos, o estudante de boné branco e de olhar febril, dando-lhe a mão, a música, o infinito.

[Educação Europeia, Romain Gary, Sextante Editora, p.55]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O alemão de Hobbes


Educação Europeia

- Porque é que os alemães nos fazem isto?
- Por desespero. Ouviste o que Pech disse há pouco? Que os homens contam belas histórias uns aos outros e depois morrem por elas, imaginando que, assim, o mito se transforma em realidade...Também ele está a um passo do desespero. Não são só os alemães. O desespero ronda a humanidade, desde sempre...Quando ele se aproxima de mais, quando entra cá dentro, o homem torna-se alemão...mesmo que seja um patriota polaco. A questão é saber se o homem é alemão ou não. Se só o é às vezes.

[diálogo presente no livro Educação Europeia, de Romain Gary, Sextante Editora, 2014, pp.61-62]

[claro que este passo dá eco ao velho debate antropológico sobre a maldade intrínseca do humano (será?); mas ainda, sustenta a que extremos pode levar o sem sentido, o desespero humano; neste contexto, este "porque é que os alemães nos fazem isto? Por desespero" faz-me evocar, de algum modo, As Benevolentes, de Jonathan Littel, e um outro diálogo que associava a brutalidade gratuita de alguns capos nos lager com o desespero que sentiam por estarem a fazer o que faziam (aos outros), no que assim se assumia como contradição máxima no seu lidar com a humanidade; quando aqui se diz que "o homem torna-se alemão...mesmo que seja um patriota polaco", lembro os ensaios de Hannah Arendt nos quais refere que quando no pós-1945 lhe perguntavam: 'não tens vergonha dos alemães? ', lhes respondia (até porque tinha a noção de quantos nacionais de outros países haviam participado na empresa nazi): 'Não, tenho vergonha da humanidade' [do que esta foi capaz, naqueles anos 1939-45] ].

O espírito do tempo no caso Sócrates


Uma magistrada escreve, de algum modo em defesa de José Sócrates, no Expresso, mas sente-se na necessidade de o fazer sob pseudónimo. Em entrevista ao I, no mesmo dia, o actor Diogo Morgado diz não saber se aceitaria fazer o papel de J.Sócrates (interpretar J.Sócrates). Aparentemente, um complexo problema de consciência (para o actor).

domingo, 14 de dezembro de 2014

E a Esperança (II)



Há um calor de outrora nestes poemas de Peguy.

E a Esperança



Mais pessoas do que lugares sentados, na noite deste Sábado, na Sé de Vila Real, para ouvir, na presença de Fernando Lapa, os alunos do Conservatório, tocarem e cantarem Um Natal Português (entre outras peças). A traditio não é, apenas, velharia, obsolescência, fardo - de que convém, o mais rapidamente, emancipar-se. É, também, e essencialmente, protecção e orientação, a bússola dada em mão. A agarrar com especial carinho, em tempos vorazes, onde tudo é proposta; logo, proposta nenhuma. Escolha, sim escolha, sempre adiada.

"Educação Europeia"


Procurava mostrar-se impassível, duro, viril: tentava ser um homem. Mas era muito difícil. Talvez porque fosse demasiado novo, ou talvez porque ainda não tivesse matado.

(o narrador de Educação Europeia, de Romain Gary, Sextante Editora, 2014, p.47)

Uma Resistência nem sempre óbvia


Fico a pensar, ainda, nos guerrilheiros gregos (vide post anterior), na história da resistência ao nazismo, em diferentes países. Talvez, num repente, sem se deterem nas páginas da história, sem reflectirem demasiado, muitos creiam, hoje, que a atitude de resistência, nos países por onde passou a hybris nacional-socialista, recolhesse unanimidade; fosse, mesmo, a única posição existencial (tomada/possível). Sem luta, cairíamos sob o jugo nazi - evidência, dirão, e evidência, convicção absoluta que foi para muitos à época; não para todos. A aposta em que a sobrevivência se daria melhor em um contexto de não hostilização do invasor; o posicionamento de que mortes românticas, grandiloquentes não contam, são ingénuas, são mortes à mesma, só a vida, a vida que permanece mesmo por entre a maior das humilhações, a vida nua, conta. Destes debates, deste confronto de posicionamento existencial, durante a grande noite do século passado, nos dá conta, em não poucos momentos, maxime pp.92/93 - "Não haverá Estado polaco. E depois? Antes isso do que um Estado polaco povoado de cadáveres. É muito bonito, isso da luta desesperada, mas o destino de uma raça é sobreviver e não morrer em beleza...(...) Se para salvar dez crianças polacas, eu tivesse de lamber as botas a dez soldados alemães, dir-lhes-ia: «Ao vosso dispor!». 
- É mais ou menos como se eu quisesse fazer-me amigo da tuberculose, Tadek! Sê esperto! Põe-te de bem com ela! Tenta conquistar a sua amizade! Quer os meus pulmões, minha cara? Faça favor, fique com eles, minha amiga! Entre, instale-se, faça como se estivesse em sua casa...» E, depois, se calhar, eu poderia dormir sossegado: a tuberculose teria a amabilidade de me poupar" -, o extraordinário romance de Romain Gary, de 1945, Educação Europeia, recentemente publicado pela Sextante Editora (com tradução, a partir do francês, de Manuela Torres).

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"A História é o futuro"


Em meados de 1941, os nazis invadem a Grécia. Só de lá sairão em Outubro de 1944. Pelo meio, um governo colaboracionista. Batalhões de Segurança gregos, obedientes a Hitler, destroem compatriotas. Célebres os massacres de Kalavitra (700 homens e rapazes executados), ou os de Distomo, perpetrados pelos alemães. Ou da localidade de Hortatis, chacinada pelos próprios gregos - passaram anos e o "cheiro a morte não desapareceu", comenta uma habitante local. Quando, em eleições recentes, nos municípios de Kalavitra e Distomo - mesmo que não apenas restritos à sua localidade central, mas abrangendo as aldeias vizinhas - o partido Aurora Dourada teve uma votação expressiva (acima de 6%) soaram as sirenes de alarme e a memória, dos que caíram às mãos sádicas dos que não conheciam limites às suas atrocidades, postergada. Em um interessante documentário, exibido em Toda a verdade (sicn), percebemos, bem lá no último dos argumentos, para lá do "serviço social" prestado pelos neo-nazis gregos - irem com as velhinhas ao banco, impedindo que os ladrões as incomodem, por exemplo -, de um discurso anti-imigração ("os paquistaneses não são gente") que cola em alguns sectores da sociedade, ou as mais radicais e populistas formas de linguagem contra a democracia representativa ("o Parlamento é um bordel!", "não seremos democráticos se isso for necessário à nossa pátria"), acaba, contudo, por ser a narrativa sobre o grupo de guerrilheiros que resistiu à investida germânica, naqueles anos da década de 40 do século XX, a jogar um papel determinante na compreensão daquele período. Mas não só. Há consequências que chegam aos nossos dias. Um velho vivido, com a dor incrustada na pele, di-lo, no ocaso do documentário, com uma precisão absoluta que mostra uma clara compreensão do que está em causa na interpretação histórica: "A História é o futuro". O modo como o passado é hoje percepcionado, a leitura dele hoje presente pode ser/é determinante para o agora e o amanhã. Mal entendido, pode conduzir ao desastre: "Ninguém merece passar por uma guerra. É inesquecível", advertia, pouca antes, o rosto rugoso com voz feminina.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A CONDIÇÃO DE 'CRISTÃOS MODERNOS'


Como cristãos, acreditamos que Deus actua de verdade, mas, como cristãos modernos, compreendemos que no mundo o faz só através da acção e das leis das criaturas. Karl Rahner disse-o em frase feliz: 'Deus opera o mundo e não propriamente no mundo' (Gott die Welt wirkt und nicht eigentlich in der Welt wirkt). Por isso, podemos e devemos aceitar que o mundo está entregue à nossa responsabilidade - etsi Deus non daretur (como se Deus não existisse) -, mas, como os nossos antecessores na fé, sabemos que essa é uma responsabilidade «agraciada»: nem de titãs nem de escravos, mas de simples e gloriosamente de filhos.

André Torres Queiruga, A teologia, a partir de «o Deus que cria por amor», in Deus ainda tem futuro?, coordenado por Anselmo Borges, Gradiva, Lisboa, 2014, p.277.

A noite de Paulo Sousa?




André Pipa recordava, recentemente, em ABola que Paulo Sousa já venceu o campeonato israelita, ganhou umas taças na Hungria, vai destacado na dianteira da Liga suiça e que um empate ou vitória em Anfield Road, nesta terça-feira, poderia ser o passo determinante que o catapultaria, de vez, para dimensão superior. O jornalista, citando o jornal helvético Le Matin, assinalava o ex-geómetra de Juve ou Dortmund como "o mais exigente e com métodos mais inovadores" dos treinadores que até hoje passaram pelo Basileia. Aguentará a força de Anfield?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Uma quarta escolha?


Como candidato a candidato a primeiro-ministro - admitindo-se esta formulação...- pelo PS, António Costa afirmou, em entrevista ao Público: "O meu candidato [às Presidenciais] é António Guterres". Nas semanas mais recentes, como aqui já se assinalou, esta hipótese pareceu perder força. António Nóvoa é, então, chamado a um papel principal no Congresso socialista. Durante aquele fim-de-semana, nunca é desmentido, pela nova nomenclatura, que a hipótese B para Belém passa, evidentemente, por ele. Eis se não quando, para espanto geral, Costa, ontem mesmo, desafia Jorge Sampaio. O risco de o candidato às presidenciais, apoiado pelo PS, vir a ser considerado uma quarta escolha torna-se, pois, a partir de então, enorme. O mesmo é dizer, a pressão para que se intensifique o tudo ou nada em torno de Guterres será imensa. Mais importante, ainda: face a uma narrativa coerente, mesmo que substancialmente errada, do lado do seu principal adversário político, António Costa corre grandes riscos se entrar nesta estranha deriva - estranho desafio a Sampaio, ontem...- de ziguezague, que a dúvida que aí está, mal resolvida até agora, entre viragem humanista (segundo Costa) ou à esquerda (segundo comentadores, alguns apaniguados de Costa e alguns adversários internos) no último Congresso não ajuda a melhorar.

Cristianitude e o não conformismo

Deus Ainda Tem Futuro ? - Ampliar Imagem

Replicando um título, coordenado por Anselmo Borges, recentemente dado à estampa, Deus ainda tem futuro?, hoje assim se apresenta o tema do Prós e Contras. Se sobre o programa televisivo, a esta hora, ainda nada podemos dizer, já do livro prefaciado por Eduardo Lourenço asseguraremos, desde já, que bastaria o ensaio de Jean-Paul Willaime, um dos mais importantes sociólogos da religião da actualidade, oferecido quase na aurora da obra, para justificar a sua leitura. No texto As condições socioculturais da religião na ultramodernidade contemporânea, Willaime dá conta de um novo tempo da "secularização ao quadrado (a secularização elevada a dois)", no qual a desmitologização, a secularização não incide, já, sobre o religioso, mas recai nas próprias instituições que haviam procedido à secularização ou tomado o lugar do sagrado (na vez do religioso). A ideologia, os partidos, ou a nação, por exemplo, seriam, desta forma, vítimas do processo anteriormente passado com o religioso. "Os desencantadores são desencantados", por fim, e, de novo, a religião mostra proporcionar um acervo de recursos, identitários e éticos, que explicam muita da sua perenidade. Se é certo que a Ocidente, cada vez mais, as sociedades são pós-cristãs, com a separação do Cristianismo a fazer-se não apenas com o Estado, mas, ainda, e provavelmente de modo mais importante, com a ambiência circundante - o fim da cristianitude -, não menos relevante é compreender como no seio de sociedades em que o pluralismo extremado - que dificulta de sobremaneira a construção do "eu" -, grupos de jovens, e menos jovens, qualificados (em França, abaixo dos 45 anos, a maioria dos crentes é composta por pessoas com qualificação escolar superior) forjam pequenos sub-conjuntos identitários, em que o sentido e orientação é proporcionado pela vinculação cristã - a heresia do séc.XXI não é, como no passado recente, a heterodoxia, mas a ortodoxia (diz Guillaume). De aí que "ser religioso hoje é um não conformismo"(p.44).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Preliminares


Não fora o caso judicial do momento, e ter-se-ia notado, de outro modo, como Francisco Assis saiu do Congresso do PS mais próximo do estatuto de candidato a candidato a futuro líder socialista - "a encenação", como lhe chamou Augusto Santos Silva - e como Marcelo Rebelo de Sousa, com a declaração ao Expresso, voltou a reivindicar - para mais, em um momento em que a candidatura de António Guterres parece perder algum gás - a condição de candidato a candidato à Presidência da República.

Barcas de plástico


Desde Janeiro já morreram no Mediterrâneo pelo menos 6500 pessoas e foram resgatadas 160 mil. No último mês, a Marinha portuguesa ajudou a salvar outras 500.

Teresa Campos, em reportagem na Visão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Brocardos


Quem só conhece o cristianismo, nem o cristianismo conhece - diz J.B.Metz, na sua Nova Teologia Política, da necessidade de se conhecer o mundo envolvente e, em especial, o mais próximo ao cristianismo nascente (J.P.Meier falaria de Jesus, como se sabe, como "um judeu marginal"). Metz, o homem que se recusou a fazer teologia "de costas para Auschwitz" - e a partir dela, recuperando a "razão anamnética" de inspiração bíblica, buscou a voz de todas as vítimas (anónimas/inocentes), de todos os marginados.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O Magalhães e o país



Há dias, um estudo da Portucalense, com uma amostra muito significativa de entre encarregados de educação, alunos, professores demonstrou o fracasso educativo da aposta no Magalhães, no nosso país. Pouco utilizado, mal utilizado, ignorado, com agentes educativos sem formação para o poder utilizar, em suma, sem ter intervindo para as - a qualidade das - aprendizagens dos nossos estudantes. Evidenciando todos os limites de uma política voluntarista. Quem pediu o Magalhães, que estudos sustentaram a sua entrada na sala de aula, que referências fundaram a sua pertinência pedagógico-didáctica? Perguntas como estas foram colocadas, em devido tempo, por pessoas como José Pacheco Pereira ou Manuel Maria Carrilho. O mesmo país que discute em termos absolutamente apaixonados um processo judicial que, em boa verdade, desconhece - na sua dimensão mais substantiva - é aquele que em nada se mobiliza quando questões políticas da natureza das presentes no Magalhães - parece que aqui "os nossos filhos" ou "os nossos netos" desaparecem do debate político - se impõem e necessitam de escrutínio e crítica. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Não saímos do sítio




Dos 300 mil milhões de investimento, em três anos, para a Europa, anunciados por Jean-Claude Juncker, na abertura do seu mandato à frente da Comissão europeia, ficou, muito recentemente, a certeza de que se dividem em um muito reduzido investimento público de que se espera uma multiplicação por 15 por parte dos privados (investimento dos privados). Não li um economista que ratificasse estas contas e que não dissesse que são pura ilusão. Nem em muito querendo, um cidadão devotado, acreditar que estaríamos em um potencial momento de viragem, se vislumbra, afinal, grande mudança. Não saímos do sítio.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Personalidades - vistas por Adriano Moreira


Mário Soares "foi o único Presidente da República com carisma"; Antunes Varela era um grande seguidor da Doutrina Social da Igreja, com uma grande preocupação relativa à questão social (ainda que "muito conservador" nos costumes) e daria um bom Presidente do Conselho; a acção de Ramalho Eanes foi "admirável" ao restabelecer a hierarquia nas Forças Armadas; Pinheiro de Azevedo, um ex-aluno, que foi amigo quando ajudou a família, estava Adriano Moreira no Brasil; Marcello Caetano o professor "distante", que com o olhar mandava sair da sala de aula quem não trazia gravata e não queria "esquerdistas" entre os assistentes na faculdade, o homem que chegou tarde e atrasado à liderança do país (e com quem o bom relacionamento, após a conhecida zanga, não foi retomado); Otelo, um "maluco"; Narana Coissoró, um assistente "muito talentoso", com "uma carreira académica importante"; Salazar o homem da vida habitual, que gostava da vida sem sobressaltos como o camponês, alguém que esteve vinte anos sem ler um romance, sem viagens, perdendo, assim, o pé ao mundo, apesar de rigoroso professor e de ter sempre tratado bem Adriano Moreira. Agostinho da Silva foi "um grande amigo", um homem acampado, em pequena barraca, para conseguir que os terrenos, adstritos, no Brasil, a um novo centro de estudos portugueses, não deixasse de ficar para esse fim - mas deu-se o descaso do estado português. A avaliação é de Adriano Moreira, em Este é o tempo.

domingo, 30 de novembro de 2014

Porque durou Salazar tantos anos no poder?


Na tese de Adriano Moreira (Este é o tempo, pp.101 e ss.), a longevidade de Salazar no poder deve-se, essencialmente, a três factores:

a) o apoio da tropa;
b) o apoio da polícia (a importância da polícia política e da censura);
c) a criação do carisma - a propaganda - de Salazar, por António Ferro.

Num tempo de muitos assassinatos a estadistas, o cimento dado pelo anti-sovietismo é determinante para a lealdade institucional (nomeadamente da tropa); a neutralidade de uma parte do território (a excepção são os Açores) na II Guerra Mundial - ninguém se lembrou de Timor, ocupado pelos japoneses, sublinha Adriano Moreira, referindo que após a passagem destes, por aquele território, não havia um mestiço em Timor - desempenha também um factor importante (se Salazar saísse do poder, após o final da II Guerra teria, ainda hoje, uma estátua em cada distrito, aponta Adriano Moreira).


António Pinho Vargas






"A edição dos discos importa, sobretudo, porque as peças para coro e orquestra ("Requiem" e "Judas") não vão circular com a facilidade dos "Estudos" e "Interlúdios", gravados pelo Drumming. "Judas" foi encomendada em 2002 pelo Festival de Viana do Castelo e repetida em 2004 na Fundação Gulbenkian. O "Requiem" estreou-se em 2012 e não espero que volte a ser tocado antes de eu morrer (...) Porque conheço Portugal e conheço o meio musical na Europa (...) Em Portugal, a atenção desviou-se dos artistas e das obras para a parte institucional da vida cultural. Interessa é saber quem é o novo director do São Carlos".

Afirmou que o registo do "Requiem" e "Judas" é a concretização de um destino. Porquê?

"Se pensar no que esperava da vida aos 30 anos, posso dizer que aquilo que foi conseguido através do meu trabalho é algo próximo do milagroso. Isto não é um juízo de valor sobre as obras, porque os juízos são circunstanciais. Sempre foi assim. Bach não foi sempre considerado um génio. Entre a sua morte em 1750 e a terceira execução da Paixão segundo São Mateus, em 1830, passaram 80 anos. Era um mestre do contraponto, fora de moda no fim da vida, e até 1830 a sua música era tocada apenas uma vez, como toda a música desse período.

(...)

No passado, tocava-se música do presente; hoje, ouvimos muito mais a música dos compositores mortos. Porquê? Porque o cânone musical foi criado durante o século XIX, quando se instituiu o concerto burguês. Começa aí um novo fenómeno, o do triunfo da música do passado em larga escala, que se prolonga até hoje.

(...)

Hoje, compor é praticamente a única coisa que me dá prazer de viver. E a estreia do "Requiem" foi um pico de intensidade e de encantamento (...) A vida dá-nos respostas. Por isso propus à Gulbenkian que se fizesse um disco. Havia a possibilidade de envolver a Naxos, pelo que escrevi ao senhor Klaus Heymann [fundador da Naxos]. E ele, que edita muita música portuguesa (...): "Como sabe, para mim isto não é um negócio". E contou-me que o fez porque, em 1950, frequentou Línguas e Literaturas na Faculdade de Letras de Lisboa e ficou com uma ligação à nossa cultura.

Em "Música e Poder" questiona a razão por que, na Europa, Portugal não aparece como um país com criação musical. E referiu que na enorme "História da Música", de Richard Taruskin, D.João V é a única entrada sobre Portugal.

Portugal está ausente do contexto europeu e mundial ao nível das grandes instituições. Há circuitos secundários onde as peças circulam - e isso é um aspecto positivo, mas que não nega o anterior. O cânone foi fixado numa fase de primazia da música alemã, e portanto é a música alemã que é incessantemente reproduzida (...) Emmanuel Nunes morre e nem a Gulbenkian nem a Casa da Música fazem nada de especial. E quem faz a homenagem é o IRCAM, em Paris. O que reforça duas coisas: que aquele era o seu campo de enunciação e que o meio cultural português tem um funcionamento atávico, com dispositivos de destruição dos seus artistas.

(...)

A maioria dos agentes culturais da periferia regula-se pelos valores do centro, reproduzindo uma espécie de 'imaginação do centro' (cito Boaventura de Sousa Santos). Eles não estão lá, mas agem como se estivessem.

Há pouco tempo foi considerado por António Pinto Ribeiro um dos grandes intelectuais portugueses. Revê-se no epíteto?

Não sei. Sei que desde os meus 20 anos tenho uma enorme inquietude intelectual - e sempre fui um leitor compulsivo. Por outro lado, o real implica-me. Não há nenhum compositor português que tenha tomado tantas posições públicas (...)

O que leva um ateu a escrever um "Requiem", um "Magnificat" ou a oratória "Judas"?

O "Requiem" é uma peça com uma longa tradição musical e o seu texto interessa-me por ser uma missa dos mortos. É uma missa para os homens, são eles que morrem, e nesse sentido diz-me respeito. Mesmo no "Magnificat" e no "Judas" são sempre humanos a falar. E foram humanos a escrever.

Durante a composição teve presente o legado de Mozart?

Tive. Fui educado na tradição, em plena dominação do cânone. Tenho profunda admiração por aquelas peças e conheço-as melhor do que a música do meu país (...) Se as lágrimas me correm sentado na minha cadeira, como correram quando se cantou o 'Lacrimosa', estou a ser comovido por algo que fiz, mas que está separado de mim.

Aconteceu-lhe com o Requiem?

Sim. Eu era um espectador como os outros, a viver um momento de profunda comoção estética. Ia dizer sobrenatural ou divina, mas não posso, porque considero a emoção uma qualidade essencialmente humana.


António Pinho Vargas, em entrevista concedida a Luciana Leiderfarb, Actual nº2196, Expresso, 29/11/2014, pp.22-24.


Jorge Calado, no Actual, sobre Requiem e Judas, de Pinho Vargas [5 estrelas]: "Neste 'Requiem', A.P.V confronta o peso da história da música, principalmente dos Requiems profanos, como os de Verdi (a escolha de textos é semelhante). Obra de grande unidade rítmica, nela perpassa o arfar respiratório do equivalente mozartiano. A atmosfera lúgubre é cortada por cintilações tímbricas, o toque dos sinos tubulares, o canto agudo dos sopranos. Enquanto o 'Kyrie' surpreende pela brevidade e reticência, a 'Lacrimosa' escorre numa melodia. Deus está nas hesitações (pausas) do 'Sanctus'. Tudo converge no drama 'Libera me', com as cacofonias vocais dos aflitos, um crescendo implorante que se apaga no acorde imperfeito final. Será talvez a morte (como 'Im Abendrot', de Strauss)? Três badaladas e um balde de cal".

1º Dezembro - Vila Real


Com excepção de duas meninas lá atrás, não se vê aqui nenhum público jovem, registou Francisco Seixas da Costa, ontem, no Grande Auditório do Teatro de Vila Real, na celebração do 1º de Dezembro pelos Antigos Alunos do Liceu Camilo Castelo Branco. A falta de ligação, dos mais jovens, com aquela data histórica, cujo desaparecimento como feriado António Barreto considerou, no mesmo local, "uma estupidez", é algo que importará corrigir. Não me parece, contudo, que seja apenas a perda de vínculo com as grandes datas do nosso Estado-Nação ali a estar em causa, mas, ainda, a definitiva descolagem, nesta geração, da figura do intelectual como a merecer especial reverência (uma perda com bons e maus motivos a justificá-la). De facto, só se viam "cabelos brancos"; muito escasso o público abaixo dos 60, numa tarde que principiou pela lição de sapiência de Adriano Moreira, na qual o Professor voltou a enquadrar as fórmulas que vêem acompanhando o seu pensamento, com Portugal a adiantar-se à era dos povos (por oposição à era dos reis), com o princípio meritocrático a impôr-se cedo ao hereditário na história pátria (o mestre de Avis cedo é convocado ao discurso), passando pelo além Europa como constitutivo do conceito estratégico nacional a desenvolver bem como determinante na nossa contribuição para o conceito estratégico europeu que um dia existirá. Isto, sempre repudiando as políticas que colocam em causa a comunidade de afectos que um/o país é (velhos contra novos, público contra privado, etc.). Eurico de Figueiredo centrar-se-ia nas questões de actualidade e na crítica à europa, bastante mais matizada na alocução de Seixas da Costa, enquanto Barreto falava na necessidade de preservar a "pátria chica", o local, ou locais onde se sente em casa,o Douro, e relembrou a sua primeira sessão de esclarecimento pós-exílio, em 1975, em Folhadela, de onde era natural a sua mãe.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Executivos municipais


Tenho-me questionado acerca das vantagens da existência de Executivos camarários em que neles coexiste situação e oposição (em especial, das vantagens como superando eventuais desvantagens que existam, também). Sobretudo, quando há, não apenas formalmente mas de facto, uma relação de dialéctica conflitual - como, aliás, considero que deve ocorrer para que democracia verdadeira haja a nível local - no interior do Governo Municipal. Não me refiro, portanto, a casos em que a situação , como já algumas vezes sucedeu no nosso país, tenha dado um abraço de urso à (suposta) oposição, abafando-a, por um lado, e participando estas, situação e oposição, nas mesmas posições (ou práticas), servindo, a oposição, de resto, em tais circunstâncias, de legitimador das opções da maioria existente. Neste sentido, parecem-me ser dois, respectivamente, os principais argumentos que balizam as possíveis opções entre governos municipais monopartidários (ou de coligação previamente estabelecida) ou, ao invés, do pluripartidarismo com assento municipal: de uma banda, a coesão reforçada do Executivo, a eficácia política mais facilmente obtida; do outro, uma fiscalização com maior acuidade, pela minoria presente no Executivo, face a decisões do poder predominante. Entre um e outro argumentos, talvez a sensibilidade presente, na sociedade portuguesa, penda mesmo para a necessidade de manter os equilíbrios institucionais, os mecanismos reguladores de qualquer pulsão desviante, um controlo apertado das decisões sobre a cidade.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Uma figura esdrúxula


Uma coisa que me causa espécie quando sigo os trabalhos e os procedimentos da Assembleia Municipal é a figura do pedido de autorização que um vereador tem de efectuar ao Presidente do Executivo, sempre que pretende tomar a palavra - isto, se exceptuarmos casos da defesa da honra de um dado vereador, ou solicitação da Assembleia para que este fale. Não só não vejo motivos bastantes para impedir um membro eleito de tomar a palavra, como, ademais, a proibição, pelo Presidente da Câmara, torna-se virtualmente impossível: a posição insustentável em que se encontraria, caso negasse a palavra a um seu vereador era tal, o efeito boomerang bem mais pernicioso do que algo que qualquer vereador possa dizer que, em realidade, a figura procedimental não só não tem sentido, como nenhuma praticabilidade. De aí que melhor fora acabar com ela de vez.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Sócrates e o arrastão


Não se pode confiar em ninguém…é a frase que mais ouço, na última semana, entre o cidadão comum, menos politizado/partidarizado. A frase é dita de modo arrastado, magoado, mais do que com gritaria indignada, a exaltação berrada, como em ocasiões anteriores. Desta vez, bateu mesmo.
Entre o público mais ligado aos partidos, a madrugada de sexta é vivida em picos emocionais opostos: há os telefonemas eufóricos a prenunciar uma vitória já insuspeita(da) nas próximas legislativas; há uma desilusão enorme, um não saber o que fazer, o mundo que caiu em cima, no campo político contrário. Por mais identificações, por mais paixões e ódios que atravessem os portugueses, em particular face a José Sócrates é a contabilidade político-partidária que, de imediato, se faz.
Das televisões, o projecto editorial do Correio da Manhã, ao qual Francisco Assis, há dois anos, chamou, com verdade e coragem, fascista mostrou a fibra de que é feito quando, em plena late night de sexta, o seu repórter, no aeroporto de Lisboa, dava conta, com imoderada satisfação, de como um cidadão que aguardava a chegada de um familiar lhe segredara o champagne que o esperava para festejar (sic) a detenção do ex-PM português.
Desta vez, muito de baixinho, a cabala não chegou aos pronunciamentos dos protagonistas que, indirectamente, se viram violentamente atingidos. Claro que nos fóruns radiofónicos, sempre à beira do colapso – um dos moderadores do fórum da antena1 chegou a afirmar, ontem, perante o tom desesperado de uma senhora: “tenha calma, temo que ainda lhe dê alguma coisa!...” -, a tese de uma conspiração para benefício de um partido, ou dos partidos do governo, não deixou de ser esgrimida. A meu ver, sem sentido. Parece evidente que ninguém detém alguém como José Sócrates, após um ano de investigações, sem, no mínimo, ter um caso muito sólido para apresentar. E, por mais aspectos conexos que se possam tratar, a verdade é que o fundamental é existir, aparentemente, esse muito sólido caso de um ex-PM ligado a crimes de uma grande gravidade (que terão que ver, justamente, com essa mesma governação). Não se pode passar ao lado disto.
Claro que na pulsão mediática, segue-se o arrastão: de repente, pretende transformar-se, por exemplo, o Freeport em crime provado na vigésima quinta hora (mas, como, onde e porquê?). Quer-se que o atentado contra o Estado se transforme no Face Oculta. Se alguém esboça algum tipo de defesa de Sócrates, como fez, ontem, no Telejornal, Pinto Monteiro, é trucidado a seguir (vide declarações de Moura Guedes, na RTP Informação, ou a emissão contínua do Correio da Manhã TV). Personagens como Manuela Moura Guedes são recuperadas, e o seu abjecto jornal das sextas parece querer agora ser reconduzido à categoria de jornalismo. Os (alegados) delitos penais de Sócrates serão amalgamados às políticas que prosseguiu… Se António Costa recusa, e bem, a prática estalinista de apagar pessoas de fotografias, já a reescrita da história recente portuguesa corre a olhos vistos.
Pelo meio, vestais recordam-nos, do alto da sua conhecida autoridade na matéria, que os políticos não são todos iguais – como se diz lata em economês declinado em língua inglesa?
Ouve-se, nesta crise imensa, com especial atenção – imagino as audiências deste Domingo - o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI: “se António Costa ganhar as próximas legislativas é um génio”. Para dois milhões de portugueses, sensivelmente, o turn-over de expectativas políticas para Outubro de 2015 estava assim selado – nenhum comentário é absolutamente neutro, como é óbvio, e este participa desse mesmo processo de turn-over, ao considerar, a contrario, que, com o processo a José Sócrates, o normal, o expectável é a vitória do centro-direita português nas próximas legislativas (a vitória do PS é de tal modo impossível que só um génio a alcançará…um modo de qualificar a realidade, naturalmente controvertido como seria controvertida um posicionamento diverso, e que a influencia ao enunciá-la deste modo, o que, aliás, é perfeitamente legítimo).
A realidade é que cada vez que se calam ou cada vez que se manifestam, sempre aparecerão, muitos dos principais rostos do PS, na defensiva, evidenciando quanto a contaminação política do caso penal está aí. Se a tese da impossibilidade de vitória socialista será radical, a dificuldade bastante, essa, está à vista.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Freixo de Espada à Cinta




Fico a saber em Este é o tempo que o primeiro português a chegar à China, Jorge Álvares, é de Freixo de Espada a Cinta (localidade onde foi erguida estátua em sua homenagem). E, por Freixo, terá regressado Bartolomeu dos Mártires, vindo de Trento.

Autenticidade




Ao contrário de Vítor Gaspar, que no livro-entrevista conduzido por Maria João Avillez, se definiu, ideologicamente, como fortemente social-democrata, Carlos Moedas, ontem, em entrevista a Vítor Gonçalves, afiançou ser liberal. Tanto na economia (interferência do estado na), como nos costumes. E desde muito cedo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Ora aí está o debate ideológico no interior do PS


Estranhamente deselegante, Francisco Assis ao não mencionar o autor do texto, Tiago Barbosa Ribeiro, que escolheu para encimar o seu artigo de hoje no Público. A condescendência, de tipo paternalista, que usa quando fala do "jovem" ou dos "jovens", em sucessivas colunas de opinião, em que responde a remoques que lhe chegam da esfera pública, do interior socialista, a posicionamentos ideológicos seus, também me parece que seria dispensável. Dito isto, não vejo na entrevista de ontem ao Observador, por parte de Assis, qualquer tipo de ziguezague (como aponta Tiago Ribeiro): bem ao invés, este tem sustentado, coerentemente, que a haver uma coligação, por parte do PS, ela deve ser realizada com o PSD. Concorde, ou não, a maioria do PS com esta postura; acompanhe-a, ou não, o novo secretário-geral, ela vem sendo reiteradamente assumida pelo entrevistado de ontem do jornal referido on-line. Propôs, aliás, o eurodeputado, na disputa interna entre António Costa e António José Seguro, que o tema das coligações pudesse funcionar como factor distintivo (do ponto de vista político, que não pessoal ou pessoalizado).
Todavia, o texto de Tiago Barbosa Ribeiro - com o qual Assis, manifestamente, se irritou - tem como principal mérito o deslocar a discussão de qualquer plano (puramente) táctico para o das concretas políticas perante as quais há que tomar posição. E aí, Francisco Assis, quando, p.ex., fala em "capitalismo desregulado" terá que dizer, por exemplo, se entende que as alterações à legislação laboral, nos últimos anos - a revisão do Código de Trabalho é preconizada por Tiago Ribeiro - entra ou não nesse âmbito - e por que é que o PS, na AR, votou como votou algumas das alterações legislativas. Não basta um genérico "há coisas com que concordo" nas mutações preconizadas, em termos políticos, pela esquerda do/no PS.
O argumento da saída do euro, das claras diferenças de posicionamento face à Europa é, no entanto, forte e, a meu ver, convincente para se recusar, como Assis faz, uma coligação PS-PCP (as últimas europeias, por exemplo, foram muito reveladoras quanto à incompatibilidade de projectos). 
Se, todavia, a discussão se centrar no posicionamento face a grandes políticas - Pacto Orçamental, Código de Trabalho, dívida, reforma fiscal -, então o PS terá o tal debate ideológico que muitos assinalaram não ter existido entre Costa e Seguro. 
Costa que, diga-se, se aproximou mais de Tiago Ribeiro, julgo, ao rasgar o acordo para o IRC, que Seguro estabelecera com a maioria governativa, mas que ao inventar, tacticamente, um sebastianismo social-democrata em Rui Rio (potentado social-democrata, ali, até há um/dois anos pouco identificado, mas, entretanto, tornado unanimidade) parece, estruturalmente, em matéria de coligações, mais próximo de Assis.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A quarta dimensão da universidade




Havia a razão unitária, espartilhada, depois, em ciências isoladas (umas) das outras, sem diálogo. No século XX, descobriu-se a necessidade da interdisciplinariedade. Cumpre, agora, "integrar as visões" (parcelares), em um "esforço total" a que Adriano Moreira chama de "transdisciplina", um conceito que assume cunhar e que espera tão sugestivo e replicado como outros da sua lavra, do "presidencialismo do primeiro-ministro" (criado a propósito de Cavaco) ao "neoliberalismo repressivo" (para se referir à actual maioria governativa). João Duque falara já em "razão transversal", como resposta adequada aos tempos, no seu Dizer Deus na pós-modernidade.

Biografias


Trazia uma bucha de casa, para o almoço e aproveitava os intervalos para ir ler para a biblioteca. Foi assim que, no liceu Passos Manuel, ao fim de três anos, Adriano Moreira tinha lido 12 volumes de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz. Ensinou o filho Nuno a ler pela cartilha maternal de João de Deus, pela qual o próprio aprendera a ler. Quando trazia dinheiro para o lanche, se ficasse pela metade do que ia lanchar, dava para parar na Barateira, a comprar livros. E foi assim que fez durante anos.

Gago


Se havia personagem que, ao nível dos governos mais recentes que temos tido, parecia estar no Olimpo da unanimidade (favorável) era Mariano Gago (até pelo que foi a política científica subsequente). Agora, nas palavras de Adriano Moreira reproduzidas por Vítor Gonçalves - em livro, Este é o tempo, acabado de sair dedicado ao académico português de Grijó, Macedo de Cavaleiros -, Mariano Gago é contundentemente zurzido (apodos como maoísmo) e mesmo a sua política claramente criticada (beneficiou foi os americanos para onde os portugueses foram investigar e de onde não voltaram, acusa Adriano Moreira). Neste livro, há histórias, anteriormente contadas em abstracto, sem que os autores/participantes fossem identificados - como a reunião, onde foi corrosivo com Gago, a quem acusa de má criação, que a abandonou a meio; por exemplo, esta história, entre outros lugares, já tinha sido referida na conferência do Cais da Vila, em Vila Real - e que agora, com menos parcimónia e mais à-vontade de linguagem, nos são trazidas de modo iconoclasta.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Um moderado


Para a história dos últimos três anos da vida nacional, ficará o registo de um Ministro da Administração Interna que recusou frondas, nem cavalgou ondas que prometiam vagas de fundo de um país contra o outro. Vagas imaginárias, de resto, perigosas, além disso. Moderado e sensato, Miguel Macedo soube perceber que à violência social das políticas implementadas não se respondia com outra violência, cujos efeitos, aliás, poderiam ser explosivos. Não precisou de mostrar um músculo verbal desaconselhável para cativar o respeito dos portugueses, quando alguns reclamavam exibições de força. Foi factor de paz social, o que não é dizer nada pouco nos tempos que correm. Escrevi aqui, à época, quando os protestos saíam mais frequentemente e com mais intensidade às ruas que Macedo poderia vir a contar no pós-Passos. Este seu gesto, até por contraste com muitos dos seus até agora companheiros de Executivo, não desmente - à falta de conhecimento de eventuais dados outros que possuam gravidade política ou penal - o prognóstico.

Pub: logo, no Teatro




Às 22h, como sempre.

domingo, 16 de novembro de 2014

Os trabalhos de Costa


Ao contrário do que sugerem os tempos de antena do PSD, creio que o principal problema que António Costa enfrenta, actualmente, não é tanto, para uma boa parte do eleitorado, uma colagem a José Sócrates, mas antes uma não suficiente descolagem deste governo. Depois de, na Quadratura do Círculo, Costa ter dado a entender que a interpretação do acórdão do Tribunal Constitucional, relativamente à reposição dos cortes à função pública, devia traduzir-se em devolução integral dos mesmos, abriu, agora, em entrevista dada à RTP, na presente semana, uma caixa de pandora difícil de cingir: quando diz que o acórdão aponta para a devolução tão rápida – e tão substantiva – quanto possível, inscreve, então, o quantum e o como dessa devolução no debate público (como algo controvertido): a devolução de 20%, ou 50%, por exemplo, no próximo ano, ou, melhor, em 2016, passará a ser vista não como uma resultante, sobretudo, de uma imposição jurídica, mas, bem mais, como uma opção de política económico-financeira, abrindo, dessa sorte, o ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o flanco para, em pretendendo devolver uma percentagem mais robusta dos salários da função pública, tal ser consequência ou rotulado de uma visão “despesista” no tratamento dos recursos públicos (as propostas ou promessas de 800 milhões de euros, no dizer de Marco António Costa, entrevistado há uma semana, pelo DN; os 1,6 mil milhões de que fala o Expresso deste Sábado).
Do mesmo modo, quando, simultaneamente, o novo líder do Partido Socialista afirma que há vários modos de problematizar o tratamento da dívida, isto é, a renegociação ou reestruturação das dívidas públicas dos países da zona euro, e pretende que se chegue a um consenso técnico sobre o modo de o realizar, parece, desta feita, obliterar quanto, em diferentes modelos e processos de reestruturação os interesses atingidos são diversos e cabe, justamente, ao poder político arbitrar tais soluções, assumindo que valores políticos, que interesses, que populações, que sectores da sociedade privilegiar em detrimento de outros (e é aqui, naturalmente, que os projectos políticos também se diferenciam, ou podem diferenciar-se). Em realidade, não deixa de ser irónico que advenha de uma área política que, refira-se, de modo correcto, advertiu contra a tecnocracia e a dissimulação da ideologia na técnica, que agora se remeta para um plano de pura engenharia técnica aquilo que passa, inevitavelmente, pela escolha política. Uma real contradição de termos.
A agenda para a década, de António Costa, tem, verdade se diga, a coragem de assumir uma reposição da natalidade através da imigração – como se fez em França; uma penalização, ao nível da taxa social única, para as empresas centradas em promover a precariedade dos seus vínculos laborais; a procura de assegurar a canalização da poupança privada para o financiamento das empresas (com garantia estadual); o estabelecimento de um tecto, um valor máximo no contexto do arrendamento de um fogo habitacional, de acordo com o estado de conservação deste; prémios para inovação na administração pública; a aposta no pré-escolar e a reponderação de um ensino centrado, precocemente, em exames; uma renovada presença das humanidades e das artes no ensino ou a produção de conteúdos que promovam o conhecimento, a história e a língua portuguesas e estimulem a curiosidade, no âmbito dos serviços públicos de televisão e rádio. A isto acresce uma agenda de costumes que outrora – e talvez ainda hoje – seria ou será considerada fracturante. Não é, pois, sempre justo e sério falar de vacuidade em referência à Agenda para a década de António Costa.
Sem embargo, em particular pensando em uma eventual maioria absoluta para o seu partido, dificilmente, sem uma explicitação de uma clara diferenciação na política económico-financeira face ao actual Governo – veja-se, por exemplo, o padrão que Jerónimo de Sousa traça, em entrevista à Visão, para aferir de uma real mudança: do Pacto Orçamental, à revisão da legislação laboral –, Costa conseguirá concitar suficiente mobilização popular de modo a chegar aos requeridos 44 ou 45% dos votos nas próximas legislativas. Nesse sentido, a entrevista à RTP - na qual, nenhum dos marcos diferenciadores face à actual maioria foram evocados - foi, na verdade, um passo atrás.

Guardas a dor no cofre/no olhar o gelo quente



A banda sonora do fim de semana. Gostei mais do que esperava do concerto, comentei, no fim. Escolhi esta canção, que na sexta passou pelo Grande Auditório, do Teatro vilarealense, escrita pelo Carlos Tê e interpretada pela genuinidade, alma imensa, garra, autenticidade, fibra, verdade de Manuela Azevedo. Provavelmente, não por acaso fez lembrar-me, descobri-lhe analogias com "nesse teu jeito fechado/de quem mói um sentimento", do Porto sentido, do Rui Veloso ou ainda "ai de quem nunca guardou/um pouco da sua alma/no fundo de uma gaveta" - que poderia, assim, ser o cofre onde a dor se guarda - do repertório do mesmo autor. Bom público tiveram os Clã, e disse-lhes que sim, mas que esperava casa totalmente cheia e que me lembrava ainda da loucura com Abrunhosa no Calvário, quando todos os temas sabidos de cor e cantados a plenos pulmões por 6 mil almas, davam lugar a verdadeiro êxtase que, de resto, o espírito deste tempo nem consente.

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca sangras quando sofres
Guardas a dor dentro do cofre


Se alguém decifra o segredo
E se pica no teu ferrão azedo
Tu lambes-lhe o sangue do dedo
Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente


Se alguém te atinge o coração
Aguentas o baque
De frente
E sentes uma oscilação


Defendes-te com uma paixão competente
E encarnas tão impunemente
A pele de um animal de sangue quente
Que ama a sangue frio 

Tu nunca choras ao ver sangue
Tu nunca ficas transparente
És daquela raça tão rara
Que tem no olhar o gelo quente
Gelo quente
Quente e frio
Carlos Tê, cantado por Manuela Azevedo