terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O artigo do ano


Ler, ou reler: lucidez, verdade e profecia.

P.S.: O texto político mais substantivo, revelador e importante do ano, em Portugal.


Assembleia local


Última Assembleia Municipal do ano, em Vila Real, teve o maior número de intervenções – ainda antes da ordem de trabalhos, dedicados, estes, à magna questão que qualquer Assembleia tem sub judice, i.é., discussão e votação do Orçamento e das Grandes Opções do Plano – dedicado às corridas automóveis a realizar em Junho, plano, actores, concepção, logo seguido das contas da EMAR (com intervenção sucinta, mas sólida do vereador com a tutela). Rui Santos, o presidente da Câmara Municipal de Vila Real, aludiria a uma candidatura a fundos europeus, por banda da autarquia, com vista ao evento corridas automóveis, o que poderia fazer acrescer, significativamente, as verbas disponíveis (para o mesmo) e, face a esta expectativa, declinou avançar, desde já, com o desenho de actividades a promover no âmbito (mais alargado) de tais provas automobilísticas, algo para o qual havia sido solicitado pelo CDS-PP.
Crítica mais abrangente ao Orçamento municipal foi feita pelo CDS-PP, através da deputada Joana Rapazote, mantendo a coerência e pertinência da reclamação da urgência de documentos mais detalhados, a este nível, nomeadamente quanto às “condições de elegibilidade” dos apoios a conceder a várias instituições (uma das bandeiras eleitorais, deste partido, a nível local), bem como a sublinhar que a contratação directa – sem concurso, portanto – não deve multiplicar-se. Do mesmo modo, exigiu que alterações orçamentais fossem devidamente reportadas à Assembleia (como não vinha sucedendo, em anos anteriores). Mostrou incompreensão por um orçamento ainda muito centrado nas infra-estruturas e “pouco na economia” – mantendo-se, pois, o paradigma -, com várias rubricas – enumeradas – de valores avultados, da cultura ao desporto, por explicitar, com o mínimo detalhe. Na parte final da Assembleia Municipal, distinguiu-se como única deputada/força política que havia preparado, com pormenor, as questões conexas à Vila Real Social e, em última instância, à sua (in)utilidade/funções.
No domínio das políticas sociais, e muito concretamente, no plano da educação a intervenção da deputada do PSD Dolores Monteiro, que se firmaria, ao longo da noite, na liderança da oposição feita pelo seu partido, procurou desconstruir aquela que prometia ser uma das promessas de maior efeito (da noite), a saber, a existência, a partir de agora, de manuais grátis, no 1º ciclo, abrangendo mais de 1600 alunos do concelho, ainda a carecer de regulamentação (mas tomada, pelo edil, como contribuição para o fomento da natalidade; como o programa tem por título “para todos”, sugere-se, assim, universalidade do apoio, o que não deixaria de ser, seriamente, controvertido). Reclamou pela inexistência de uma Carta Educativa.
Campo do Calvário, Abambres e Diogo Cão são as infra-estruturas e clubes contemplados com as verbas, perguntadas, em âmbito desportivo, pela oposição e que, deste modo, Rui Santos procurou esclarecer. “Não faremos mais nenhum centro escolar!”, “foi um erro o Centro Escolar de Andrães; 30% das salas vão estar vazias”, foram outras das afirmações fortes, a este propósito, produzidas pelo líder do Executivo.
Quanto à “troca” de financiamento de material didáctico para as escolas por financiamento a manuais grátis a alunos, a resposta foi a seguinte: “fomos à execução [das verbas para apoio a material didáctico nas escolas] de 2013 e foi tão reduzido o valor verificado que o valor [orçamentado] para 2014 é rigorosamente igual ao executado em 2013”. Trocou-se…orçamentado por executado, já se vê. Nesta fase de esclarecimentos, o autarca postularia, também que “famílias numerosas não devem ter acesso ao cartão municipal de famílias numerosas, caso o rendimento per capita, nessa família, seja, por exemplo, de 3000€”. Quer dizer, para aquele político não bastaria uma família ser numerosa para, ipso facto, usufruir de tal cartão. Argumentação rebatida, de novo, por Dolores Monteiro, na medida em que fundou a existência do referido cartão numa política, não de justiça social, mas de fomento da natalidade. Ficou, pois, clara a diferença de concepções, nesta matéria.
O próximo Dia Olímpico será realizado em Vila Real - outra das novidades avançadas pelo responsável máximo da autarquia.
Pela Assembleia municipal passaram, também, questões que atormentaram, recentemente, alguns vila-realenses que viram a conta de água e resíduos largamente aumentada. “Apenas” se encontram nesta situação 2776 cidadãos, dos quais 31% viram a conta aumentada em mais de 100€. Decorre “um inquérito” no interior da entidade responsável pela emissão das facturas para descortinar o motivo pelo qual estes cidadãos não tiveram, desde Abril, a cobrança devida, tendo agora a conta o acréscimo devido para cada caso – de acordo com o vereador responsável por aquele pelouro, Carlos Silva.
Esta questão havia sido trazida, e bem, ao Parlamento local pelo deputado do CDU, Paulo Figueiredo, que, em outras intervenções questionou a honestidade intelectual de quem defende apostas no relançamento da economia local quando, a nível nacional, defende políticas que comprimem os rendimentos e, dessa forma, afectam a economia (local, também).
Um Natal que mobilizou freguesias, como a multiplicação dos presépios evidenciou (ponto para o PS), ou os gastos com a passagem de ano (promovida pela autarquia), outros pomos de alguma discussão – não gastamos mais do que em outros anos, disse Rui Santos; revelem todas as entidades privadas envolvidas, retorquiu Dolores Monteiro – que tinham, igualmente, atravessado algumas conversas na cidade.

O Orçamento municipal para 2014 foi aprovado, com 27 abstenções e 20 votos favoráveis.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Amizade e verdade


Amigo fiel é remédio que cura, e os que temem o Senhor encontrá-lo-ão. Quem teme ao Senhor tem amigos verdadeiros, pois tal e qual ele é, assim será o seu amigo.


Eclo, 6, 16-17.


Philia


Amigo fiel não tem preço, e o seu valor é incalculável.


Eclo, 6, 15.


Do mais importante na vida


Amigo fiel é protecção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro.


Eclo, 6,14.


Sentenças perenes para o tempo das redes sociais


Podes ter muito conhecidos, mas um só confidente entre mil.


Eclo, 6,5.


O “mito do ano” e os valores da sociedade portuguesa


O último reparo do ano:

1-No final de cada ano, sucedem-se as listas que, nas mais variadas publicações, nos remetem para os filmes, os livros, os álbuns musicais, os DVD’s que devíamos, ou devemos, ter em conta.
Hoje, escolherei, porém, o “mito do ano”. A bem dizer, ele não pertence, em exclusivo, a 2013, mas continua a ser, provavelmente, o marco que mais influiu na vida de milhões de portugueses, nos últimos 365 dias. Trata-se da ideia de que “vivemos acima das nossas possibilidades”, sendo que o “nós”, aqui, são os portugueses (cada português em concreto [culpabilizado]) e resultando, ainda, que esta perspectiva esteve na base do tipo de programa de assistência financeira elaborado para o nosso país, do diagnóstico partilhado pelo governo (com as instituições que compõem a troika); das soluções, por consequência, preconizadas para lidar com a nossa crise; dos resultados, nas concretas vidas de cada pessoa, que tais soluções vieram a gerar (desemprego, emigração, pobreza, riscos para a saúde e a vida).
Dois dados ilustram, na perfeição, porque estamos perante um mito, pior, uma mistificação. Por serem poco frequentemente citados nas televisões – principal meio, quando não único, de formação de opinião no nosso país – talvez não deixem de surpreender. A verdade é que, em 2010, cerca de 63% das famílias portuguesas não tinham qualquer dívida a bancos, ou a instituições financeiras. Acresce que o crédito que a minoria das famílias portuguesas tem contraído se destina não a consumo – os números são claros e esse tipo de crédito é residual –, mas para aquisição de casa própria. Importante, igualmente, registar, como o incumprimento, das famílias, face à banca é, historicamente, baixo. Estamos a falar de 4,4% em 2008 e 6,6% em 2012 (dados presentes em A crise, a troika e as alternativas urgentes, Tinta da China, Lisboa, 2013, p.11). Isto quer dizer que o crédito é proporcionado, esmagadoramente, a quem, de facto, o consegue sustentar. Portanto, não se vislumbra, aqui, um viver acima das possibilidades, que um falso moralismo quis inculcar nas pessoas de modo a que determinadas políticas fossem, ou pudessem ser, aceites de modo acrítico, ou tivessem muito moderada postura crítica. Coisa bem diferente, diga-se, o facto de, ao longo das décadas democráticas que temos tido não termos sido capazes de forjar, ao nível do Estado, um único excedente orçamental, algo que nos torna singulares (no conjunto de países que connosco comparam) e que, em bom rigor, e para nos situarmos nos últimos 20 anos, poderia, por exemplo, ter ocorrido na segunda metade dos anos 90, do século passado, se a opção tivesse sido por políticas contra-cíclicas, em vez de um estímulo económico então não necessário ou urgente (inexistência de políticas contra-cíclicas como, aliás, demonstra Emanuel dos Santos, em Sem crescimento não há consolidação orçamental).

2-Final de ano tempo, pois, de repensar ideias feitas e valores que professamos. No Portugal Social de A a Z, organizado por José Luís Cardoso, Pedro Magalhães e José Machado Pais, podemos encontrar a distinção, ao nível dos valores mais presentes em uma sociedade, entre sociedades individualistas – aquelas que valorizam a promoção da autonomia dos cidadãos e a sua independência afectiva em relação aos outros membros da sociedade, na medida em que o objectivo das normas e práticas culturais é a satisfação das necessidades e interesses do indivíduo – e sociedades colectivistas – nas quais mais se valorizam as práticas tradicionais e se incentiva a interdependência afectiva do indivíduo em relação aos seus grupos de referência, pois que, aqui, o objectivo da acção individual é a manutenção da harmonia da colectividade. No ensaio, nesta obra, produzido por Cícero Roberto Pereira e Alice Ramos (Valores; pp.271 e ss.), Portugal é apresentado como um país onde se valoriza mais os elementos típicos de sociedades colectivistas do que os aspectos que definem culturas mais individualistas. Já no binómio assente na escolha entre valores materialistas – «prioridade a manter a ordem num país», ou «estabilização dos preços» - ou pós-materialistas - «defesa da liberdade de expressão», ou «dar aos cidadãos maior capacidade de participação nas decisões importantes do governo» - a sociedade portuguesa é, claramente, apresentada como materialista. Tal verificou-se durante toda a década de 1990 e os dados de 2008 corroboram tal tendência.
A situação de diminuição da riqueza nacional e de aumento, por certo, de várias situações de pobreza individual tenderá, cremos, a reforçar este padrão materialista na nossa sociedade, ainda que, a nível europeu, paradoxalmente, não necessitássemos tanto de «estabilização de preços» – um item excessivamente cuidado quando comparado com a necessidade do incremento económico – e onde fundamental era que as opiniões públicas, mais informadas e conhecedoras – não guiadas, pois, esmagadoramente, pelos comentadores televisivos habituais -, mas integradas, até, porventura, em movimentos que poderiam ser transnacionais (com objectivos comuns), tivessem uma palavra decisiva. Que nesta crise não se redunde no salve-se quem puder e o individualismo extremo não emirja determinantemente, eis o que verificaremos, também, nos próximos inquéritos de valores junto da população portuguesa.


Dar o benefício da dúvida à espera


Pedro MEXIA, Benefício da Dúvida, Expresso. Atual, 28. 12. 2013, 3.

Ronald Stuart Thomas é um bom poeta para Dezembro, mês inclemente. E além disso estamos ainda em ano de centenário: Thomas nasceu em 1913 e morreu 87 anos depois. Descobri-o há duas décadas, numa livraria ao pé do British Council que mantinha uma minúscula secção de poesia. Releio-o num momento em que assistimos a uma estranha e talvez efémera voga de certos valores cristãos de cunho "franciscano". Confesso que sou, quase desde que me conheço, adepto de um cristianismo mais áspero e desagradável: o de Paulo, Agostinho, Pascal, Kierkegaard. Que é também o cristianismo vetero-testamentário de R. S. Thomas: "E no meu livro li que / Deus é amor. Mas levantei / a cabeça e não achei que / fosse. Devo voltar // ao livro e nos caracteres / impressos procurar uma atmosfera / densa com o perfume / dessa tão simples palavra? Ou não // confiar na linguagem, só nos golpes que / a vida me dá, e usá-los / como um daqueles selos vermelhos / com que se fecha um acordo?"
Thomas nasceu em Cardiff, filho único de um oficial da marinha mercante. Estudou Literatura Clássica e Teologia, e foi ordenado padre da Igreja Anglicana do Pais de Gales, tendo sido pároco, durante quatro décadas, em seis comunidades rurais, algumas particularmente isoladas ou inóspitas. Publicou umas trinta colectâneas, e vale a pena ir directamente aos "Collected Poems 1945-1990", volumoso bloco de poemas crus, austeros, sombrios, poemas de substantivos, cortados à faca. Thomas escreve sobre a geografia física e humana da Gales rural, a Gales, onde o Diabo perdeu as botas. Viveu em sítios de nomenclatura pedregosa como Eglwysfach, Gwynedd, Llanfaelrhys, numa natureza nada bucólica feita de rochas escalavradas, áridas colinas, resquícios arqueológicos. E aprendeu galês para tentar compreender os camponeses taciturnos e amargos daquela terra de missão. Não tardou que se indignasse com a dominação dos "saxões", e nos últimos anos chegou a aprovar a destruição à bomba de casas de férias que ingleses ricos mantinham num Pais de Gales esquálido. Thomas considerava os nacionalistas demasiado moderados, e os galeses em geral cúmplices do seu próprio genocídio cultural. Detestava Inglaterra porque detestava o dinheiro, o materialismo; mas não aceitava genericamente os confortos do mundo moderno, e a sua hostilidade à tecnologia, à "máquina", estendia-se até aos electrodomésticos, ao ponto de não suportar aspiradores e frigoríficos, facto que espantou e assustou muitos paroquianos, que nem isso possuíam.
Muitíssimos dos grandes poemas de Thomas são sobre os camponeses de Gales, e há uma personagem recorrente, Iago Prytherch, símbolo daqueles homens um pouco primitivos, muito trabalhadores, tão severos como as montes e as vales. Homens que ele chegou a abominar, gente ignorante, afásica, selvagem, gelada, com as suas ovelhas, porcos e cavalos, com as mulheres suadas e filhas coradas, com as mãos e as roupa encardidas da jorna. Aos poucos, Thomas foi descobrindo que aqueles rurais tinham vidas grandes e sonhos pequenos, vidas que pareciam castigos, com doenças, pobreza e trabalhos árduos, e sonhos de coisa nenhuma, só coragem que se torna desespero e desespero que agrava a sofrimento. Eram homens decentes, orgulhosos, estóicos, que viviam a sua noite escura com enorme dignidade. Talvez eles estivessem imunes às consolações hipotéticas da religião, e um poema imagina doze discípulos contemporâneos que são galeses de ânimo quebrada: "O primeiro levantou-se e deu testemunho Cristo: / Fui feito à imagem do homem; e ele desfez-me. // O segundo levantou-se: Ele apareceu-me / na igreja numa janela suja. / E eu vi através dele. // O terceiro: Doente de amor, fui ter/ com ele com a minha enfermidade, e não me curei. // O quarto levantou-se e tinha entre as coxas / uma Espada. 'Ele não veio trazer a paz', disse. (...)".
Herdeiro da metafísica sofisticada de Herbert, do naturalismo meditativo de Wordsworth, do pessimismo intransigente de Hardy, R. S. Thomas era um asceta quase calvinista. Levava uma vida minimal, tão descarnada como o seu corpo alto, magro e ossudo e a seu rosto agreste mas distinto. Pastor de comunidades sofridas, percebia que os camponeses fossem como que naturalmente agnósticos, próximos que estavam da fúria dos elementos e do escândalo da miséria. Por isso, uma e outra vez, os poemas aparecem depois de um serviço religioso, numa igreja vazia, com o sacerdote ajoelhado, interrogando um Deus ausente, furtivo, mudo.
Thomas escrevia a partir de uma interioridade negra, que é ainda crente porque ainda está à espera, ainda dá à espera o benefício da dúvida. Durante o mês de Dezembro que agora acaba reencontrei poemas terríveis como este: "Tento tantas vezes / analisar a natureza / dos seus silêncios. É aqui que Deus se esconde / de mim que o procuro? Parei para ouvir, / depois de umas escassas pessoas terem saído, / o ar que se recompunha / para a vigília. Esperou assim / desde que as pedras se agruparam à sua volta. / Estas são as costelas duras / de um corpo que as nossas orações não conseguiram / reanimar. As sombras avançam / dos recantos para se apoderarem / dos lugares que a luz conservou / durante uma hora. Os morcegos / voltam a andar par aqui. O desconforto nos bancos corridos / termina. Não há outro som / no escuro senão o som de um homem que / respira, que testa a sua fé / no vazio, pregando as suas perguntas uma por uma / numa cruz abandonada".



domingo, 29 de dezembro de 2013

Contra a miopia (futebolística)


El Chelsea de José Mourinho se resiste a la revolución, optando por el viejo método de la asfixia y el contragolpe, pero el fútbol de Pep Guardiola es el que ha encandilado a Inglaterra y al resto del mundo en los últimos años y ese es el que aspiran a replicar no solo equipos grandes como el Manchester City, el Arsenal, el Liverpool, el Tottenham y el Everton, sino también el Swansea y el Southampton.


John Carlin, ElPais, 29/12/13.


Simultaneamente presente e transcendente


Onde te encontro, afirmo que lá estás, há uma presença gigantesca a meu lado que não domina a minha, nem me causa medo, e que é uma terra também extra-terrestre.


Maria Gabriela Llansol, Numerosas linhas. Livros das horas III, p.53.


A quadratura do círculo do ajustamento (II)


Outro tópico que José Pacheco Pereira, do registo televisivo ao texto de jornal/revista, não tem largado, e que me parece bastante relevante, a propósito do estádio (da crise) em que nos encontramos e do(s) futuro(s) possíveis, para o país, prende-se com os anos que levaremos até a situação estar razoavelmente controlada (leia-se níveis razoáveis de dívida, défice, etc.). Tem-se dito e escrito que poderemos ter pela frente dez, quinze, vinte anos mesmo, até que o patamar desejado seja alcançado. Até lá…prosseguir com austeridade. Ora, o historiador chama aqui a atenção para o facto de não valer uma mera equação que, com base em determinada previsão de crescimento económico (anual) calcule, sem demasiada dificuldade, quanto anos - a um determinado ritmo -, levaremos até atingirmos os valores pretendidos. A pergunta que deixa é a seguinte: poderemos estar mais dez, quinze, vinte anos a viver em austeridade, pretendendo, simultaneamente, permanecer em regime democrático? A dimensão política e social não faz parte das contas que JPP quer menos redutoras.


Bons frutos de árvores necessárias


Muito bom verificar como as escolas de música da cidade vão dando frutos. Esta noite, pouco depois das 21h, perante uma Capela Nova muito bem composta de público (cerca de 3/4 de ocupação dos lugares sentados), deu-se a apresentação da Vila Real Clarinete Ensemble, composta por jovens (adolescentes), esmagadoramente do sexo masculino, visivelmente comprometidos com uma estreia feliz. Mendelssohn ou Rossini, na primeira parte, combinaram com Piazzolla e até o fado Amália (arr.Valdemar Sequeira), na segunda parte, em uma escolha, já se vê, heteróclita qb.
Maestros e demais músicos de diferentes bandas de música das freguesias do concelho quiseram, junto com os familiares e novo poder político local, marcar presença para um voto de confiança e estímulo para a necessária continuidade, após o entusiasmo inicial.


sábado, 28 de dezembro de 2013

A "dívida externa" como factor crucial na nossa crise


Da Quadratura para o Jornal das 9, com Joaquim Aguiar, ressalta, ainda, uma questão central, partilhada com o diagnóstico produzido em A crise, a troika e as alternativas urgentes (Tinta da China, 2013): a dívida externa foi o factor da nossa crise. Se, no entender de António Costa, existiu, durante anos, um grande consenso, generalizado entre economistas de proveniências técnicas e ideológicas diversas, segundo o qual a dívida externa não era algo especialmente relevante, pois que, em última instância, a UE responderia por ela de modo solidário – honrosa excepção a este entendimento teria sido a posição de Manuela Ferreira Leite -, já Lobo Xavier e, de modo muito particular, J.Aguiar apontaram baterias a Vítor Constâncio. O politólogo, esta noite, na sic notícias, relembraria o discurso de tomada de posse do então governador do Banco de Portugal e do modo como comparou Portugal ao Mississípi que, em Washington, teria, em qualquer circunstância, um aliado de última instância. Não há Washington na Europa, recordou Aguiar. Soubemo-lo, com absoluta certeza, na recusa da mutualização da dívida (incluindo o que ficou do recente acordo CDU-SPD para a governação da Alemanha...e da Europa). Ou, na elaboração detalhada dos autores de A crise, a troika e as alternativas: “No conjunto da UE é possível identificar uma forte correlação entre o crescimento da dívida externa dos países até às vésperas da grande crise internacional e o posterior aumento dos riscos de insolvência dos estados (medido pelo crescimento das taxas de juro cobradas pelos investidores internacionais para aquisição de títulos da dívida pública). Por outras palavras, o aumento dos juros nos países periféricos surge fortemente associado à acumulação de défices externos nos anos que precederam a crise de 2008-2009 (…) Quando um país apresenta um elevado nível de endividamento externo, isso sugere aos investidores internacionais que: (i) as economias têm dificuldade em criar riqueza suficiente para financiar as necessidades existentes; (ii) a sua capacidade de pagar empréstimos que contraírem no futuro estará diminuída – não só pelo fraco desempenho que as economias em causa vêm demonstrando, mas também pelo pagamento das dívidas contraídas no passado; e (iii) uma parte substancial da riqueza produzida todos os anos terá de ser canalizada para o exterior, limitando ainda mais o desempenho económico futuro do país. Por conseguinte, quanto maior a dívida externa acumulada, mais renitentes se mostrarão os investidores internacionais em emprestar dinheiro aos agentes económicos nacionais, sejam eles públicos ou privados. Isto ajuda a compreender que os países da UE onde a dívida externa mais cresceu na década e meia que precedeu a grande crise internacional sejam, em geral, aqueles que viram os juros da dívida subir mais intensamente, levando à intervenção da Troika em casos como Grécia, Espanha, Hungria, Letónia ou Portugal. Assim, se queremos conhecer as origens da situação actual temos de começar por perceber por que motivo a economia portuguesa atingiu níveis tão elevados de dívida externa nos anos anteriores à grande crise internacional de 2008-2009” (págs.23-25).  



P.S: A obra vinda de citar tem como autores Alexandre Abreu, Hugo Mendes João Rodrigues, José Guilherme Gusmão, Nuno Serra, Nuno Teles, Pedro Delgado Alves, Ricardo Paes Mamede.



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O motim das palavras


Penso num motim de palavras; no dia em que eu direi: as palavras amotinaram-se, reivindicaram a revolta que a língua sujeita ainda não lhes tinha oferecido.


Maria Gabriela Llansol, Numerosas linhas. Livro de horas III, p.70.


A quadratura do círculo do ajustamento


Contrariando a tendência dos programas homólogos, a Quadratura do Círculo não foi de férias natalícias e, assim, do que foi dito, na última quinta-feira, por menos frequente noutros espaços, retenha-se: a) Pacheco Pereira não vislumbrou qualquer mérito do governo no resultado das exportações portuguesas (no que não foi contrariado por ninguém; isto é, por Lobo Xavier). De facto, depois de anos de ciência (económica) a proclamar que os números do emprego, quando positivos, não deviam ser creditados a um (determinado) Governo, porque não são estes, os governos, que criam, em princípio/larga medida, postos de trabalho (mas sim as empresas), parecia agora faltar aparato crítico, no nosso espaço público/mediático, para questionar o mérito (do Executivo) nesse crescimento exportador; b) Lobo Xavier disse que o aumento das desigualdades a quando dos processos de ajustamento - em Portugal, como em outros países - não decorre de qualquer conspiração (nem, tão pouco, de qualquer inclinação ideológica subjacente), mas é efeito ipso facto dos programas em causa, “efeito mais do que estudado” (sic) internacionalmente.
E por que é que assim é? Porque, explica o fiscalista, estes programas visam mexer/diminuir o Estado, e quem está mais necessitado do apoio desse mesmo Estado são os mais desfavorecidos, pelo que diminuindo as prestações daquele – Estado –, estes mais afectados são – por relação com os detentores de maiores recursos – e, por conseguinte, mais as desigualdades se fomentam.
Uns, não totalmente satisfeitos com a explicação, arguiriam, junto de António Lobo Xavier o fenómeno do “capitalismo de Estado” e explorariam quanto um conjunto de empresas, ao longo dos anos, se apoiou no Estado e, porventura, não deixariam passar em claro as reduções ficais – beneficiam quem e quem perde com elas? -; outros, perguntariam, por seu turno, se são os mais desfavorecidos que mais necessitam do Estado e se, mexendo com este, com aqueles se mexe, que motivação para ingressar nas fileiras dos que sempre defendem esta redução – da presença, do auxílio – estatal? Como costuma perguntar Pacheco Pereira, de que lado se está, afinal?


Boxing day (II)


Em parecendo, em definitivo, esvaída qualquer possibilidade de renovação com Fernando; sabendo-se que uma alternativa, de calibre semelhante, não ficaria por menos de uns, vá lá, 20 milhões de euros; conhecendo-se a saúde financeira dos nossos clubes e, portanto, a impossibilidade de despender tais recursos e não parecendo, ainda, o clube disposto a oferecer, por exemplo, ao jogador e/ou ao seu empresário o que se pagou, em comissões, por Danilo, esperavam os mais atentos adeptos portistas por uma aposta caseira que recaísse em Pedro Moreira, um 6 inteligente, com muita saída de bola e até com chegada à área adversária (um 6 que pode ser 8, ou um 8 que pode ser 6). Em vez disso, quer Vítor Pereira, quer Paulo Fonseca têm pescado, na equipa B, Mikel (convocado para S.Petesburgo, num jogo muito importante da Champions, esta época) para a posição de trinco. Sendo mais posicional do que Moreira; sendo, portanto, um trinco mais clássico revela-se, não raro, excessivamente duro, faltoso, com entradas extemporâneas, além de tecnicamente limitado com a bola nos pés. Hoje, por outro lado, leio em Abola o interesse do S.C.Braga em Pedro Moreira o que revela tanto da consabida sageza do Professor Jesualdo, quanto de uma eventual negligência interna portista. Quando os comentadores azuis-brancos mais pintados tanto lamentam as saídas de Atsu ou Candeias, acho mesmo que estão a enganar-se no alvo por quem deviam clamar.


Boxing day


Como se sabe, até à chegada de Arséne Wenger ao clube, o Arsenal era o boring Arsenal, uma equipa conhecida pelo futebol cinzento, enfadonho, aborrecido. A mudança foi tão radical e o espectáculo tão grande – chegando a 38 goleadoras jornadas sem uma única derrota – que o novo baptismo não ficou por menos: Arsenal champagne (dado o sabor francês da concepção).
Quem vê o actual futebol do Liverpool que, desde que seguimos a Premier, e desde Houllier a Benítez, nunca foi outra coisa senão o boring Liverpool, tem a esperança que, no limite, Brendan Rodgers consiga descobrir poção (mágica) semelhante. Sem que disponha do plantel que o Arsenal albergava nos anos dourados, e também sem chegar, por consequência, ao brilhantismo dos gunners, a verdade é que o Liverpool é, até ao momento, a surpresa europeia da época e o banho dado, em Londres, frente ao Tottenham, e, esta quinta-feira, em Manchester, o espectáculo face ao City, colocam-no entre as equipas que é obrigatório ver - mesmo, ontem à tarde, derrotada, por falhanços próprios incríveis à beira da baliza e por uma arbitragem muito caseira -, ao fim-de-semana. Um mérito imenso do seu treinador (ah, e já agora, de Luís Suarez o avançado do momento, na Europa, a um nível verdadeiramente soberbo).
Para voltar ao boring Arsenal, talvez por muitos dos seus adeptos conservarem, ainda, na memória o estilo dos anos pré-Wenger e apesar de algumas vitórias debaixo desse fato futebolístico, detectam, à distância, quem joga dessa forma que, tirando os apaixonados por um clube ou uma personalidade, não levam ninguém aos estádios. Daí que na passada segunda-feira, tenham começado a cantar boring Chelsea, boring Chelsea. Além do discurso caceteiro, a orientação técnica blue não quer que o que se vê no relvado destoe da sala de imprensa. As vitórias não justificam tudo.



P.S: Na Liga portuguesa, Carlos Eduardo tem sido o jogador sob todos os focos, nas últimas semanas. Até ali votado ao silêncio, de repente esgotaram-se os adjectivos. Sempre com exagero. Primeiro, porque no Estoril e Porto B já há muito tinha mostrado qualidades; depois, porque ainda não é melhor do que o Pelé. Custa ler o oportunismo de muitos que agora afirmam que era evidente que Carlos Eduardo devia estar a jogar, quando antes nada se lhes ouvira sobre o médio brasileiro. Neste blog, ainda em Outubro, no final do FCP-Sporting, e apesar da vitória portista, vaticinou-se que Eduardo seria titular no meio-campo portista dali a três jornadas. Demorou cinco.


Erotismo


"O sexo apaixonante de escrever"

Maria Gabriela Llansol, Numerosas linhasLivro das horas III, Assírio & Alvim, Lisboa, 2013, p.73.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nota de tradução


Na nota dos tradutores de A simbólica do mal, de Paul Ricoeur, obra editada em português, este ano, pela Edições70, é-nos dada a indicação de que na altura em que o livro foi publicado originalmente (1960) o autor pressupunha que os seus leitores fossem familiares do/com o grego antigo (e daí um conjunto de expressões em tal língua). Hoje, contudo, verifica-se a necessidade de esta publicação vir acrescentada de um glossário, para compreendermos aquelas expressões. Um exemplo ilustrativo de como a nossa educação, pelo menos em um patamar médio (i.é., para lá do Básico) e nas Humanidades, mudou – íamos a dizer, regrediu – nos últimos 50 anos. O diagnóstico, de resto, está em linha com o que, recorrentemente, George Steiner apresenta, quando se refere ao acolhimento que as obras da antiguidade clássica – ou que para ela remetem – vão merecendo: em cada nova edição, aumenta, exponencialmente, o número – e o tamanho – das notas de rodapé, porque cada nova geração sabe menos (do que a anterior) sobre esses mesmos clássicos greco-romanos (e o mundo que os produziu/em que vivem).

P.S: A este propósito, recorde-se Paul Roger-Droit, os clássicos e a justiça social.


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Concertos de Natal 2013 (V.Real)



1-O Coral de Vila Real, com novas vozes, um solista, e um repertório renovado proporcionou noite em cheio, quinta-feira, dia 19 de Dezembro, na Sé, em concerto ainda melhor do que em anos anteriores.


2-Surpresa muito positiva a cantata que de Mondrões veio, pela primeira vez, até à Sé de Vila Real, Sábado, dia 21 de Dezembro, com representação da cena da Anunciação, e um naipe de solistas de respeito (e com um Pe. Horácio com um entusiasmo contagiante). Pena o templo estar muito longe de estar repleto – muito menos gente do que na quinta anterior – e quase sem pessoas da urbe.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Que festa é essa, o Natal?


Glosa de Natal[1]

A estação dos Natais comercializados chegou. Para quase toda a gente - fora os miseráveis, o que faz muitas excepções - é uma paragem quente e clara no Inverno cinzento. Para a maioria dos celebrantes de hoje, a grande festa cristã fica limitada a dois grandes ritos: comprar de maneira mais ou menos compulsiva, objectos úteis ou não, e empanturrar-se a si e às pessoas da sua intimidade, numa mistura indestrinçável de sentimentos em que entram igualmente a vontade de dar prazer, a ostentação e a necessidade de se divertir. E não esqueçamos os pinheiros, símbolos antiquíssimos que são da perenidade do mundo vegetal, sempre verdes, trazidos da floresta para acabarem morrendo ao calor dos fogões, e os teleféricos despejando esquiadores na neve inviolada.
Embora não sendo nem católica (excepto de nascimento e de tradição), nem protestante (excepto por algumas leituras e influências de alguns grandes exemplos), nem mesmo cristã no sentido pleno do termo, nem por isso me sinto menos levada a celebrar esta festa tão rica de significados e o seu cortejo de festas menores, o São Nicolau e a Santa Lúcia do Norte, a Candelária e os Reis. Mas limitemo-nos ao Natal, esta, festa que é de nós todos. Trata-se de um nascimento, de um nascimento como todos deveriam ser, o de uma criança esperada com amor e respeito, trazendo em si a esperança do mundo. Trata-se dos pobres: uma velha balada francesa canta Maria e José procurando timidamente em Belém uma hospedaria para as suas posses, sempre desprezados em favor de clientes mais ricos e reluzentes e por fim insultados por um patrão que «detesta a pobralhada». É a festa dos homens de boa vontade, como dizia uma admirável fórmula que infelizmente já nem sempre se encontra nas versões modernas dos Evangelhos, desde a serva surda-muda dos cantos da Idade Média que ajudou Maria no parto até ao José aquecendo as fraldas do recém-nascido diante de um pequeno fogo, aos pastores cobertos de sebo mas julgados dignos da visita dos anjos. É a festa de uma raça tantas vezes desprezada e perseguida, porque é judeu o recém-nascido do grande mito cristão (falo de mito com respeito, e emprego a palavra no sentido dos etnólogos modernos, significando as grandes verdades que nos ultrapassam e de que precisamos para viver).
É a festa dos animais que participam no mistério sagrado desta noite, maravilhoso símbolo de que São Francisco e alguns outros santos sentiram a importância, mas que os cristãos comuns desprezam, não procurando neles inspiração. É a festa da comunidade, humana, porque é, ou será dentro de dias, a dos três Reis cuja lenda quis que um fosse preto, alegoria viva de todas as raças da Terra levando ao Menino a variedade dos seus dons. É a festa da alegria, mas também da dor, pois que a criança hoje adorada será amanhã o Homem das Dores. É enfim a festa da própria Terra, que nos ícones da Europa de Leste vemos tantas vezes prosternada à entrada da gruta onde o Menino nasceu, a mesma Terra que na sua marcha atravessa neste momento o ponto do solstício de Inverno e nos arrasta a todos para a Primavera. Por esta razão, antes que a Igreja tivesse fixado o nascimento de Cristo nesta data, ela era já, nos tempos antigos, a festa do Sol.
Parece que não é mau lembrar estas coisas que toda a gente sabe e que tantos esquecem.



domingo, 22 de dezembro de 2013

O mal e o sentido


Para o André, com um grande abraço:


O problema do mal

1-De entre as questões últimas que nos podemos colocar – e o Natal pode ser ensejo para as fazer, de novo, assomar -, o problema do mal figura, certamente, entre as mais espinhosas.

2-O filósofo Epicuro, que viveu nos sécs. IV e III a.C., formulou o dilema que, para muitos, se tornou perturbante ou insolúvel: “se Deus é bom e omnipotente, como permite o mal? Ou Deus é bom, e não pode tirar o mal, e então não é omnipotente. Ou, então, pode e não quer, e não é bom. Ou pode, e quer – e isto é o mais seguro –, e então de onde vem o mal real e porque não o elimina?”.

3-Alargando a questão, podemos dizer que três são as características que, classicamente, se atribuem a Deus: a) Bondade; b) Omnipotência; c) compreensibilidade/inteligibilidade (isto é, Deus é susceptível de ser compreendido pelos humanos).

4-Tendo por base tal pré-compreensão do que caracteriza a Divindade, registemos, pois, que, face ao mal – um terramoto que tudo devastou, um amigo com o qual nos zangámos, a perda de alguém querido -, se questionou, seriamente, a compatibilidade – a simultaneidade -, destas mesmas características, presentes em Deus. Para dar dois exemplos, de dois acontecimentos absolutamente marcantes, e que geraram grandes discussões/controvérsia, congregando os maiores espíritos da época (de cada uma das épocas), a este propósito, pensemos no terramoto de Lisboa de 1755 e nos campos de concentração nazi (“Como Silenciaste?”, ousou, mesmo, perguntar, em Auschwitz, Bento XVI).

5-Também um outro grande pensador, do século XX, o filósofo judeu Hans Jonas, escreveu um ensaio intitulado “Deus depois de Auschwitz” e, nele, afirma ser claro que a “bondade” era uma característica de Deus impossível de colocar em causa, pois que contradizia, totalmente, tudo o que o judaísmo e o cristianismo nos legaram acerca de Deus; tudo o que os diferentes livros bíblicos e tradições religiosas milenares nos deixaram. Ora, tornava-se evidente, para este autor, que Deus queria e não podia evitar o mal extremo – de Auschwitz, nomeadamente – e, portanto, a sua característica de omnipotência teria de ceder.
Outros autores, por sua vez, numa lógica que, ainda nos nossos dias se manifesta, não raramente, concluíram que a “Bondade” e a “Omnipotência” estão, mesmo, presentes em Deus, mas (somos) nós (que) não conseguimos compreender o seu actuar (assim, cairia a característica da “compreensibilidade”, ou inteligibilidade, divina).

6-Numa obra extraordinária, publicada em 2011, o teólogo católico galelo André Torres Queiruga, repensou todo o problema do mal (a obra intitula-se Repensar el mal, está publicada pela editorial Trotta e ainda não tem tradução portuguesa) e mostrou como, nos nossos dias, há possibilidade de uma teodiceia – palavra que, como se sabe, visa explicitar a defesa/justificação da compatibilidade de Deus com a existência do mal no mundo: a) Deus é omnipotente e bom – Criou por amor; só tendo poder (omnipotência) criou e, só tendo criado, e criado por amor, pôde/pode salvar; b) simplesmente, não há mundo sem mal; não é possível haver um mundo sem mal; c) pretender um mundo sem mal, seria como que se disséssemos, agora, que queremos círculos quadrados, ou a quadratura do círculo – uma frase que logo diríamos sem sentido; d) Deus criou o mundo, mas o mundo possível, limitado e imperfeito. Se as criaturas fossem perfeitas, não seriam criaturas: seriam Deus.
Mas, oferecendo o seu amor e conquistando os que se decidem no sim (a Ele) dentro da humana liberdade, está presente (sempre) no mundo (na relação ética inter-subjectiva; na minha relação contigo, se eu me conformar ao modo cristão de ser e habitar o mundo). Nesta teologia, estamos, assim, perante um Deus presente no mundo, mas não intervencionista. Um dos grandes adquiridos da Modernidade é o da autonomia do mundo e, desde logo, das leis da Natureza: um deus que suspendesse, de quando em vez, e de modo arbitrário, as leis que fez, salvando uns e deixando outros, não entra nestas considerações. Daí que o grande milagre seja, em permanência – e não pontualmente –, toda a vida, o milagre permanente, e isto, de imediato, porque nenhum de nós se auto-justifica (a frase, acima citada, de Bento XVI, teria um grande valor expressivo, na solidariedade com os que foram vítimas nos lager, mas se entendida de modo literal ainda padeceria de um compreensão da intervenção de Deus no mundo não moderna, diz Queiruga).

7-Em suma, podemos, humanamente, não conseguir abarcar, completamente, o Ser de Deus (“Se é Deus, não o compreendes”, dizia Santo Agostinho), mas podemos, por outro lado, ter uma ideia sobre Deus que seja coerente, lógica, consistente e razoável. E capaz de conciliar a bondade (Deus é bom), a omnipotência (Deus criador e que salva) e compreensibilidade (Deus é amor), com a existência do mal no mundo (não há mundo que não seja finito; não há criaturas perfeitas; não há um deus bombeiro, mas um Deus que se oferece à liberdade humana como amor diário e permanente).

8-A pergunta que, em realidade, se poderia colocar era, antes, se, tendo, inevitavelmente, mal o mundo, porque Deus aqui nos trouxe? Legítima questão. Torres Queiruga usa de analogia, em resposta a atender: qual o pai que não sabe dos trabalhos, dos conflitos, da dureza que os filhos vão enfrentar (?) e, mesmo assim, arrisca, por amor, trazê-los ao mundo.

9-Na verdade, como afirma o grande teólogo galego, a manutenção da existência – quando a podíamos, a qualquer momento, recusar, e apesar de todas as agruras da vida -, significa, no fundo, o referendo pragmático de como esta – a vida – vale a pena.
Para quem acha que milhões de gerações não pereceram em vão, ou que o comportamento ético vale a pena, Deus é um a priori, como dizia Kant.




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A crise do espírito


A crise de espírito que a Alemanha sofreu em 1918 foi mais profunda do que a de 1945 (…) Entre 1918 e 1927, no curto lapso de nove anos, surgiu na Alemanha uma meia dúzia de livros que são mais do que livros pelas suas dimensões e natureza extrema [entre os quais o comentário de Karl Barth sobre a epístola aos Romanos] (…)
Não há dictum mais violento em toda a literatura teológica do que o «Deus diz o Seu eterno Não ao mundo», de Karl Barth.


George Steiner, Martin Heidegger, Relógio D’Água, Lisboa, 2013, p.14-15.


Sem tabus


Os 'sítios' nos quais estamos dispostos a perder receita


"'Tá a ver que há sítios onde podemos perder a receita..."

Assim, irónica, Manuela Ferreira Leite, ontem, no comentário semanal, na TVI24, dirigindo-se ao jornalista Paulo Magalhães, a propósito da reforma do IRC. Embora dizendo concordar com a dita reforma, mas salientando que "são as PME's que criam emprego", pelo que a fórmula inicial que (só) beneficiava as grandes empresas não lhe agradava. O que, em todo o caso, Ferreira Leite mostrou, com um sorriso, é que não embarca nas inevitabilidades, e nas políticas obrigatórias. Há sítios nos quais estamos dispostos a perder receita (esperando, uns mais do que outros, uma compensação ao nível do incremento do emprego). Esta predisposição diz, evidentemente, muito das nossas opções políticas.


Inconstitucional até quando?


Uma coisa é achar-se que, por uma lei ser declarada inconstitucional, o Governo deve demitir-se. Outra, paralelamente equívoca, é concluir-se que seja qual for o número de chumbos, no Constitucional, o Governo deve permanecer, como se nada fosse. Infelizmente, os portugueses, julgo, não encontram a magistratura que pudesse ter o alto critério susceptível de arbitrar a questão. Quantas mais leis inconstitucionais, na actual legislatura, se suportarão com um assobio para o lado?


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Surpresa


Ouvir Pedro Abrunhosa, sobre o que é a arte, a citar Bento XVI, em entrevista a Vítor Gonçalves, na Grande Entrevista, da RTPInformação. Certamente, referindo-se ao encontro com os Artistas, promovido em Novembro de 2009, na Capela Sistina, num dos discursos significativos daquele Pontificado (leia-se aqui ).


Onde estão os nossos doutores?


Onde estão os doutores? Na sua maioria, nas universidades. Em 2009, dos 17010 doutores a trabalhar em Portugal, 82% estavam no ensino superior, 13% em instituições privadas de investigação, 4% no resto do Estado e apenas 1% em empresas.

Carlos Fiolhais, Os novos estrangeirados, in XXI, FFMS, nº3, 2014, p.207.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Motivações/razões/crenças para sustentar mudanças




Alternativas, então, ao modelo económico-social vigente? A alternativa poderá ser a afirmação dos “direitos humanos”, responderá Boaventura Sousa Santos (em Se Deus fosse um activista dos direitos humanos, Almedina, 2013). Mas só se existir um substracto de pré-compreensão do mundo, uma mundividência que faça com que as declarações de “direitos humanos” sejam tomadas/”pegadas” de tal modo que se imponham como “força contra-hegemónica” às injustiças múltiplas e às desigualdades pelo mundo. De outra sorte, a mera proclamação dos “direitos humanos” pode até servir de leit-motiv à sua violação (p.ex. intervenção no Iraque).
É na pré-compreensão mundividencial que, em muitos casos, resulta de princípios religiosos e de uma dada teologia, reside, afinal, o ponto e, neste sentido, o autor não se exime em se apoiar em autores (ou, pelo menos, a pretender tê-los como parceiros) que, justamente, na sua intervenção social/política (na qual a denúncia de problemas económico-sociais, ou culturais adquire relevância) remetem, ab initio, para tal mundividência (religiosa) (“Como participante do Fórum Social Mundial desde 2001, fui observando o modo como os activistas da luta por justiça sócio-económica, histórica, sexual, racial, cultural e pós-colonial baseiam frequentemente o seu activismo e as suas reivindicações em crenças religiosas ou espiritualidades Cristãs, Islâmicas Judaicas, Hindus, Budistas e Indígenas”, p.10). Entre os anti-humanismos do século pretérito, Boaventura vê a chamada “morte de Deus” (“Outra fonte de anti-humanismo raramente reconhecida como tal é a chamada ‘morte de Deus’. Logo que a capacidade dos seres humanos para transformar a realidade se afigurou como potencialmente infinita, a modernidade ocidental tornou Deus supérfluo. De uma forma muito pessoal e dramática, Pascal apercebeu-se que sem Deus esta capacidade era também potencialmente destrutiva. Segundo Pascal, o pensamento de Deus é a forma mais elevada do pensamento humano). Privar os seres humanos do pensamento de Deus seria equivalente a privá-los do cuidado pelos outros seres humanos. Esta formulação sumamente piedosa da presença de Deus foi plenamente (e perversamente) confirmada séculos mais tarde pela mais ímpia formulação de Nietzsche: a declaração da “morte de Deus” Got ist tot. Nietzsche representa a plena realização do projecto respeitante a Deus: do supérfluo à total inexistência. Ao contrário do projecto moderno, contudo, a morte de Deus em Nietzsche, em vez de significar o triunfo final dos seres humanos, representa a sua decadência final, o final dos seres humanos com capacidade para seguir imperativos morais ou procurar a verdade (…) No início do século XXI, a religião e a teologia estão de volta. Não é tão certo que Deus esteja também de volta, pelo menos, não o Deus de Pascal, como garante último da humanidade concreta (…) Desde os anos de 1960 têm vindo a emergir teologias pluralistas e progressistas (…) para as quais Deus se revela no sofrimento humano injusto, nas experiências de vida de todas as vítimas de dominação, opressão ou discriminação e nas lutas de resistência que elas promovem. Como consequência, prestar testemunho a este Deus significa denunciar este sofrimento e lutar contra ele. Tanto a revelação quanto a redenção, ou antes, a libertação, têm lugar neste mundo, sob a forma de uma luta por outro mundo possível. Aqui reside a possibilidade de ligar o retorno de Deus a um humanismo insurgente, trans-moderno, concreto”, p.103-104).
Calar tais vozes - que se vinculam, primariamente, ao religioso - seria, pois, funesto, não apenas para o humano (em abstracto), para o bom debate plenamente democrático (em geral), mas, muito concretamente, ainda, para os que pretendem dar força/densidade a essas reivindicações (que poderão desaguar em mudanças/reformas/transformações das realidades que são assinaladas). Neste sentido, o laicismo, ou o secularismo, a ostracização do religioso, na cidade, remetido, na pretensão de muitos, para a esfera privada, é um erro, mais ainda, uma perversão (tipicamente) ocidental. Aqui se afasta Boaventura Sousa Santos de vários compagnon de route, dado que, não raro, da sua área ideológica, provêm as vigilâncias/críticas mais estritas – e muitas vezes, incompreensíveis – a qualquer pronunciamento/posição advinda do mundo religioso sobre as regras que conformam a vida em comum, na polis.
Confesso que não tinha pensado nos “direitos humanos” como alternativa à “globalização neoliberal” – será na densidade com que estes forem tomados que se avaliará se são preferíveis ao ‘nacionalismo’, ou a todos os ismos que possamos imaginar, a todas as outras ideologias, diz Boaventura Sousa Santos; portanto, os “direitos humanos” não serão, per se, preferíveis, num a priori não sujeito a escrutínio; a verdade é que, ao longo do livro, Boaventura não parece depositar grande confiança em ismos já idos, cujos resultados foram desastrosos – e não creio que a delimitação feita, quanto aos teólogos bons e teólogos maus, seja consensual. Por exemplo, quando, do modo mais politicamente correcto atendendo ao que é a posição mainstream na sua área de partida, faz um conjunto de considerandos sobre as posições de Ratzinger, gostava que o autor tivesse lido, p.ex., um ensaio, Justitia in caritate, na revista Communio, do Professor da Universidade Católica de Lovaina, Johan Verstraeten – ele que se enquadrará num contexto progressista – sobre o que trouxe, Bento XVI, em termos de novidade em favor da justiça social para a Doutrina Social da Igreja (face ao que está plasmado no Compêndio da Doutrina Social da Igreja) a encíclica Caritas in Veritate (mesmo que, é certo, o autor de Lovaina gostasse que se tivesse ido mais longe; do que não restam dúvidas na comparação, muito objectiva, plasmada no seu ensaio, é do avanço que houve, aqui, com Ratzinger; por muito que custe a alguns, o avanço, sim senhor: veja-se aqui).
Boaventura vê, ainda, na separação alma/corpo um outro vício da modernidade ocidental. A mundividência cristã tem, também, a este respeito, uma visão crítica de tal cesura.


P.S: no comentário do último Domingo, na TVI, Marcelo Rebelo de Sousa cita o livro de B.Sousa Santos e o seu título e diz “eu acho que sim, que foi [Deus um activista dos direitos humanos], Jesus Cristo foi com certeza”. Um amigo com quem conversara sobre o livro pergunta-me o que tem a ver tal aparte com o conteúdo da obra. Pode ter, pode ter. Se todos os seguidores virem, assim, o fundador, poderão, hoje, traduzir, de um determinado modo, essa visão, no mundo. Muito rebuscado, diz-me, nem o Prof. Marcelo está assim tão progressista. Olha, que numa entrevista na TVI24, o Prof. Marcelo disse, justamente, que o seu lado mais progressista advinha da sua filiação cristã. Ainda não leu o livro, é o que é. Pois.

Mário Soares também aconselha a obra, na sua mais recente crónica, no DN. Sem grandes considerandos sobre a mesma, porém.


Sonhos com futuro?


Em Outubro de 1926, Kalergi organiza em Viena o I Congresso Pan-Europeu, ainda na onda positiva dos acordos de Locarno, e consegue reunir nomes reputados como Aristide Briand, Adenauer, Churchill, Rainer Maria Rilke, Freud, Stefan Zweig, Thomas Mann, Eisntein, Unamuno, Ortega y Gasset, entre outros.

José Medeiros Ferreira, Não há mapa cor-de-rosa. A história (mal)dita da integração europeia, Edições 70, Lisboa, 2013, p.41.


Tolentino e o haiku: uma entrevista luminosa (V)


Maria José NUNES, José TOLENTINO MENDONÇA, A Arte do Silêncio, in Jornal de Letras, ano XXXIII, número 1127 (11 a 24. 112. 2013), 20132, 8-11.



VOCAÇÃO E AUTORIDADE

A Universidade Católica Portuguesa, de que é vice-reitor, curiosamente é dirigida por uma mulher, Maria da Graça Garcia.
É verdade, uma honrosa excepção. A Católica tem uma reitora, uma mulher extraordinária, e uma presença feminina muito forte na sua liderança. Isso também é um sinal que a Igreja dá ao mundo. Em décadas passadas, era impensável ter uma mulher à frente de uma universidade católica. Mas chegou o tempo.

Falando das mulheres na Igreja: o sacerdócio feminino continua fora de questão?
É preciso dizer que há uma maioria de mulheres na Igreja Católica. São elas que realmente dão corpo às iniciativas, numa militância muito presente e comprometida, daí que haja questões importantes que se colocam hoje ao nível da autoridade, mais ainda do que em relação ao acesso ao ministério ordenado.

Em que sentido?
Há um governo da Igreja, um pensar da teologia, do seu presente e do futuro, que pode acontecer sem a oposição entre clero e leigo. Nesse sentido, fala-se hoje, com muita verosimilhança da possibilidade de se nomearem mulheres para lugares importantes do governo da Igreja e nomeadamente da hipótese do Papa nomear mulheres cardeais.

E é possível sem serem ‘padres’?
Sim, os leigos também podem ser nomeados cardeais, não têm que ser clérigos. Portanto, há essa possibilidade de nomeação de mulheres cardeais e fala-se de nomes concretos.

Por exemplo?
Mary Douglas, uma grande antropóloga inglesa, com uma vida extraordinária e um dos grandes símbolos da participação da mulher na Igreja e na cultura. É uma questão que está na agenda eclesial e com toda a certeza vai ter desenvolvimentos.

Como vê o inquérito sobre a família, recentemente promovido junto da comunidade católica?
Trata-se de um inquérito que o Papa quis que fosse respondido por todos os cristãos, uma participação muito mais abrangente. E é a meu ver sobretudo um grande exercício de honestidade, porque é muito fácil empurrar os problemas para debaixo do tapete. Este inquérito vai mostrar a beleza e a dureza de ser família de uma forma maioritária e nas suas novas formas. Porque a família também é uma realidade em recomposição, em alguns casos, em reinvenção. E qual o impacto disso nas comunidades cristãs. Colocar as questões sobre a mesa, com grande verdade, só pode fazer bem à Igreja.

E como tem sido a sua experiência como vice-reitor?
A universidade é um laboratório fascinante, de vida, de conhecimento, um lugar de recuperação permanente da memória, porque o conhecimento tem raízes milenares, mas também de formação e de antecipação do futuro. E hoje com o grande desafio de ligar a universidade a nível internacional e ao mundo do trabalho. É fascinante poder acompanhar tudo isso de perto. A Universidade Católica é, por outro lado, a única nacional, não está apenas em Lisboa, mas no Porto, em Braga e Viseu. E isso dá um conhecimento do país, que tem sido de um grande enriquecimento pessoal, neste tempo de colaboração com a reitoria. Conhecer a fundo as aspirações, as formas de ser, os problemas e dificuldades, mas também o que de extraordinariamente positivo está a ser feito, nos vários lados, tem sido uma experiência muito rica.

Tal como dar aulas?
Para mim o trabalho de professor é das coisas mais extraordinárias. Realizo-me muito a dar aulas, a acompanhar os estudantes. É um tempo de grande criatividade. Não imaginaria a minha vida sem uma componente forte de ensino. Ser professor é uma vocação. E sinto que é também a minha. JL

 (conclusão)