quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Coisas muito boas




 
O Prémio PEN de Poesia de 2012 foi hoje atribuído ex aequo a Hélia Correia, por A Terceira Miséria, e a Manuel de Freitas, por Cólofon.
O júri foi constituído por Maria João Cantinho, Teresa Martins Marques e Manuel Gusmão. Os outros finalistas eram Francisco Niebro, Armando Silva Carvalho e Nuno Júdice.
Trouxemos aqui ao blog, em diferentes ocasiões, poemas de um livro (des)encantado sobre a Europa que se vai e os clássicos perdidos. Dos deuses deixados sós. Da Grécia ignorada, a mítica, a nossa. Uma leitura fascinante e surpreendente. Um grande livro. Justíssimo prémio.
 
 

As vidas dos outros


A Stasi, quando a espionagem ainda era a preto-e-branco.


Leituras recomendáveis


Ítaca, por Vasco Graça Moura.


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Falta de coluna e de vergonha



De facto, vergonhoso:

Caladinhos com Angola, caladinhos  com a troika, confortáveis no "protectorado", eis que nosso bravo governo exprime um "forte sentimento de revolta" "total repúdio" pela "triste figura" do presidente da FIFA, Joseph Blatter, nas declarações sobre o futebolista Cristiano Ronaldo... Onde nós chegamos.

Pacheco Pereira, no Abrupto

Dia-a-dia


Intacta, a sala, com duas cruzes dependuradas. Ao fundo, o computador, devidamente desligado, a net que, evidentemente, não funciona. O funcionamento em modo Magalhães. As estradas, tão más, tão más como de antanho, incólumes ao discurso urbano de auto-estradas a mais. O motorista que faz o percurso há duas décadas, um perito.


Sobre as palavras


A minha suspeição em relação às palavras é tão forte que me tem levado a escrever cada vez menos. Como já disse uma vez, as palavras estão carregadas de uma certa malignidade, que se torna extremamente difícil de exorcizar. É isso que me leva à destruição da sintaxe, da narrativa. A sua integridade é para mim o grande modelo da mentira da própria escrita. 

Rui Nunes, na penúltima edição do JL




terça-feira, 29 de outubro de 2013

O populismo e a Europa



Público, 20 de Outubro 2013

 

PONTO DE VISTA

 

Ainda o populismo anti-europeu: notícias de Itália

 

Análise

Jorge Almeida Fernandes

 

Enrico Letta, primeiro-ministro italiano, visitou Barack Obama e lançou um alarme: “O crescimento do populismo é hoje a principal questão politica e social da Europa”, declarou numa entrevista ao New York times (15 de Outubro). Os movimentos populistas europeus têm origens e características muito diferentes. É difícil dizer se são de esquerda ou de direita. Alguns são racistas e outros não, mas todos são anti-euro e anti-Europa. “Referiu em particular o exemplo italiano do movimento 5 Estrelas (M5S), do blogger Beppe Grillo. No dia seguinte, Grilho respondeu a Letta, lançando a pré-campanha para as eleições europeias de Maio. Parodiando a primeira linha do Manifesto Comunista de 1848, declamou no seu blogue: “Um fantasma paira sobre a Europa. É o voto nas próximas eleições europeias que poderá pôr fim à europa dos bancos e dos burocratas.” Fala numa #cruzada” contra o euro. “A Itália está em coma. É a explosão da nossa dívida privada, a prevalência do Banco Central Europeu sobre os nossos bancos e o regime do câmbio fico do euro que tornam insustentável a nossa dívida pública.” A adesão ao euro “fez com que os ajustamentos de competitividade sejam feitos à custa de trabalhadores, com a austeridade e o desemprego.”

Denuncia outros partidos como culpados ou cúmplices. “O M5S é o único no Parlamento a falar de soberania monetária e de vassalagem”. Descreve uma “Itália algemada sob tutela europeia”. Os grillini preparam-se para levar o PE “um vento não só anti-euro como anti Alemanha”, diz um analista.

São os mesmos temas de Marine Le Pen em França, embora não tenham as mesmas origens ideológicas. A Frente Nacional vem da extrema-direita. O mentor de Grillo, Gianroberto Casaleggio, sonha com um mundo sem parlamentos, governado pela democracia directa da Rede. Há outra diferença: Le Pen apela à saída da UE, Grillo quer “mais Europa e menos bancos”.

Face à Europa

Passou a era do “euro entusiasmo”. É patente nos estudos do Eurobarómetro e a Itália, tal como outros países em crise, é dos mais sensíveis. Um estudo do instituto Demo&PI, publicado no passado dia 12, permite dar um retrato actual da sensibilidade italiana.

A “confiança na UE” desceu de 56,8%, em 2000, para 33,5% em 2013. Em termos de área politica, a confiança é maior no centro-esquerda (48,7%) do que no centro-direita (33,6%), atingindo a quota mais baixa entre os eleitores de Grillo (26,1%).

Sem UE, a crise teria sido pior ou melhor? Pior para 43,5%, melhor para 23,4, “tudo na mesma” para 25,4%. Deve a Itália sair do euro e voltar á lira? De forma nenhuma”, respondem 53, 8%. E 15,7 aprovam “pouco” essa solução. Mas 30,5% concordam “muitíssimo” ou acham “muito” vantajosa a saída do euro.

Dentro de dez anos a Itália estará na UE? Sim, respondem 82,3%. E existirá o euro em 2023? Sim, respondem 79%. A aprovação da saída do euro é alta no centro-direita (41,3%) e no N5S (43,2%), mas mesmo assim minoritária. Do ponto de vista social, a “eurodesilusão” é maior entre operários, domesticas e desempregados.

O coordenador do inquérito Ilvo Diamanti, resumo: os italianos estão desiludidos mas não se converteram em eurocépticos. O eurocepticismo de Grillo, alimentado durante o ano passado por Berlusconi, é minoritário.

Há um outro fenómeno que produz incerteza na política. Nas eleições de Fevereiro, que se traduziram na ascensão de “grillismo”, as duas grandes coligações, centro-esquerda e centro-direita sofreram um rombo no seu eleitorado popular. Nas eleições de 2008, marcaram a última vitória de Berlusconi, o centro-esquerda obteve 39,1% do voto operário: em 2013, apenas 25,3%. O centro-direita, que obtivera 52,8, apenas atraiu 25.8 em 1013. Para onde f oram os votos operários? Para o M5S (40,1%).

Entre técnicos e funcionários, observou-se o mesmo efeito, embora com menos amplitude. A atração do M5S e do euroceticismo é mais forte entre os jovens. Uma curiosidade: a direita conservou a posição dominante no voto das domésticas e a esquerda no voto dos reformados. Em resumo: o voto popular não se deslocou da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda: mudou-se para o populismo “grillista”. Note-se que tanto o Partido Socialista francês como o Partido Democrático Italiano têm hoje uma base eleitoral dominante nas classes médias, sobretudo quadros, técnicos e funcionários públicos. Na França, o “maior partido operário” é a FN, de Marine Le Pen. Na França, a deslocação inicia-se no fim dos anos 1980. Na Itália, é mais tardia.

O factor “jovens”

A “desilusão com a Europa” não é alheia à desilusão com a política”, que é a rampa do lançamento do populismo. Na Itália há um factor muito sensível: os jovens e os precários.

Em 2001, dois economistas, Tito Boeri e Vincenzo Galasso, publicaram um livro cujo título diz tudo: Conto i giovani. Come l’Italia sta tradendo le nuove generezioni (Contra os jovens. Como a Itália está a trair as novas gerações).

“Assiste-se à maciça redistribuição dos recursos da geração dos filhos para a dos pais. Em pouco mais de dez anos, duplicámos a nossa divida publica e promovemos pensões de reforma generosas, não obstante à quebra da natalidade e o prolongamento da vida. “Sobre cada jovem recai um montante de dívida em exponencial crescimento. É a ruptura do pacto entre gerações.

A taxa de desemprego dos jovens de 18-25 anos atinge os 39%. A taxa de desemprego global está controlada, na casa dos 12%, graças ao crescimento do trabalho e à erosão dos salários. Mas é o país europeu em que um desempregado menos hipóteses tem de reencontrar um emprego.

Os sindicatos, que na Itália ainda são poderosos, constituem uma máquina de defesa dos que “já estão dentro” e dos reformados. Ao anunciar o seu projeto de reforma das leis do trabalho, em Fevereiro de 2012, Mario Monti frisou a necessidade de pôr termo “ ao terrível apartheid no mercado de trabalho entre os que que já estão dentro e os que, jovens, têm dificuldade em entrar. Pouco conseguiu.

O populismo não é irresistível. A sua primeira arma é a fraqueza dos adversários, quando eles são incapazes de fazer reformas.
 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Fcp-Scp


1- Faltam três jornadas para que Carlos Eduardo seja titular.

2-Como deixar cair Paulo Fonseca? A estrutura, tantas vezes assertiva, encontrou Herrera para o lugar de Moutinho e Quintero para o lugar de James. E a Sad "ficou a dever" (José Manuel Ribeiro) um extremo de qualidade ao treinador.

3-Os mais recentes resultados financeiros positivos, pela Sad azul-branca, em parte vão ter que colmatar a saída da Champions, na fase de grupos, na medida em que a receita esperada com a participação na Liga dos Campeões incluía a passagem aos oitavos. Não se esperem grandes craques, o tal extremo, em Janeiro.

4-Há um ano não pensei que fosse possível, mas, mais do que nunca desde o regresso à Invicta, ai se o Lucho se lesiona...

Pobreza


Natália FARIA, Governo anda “propositadamente distraído” com a pobreza em Portugal, Público, 18. 10.  2013, 10.

 

No Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, assinalado ontem, o presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz acusou Governo de “abuso do poder”. AMI e Cáritas apontam agravamento da pobreza extrema

 

As actuais políticas económicas em Portugal traduzem “uma calamidade moral”, segundo o presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz, Alfredo Bruto da Costa. “Não podemos fazer sofrer um povo sem nenhuma contrapartida. E o que vemos é que as políticas estão a falhar de forma persistente, o que é um problema grave com implicações morais evidentes”, sustentou ao PÚBLICO, em declarações a propósito do Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, que ontem se assinalou.

Dizendo-se convencido de que o Governo está a violar “um princípio básico da Segurança Social contributiva”, o sociólogo diz ter esperança de que o Tribunal Constitucional trave os cortes consagrados na proposta de Orçamento de Estado para 2014, nomeadamente no que toca às pensões. “Estamos perante um Governo que unilateralmente e por vias retroactivas está a querer passar um pano por cima de um contrato, no qual há duas partes em que uma se sobrepõe à outra”, acusa, para declarar que este é “um exemplo claro de abuso do poder”, na medida em que “vai contra todos os princípios da validade política e legal de um contrato”. Mesmo nos casos das pessoas que “já estão a pagar as contribuições, mas que ainda não chegaram à idade da reforma, Bruto da Costa defende que a alteração destes princípios “não pode ser alterada unilateralmente por uma das partes, seja qual for a situação do país”.

Numa altura em que, apesar da inexistência de estatísticas oficiais actualizadas, várias associações de apoio à pobreza deram conta de aumentos substanciais na procura de apoio, o sociólogo acusou o Governo de andar “propositadamente distraído” com a pobreza em Portugal. “O Governo fala em limites de 600 euros [para os cortes salariais na função pública] como se esses 600 euros suportassem apenas as despesas de uma pessoa! O Governo sabe em quantos casos os 600 euros alimentam a pessoa, mais os filhos e mais os netos?”, criticou.

Bruto da Costa considerou ainda “inaceitável” que o Governo não tenha criado mecanismos para conseguir ter “uma ideia mais consistente” da pobreza. Os indicadores mais recentes são de 2011. Além de desactualizados, seria necessário que a “contabilização” do problema atendesse às alterações no rendimento mediano disponível. “Baixando o valor da mediana, baixa também o limiar de pobreza. Ou seja, poderemos ter aqui um abaixamento estatístico da pobreza que está muito longe de traduzir o que realmente se passa na sociedade portuguesa”, alertou.

Nos primeiros seis meses deste ano, a AMI (Assistência Médica Internacional) apoiou 11.263 pessoas, mais 13% do que em igual período de 2012. Segundo os dados da AMI, divulgados pela agência Lusa, 24% daqueles pedidos provinham de pessoas que recorriam pela primeira vez à instituição. Desde que a crise começou, o universo de pessoas ajudadas pela AMI não parou de aumentar: 7702 em 2008, 9370 em 2009, 12.383 em 2010, 14.937 em 2011 e 15.764 em 2012.

Segundo a AMI, a maior parte dos pedidos de apoio chegou de pessoas com idades entre os 16 e os 65 anos (67%). São maioritariamente portugueses e com baixas habilitações literárias. A maioria (74%) desempregada. Entre os restantes, 20% não dispõem de qualquer rendimento e 18% têm rendimentos de trabalho. Que, contudo, se revela precário e insuficiente. Para o presidente da AMI, Fernando Nobre, Portugal está a assistir a uma “situação de mudança do modelo de sociedade”. “O modelo que tínhamos conhecido após a II Guerra Mundial está esgotado”, disse, considerando que “vai ser preciso reinventar novas formas de trabalho, porque as novas tecnologias vão excluir muitos postos de trabalho”.

Noutra frente, o presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, confirmou que há cada vez mais pessoas em situação de “pobreza extrema” em Portugal, porque lhes foi retirado o trabalho que constituía a sua principal fonte de rendimento. “Temos cada vez mais pessoas a cair na pobreza extrema, na pobreza mais severa. Não só há mais gente pobre, como mais gente muito, muito pobre”, lamentou Eugénio Fonseca, dizendo recear que “muitas pessoas não voltem a encontrar o posto de trabalho que perderam.”

domingo, 27 de outubro de 2013

Romano Guardini e "o espírito da liturgia" (V)



Aqui, esforça-se por criar a unidade entre o que deseja e o que possui; entre o que deveria ser e o que é; entre a sua alma e a Natureza; entre o corpo e o espírito. Tais são as formas e as imagens a que a Arte dá origem, e que não se propõem nem ensinar, nem moralizar. Nunca um artista verdadeiro teve diante dos olhos um objectivo didáctico ou ético. Na arte ele só busca a solução do conflito íntimo que o corrói, só ambiciona trazer ao mundo da representação, à luz clara da expressão plástica, a vida superior que entrevê em sonho e de que a realidade lhe não oferece senão uma aproximação. Não pretende outra coisa que não seja libertar, exteriorizando-os, o seu ser e o seu sonho, senão projectar a exterior, na forma, a verdade interior. E, por seu turno, o espectador não deve, diante duma obra de arte, desejar senão descansar nela, respirar nela, mover-se livremente nela, nela tomar consciência do melhor de si mesmo, e entrever nela o cumprimento e a realização da sua mais íntima nostalgia. Nunca deve buscar nem ensinamento nem matéria de edificação ou de reflexão.
Muito mais ainda do que a Arte faz a liturgia, pois oferece ao homem a possibilidade e a ocasião de realizar verdadeiramente - levado pela Graça - a sua essência, de ser plena e totalmente o que deve ser, se é fiel ao seu destino divino: "filho de Deus". Na liturgia pode diante de Deus "alegrar-se da sua juventude". Há, aqui, decerto, algo de sobrenatural mas que, justamente pelo carácter de sobrenatural, responde ao mais íntimo da nossa natureza. E, porque esta vida é mais elevada do que a que pode projectar-se na realidade quotidiana, tira as harmonias e as formas, que lhe correspondem, ao único domínio onde as encontra: à Arte. Ela fala pela voz da melodia ou do ritmo; move-se com gesto lento e hierático; veste-se de cores e de vestes que não pertencem à vida habitual; escolhe, para se realizar, datas e locais, ao arranjo e estrutura dos quais presidiram leis superiores. No sentido mais elevado do termo, é uma vida de criança na qual tudo e imagem, dança e canto.
Eis pois a magnífica realização que a liturgia nos oferece: a Arte e a Realidade conciliadas e fundidas na Infância da Sobrenatureza sob os olhares de Deus. O que até ao presente não tínhamos encontrado senão no reino do irreal, no mundo da representação artística, a saber, a forma estética convertida em tradução expressiva da vida humana - transmudou-se agora em realidade.
Mas esta vida nova tem de comum com a da Criança e com a da Arte, o não estar dependente de nenhum critério utilitário. Em compensação está inteiramente repleta do mais profundo sentido.
Não é trabalho, é jogo.
Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia.
 
(cont.)
 
 

sábado, 26 de outubro de 2013

Prognóstico de fim-de-semana



António Costa é peremptório, na Quadratura: Santana Lopes será o candidato da direita, nas próximas presidenciais. “Os outros têm medo”. Os “outros”, supõe-se, são, naturalmente, Marcelo e Barroso. E o “medo”, volta a conjecturar-se, é o de uma possível, ou provável, derrota. Aqui fica um prognóstico, antes do jogo, da minha interpretação das diferentes intervenções que Marcelo tem tido sobre o tema: se o único candidato perfilado, à direita, numa espécie de primárias, for Pedro Santana Lopes, Marcelo estará disponível, para surpresa de muitos, para um ‘último duelo’ à luz do Sol. Esperemos.

As famílias e o ensino superior



Nelson SANTOS BRITO, Somos o que escolhemos, Público, 18. 10. 2013, 49.


Este é o momento de voltar a colocar o Estudante no Centro da Universidade


No discurso proferido na Universidade de Princeton, em 2010, Jeff Bezos, fundador e presidente da Amazon, explicou aos estudantes que a inteligência é um presente, mas a gentileza ou a bondade é uma escolha. Receber presentes é fácil porque eles são dados, mas, realmente, fazer escolhas ou tomar decisões é sempre mais complicado. No momento em que são conhecidos os resultados do número total de famílias que tomaram a decisão de não candidatarem os seus educandos ao ensino superior público, é fundamental reflectir, uma vez que, mais do que discutir se as transferências do Ministério das Finanças chegam a tempo de algumas Instituições de ensino superior não terem que recorrer a receitas próprias para pagar os subsídios de Natal, o mais importante seria discutir, com racionalidade, as razões concretas do desinvestimento por parte das famílias em educação superior.
Nos últimos anos, discutimos quase tudo menos as razões por que estavam os portugueses a desvalorizar o ensino superior, ou seja, discutimos tudo menos o que interessa aos estudantes, esquecendo que as universidades apenas existem porque existem alunos. É fácil encontrar justificações na demografia, é ainda mais fácil afirmar que o nível de dificuldade dos exames nacionais de 12.o ano aumentou ou, então, é ainda mais simples culpabilizar a crise e responsabilizar os sucessivos Governos por investirem menos em Educação.
Todos estes argumentos são válidos, mas nós somos o que escolhemos, e o que escolhemos foi deixar de colocar o estudante no centro dentro da universidade, investindo recursos financeiros em cursos e em instituições sem estudantes, não colocando a devida preocupação no sucesso escolar e na empregabilidade dos diplomados e não valorizando os empregadores como os verdadeiros clientes das instituições de ensino superior.
Este é o momento para explicar aos portugueses que temos um ensino de qualidade que é procurado por estudantes de todo o Mundo, este é o momento de explicar que, segundo dados da OCDE, o salário da população activa com ensino superior é 170% mais elevado do que o de uma pessoa sem formação superior, este é o momento de reconhecer que um país moderno e gerador de oportunidades apenas se constrói com pessoas qualificadas, este é o momento de explicar que a taxa de desemprego na população activa com ensino superior é de 12% e não de 37% como infelizmente acontece na população Jovem, este é o momento de tomar decisões dentro da universidade para voltar a colocar o estudante no centro e de ter a bondade de reconhecer os erros cometidos.

 
Director-geral da Universidade Europeia

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sobre a DSI



Bento DOMINGUES, De quem é a doutrina social da Igreja?, Público, 20. 10. 2013, 55.

 
Fez 50 anos, no passado dia 11 de Abril, a publicação da Pacem in Terris do Papa João XXIII. A sua mensagem transpôs as fronteiras das igrejas, das religiões e até do bloco soviético. Dirigida a todas as pessoas de boa vontade, a todas pedia colaboração na construção da Paz. O seu programa tinha a verdade como fundamento, a justiça como norma, o amor como impulso e a liberdade como clima.
Escrita dois meses antes de morrer, dois anos depois da construção do Muro de Berlim e dois meses depois da crise dos mísseis de Cuba, incorporou, na Igreja Católica, a defesa dos direitos humanos.
Neste mês (de 2 a 4), o Conselho Pontifício Justiça e Paz procurou redescobrir a fecundidade do espírito e da letra desse acontecimento exemplar. O Movimento Nós Somos Igreja já tinha realizado uma conferência sobre esse documento, que encontrou fortes resistências no Portugal de 1963.
Ontem, o mesmo movimento promoveu urna conferência sobre a DSI, a cargo de M. de Lurdes Paixão e Carlos Portas, com testemunhos da Comunidade de Sant' Egídio, do Microcrédito, da DariAjudar e do P. Constantino Alves, dos Filhos da Caridade.
2. Entende-se por Doutrina Social da Igreja (DSI) sobretudo o corpo doutrinal do papado romano elaborado desde os finais do século XIX até ao declinar do século XX (1891-1991). Esta identificação manifestou-se inadequada no Vaticano II, mas foi retomada no Magistério de João Paulo II. Deixando a Igreja de ser definida a partir da hierarquia e do seu exclusivo discurso, era normal que a doutrina social dos papas não pudesse continuar a ser identificada, sem mais, com a doutrina social do Povo de Deus, confrontado este com desafios diferentes nos diversos continentes.
O grande teólogo e historiador Marie Dominique Chenu O.P. viu, na chamada DSI, a ideologia do poder romano, cristalizado em torno do bispo de Roma, o Papa. Não incarnava os comportamentos emanados do Evangelho e inscritos nas práticas sociais, económicas e políticas dos católicos. Acerca desta realidade, seria preferível falar de Evangelho Social, isto é, a repercussão da mensagem de Jesus nas diversas sociedades, no seu devir histórico e cultural.
Por essa razão, Jean-Yves Calvez, ex-provincial dos jesuítas franceses, publicou três volumes sobre os cristãos enquanto pensadores da realidade social[1]. Ao lado do ensino social dos papas, dos bispos, do Concílio, existe um trabalho, uma reflexão e investigações feitas por pensadores independentes que, muitas vezes, alimentam, provocam e renovam o pensamento oficial. No último volume faz o balanço das publicações que surgiram depois do Concílio. Ele próprio realizou um trabalho crítico sobre Os silêncios da doutrina social católica.
A obra mais significativa, que refaz toda esta vasta problemática, chama-se Les Souverainités, de Hugues PueI[2]. O autor, um dominicano de formação pluridisciplinar (Direito, Economia, Ciências Politicas, Filosofia e Teologia) acompanhou, durante cinquenta anos, o movimento Economie et Humanisme. A sua grande preocupação está centrada na formulação de uma ética para a economia.
3. São numerosas as publicações em torno da DSI, umas de carácter expositivo, outras de tom apologético e, algumas, acentuadamente críticas. Multiplicaram-se os trabalhos jornalísticos sobre o banco do Vaticano e as suas mais que suspeitas ligações. Hugues Puel já tinha mostrado as deficiências de um certo discurso oficial da Igreja Católica sobre a economia monetária e financeira. Em 1929, os Acordos de Latrão entre Pio XI e Mussolini marcaram o futuro. Mussolini encontrou neles um meio de afirmar o seu regime. O papado, ao abandonar o direito aos estados pontifícios, ganhou o reconhecimento como Estado (Vaticano), sem dúvida minúsculo, 44 hectares, mas cada vez mais reconhecido na diplomacia mundial. O bispo de Roma é, ipso facto, chefe da Igreja Católica, titular da Santa Se, chefe de Estado.
A Itália, pelos referidos acordos, pagou à Santa Se uma grande quantidade de dinheiro. Que fazer com ele, perguntou o Papa? O Palácio do Vaticano foi restaurado, foi lançada a Rádio Vaticano, mas ainda sobrava muito dinheiro. Serviu para criar uma instituição financeira que, em 1942, passou a ser um órgão diretamente ligado à Santa Se, com o nome de Instituto das Obras Religiosas (lOR). A partir dos anos 70, tornou-se um verdadeiro paraíso fiscal e multiplicaram-se as notícias de escândalos.
Ao regressar à eclesiologia do Vaticano II, o Papa Francisco não se cansa de repetir que a Igreja somos todos nós. Sendo assim, a DSI terá de resultar das respostas que a pluralidade das comunidades cristãs, situadas em culturas diferentes, souberem dar a antigas e novas perguntas: que fizeste do teu irmão? Que economia é essa que tem no centro o culto idolátrico do dinheiro e exclui os doentes, os idosos, os jovens e os crianças? Que religião é esta que reza o Pai-Nosso e tem uns irmãos à mesa e outros à porta?
E se trocássemos umas ideias sobre isto?



[1] Chrétiens, penseurs du social, Cerf, 2008
[2] Les Souverainités.  Pouvoirs Religieux. Pouvouirs Seculiers. Cerf, 2012
 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pub: Vila Real e as invasões francesas


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Numa altura em que o país está, nas palavras do ministro de Estado, sob protectorado, nada como recordar o início do séc.XIX, quando a nossa independência foi, seriamente, colocada em causa. A apresentação do livro Vila Real - Invasões Francesas: figuras e factos, da autoria de J. Ribeiro Aires, que terá lugar no Salão Nobre do Centro Cultural Regional, no Largo de S. Pedro, esta noite, pelas 21h30, promete, ainda, preencher, de algum modo, alguma lacuna historiográfica acerca da relação da capital transmontana (e seus habitantes) e as invasões.
Ao longo dos anos, no Conselho Municipal da Juventude, em intervenções de rádio, nos espaços de cidadania sempre relevei o tema e, por isso, será com redobrado gosto que assistirei ao lançamento desta obra, mais logo.
 
 
 
 

Camus



Jornal de Letras

Página 9

 

Eugénio Lisboa



A embriaguez da lucidez


“Camus não lutou somente contra a preguiça da inteligência (a sua obra é como a embriaguez da lucidez), como se opôs ainda à preguiça do coração”

Jean Grenier


Pôr a tónica, falando de Camus, na “embriaguez da lucidez”, tão finamente diagnosticada por Jena Grenier (como poderia não ser ele a fazê-lo?), é a melhor homenagem que se pode prestar à reedição (revista e acrescentada) do belo e lúcido livro de Marcello Duarte Mathias (MDM) A Felicidade em Albert Camus (Dom Quixote, 280 pp, 16,90). É que este livro do ensaísta português é bem um exemplo dessa lucidez, afinada por uma aguda sensibilidade, que permeia de uma ponta à outra, a obra e a vida do autor de l’Étranger. Camus tem sido, em MDM, a devoção de uma vida.

Não é difícil perceber porquê: alguém dizia ao escritor Jean Claude Brisville que “ler Camus é ficar com vontade de lhe apertar a mão.” E o próprio Sartre, ex-amigo enviesado e cruel do autor de La Peste, prestou-lhe, nos dias que se seguiram à sua morte uma homenagem justa e comovente: “Ele representava neste século, e contra a História, o herdeiro actual dessa longa linha de moralistas, cujas obras constituem o que há talvez de mais original nas letras francesas. O seu humanismo obstinado, estrito e puro, austero e sensual, deu combate incerto aos maciços e deformados acontecimentos do dia. Mas, inversamente, pelo inesperado das suas recusas, ele reafirmou, no coração do seu tempo, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de oiro do realismo, a existência do acto moral”.

Camus, francês argelino, oriundo dos bairros pobres de Argel, é hoje uma das glórias sem mácula das letras francesas do século XX. Além dele e de Roger Martin du Gard (para cujas obras completas, o autor de Noces escreveu um admirável prefácio), não sei se haverá muitos mais.

Ao contrário de Sartre e de alguns outros duvidosos maîtres-à-penser, Camus nunca pactuou com a opressão e o atropelo das liberdades humanas, a pretexto de uma mítica felicidade-a-haver. As vítimas do comunismo estalinista não eram mais justificáveis ou toleráveis do que os mártires do fascismo italiano ou do nazismo alemão. Numa fórmula fulgurante deste livro, onde brilha uma prosa descascada e clássica não indigna de Camus, Mathias observa: “Para ele (Camus), não há escravos felizes e escravos infelizes e nenhum carrasco merece indulgência seja qual for a causa em nome da qual decepa a cabeça”.

Embora tudo, na obra de Camus, seja dito de modo luminoso, embora a sua sedutora prosa ática nunca nos embrulhe em opacidades e trapaças, o mundo nela desvelado, ainda que íntegro, não é feito de uma ausência total de componentes divergentes e até contraditórias. Numa resposta dada à pergunta sobre “as minhas dez palavras preferidas”, Camus indica-nos a variedade das suas “preferências”: o mundo, a dor, a terra, a mãe, os homens, o deserto, a honra, a miséria, o verão, o mar. “ Este adorador do sol não foi também, afinal, um verificador do absurdo? Palavras suas em L’Été: “Com tanto sol na memória, como pude eu apostar na falta de sentido?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"O preço da desigualdade", de Joseph Stiglitz (II)


6- Que mitos se pretendem, pois, colocar em causa? Talvez valha a pena, nesta resenha do que de principal Stiglitz escreve nesta obra, principiar pela matéria fiscal.
Neste âmbito, o logro consistirá em assentir na afirmação de que baixar impostos beneficia a economia. Referindo-se, em particular, ao caso norte-americano, escreve o autor: “A economia da oferta de Reagan, que defendia que baixar os impostos aumentaria a actividade económica, tanto que, na verdade, as receitas fiscais aumentariam, tem sido (…) refutada pelo que aconteceu após as reduções de impostos de Bush e de Reagan. Hoje, as taxas de imposto individuais estão muito mais baixas do que estavam em 1980, sugerindo que mais reduções de impostos baixariam ainda mais as receitas fiscais” (p.306). Aliás, no caso concreto de impostos sobre sociedades, importa atentar no raciocínio exposto, na medida em que, de algum modo e pese as devidas distâncias, poderemos dele retirar alguma utilidade para as discussões nacionais em torno da reforma do IRC: “havia poucos argumentos para uma redução global dos impostos às grandes empresas (…) Se a comissão estivesse preocupada com os efeitos dos impostos sobre o investimento, havia formas mais precisas de ajustar o código tributário do que uma redução geral: poderia ter sugerido reduzir impostos às empresas que criavam emprego e investiam nos Estados Unidos” (p.306/307).
Visto do ângulo inverso, “o mito que talvez tem vindo a ser mais eficaz é a afirmação de que o aumento de impostos sobre os milionários e sobre os poderes económicos prejudicará as pequenas empresas” (p.310).
Mais, atente-se na comparação internacional, quanto à fiscalidade: “Por exemplo, durante o período entre 2000 e 2010, a Suécia, país de muitos impostos, cresceu muito mais depressa que os Estados Unidos – 2,31% ao ano contra 1,85%. Como me disse um ex-ministro das Finanças de um destes países: «Crescemos tão depressa e tão bem por causa dos impostos altos». Claro que o que ele queria dizer não era que os impostos em si conduziam a um maior crescimento, mas que os impostos financiavam a despesa pública – investimentos na educação, na tecnologia e nas infraestruturas – e que era esta que sustentava o alto crescimento, compensando de longe quaisquer efeitos adversos dos impostos altos” (p.83)

7- Problemática controvertida, nos EUA, como em Portugal, e discutida um pouco por todo o mundo, tem que ver com a (in)existência de um (significativo) desemprego estrutural em diversas sociedades (nomeadamente ocidentais, incapazes de lutar com os salários de outras zonas do globo e com a tecnologia a impor reduções drásticas de postos de trabalho disponíveis), e, bem assim, do (maior ou menor) sentido de uma luta pelo pleno emprego.
Joseph Stiglitz, neste ponto, em especial, é peremptório: “é da responsabilidade da política macroeconómica – política monetária e fiscal – manter a economia em pleno emprego”(p.310). Para este Professor de Economia, portanto, o objectivo do pleno emprego deve, claramente, estar presente, existindo, na política, instrumentos capazes de o alcançar. No que respeita ao seu país não quer que se repita, nele, a situação que verifica existir em outras paragens: “[é necessária] uma política fiscal para manter o pleno emprego – com igualdade: A política governativa que tem mais impacto no bem-estar, com as consequências mais importantes na distribuição, é a que visa manter o pleno emprego. A não ser que os Estados Unidos sejam cuidadosos, poderão entrar numa situação idêntica à de alguns países europeus, com uma taxa de desemprego permanente elevada – um enorme desperdício de recursos que, em simultâneo, conduziria a mais desigualdade e enfraqueceria tanto a nossa situação económica como a nossa situação fiscal” (p.368).

8- O que, na verdade, esta crise veio suscitar foi a questão da possibilidade real de desaparecimento de (muitos dos) empregos médios: “Os Estados Unidos sempre se viram como um país de classe média. Ninguém quer pensar que é um privilegiado, e ninguém quer pensar que a sua família pertence à classe mais pobre. Todavia, em anos recentes, a classe média norte-americana ficou eviscerada, uma vez que os «bons» empregos de classe média – que requerem um nível moderado de capacidades, como os empregos na indústria automóvel – pareciam estar a desaparecer em comparação com os trabalhos que requerem menos capacidades e com os cargos de topo, que requerem um nível de capacidades superior. Os economistas referem-se a isto como a «polarização» da população activa” (p.67).

9- A ambição progressista de J. Stiglitz não se esgota na prossecução do pleno emprego (de cuja possibilidade se duvida, inclusive, em autores de esquerda, como Anselm Jappe; entre nós, Raquel Varela recuperava, recentemente, esta ideia de o pleno emprego ser possível, em Portugal).
Porventura, a sua demanda por novas receitas, susceptíveis de incrementarem as políticas públicas se contem entre os passos mais impressivos do ensaio, sobretudo se comparados com a versão mais centrista da social-democracia portuguesa. André Freire tem sustentado que mais do que existir, em Portugal, uma extrema-esquerda que não é possível encontrar em outras geografias congéneres, é o PS (português) que está mais ao centro que os seus homólogos internacionais (da área social-democrata). Algumas das propostas de Stiglitz parecem sugerir alguma razão ao politólogo – por comparação, estão à esquerda do que por cá encontramos, pelo menos no mainstream na mesma área política.
Destacando, de novo, como são diversos os mundos norte-americano e europeu, ou português, sublinhar-se-iam, neste campo, um conjunto ilustrativo de parágrafos: “Existem outras fontes de rendas, tais como as derivadas do exercício do poder de monopólio. Um imposto duro sobre todas essas rendas não só reduziria a desigualdade, mas também desincentivaria as actividades de rent-seeking que distorcem a economia e a democracia (…) Um princípio económico básico diz que é melhor tributar coisas más do que boas. Comparando com a tributação do trabalho (uma coisa produtiva), tributar a poluição parece algo mais justo (uma coisa má, seja os derramamentos de petróleo, que poluem os nossos oceanos, os resíduos tóxicos produzidos por empresas químicas, ou os «activos tóxicos» criados pelas empresas financeiras) (…) Existe uma crescente exigência pela imposição de uma série de impostos sobre o sector financeiro, incluindo um imposto sobre as transacções financeiras. A França já adoptou um. O Reino Unido tem uma variante mais limitada. Os presidentes da Espanha, da Alemanha e da Comissão Europeia já defenderam tal imposto. Mesmo com juros muito baixos, geraria receitas substanciais (…) Arrecadar impostos adicionais obedece a um princípio simples: ir de encontro ao dinheiro. Uma vez que o dinheiro vai cada vez mais para o topo, é daí que terão de vir as receitas fiscais adicionais. É mesmo assim tão simples (…) Costumava-se dizer que o topo não tinha dinheiro suficiente para encher o buraco do défice, mas isso é cada vez menos verdade. Com os 1% do topo a ficar com mais de 20% da riqueza nacional, um imposto de 10% sobre os seus rendimentos (sem lacunas jurídicas) geraria receitas iguais a cerca de 2% do PIB nacional (…) a) aumentar os impostos aos do topo (…) f) tributar o sector financeiro, pelo menos para reflectir em parte os custos que impôs repetidamente sobre o resto da economia (…) g) por fim, obrigar os que usam ou exploram os recursos nacionais (…) a pagar o valor total” (p.296-299).

10- Tal como Paul Krugman, o autor de The Price of Inequality considera que o pacote de estímulos, nos EUA, para colocar cobro à crise despoletada em 2008, foi demasiado rápido e pequeno (p.319). Tal sucedeu em virtude de um errado preconceito: “a economia recuperaria depressa por si”. Nesta medida, uma certa desilusão com Barack Obama torna-se patente: “Há quatro anos houve um momento em que a maioria dos norte-americanos tinha a ousadia de ter esperança. As tendências de há mais de 25 anos podiam ter sido revertidas. Em vez disso, pioraram. Hoje, a esperança é vacilante” (p.380).

11- Portugal é citado em poucas das páginas deste livro e não propriamente associado/submetido, no entender do autor, às melhores políticas. É, em suma, a política de austeridade que está em juízo, bem como um outro mito, que todos os dias nos repetiam, o de que o Estado é como uma família: “os piores mitos são os de que a austeridade recuperará a economia, e de que uma maior despesa do Estado só faria o contrário. O argumento é que os empresários, reparando que as contas do Estado estão de melhor saúde, ficarão mais confiantes; mais confiança conduzirá a mais investimento (…) A história mostra que a austeridade quase nunca funcionou, e a teoria explica porque não devemos surpreender-nos com isto. As recessões são provocadas por falta de procura – a procura agregada é menor do que a capacidade de produção da economia. Quando o Estado corta na despesa, a procura baixa ainda mais e o desemprego aumenta. Sustentar o mito de que a austeridade trará mais confiança costuma ser outro mito – o mito de que o orçamento de Estado é como um orçamento familiar. Qualquer família, mais cedo ou mais tarde, tem de viver dentro das suas possibilidades. Quando uma economia tem uma elevada taxa de desemprego, a regra simples não se aplica ao orçamento nacional. Isto acontece porque um aumento da despesa pode, na verdade, aumentar a produção, criando postos de trabalho que serão preenchidos por pessoas que, de outro modo, estariam desempregadas. Um único agregado familiar, gastando mais do que os seus rendimentos, não consegue transformar a macroeconomia. Um Estado consegue. E o aumento do PIB pode ser um múltiplo da quantia gasta pelo Estado.
Os financeiros insistem na importância da confiança, mas não se consegue restaurar a confiança com políticas que conduzem a mais desemprego e a menos produtividade. A confiança apenas se pode restaurar através de políticas de crescimento – e a austeridade faz exactamente o oposto.
Os paladinos da austeridade apresentam provas de países em crise que impuseram austeridade e recuperaram. Mas um olhar atento mostra que esses países eram todos pequenos, e tinham parceiros de negócios que viviam um boom económico. Assim, um aumento das exportações podia facilmente substituir uma menor despesa do Estado. Actualmente, não é esse o caso dos Estados Unidos e da Europa, cujos parceiros económicos também se encontram em crise.

Poderíamos pensar que os que defendem a austeridade teriam aprendido com a diversidade de experiências anteriores onde a sua aplicação teve consequências desastrosas: a austeridade de Herbert Hoover transformou a Quinta-Feira Negra de 1929        na Grande Depressão, a austeridade do FMI transformou as crises económicas da Ásia Oriental e da América Latina em recessões e depressões, e a auto-imposta e forçada austeridade em vários países europeus (Reino Unido, Lituânia, Grécia, Portugal) está agora a ter exactamente os mesmos efeitos. Mas os defensores da austeridade não parecem ter em conta estas provas esmagadoras. Tal como os médicos da Idade Média que acreditavam na sangria, e que quando o doente não melhorava argumentavam que o que ele realmente precisava era de mais uma rodada, os sangradores da economia do século XXI nem sequer hesitam. Exigirão ainda mais austeridade, e encontrarão uma miríade de desculpas para justificar os motivos por que a primeira dose não funcionou como estava previsto. Entretanto, o desemprego aumentará, os salários baixarão, e os programas governamentais, de que as classes média e baixa dependiam, definharão” (p.315-317). Em realidade, reforça-se, “o que impressiona é o número de pessoas – tanto comentadores como cidadãos comuns, tanto no Governo como fora dele – que foram seduzidas pelo mito da austeridade e o mito de que o orçamento do Estado é como o orçamento de uma família (…) Porém, o estímulo [económico] funcionou; impediu que a taxa de desemprego aumentasse ainda mais” (p.322).

(cont.)


Anatomia do ser




Que coisa são as nuvens


Revista Expresso, 19/10/13

Página 6


José Tolentino Mendonça


AMADA VIDA


Muitas vezes aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, comer diariamente o pão velho da própria maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa.

Pode parecer estranho, mas a dada altura agarramo-nos à dor como se ela fosse um heroísmo e pomo-nos a expor feridas como quem exibe condecorações. O nosso desígnio, inconfessado, mas claríssimo, passa a ser atravessar a vida (e o que nos resta dela) com o estatuto de vítima. A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos. Penso que uma viragem se opera quando aceitamos perceber que somos todos vulneráveis. É fácil reproduzir um esquema dialéctico em que somos a vítima e o outro agressor e esquecer que ele também é atravessado pelo sofrimento. De facto, não raro, a agressão é uma linguagem desviada para exprimir ou para dissimular a condição de vítima. Um necessário caminho é reconhecer que naqueles que nos ferem (ou feriram) há também bloqueios, mazelas e opacos novelos. Se não nos amaram, não foi necessariamente por um acto deliberado, mas por uma história porventura ainda mais sufocada do que a nossa. Não se trata de desculpabilização, mas de reconhecer que naquele que não me fez justiça ou não me devolveu a cordialidade que investi existe alguém provado pelo limite. E que a ferida agora acesa não se destinava a mim especificamente: era um magma de violência à deriva, à beira de estalar.

Todos precisamos de perdão. O perdão instala um corte positivo, interrompe a baba inútil da tristeza, esta maceração que nos faz infelizes e nos leva a esmagar os outros de infelicidade. Tao facilmente ficamos atolados em becos cegos, em círculos sem saída, reféns de uma amargura que cada vez vai sendo mais pesada e contamina inexoravelmente a vida. O acto de perdão é uma declaração unilateral de esperança. O perdão não é um acordo. Se me quedo á espera que aquele que me oprimiu venha ao meu encontro arrancar-me da mágoa, posso esperar sentado. O perdão é este gesto unilateral que recusa dar voz à vingança e crê que por detrás daquele que me feriu há ainda um ser humano vulnerável, capaz de mudar. Perdoar é crer na possibilidade de transformação, a começar pela minha.

Muitas vezes a aproveitamos a dor para nos instalarmos nela. Preferimos ficar a esgravatar na ferida, a comer diariamente o pão velho da própria maldade, em vez de termos sede de beleza, desejo de outra coisa. Parece que aquilo que aconteceu (e de mal, ainda por cima) saciou-nos completamente. As ofensas recebidas revelam-nos um duro e irónico retrato de nós. Ora, para perdoar é preciso ter uma furiosa e paciente sede do que (ainda) não há. O perdão começa por ser uma luzinha. E é bom insistir e esperar. O sol não brota de repente. Essa demora é uma condição da sua verdade. Li estes dias um conto extraordinário de Alice Munro, Prémio Nobel de 2013. Gostaria de o recuperar para o último parágrafo deste texto. Diz a narradora: “Não fui a casa durante a última doença da minha mãe, nem ao seu funeral. Tinha dois filhos pequenos e ninguém com quem os deixar em Vancouver. Mas tínhamos dinheiro para a viagem, e o meu marido sentia desprezo por tudo o que fossem comportamentos formais, mas porquê culpá-lo? Eu pensava o mesmo. Dizemos que certas coisas não têm perdão – ou que nunca nos perdoaremos a nós próprios. Mas perdoamos – fazemo-lo a todo o momento.” Para os que quiserem saber, o conto chama-se “Amada Vida”.

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Soltar o Vítor Gaspar que há em mim


 
 
Às vezes, na sala de aula, face ao ruído vigente: qual das letras, da palavra silêncio, que não entendem?
 
 
 

Slim Whitman - Silver Haired Daddy Of Mine




Ainda do meu fim-de-semana televisivo: a boa sugestão de Pacheco Pereira, no Ponto Contraponto, como canção de homenagem aos mais velhos, tão fustigados e mal tratados (politicamente) em Portugal (no OE, p.ex.).

Só uma pergunta


Martim Cabral, no Sociedade das Nações, da Sic Notícias, na edição deste fim-de-semana, colocou ao embaixador de Angola, em Lisboa, José Marcos Barrica, a pergunta que creio todos gostaríamos de lhe ter feito: afinal, essa indisposição teve a ver com fugas de informação (da investigação judicial em curso, envolvendo algumas figuras de proa angolanas e portuguesas), ou com a investigação, ela mesma? O embaixador, como se esperaria, titubeou.
 
 

domingo, 20 de outubro de 2013

Romano Guardini e "o espírito da liturgia" (IV)



Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.



O outro passo, encontramo-lo nos lábios da eterna Sabedoria. "Cum eo eram cuncta componens: et delectabar per singulas dies, ludens coram eo omni tempore; ludens in orbe terrarum".
Temos aqui as palavras decisivas. O Pai encontra a sua alegria e delicias na contemplação do Filho, Plenitude perfeita do Vero, e abre livremente aos olhos dele, numa expressão de inexprimível beleza, este infinito tesouro, numa pura beatitude de vida, sem nenhum "intuito útil" mas com a mais definitiva plenitude de sentido: o Filho brinca diante do Pai.
Outro não é o sentido da vida dos seres perfeitos que são os Anjos: contentam-se com se mover sob o olhar de Deus sem finalidade, como o Espírito os impele, unicamente para serem, na Sua presença, um Jogo, um Canto vivo.
Na terra, duas coisas nos oferecem uma imagem desta sublime "inutilidade": o jogo da Criança e a criação do Artista.
No jogo e pelo jogo, a criança não se propõe alcançar um fim; só pretende manifestar a sua força rudimentar, desafogar livremente a sua vida sob a forma de movimentos, de palavras e de gestos que não visam nenhum fim positivo. O seu único objectivo e dilatar-se, desenvolver-se, tornar-se cada vez mais plenamente o que é.
Toda esta espontaneidade e liberdade de gestos não conhece nenhum fim útil, mas está repleta de sentido profundo, que é, para aquela vida em botão, revelar-se livremente pela palavra, pelo movimento e pela acção, tomar plena e total posse do seu ser, mais simplesmente e numa só palavra: existir. E porque esta vida em princípio não busca nem se propõe coisa alguma, porque se contenta com abrir-se e desabafar sem entraves, a sua "expressão", a sua tradução externa é naturalmente harmoniosa e incarna na beleza límpida da forma. O seu gesto faz-se espontaneamente ritmo, dança e imagem, rima, harmonia e canto. Tal é igualmente a essência do Jogo: Vida que se desafoga livremente e sem finalidade, que toma posse da sua plenitude, carregada e saturada de sentido pelo só e simples facto da sua existência. E este Jogo é belo quando lhe deixam toda a sua liberdade, quando a loucura dos métodos e das pedagogias não vem perturbá-lo e introduzir nele intenções que falseiam e alteram a sua sinceridade.
No entanto, a vida desenrola-se; começam as lutas e os combates; entrou na existência humana um elemento de conflito e, com ele, um elemento de fealdade. O homem tem diante dos olhos o objectivo do que quer ser e também do que deve ser. Este ideal, tenta ele realiza-lo e torna-se então cônscio da imensa resistência que a vida opõe ao seu esforço. Sabe quão raro e excepcional êxito representa para a criatura o facto de ela ser o que quereria e deveria ser.
Este conflito entre o seu sonho e a realidade, experimentará resolvê-lo noutro plano, noutra ordem, no reino irreal da imaginação: na Arte
 
(cont.)