segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A noite eleitoral do PSD


Uma onda gigantesca que muito levou, mas com alguns diques (específicos) que não permitiram inundações em todas as localidades. Algumas zonas de morfologia impossível de ser alagada, viram-se transformadas, apesar de tudo com surpresa, em zona sem bandeira verde, porque a incúria e negligência, a arrogância e impreparação foram muitas e, como se sabe, a política tem horror ao vazio. De ideias, de propósitos, de discurso, de listas, de tudo.
Quanto a Passos Coelho, bem pode pretender-se sacrificado no altar da pátria e indiferente a resultados, que vai a caminho de, de uma só cajadada, arrasar pátria e partido.
 
 
 

A (minha) ilusão da noite


O Fausto é o mais dedicado cidadão à polis, na minha comunidade, há décadas. Teve um resultado histórico, pela sua CDU, levando-a à Assembleia de freguesia - o que suspeito nunca antes acontecera; pelo menos, até onde a minha memória alcança não havia sucedido - o que é um verdadeiro feito. Se olhasse para os resultados que, nas mesmas secções de voto e freguesia, o seu partido obteve para Assembleia Municipal e Câmara Municipal, poderia, ainda o Fausto, se não tivesse a humildade que o caracteriza, explicar, by the book, o conceito de mais-valia. Por que é que não se pode dizer que uma eleição foi justa? Foi.
 
 
 
 

A (minha) decepção da noite


Depois de uma campanha em que mostrou ser o candidato mais sólido e melhor preparado, com melhor prestação nos fóruns de debate e apresentação de propostas, hélas!, precedidas de estudo, Jorge Pinho vê diminuída a votação que a sua equipa (como presidente de concelhia, então) alcançara em 2009. Por que é que não se pode dizer que um resultado foi injusto? Foi.
 
 

Descrição dos resultados (na minha terra)



Principais conclusões (fácticas) sobre os resultados das eleições para a Câmara Municipal, no concelho de Vila Real:

- dos 5 partidos que foram a sufrágio, 4 viram a sua votação diminuir;

- apenas o PS aumentou os resultados alcançados há 4 anos;

- o número de inscritos aumentou significativamente: 1331 a mais face a 2009;

- a abstenção foi uma das vencedoras da noite. Apesar do importante aumento de inscritos, votaram menos 722 pessoas do que nas últimas eleições locais;

- os ‘brancos’ cresceram em número de 299 votos e os ‘nulos’ foram mais 281 do que o verificado nas autárquicas anteriores;

- o PSD perdeu 3099 votantes;

- o CDS teve menos 338 votos;

- o BE ficou com menos 306 votos;

- a CDU, menos 57 eleitores;

- o PS conquistou 2498 votos em relação aos obtidos há 4 anos;

- volta a perder-se a representação do BE na Assembleia Municipal e é reduzida a presença do CDS (perde 1 deputado);

- a vereação fica entregue, em exclusivo, a PS e PSD.

domingo, 29 de setembro de 2013

Romano Guardini e 'o espírito da liturgia'


'O' texto, sobre a liturgia:




Romano GUARDINI, A Liturgia considerada como um Jogo, in O Espírito da Liturgia. Arménio Amado Editor, Coimbra, 1948, 65-80.

 

Para certas naturezas fortes e viris que, desde a origem, tenderam com todo o esforço de suas vidas para a conquista da Verdade e não vêem da vida e do mundo mais do que a face ética, e procuram por toda a parte na existência o fim que devem alcançar, há na liturgia uma dificuldade de ordem muito peculiar. Afigura-se-lhes ser algo de inútil, uma espécie de pompa supérflua, de criação artificial, complicada e sem objecto. E sentem-se ofendidos e escandalizados pela minúcia com que a liturgia regula o pormenor do desenrolar dos ofícios e das cerimónias, a ordem que preside ao desenvolvimento das mesmas, a orientação - à direita e à esquerda - dos gestos, o tom da voz, que deve, segundo os casos, ser elevada ou baixa. E perguntam para que serve toda esta farfalhice? O essencial da Missa, do Sacrifício e da Comunhão pode reduzir-se a umas quantas linhas tão simples, que não se chega a compreender a razão do estendal de tantos ritos e cerimónias. Se bastam umas poucas palavras para as consagrações essenciais da vida religiosa, se a dispensação dos Sacramentos pode ser feita com tanta simplicidade, de que utilidade são todas estas complicações, todos estes usos exteriores?
Às naturezas desta categoria a liturgia parece facilmente ser uma como que "montagem de teatro".
Esta questão não pode ser desprezada. Nem ao espírito de todos ela se põe. Mas quando a vemos surgir, é indício dum temperamento sério e reflectido que busca o fundo das coisas.
Relaciona-se com outra questão de ordem mais geral, que é a questão de utilidade, de finalidade prática.
Chamamos finalidade prática ao princípio de ordem que subordina certos objectos e actos a outros objectos e a outros actos, que faz que um objecto se oriente para outro, o qual se torna a razão de ser do primeiro. O princípio subordinado, o meio, só tem valor na medida em que se revela apto para servir os interesses do princípio sobreordenado, ou seja do fim. O ser agente não descansa nem permanece ai; esta fase não e, a seus olhos, mais do que uma passagem, um caminho em direcção ao fim, no qual apenas encontra repouso. O critério do meio encarado através deste prisma será a aptidão para se dirigir ao alvo. Tudo quanto aí não conduz directamente, todo o acessório, todo o supérfluo, será impiedosamente sacrificado. Nesta empresa retintamente objectiva entrará em acção o princípio económico da lei do menor esforço, do menor consumo de tempo e de matéria. O estado de alma concomitante será naturalmente caracterizado por certa impetuosidade de acção tensão violenta de todas as energias, pela mais determinada objectividade.
Tal estado de espírito tem indiscutível utilidade na economia geral da vida a qual transmite seriedade e rigor de direcção. Podemos afirmar que corresponde eminentemente ao real, pois que, na verdade, todas as coisas na existência prática são, duma maneira ou doutra, sujeitas ao critério de utilidade. Por exemplo, toda a vida económica e técnica dele depende. Mas há outras manifestações da vida, que dependem muito menos, ou só parcialmente e mesmo até muito pouco. De nenhuma seria justo asseverar que é passiva, inteira e exclusivamente, deste critério. Precisemos. O princípio que dá às coisas, e aos factos, o direito à vida e que legitima a natureza particular das mesmas, não é muitas vezes mais do que a sua adaptação a um fim prático. Poderemos admitir, por exemplo, para as folhas e flores um fim desta ordem? Umas e outras constituem decerto órgãos vitais da planta; mas não foi de maneira nenhuma o fim prático delas que presidiu à escolha da forma que têm, da cor ou do perfume específico. Por conseguinte, a que fim responde a imensa prodigalidade, o estupendo esbanjamento de formas, de cores e de perfumes que a Natureza oferece? A que responde a diversidade das espécies? Tudo isso se poderia executar muito mais simplesmente. A natureza inteira poderia estar cheia de seres cujo progresso ficasse assegurado de maneira muito mais rápida e "prática". O critério da utilidade, integral e uniformemente aplicado ao reino da Natureza, é singularmente contestável. Podemos ainda alargar a questão: qual a utilidade particular desta ou daquela espécie do reino vegetal ou animal? Bastará acaso responder que uma espécie serve de alimentar a outra? Seria esta uma justificação muito insuficiente. Somos levados a concluir que na ordem da Natureza considerada no seu conjunto em nenhuma parte o critério da finalidade prática se aplica de maneira absoluta e que em muitos casos só se aplica em fraca medida. Vistas através deste prisma muitas coisas não têm utilidade prática absolutamente nenhuma. Outro tanto não sucede numa construção técnica numa ponte ou máquina ou ainda numa empresa comercial na burocracia do Estado onde tudo pelo contrário aparece como que subordinado ao princípio do fim prático. No entanto também aqui a utilidade prática não basta para dar uma resposta satisfatória à questão do direito à existência.
Se quisermos penetrar mais fundo na realidade que nos é proposta precisamos de recuar para mais longe o ângulo de perspectiva. O conceito de utilidade situa o centro de gravidade do objecto fora deste último. Concebe-o como uma passagem uma fase num movimento que segue adiante quero dizer que se dirige ao termo. Ora cada objecto é ao mesmo tempo que corresponde a um fim igualmente uma coisa que estriba em si própria que é o fim de si própria. Muitos objectos quase não são mais do que isto. Pelo que melhor empregaremos aqui o termo sentido (Sinn). Com efeito tais objectos se não têm utilidade no valor estrito do termo têm um sentido. Este sentido cumprem-no não procurando um efeito situado fora deles contribuindo para a produção de alguma coisa que lhes é alheia mas pelo só facto de serem o que são. Vazios de utilidade são, e no rigor do termo, cheios de sentido.
Utilidade e sentido são as duas formas que pode revestir o direito à existência. Sob o ângulo da utilidade o objecto insere-se numa ordem que o ultrapassa; sob o ângulo do sentido repousa em si mesmo.

(cont.)

 

sábado, 28 de setembro de 2013

Richard Feynman (II)




Richard FEYNMAN, O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de… Prefácio de Freeman DYSON, Gradiva, Lisboa 2006.


Esmagar átomos

 

Aquilo em que estou a trabalhar neste momento é um problema especial que se nos deparou e que vou descrever. Como se sabe, todas as coisas são feitas de átomos - já sabemos isso e a maioria das pessoas também - e o átomo tem um núcleo em volta do qual giram eletrões. O comportamento dos eletrões no exterior é hoje completamente conhecido e as leis que o regem são bem compreendidas, pelo menos que nós saibamos, nesta eletrodinâmica quântica de que lhes falei. E depois de isso ter sido resolvido o problema passou a ser o de saber como é que o núcleo funciona, como é que as partículas interagem, como e que se mantem unidas. um dos resultados secundários foi descobrir a fissão e fazer a bomba. Mas investigar quais são as forças que mantêm as partículas nucleares unidas era uma longa tarefa. No principio pensou-se que era uma troca de um tipo de partículas no interior, que foram inventadas por Yukawa, chamadas piões, e previu-se que, se se disparassem protões - o protão é uma das partículas (27)

...

O QUE É A CIÊNCIA

 ...de as endireitar e andou no chão de um lado para o outro.

Ok, vamos ver.”

E então observamos e vimos, tanto quanto eu conseguia perceber,  que o pássaro bicava as penas as mesmas vezes, não importava há quanto tempo andava no chão, e não imediatamente após o voo.

Por isso a minha hipótese estava errada e não conseguia adivinhar a razão correta. O meu pai revelou a razão.  É que os pássaros tem piolhos. Há um pequeno floco que se liberta da pena, ensinou-me, algo que pode ser comido, e o parasita come-o. E nas articulações do para­sita, entre as secções da perna, há um pouco de cera que escorre e há um piolho que vive ai a comer a cera. O piolho tem uma fonte de comida tão boa que não a digere muito bem e da extremidade traseira sai um liquido que tem muito açcar e n﷽﷽﷽ fascas novas, c'omeç5 úcar e nesse açúcar vive uma criatura muito pequenina, etc.

Os factos não estão corretos. O espírito está. Primeiro aprendi sobre o parasitismo, um no outro, no outro, no outro.

Em segundo lugar,  ele continuou a dizer que no mundo,  sempre que há uma fonte de alguma coisa que possa ser consumida, há uma forma de vida que encontra uma maneira de fazer uso dela e que cada bocadinho que sobra é comido por alguém.

0 significado disto é que o resultado da observação, mesmo que eu não fosse capaz de chegar a uma conclusão final, era uma peça de ouro, um resultado maravilhoso.

Era algo de maravilhoso.

Suponham que me tinham dito para observar, para fazer uma lista, para escrever, para fazer isto, para ver e,  quando escrevesse a minha lista, era arquivada com mais 130 listas nas costas do meu bloco de notas. Eu aprenderia que o resultado da observação é  relativamente aborrecido,  que não sai daí grande coisa

Acho que é muito importante - pelo menos era para mim - que, se queremos ensinar as pessoas a fazerem observações, devemos mostrar que algo de maravilhoso poderá surgir.

Aprendi então o que era a ciência. Era paciência. Se olhássemos e prestássemos atenção, teríamos uma grande recompensa (embora não todas as vezes). Como resultado,  quando me tornei um homem maduro, trabalhei laborio­samente, hora após hora, durante anos, nos problemas - umas vezes muitos anos, outras menos tempo -, mui­tos deles falhados, muita coisa a acabar no cesto dos papéis, mas de vez em quando havia a recompensa de uma nova compreensão, que aprendi a aguardar quando era miúdo, o resultado da observação. Porque não aprendi que a observação não valia a pena.

Incidentalmente, na floresta aprendemos outras coisas. Íamos passear e víamos coisas normais e falávamos de muitas coisas, sobre as plantas que cresciam, a luta das árvores pela luz, como tentavam chegar o mais alto possível e resolver o problema de levarem a água a mais de 35 ou 40 pés de altura, as pequenas plantas no chão que procuram os bocadinhos de luz que passam, tudo o que cresce, etc.

Um dia tínhamos visto isto tudo e o meu pai levou-me outra vez à floresta e disse-me: «Durante todo este tempo em que temos observado a floresta vimos apenas metade daquilo que se passa, exatamente metade..

«O que queres dizer?», perguntei-lhe.

Ele disse-me: «Temos visto como é que todas estas coi­sas crescem, mas por cada bocadinho de crescimento tem de haver a mesma quantidade de degradação, pois de outro modo os materiais seriam consumidos para sempre. As árvores mortas ficariam ali depois de terem usado tudo o que podiam do ar e do chão e nada voltaria para o chão e para o ar e nada mais podia crescer porque não haveria material suficiente. Para cada bocadinho de crescimento tem de haver a mesma quantidade de degradação

E seguiram-se muitos passeios nos bosques, durante os quais partíamos velhos troncos, víamos vermes engraçados e fungos a crescer. Ele não podia mostrar-me as bactérias, mas víamos os efeitos da sua ação, e assim sucessiva­mente. Vi a floresta como um processo de reciclagem constante de materiais.

Havia muitas coisas destas, descrições de coisas de ma­neiras estranhas. Ele começava muitas vezes a falar de uma coisa deste modo: «Supõe que vem cá um homem de Marte ver o mundo.» É uma ótima maneira de ver o mundo. Por exemplo, quando brincava com o meu comboio elétrico, ele disse-me que havia uma grande roda a ser girada pela água que está ligada por filamentos de cobre, que se esten­dem e estendem em todas as direções; depois há peque­nas rodas e todas elas giram quando a roda grande gira. A relação entre elas é feita apenas por cobre e ferro, nada mais, sem partes móveis. Giras uma roda aqui e todas as rodinhas giram em todo o lado e o teu comboio e uma delas. Foi um mundo maravilhoso aquele de que o meu pai me falou.

O que é a ciência, penso que poderá ser algo como isto: houve neste planeta uma evolução da vida até ao ponto em que se desenvolveram animais que são inteligentes. Não falo apenas de seres humanos, mas de animais que brin­cam e conseguem aprender alguma coisa com a experiên­cia (como os gatos). Mas a dada altura cada animal teve de aprender com a sua própria experiência. Desenvolve­ram-se gradualmente até um animal poder aprender mais rapidamente e poder mesmo aprender com a experiência de outro pela observação, ou um poder mostrar ao outro, (122)  ou um ver o que o outro tinha feito. Assim, houve a pos­sibilidade de todos aprenderem, mas a transmissão não era eficiente e morriam, e talvez aquele que aprendeu morresse também antes de poder passar aos outros o que aprendera.

A questão é: será possível aprender mais rapidamente (o que alguém aprendeu por acidente) do que a taxa a que o assunto é esquecido, seja por má memória, seja pela morte do aprendiz ou inventor?

E então chegou uma altura em que, para algumas espécies, a taxa a que aumentava a aprendizagem fez com que acontecesse uma coisa completamente nova: as coisas po­diam ser aprendidas por um animal e passadas para outro e outro de uma forma suficientemente rápida para não se perderem. E tornou-se possível acumular conhecimento.

Isto foi designado por time-bending (curvatura do tempo). Não sei quem lhe chamou assim em primeiro lugar.

Temos aqui algumas amostras desses animais, sentados a tentarem ligar uma experiência a outra, cada um a tentar aprender com o outro.

Este fenómeno de ter uma memória, de ter conhecimento acumulado que passa de uma geração para outra, era novo no mundo. Mas continha um doença. Era possível trans­mitir ideias erradas. Era possível passar ideias que não eram lucrativas para a raça. A raça tem ideias, mas estas não são necessariamente benéficas.

Então chegou uma altura em que as ideias, embora se acumulassem lentamente, eram todas acumulações não ape­nas de coisas práticas e úteis, mas grandes acumulações de todo o tipo de preconceitos e crenças estranhas e anormais.

Descobriu-se então um  meio de evitar a doença. Isto é, duvidar de que o que é transmitido do passado seja de facto verdade e tentar perceber, ab initio, novamente a partir da experiência, qual é a situação, em vez de acreditar na experiência do passado, sob a forma que é transmi­tida (123). E é isso que é a ciência: o resultado da descoberta de que vale a pena verificar novamente através da experiência direta e não necessariamente acreditar na experiência passada da raça. ...

(cont.)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A leitura do voto local


Por uma vez, concordo com o arquitecto Saraiva: claro que vai haver leitura nacional dos resultados locais. Vai haver, mas não devia. Agora e sempre. O argumento maior é que, de facto, condiciona muita gente, que acaba por não votar no candidato e programa preferidos para o seu concelho, com medo que a intenção e desejo, nele impressos, sejam usurpados. O meu voto, livre, que não sirva para nada mais do que dar força ao programa e seu(s) protagonista(s) que me parecem, hoje, melhor servirem o meu concelho. Tudo o resto estará a mais e será ilegítimo.


Guia para a noite eleitoral (II)


Entre "as 11 grandes batalhas" identificadas pelo jornal Sol para o próximo Domingo eleitoral, está o concelho de Vila Real, visto, por David Dinis, a par de Faro, como contendo dúvidas sérias, quanto ao resultado final, já que "o PS cresce" (p.5).


Guia para a noite eleitoral


"Perder câmaras grandes como Sintra, Vila Real, Faro, Coimbra ou Gaia será fatal [para o PSD] para a leitura política. Perder o Porto seria pior, dando outra força a um Rui Rio sem amarras", David Dinis, Helena Pereira e Manuel A. Magalhães, Sol, p.4.




Um debate esclarecedor



Para os resistentes indecisos, mas também para os que possam reconsiderar o voto. O último debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Vila Real. Mais de duas horas de discussão. Como me dizia um velho amigo advogado, interessado nas questões da oratória, "foi 10-0 para Jorge Pinho". Ao assistir-se às intervenções na Aula Magna da UTAD e no Porto Canal, na passada terça-feira, entre as 23h e a 1h da manhã, dificilmente, pelo menos, se contestará a justeza da apreciação quanto ao 'vencedor' da disputa. Bem mais: como aqui já havíamos referido, o corolário lógico dos últimos quatro anos da vida política local.

Ethos próprio


A senhora, visitada, no seu probo e recto café, pelo senhor padre H. e sua comitiva, aos Domingos, dias santos e festas de guarda para observação dos jogos do campeonato e demais competições, fartou-se dos “folhas” e “carvalhos” (sic), a toda a hora expelidos, e decidiu abandonar a TvCabo para que conflitos entre pessoas, algazarras e bulhas não sucedessem. 2013. Ethos próprio têm, ainda hoje, algumas aldeias transmontanas.


Uma semana na escola



Ouvem, também, Shakira e Justin Bieber. Pergunta-se se conhecem algo de música clássica. Uma seca, responde, sem diletantismos, o mais descarado. E sabes o que é música clássica? Não, mas é uma seca, disputa, com a indiscutível lógica deste tempo, o rapaz. Um moço mais viajado, rigorosíssima excepção, garante saber tocar ‘Fur Elise’, ainda que desconheça o autor. Trauteia, bem, a música.


Visitas aos sábios


O velho sábio diz-me que tem gosto em ser gago. Por uma questão de auto-estima – Deus fê-lo assim e cada um deve gostar de ser como é -, mas, sobretudo, pelas inflexões que a gaguez lhe permite: virar a frase, o seu sentido, a meio do caminho, ignorar stops, resistir a tentações, fazer-se ingénuo, não errar, insinuar, sugerir, confundir. E fica ali toda a manhã a ensinar (os) outros.


Nunca ninguém chega perto


'É também "a certeza de que por mais acompanhado que esteja, por mais gente que me procure, a comunicação, como afirma Wittgenstein, é impossível". Nunca ninguém chega perto o suficiente, diz, e acredita "frustrantemente" nisso. "Todos os afectos são apenas tentativas e até certo ponto estamos enclausurados" '.

da peça (jornalística) de Luís Ricardo Duarte, com Valter Hugo Mãe, JL nº1121



quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Domingo à noite


 
 

Richard Feynman



Richard FEYNMAN, O Prazer da Descoberta. Os melhores textos breves de… Prefácio de Freeman DYSON, Gradiva, Lisboa 2006.

 

INTRODUÇÃO

... do seu valor no vácuo. Fazendo as contas, ver-se-á que 61 quilómetros por hora (pouco mais de um quilóme­tro por minuto), divididos por 1080 milhões de quiló­metros por hora, da 0,0000000565 da sua velocidade no vácuo! Colocando este resultado em perspectiva, é como se Galileu tivesse largado as suas bolas de canhão da Torre de Pisa e elas tivessem demorado dois anos a atingirem o chão!
A razão para os pontos de exclamação no parágrafo anterior é que fiquei sem fôlego na conferência (até Einstein teria ficado impressionado). Acho que, pela primeira vez na minha vida, senti uma migalha daquilo a que Feynman chamava «a excitação da descoberta[1]», o sentimento súbito (provavelmente semelhante a uma epifania, embora neste caso por interposta pessoa) de que tinha compreendido uma ideia nova e maravilhosa, que havia algo novo no mundo; que estava presente num acontecimento científico de grande significado, não menos dramático ou excitante do que o sentimento do Newton quando percebeu que a misteriosa força que levara a apócrifa maçã a cair-lhe na cabeça era a mesma que fazia com que a Lua orbitasse a Terra ou o de Feynman quando deu aquele primeiro passo na compreensão da natureza, da interação entre a luz e a matéria, que acabou por levá-lo ao prémio Nobel.
Sentado naquela audiência, quase podia sentir Feynman nas minhas costas a segredar-me ao ouvido: «Vê? É por isto que os cientistas persistem nas suas investigações, que lutam tão desesperadamente por cada bocadinho de co­nhecimento, ficam noites inteiras acordados à procura da resposta para um problema, ultrapassam os obstáculos mais difíceis até ao próximo fragmento de compreensão para, finalmente, chegarem aquele momento feliz e excitante que é parte do prazer da descoberta[2].» Feynman dizia sempre que não trabalhava em física pela glória ou pelos prémios, mas por diversão, pelo brilhante prazer de descobrir como funciona o mundo, o que o faz tilintar.
O legado de Feynman é a sua imersão e dedicação à ciência - a lógica, os métodos, a rejeição do dogma, a capacidade infinita de duvidar. Feynman acreditava e vivia na crença de que a ciência, quando usada com responsa­bilidade, pode ser não só divertida, mas de um valor inestimável para o futuro da sociedade humana. E, como todos os grandes cientistas, adorava partilhar a sua admiração pelas leis da natureza tanto com colegas como com leigos. O Prazer da Descoberta apresenta o melhor dos textos curtos de Feynman - a maior parte já publicados e um inédito.
A melhor maneira de apreciar a mística de Feynman é ler o livro, pois aqui encontra-se uma ampla variedade de tópicos sobre os quais Feynman pensou profundamente e discursou de forma tão charmosa, não apenas física - no ensino da qual jamais alguém o ultrapassou -, mas também religião, filosofia e pânico da exposição pública na academia, o futuro da computação e da nanotecnologia (da qual foi o pioneiro), humildade, diversão em ciência, o futuro da ciência e da civilização ou o modo como os cientistas debutantes devem encarar o mundo.
Feynman tinha uma atitude muito descontraída relati­vamente a correção gramatical das suas conferências orais.

.....
 

O PRAZER DA DESCOBERTA

O prémio Nobel, assim seja. Não tenho nada a ver com o prémio Nobel...é uma...[risos]. Não gosto de honras, aprecio-o pelo trabalho que fiz e pelas pessoas que o apre­ciam e sei que há muitos físicos que usam o meu trabalho; não preciso de mais nada, creio que nada mais faz senti­do, não vejo que faça diferença que alguém na Academia Sueca decida que este trabalho é suficientemente nobre para receber um prémio - já tenho o prémio. O Prémio é o prazer da descoberta, a excitação da descoberta, ver que outras pessoas o usam [o meu trabalho] - estas são as coisas reais, as honras são irreais para mim. Não acredito em honras, aborrecem-me, as honras aborrecem, as honras são galões, as honras são uniformes. O meu pai criou-me desta maneira, não consigo suportá-lo, ferem-me. Quando andava no liceu, uma das primeiras honras que recebi foi ser membro do Arista, um grupo de miúdos que tinham boas notas; toda a gente queria ser membro do Arista, e quando entrei descobri que o que se fazia nas reuniões era discutir quem mais era merecedor de pertencer a esse ma­ravilhoso grupo além de nós, OK? Então sentávamo-nos para tentarmos decidir a quem é que seria permitido jun­tar-se a este Arista. Este tipo de coisa perturba-me psi­cologicamente por uma razão ou por outra que não com­preendo e desde esse dia sempre me perturbou. Tinha problemas com... quando me tornei membro da Acade­mia Nacional de Ciências, acabei por ter de renunciar porque essa é outra organização cuja maior parte do tem­po é passada na escolha de quem é suficientemente ilustre para aderir, para ser autorizado a juntar-se a nós na organização, incluindo questões sobre se nós, os físicos, devíamos manter-nos unidos, porque eles têm um químico muito bom que estão a tentar incluir e não há espaço que chegue, e por aí fora. Qual é o problema com os químicos? A coisa toda estava podre porque o seu propósito principal era decidir quem é que podia ter esta honra, OK? Não gosto de honras.

 

As regras do jogo

[De 1950 a 1988, Feynman foi professor de Física Teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).] Uma analogia engraçada para dar uma ideia do que fa­zemos nesta tentativa de compreendermos a natureza e imaginar que os deuses estão a jogar um grande jogo, tipo xadrez, é que não sabemos as regras do jogo, mas nos é permitido olhar para o tabuleiro de vez em quando, talvez para um pequeno canto, e, a partir destas observações, tentamos perceber quais são as regras das peças que se movimentam. Após algum tempo podemos descobrir que, por exemplo, quando só há um bispo no tabuleiro este mantem a sua cor. Mais tarde podemos descobrir a lei para o bispo, a medida que se movimenta na diagonal, o que explicaria a lei anterior e por que não perdeu a sua cor, e isso seria análogo a descobrir uma lei e depois encontrar-lhe um significado mais profundo. Então  as  descobertas acontecem, tudo parece estar a correr bem, temos todas as leis, parece opimo, mas, de repente, ocorre um fenómeno estranho qualquer num canto e começamos a investigá-lo, a procurá-lo - e perturbador, algo de que não estávamos a espera. Já agora, nós, na física fundamen­tal, estamos sempre a tentar investigar aquelas coisas cuja conclusão não compreendemos. Não estamos a verificar as nossas conclusões a toda a hora; depois de as termos con­firmado o suficiente ficamos satisfeitos.
Aquilo que não bate certo, a parte que não se comporta de acordo com o previsto, é aquilo que é mais interes­sante. Podemos ter revoluções em física depois de termos verificado que o bispo mantém a cor e se move na diagonal, e durante muito tempo toda a gente sabe que é assim, quando de repente, num jogo qualquer de xadrez, se percebe que o bispo não manteve a cor, que a cor muda. Só mais tarde descobrimos outra possibilidade, que um bispo é capturado e que um peão vai até ao extremo onde está a rainha para produzir um novo bispo - isso pode acontecer, mas não o sabíamos e por isso é tão semelhante ao modo como são as nossas leis: por vezes parecem bem e continuam a funcionar até que, de repente, uma luzinha mostra que estão erradas e lá temos de investigar as condições sob as quais o bispo mudou de cor e, gradualmente, aprendemos a nova regra que o explica de modo mais profundo. No entanto, ao contrário do xadrez, em que as regras vão ficando mais complicadas à medida que se avança, na física, à medida que se descobrem coisas novas, começa tudo a parecer mais simples. Em geral, parece mais complicado porque aprendemos a partir de uma experiência maior - quer dizer, aprendemos novas partículas e novas coisas - e por isso as leis parecem complicadas outra vez. Mas, se não nos esquecermos do que é maravilhoso e aumentarmos a nossa experiência para regiões cada vez mais audazes, de vez em quando temos aquelas integrações em que tudo se junta num todo e se torna mais simples do que parecia antes. Se estivermos interessados na essência do mundo físico, da realidade ou na visão completa do mundo e, de momento, a única via para o compreendermos for o pensamento matemático, então acho que ninguém pode apreciar totalmente, ou mesmo parcialmente, estes aspectos particulares do mundo, a grande profundidade do carácter universal das leis, as relações entre as coisas, sem compreender a matemática. Acho que é, não sei, não conheço qualquer outro modo de o fazer, não conhecemos outra maneira de o descrever com rigor... ou mesmo de ver as inter-relações. Por isso não acredito que uma pessoa que não tenha desenvolvido algum conhecimento matemático seja capaz de apreciar este aspecto do mundo - não me interpretem mal, existem muitos, muitos aspectos do mundo para os quais a matemática não é necessária, como o amor, que são maravilhosos de apreciar e de sentir o fascínio e mistério, e não quero dizer que a física é a única coisa no mundo, mas estávamos a falar de física e, se é disso que falamos, então não saber matemática é uma severa limitação a compreensão do mundo.

 
(cont.)


[1] No original, the kick of discovery. (N. do T.)
[2] Outro dos acontecimentos mais excitantes, se não na minha vida, pelo menos na minha carreira de editor foi ter encontrado as transcrições há muito enterradas e nunca publicadas de três palestras que Feynman deu na Universidade de Washington em inícios de 1960 e que deram origem ao livro o Significado de Tudo, mas esse foi mais o prazer de encontrar do que o prazer de descobrir!
 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Paródia democrática



Numa sala, pergunta-se a mais de 30 crianças (7-10 anos) se gostam de música. Uma esmagadora maioria responde que sim. E que músicas, canções, cantores ou cantoras preferem, ou recordam? 90% responde ‘a piradinha’ e um rapaz desata, mesmo, nos seus intensos e incontrolados 7 anos, a correr de cor a letra, com “ela está maluca/ela ‘tá doidona (…)/arrasa na pista/todo o mundo quer pegar/mas depois de um tempo/bebe, fica piradinha/ela desce do salto/a gatinha perde a linha”. 7 anos. Uma rapaziada que teve pré-escolar. Local onde ouviram isto, reforçando/legitimando o adquirido de partida (em casa, na comunidade de pertença, na televisão, entre ela, a RTP). À irresponsabilidade/negligência/ignorância chamam democracia.

P.S.: não percebem a letra e o que veicula. Qual mistério, qual Vargas Llosa? Qual beleza e busca do difícil/exigente/nobre?



 

Mourinho, um retrato (em Madrid)


Jornalismo de investigação, foto sem propaganda.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O trabalho, hoje


Raquel MARTINS (Entrevista) Ricardo ANTUNES, “O trabalho precário está a tornar-se crescentemente a regra”, in Público, 23. 09. 2013, 20-21.

“O trabalho, que estrutura o capital, desestrutura a humanidade, e o trabalho que estrutura a humanidade desestrutura o capital”
“O sindicato tem que entender a nova morfologia do trabalho para que possa representar o novo desenho da classe trabalhadora”


Ricardo Antunes O sociólogo e investigador na Universidade de Campinas, Brasil, diz que os trabalhadores estão confrontados com um enigma de difícil solução: o trabalho precário ou, do outro lado, o problema do desemprego.
O investigador brasileiro, que há 40 anos estuda os fenómenos ligados ao trabalho, alerta que o trabalho precário e informal, que devia ser uma excepção, passou a ser a regra. Um fenómeno global que está a alterar a morfologia do trabalho e a influenciar a intervenção social dos trabalhadores.
Ricardo Antunes, que esteve em Portugal em meados de Setembro para apresentar o seu livro Os Sentidos do Trabalho, Ensaio sobre a Afirmação e a Negação do Trabalho (Editora Almedina), alerta que as empresas estão cada vez mais divididas por várias partes do mundo e têm trabalhadores estáveis e precários (subcontratados, trabalhadores independentes ou em part-time), o que dificulta a sua acção. É por isso que, defende, é tempo de lutas à escala global.
O sociólogo foi militante do Partido dos Trabalhadores (PT) durante 20 anos, mas não poupa críticas ao “castelo de cartas frouxas criado pelo Governo” e que começou a dar sinais de estar a desmoronar-se com as manifestações de Junho passado em várias cidades brasileiras.


Quando lançou o livro Os Sentidos do Trabalho no Brasil, há 14 anos, alertava que estava a caminhar-se para uma realidade em que o trabalho informal e precário seria a regra. A sua tese acabou, de certa forma, por se confirmar. Essa realidade veio para ficar?

Vivemos uma mudança profunda. A excepção — o trabalho informal, terceirizado, freelancer — torna-se crescentemente regra. Infelizmente, a relação contratual dotada de direitos, onde o trabalhador e a trabalhadora entravam para um emprego numa perspectiva de aí ficar longo tempo, praticamente desapareceu.
Se fossem relações flexíveis de trabalho com direitos, com segurança, mas não. O problema é que a noção de flexibilidade traz embutido o desmantelamento dos direitos do trabalho nas diversas partes do mundo.
Se a regra segundo a qual o trabalho é um custo e como todo o custo tem que ser reduzido se mantiver, entramos num novo patamar de precarização estrutural do trabalho em escala global.


Essa precarização é um problema mais visível nas economias desenvolvidas?

Se olharmos para o mundo asiático, é a lei da selva; se olharmos para o mundo latino-americano, é a lei da informalidade. Em meados de 1990, 60% da força do trabalho do Brasil estava na informalidade. Diz-se que na Alemanha praticamente não há desemprego. Mas, se analisarmos os dados do Eurostat [o organismo de estatísticas europeu], concluímos que os homens alemães estão a perder o emprego a tempo inteiro e a aceitar empregos parciais, onde normalmente predominam as mulheres. É verdade que os níveis de desemprego são reduzidos, mas houve precarização das condições de trabalho.
Temos depois o caso de Portugal, com um largo contingente de jovens sem perspectivas, ou o caso espanhol, que é explosivo. Para não falar dos emigrantes que são hoje a ponta mais visível da precarização do trabalho à escala global.


Estamos condenados a que o trabalho contratualizado e, de certa forma, regulado desapareça?

Não estamos condenados, se resistirmos e se lutarmos. Uma empresa, seja ela pequena ou uma grande multinacional, tem que funcionar numa lógica de racionalidade, ou seja, quanto menos custos tiver, melhor. E como é que ela reduz custos? Cortando nas despesas desnecessárias, mas fundamentalmente cortando no trabalho.
Em 1995, chegámos a ter no Brasil um milhão de trabalhadores bancários. Hoje temos 400 mil, mais 400 mil invisíveis que trabalham em call-centers ligados aos bancos. São tendências mais ou menos mundiais. Onde há sindicatos mais fortes, essas mudanças demoram. Infelizmente a excepção tende a ser a regra e a regra — o trabalho contratualizado e estável — tende a ser a excepção. O discurso empresarial é que terceirizando [expressão que significa a contratação de serviços externos a terceiros], a qualidade do serviço é melhor. Isso é falso, trata-se de um discurso puramente ideológico. A terceirização tem dois objectivos: a redução de custos e dividir os trabalhadores.
As empresas têm cada vez menos trabalhadores estáveis e têm várias modalidades de contrato (em part-time, contrato por tempo determinado) pautadas por regras de informalidade, que é o espaço da precarização mais acentuada. É o melhor dos mundos para a empresa e o pior dos mundos para a classe trabalhadora. Quando os trabalhadores estáveis param, os precários fazem o trabalho. Quando os precarizados param, os estáveis fazem o trabalho.
Na lógica actual, não faz mais sentido ter uma fábrica com 20 mil operários, porque se param não há nada a fazer. O ideal é ter várias fábricas com 500 trabalhadores, espalhadas pelo mundo e utilizar forças de trabalho mais baratas.


Significa que o valor do trabalho também tem vindo a degradar-se, com esta nova morfologia da empresa e do próprio emprego?

O valor do trabalho foi completamente destruído porque ele tornou-se uma mercadoria. Uma das conclusões fortes do meu livro é a seguinte: o trabalho que estrutura o capital desestrutura a humanidade, e o trabalho que estrutura a humanidade desestrutura o capital. Esse é o enigma do século XXI.


Mas se, por um lado, ter um trabalho precário é mau, estar no desemprego não será pior?

O trabalho é uma dialéctica rica. Se estou desempregado, o meu primeiro sonho é voltar a trabalhar. Mesmo o trabalho assalariado, informal, precarizado, é um flagelo menor do que o desemprego. Se tenho um emprego bom e com direitos, quero um que me pague melhor. Se tenho um emprego precário, luto para melhorá-lo.
O trabalho é alienação, sofrimento, fetichismo, coisificação, mas também é simultaneamente criação, felicidade. Miguel Ângelo, quando está a pintar ou a esculpir, tem dias em que quase que está a desempenhar um trabalho manual penoso. Mas quando olha a obra e ela fala é um momento catártico da criação. Mesmo um trabalho sublime como o do artista tem sofrimento (…)
Com 26 anos, este jovem [Marx] constatou que, se pudesse, o trabalhador, e eu acrescentaria a trabalhadora, fugiria. Se pudessem, os trabalhadores e as trabalhadoras fugiriam do trabalho como se foge de uma peste. Mas se saio do trabalho infernal e vou para o desemprego infernal, então eu quero voltar ao trabalho infernal.


De que forma a precarização e o recurso ao outsourcing influenciam o exercício da cidadania e a conciliação da vida profissional com a pessoal?

Não importa se é belo ou infernal, o trabalho é vital para o trabalhador, para o mundo e para o capitalismo. É o trabalho que gera a riqueza, não é a máquina. Quanto muito, a máquina potencia a riqueza. Se esse trabalho é depauperado e degradado, a base sobre a qual se ergue a actuação do indivíduo enquanto ser social está comprometida.
Quem não tem assegurado no espaço laboral nem um traço de dignidade, nem um traço de certeza, mas só incerteza e risco, nem um traço de longevidade, como poderá exercer a cidadania? A tendência é a diluição dos laços do trabalho, e isso afecta os laços que transcendem o trabalho.
Sou muito crítico. O meu optimismo decorre de uma outra coisa: entramos numa nova era de lutas sociais e de classe à escala global.



Mas que lutas são essas? Como é que se mobilizam as pessoas que estão divididas e dispersas e, ainda para mais, em situações laborais instáveis e precárias?

Estamos numa fase de lutas sociais globais espontâneas, estamos numa luta de ocupação das praças públicas. Há um fosso entre a luta social e as representações políticas tradicionais.
Em São Paulo, o que originou a rebelião de Junho foi o aumento dos transportes colectivos. O mito brasileiro começou a ruir. Fui do Partido dos Trabalhadores (PT) durante 20 anos, mas sou um crítico muito duro do Governo do PT que criou um castelo de cartas frouxas e elas começaram a cair.
Na Alemanha, as lutas são diferentes. Os trabalhadores têm que lutar por um emprego que há 20 anos era feito pelo imigrante. São formas distintas de revolta.


Referiu o fosso entre a sociedade e as representações democráticas. Não há também um fosso em relação aos sindicatos?

Há. A nova morfologia do trabalho criou trabalhadores que não têm qualquer experiência sindical, como os que trabalham em call centres ou no comércio. [Friedrich] Hayek e [Milton] Friedman, os grandes teóricos do neoliberalismo, já diziam no pós-Segunda Guerra que o grande inimigo do capitalismo eram os sindicatos. Existe uma insidiosa política de desmantelamento do sindicato de classe. Aceita-se o sindicato parceiro, mas rejeita-se o sindicato combativo.
Por outro lado, a classe trabalhadora mudou. É mais feminina, mais jovem, mais precarizada, mais terceirizada, mais emigrante. O sindicato era representante de uma classe trabalhadora masculina, estável e herdeira do welfare state.
Os sindicatos não conseguem responder a esta mudança de forma rápida. O sindicalismo é vertical e institucionalizado porque a empresa também era vertical e institucionalizada. Hoje a empresa estende-se em rede e tem trabalhadores e trabalhadoras estáveis e precários. Os sindicatos vivem um momento difícil, a base mudou profundamente e há uma política dura anti-sindical.
Podemos ter no século XXI um sindicato de cúpula, que defende uma minoria, ou recuperar um sindicalismo de classe e de massa que compreenda a nova morfologia do trabalho. O sindicato tem que entender a nova morfologia do trabalho para que possa representar o novo desenho da classe trabalhadora. Não houve o fim da classe trabalhadora, temos é que entender quem é o jornalista hoje, o bancário, o operador de call-center, o trabalhador de fast-food, quem são os imigrantes.




domingo, 22 de setembro de 2013

Círculos quadrados



Não entendem, não têm formação suficiente, não vale a pena dar-lhes isto – paternalista.
Não usar conceitos, expressões, registo de linguagem que o auditório não compreenda – sensato (e com o manual de Filosofia, do antigo décimo ano, na mão).
Dizer o melhor, penetrar no singular, ousar dizer diferente, explorar matéria densa, homenageando e respeitando, decididamente, o celebrado (hoje) – está muito bem, mas não sei se as pessoas te vão perceber.
Escolher dizer menos que o possível, abaixo do melhor – comercial.
 
 

Coragem


'Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho'

Valter Hugo Mãe, JL, nº1121, 18 de Setembro a 1 de Outubro de 2013, p.8

Pero que las hay, hay - as arruadas



Deixaram as tv’s, mas não deixaram o terreno. O que não passa na tv, não existe – dizem eles. Antes das nove, já a arruada pejada de bombos tonitruantes arruinara o meu Sábado.
 

sábado, 21 de setembro de 2013

O espírito do tempo


Nicolau Santos escreve, hoje, no Expresso, uma carta ao filho, (a partir de agora) emigrante (forçado). Há três semanas, n’Abola, foi Fernando Seara a recorrer ao (mesmo) registo epistolar, para partilhar a dor subjectiva/comunitária, nesse adeus, ou até já, à descendência. 


Estado


Em luta. Com a Armadilha, de Rui Nunes.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Moral


Pode ser que no futuro exame para admissão ao professorado, se prefira o dilema de Epicuro ao teorema de Pitágoras.
 
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Albert Jacquard (II)


Albert JACQUARD, Dieu? Stock / Bayard, Paris 2003, 116-119. “Se ser em comum é apenas somar (função aditiva) o resultado não traz qualquer inovação; se coloca em presença dois seres capazes de se influenciarem reciprocamente um ao outro (função explicativa) o resultado é muitas vezes imprevisível e pode dar o ‘ainda não visto’. As reflexões científicas sobre o conceito de complexidade podem explicar e aproximar este efeito da interacção. Numa estrutura material complexa, isto é, desde que as relações entre os seus elementos não são aditivas, os resultados de que é capaz podem ser sem medida comum com os dos seus constitutivos. Esta verificação das ciências pode ser tida em conta a propósito do pôr em comum realizado pelas estruturas hipercomplexas que são as pessoas. O que elas podem realizar quando criam um conjunto interactivo, quando estão em estado de comunhão, é de uma outra natureza que as realizações de que são capazes individualmente…Não é esta a mensagem do Evangelho, onde Jesus afirma: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”? A reunião das pessoas, o estar cada um face aos outros numa atitude não de recusa ou competição, mas de abertura, faz aparecer uma realidade nova definida aqui por este ‘Eu’. Esta verificação tem por consequência o programa de vida proposto no sermão da montanha: ‘Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos fazem mal…’(Mt 5). Não se trata duma proposição de bons sentimentos, mas é uma necessidade lógica conforme à lucidez. Para beneficiar das possibilidades novas dadas pelo estar em comum, a ‘comunhão’, é necessário ser capaz de realizar com os outros um ser colectivo, olhá-los como fontes e não como perigos".