domingo, 30 de junho de 2013

Mundial futebol sub20: sinal laranja


Vi o Espanha-Gana, do Mundial de sub20 que está a decorrer na Turquia. Raramente, de 2008 até agora, uma selecção espanhola, independentemente do escalão etário, passou por tantas dificuldades, como face a esta equipa africana. A selecção do Gana não apenas curto-circuitou o habitual tiki-taka de nuestros hermanos, como, com um poder físico impressionante, colocou la rojita contra as cordas, criando diversas ocasiões e não beneficiando de um penalty a que tinha direito, no último minuto. No jogo seguinte, frente aos EUA - equipa que venceu a selecção nacional no Algarve, por 3-1, em particular na semana que antecedeu o início deste mundial -, o Gana goleou.
Cabe a Portugal contrariar, portanto, a inconsistência competitiva que é apontada à equipa das quinas, pese o virtuosismo técnico que, hoje, todos reconhecem a vários dos nossos jogadores (tenho apreciado muito o relógio suiço que João Mário é; de algum modo, a fazer lembrar Moutinho).
Desejo bem que tal aconteça de modo a que, na apreciação final da nossa participação neste torneio, não se carregue no moralismo habitual - a abnegação, o sangue, suor e lágrimas de há dois anos; "estes são vedetas", "não trabalham", etc.; para mais, o Gana não é uma selecção com grande renome internacional (...mas ganhou o penúltimo mundial da categoria); e estes postulados têm estado latentes nos comentários televisivos e noutros media aos jogos desta selecção - e se possa desfrutar do jogo, pura e simplesmente.
A equipa adversária tem bastante qualidade, os seus jogadores fisicamente impõe-se muitas vezes com bastante facilidade, por cá os níveis de intensidade não são os mais elevados pelo que o sinal deve ser amarelo, ou mesmo laranja, na expectativa portuguesa quanto a este jogo dos oitavos-de-final da competição.


Barroso e a 'reacção' (III)





Na última quinta-feira, à mesma hora, dois programas de análise e debate político semanais, A quadratura do círculo e A prova dos nove, debruçaram-se sobre o fenómeno da globalização.
Na Sic Notícias, Daniel Bessa descrevia, em termos deterministas, a globalização e, em poucas palavras, o inelutável fim do (nosso) modelo social (europeu). Pelo menos, tal como o conhecemos: “uma outra flexibilidade…” foi expressão para ir dar, das relações laborais aos outros domínios do social, a um declínio das condições, ou da qualidade de vida, já de si num estado pouco recomendável, para muita gente, na Europa, no momento actual. Como que as declarações fizessem eco nos estúdios da TVI24, Francisco Assis afirmava o primado da política, dizendo, e bem, que se é para as coisas seguirem um aparente curso natural – ver o país, ou países, que dão menos:  menos condições laborais, menos impostos, etc. para atrair empresas e ganha quem oferecer o padrão menor –, sem que haja uma conformação de acordo com uma dada visão política – diferenciada, evidentemente, consoante a família ideológica em causa -, então, não vale a pena os políticos e a política existirem.

Se estivéssemos perante um fenómeno natural, como a chuva, que sentido teria alguém pronunciar-se acerca do modo como o conformar? Certo discurso determinista, do ponto de vista económico, parece, com efeito, que olha para o tipo de globalização em que se inscreve como que se estivéssemos perante a mesma inevitabilidade com que recebemos a chuva.
Todavia, não é disso que se trata: cura-se de opções políticas. O grau de abertura das economias ou de integração dos mercados mundiais que se pretende (como, só para citar um exemplo, Rodrik mostrou) contende, inequivocamente, com o político.

Tal abertura e integração – ou a sua mitigação, ou fechamento – e respectivas consequências deviam ser sério objecto de debate sério, informado/conhecedor, e deliberação consequente.
Evidentemente, Daniel Bessa esteve longe de ser original - há vários anos que muitos já o tinham afirmado - e tem todo o direito e legitimidade para sustentar o modelo de globalização que preconiza. Não pode, porém, seja qual for o modelo, passar sem o devido escrutínio - como se de um dado da natura se tratasse.

Francisco Assis, numa intervenção de puro bom senso democrático, colocou as coisas em su sítio.


sábado, 29 de junho de 2013

Barroso e a 'reacção' (II)


Cultura Mainstream. Como nacen los fenomenos de masas (Mainstream)



No texto de Augusto M. Seabra, publicado no post precedente, falava-se na MPAA e no seu poder. Eis o retrato dela elaborado por Frédéric Martel:



Em Seul como no Rio de Janeiro, em Mumbai como em Tóquio, no Cairo como em Beijing a Motion Picture Association (MPA no estrangeiro, pois a MPAA perde o seu segundo A para não parecer tão americana) vela pelos interesses de Hollywood. Em todas as cidades, visitei os seus representantes, soldados abnegados e, com frequência, bons conhecedores do terreno local. Este importante lobby profissional dos estúdios nasceu em 1922, em tempos do cinema mudo, por iniciativa de Louis Mayer (o da Metro-Goldwyn-Mayer). Na actualidade, a MPAA é dirigida por um Conselho de Administração composto por três representantes de cada um dos estúdios principais (Disney, Sony-Columbia, Universal, Warner Bros, Paramount e 20th Century Fox). O Presidente «Executivo» desta poderosa organização coordena o trabalho de lobby dirigido ao Congresso norte-americano e ocupa-se das regulações públicas; segue as negociações mais delicadas com os sindicatos de Hollywood e planifica uma estratégia de conquista mundial. O lobby actua na sombra no estrangeiro e à luz do dia no seu próprio país.

A proximidade entre este organismo sem afã de lucro, oficialmente independente, e o poder político norte-americano é um segredo de polichinelo. (…)

Jack Valenti [até há poucos anos, líder da MPAA] é um homem que sabe o que quer. Na década de 1980, para aumentar a sua influência, oferece uma sala de cinema no interior da Casa Branca a Ronald Reagan. Os estúdios de Hollywood contribuem (…) para que (…) a sala seja state of the art (ultramoderna). Também criam um sistema VIP: os filmes que o Presidente pede, com frequência antes da estreia, são-lhe enviados imediatamente desde Hollywood num avião especial e em versão 35mm. O Presidente Reagan e todos os seus sucessores passarão muitas vigílias nesta sala, fazendo com que lhes sirvam cachorros quentes e pipocas, como em um verdadeiro multicine.

Quando este trabalho de lobby em Washington não é suficiente, Valenti recorre ao às que guarda na manga: Lós Angeles e o seu poder de fundraising (angariação de fundos). (…) O que Valenti não diz é que foi um dos fundraisers políticos mais importantes nos Estados Unidos. A título pessoal, ou em nome dos patrões de Hollywood, organizou numerosas colectas para financiar campanhas eleitorais de candidatos, tanto democratas como republicanos, que se mostravam favoráveis à indústria do cinema. Aí reside o segredo do poder que tem o lobby da MPAA nos Estados Unidos.

À escala internacional, este braço político dos estúdios também se apoia no Congresso para favorecer a exportação das películas de Hollywood e, com a ajuda do Departamento de Estado e das embaixadas norte-americanas, pressiona os governos para que liberalizem os mercados, suprimam as quotas e taxas, e suavizem a censura. Com isso e com uma dezena de despachos e uma centena de advogados em todo o mundo, a MPAA fomenta no estrangeiro determinadas práticas anti-concorrenciais e concentrações verticais que, no território norte-americano, são proibidas pelo Supremo Tribunal. (…)

A MPAA inventou um sistema anti-concorrencial destinado, em segredo, a permitir que os seis principais estúdios se coloquem de acordo sobre as datas de estreia nacional e internacional dos filmes mais mainstream. Se dois blockbusters correm o perigo de competir entre eles por se estrearem na mesma data, programa-se uma reunião de conciliação e uma das estreias adia-se. Estas «ententes» organizam-se sob os auspícios da MPAA. Jack Valenti assegura-me que estas práticas nunca existiram. (…)

Desde princípios de 1990 que as indústrias do entertainment ocupam a segunda posição nas exportações norte-americanas, atrás da indústria aeroespacial. Como o mercado do cinema está estancado nos EUA e os custos de produção aumentam, os estúdios vêem-se obrigados a adoptar uma estratégia comercial planetária. Neste aspecto, Glickman pode sentir-se optimista, já que o box office internacional de Hollywood está a aumentar consideravelmente (aumentou 17% entre 1994 e 2008). Glickman sabe, além disso, que esse mercado global é extraordinariamente heterogéneo: Hollywood difunde os seus filmes em 105 países aproximadamente, mas, no que se refere aos lucros, conta essencialmente com oito: Japão, Alemanha, Reino Unido, Espanha, França, Austrália, Itália e México (por ordem de importância, em média, sem contar com o Canadá). Estes países representam, por si só, 70-75% da bilheteira internacional de Hollywood. (…)

Aos monopólios, ontem bem regulados nos EUA, hoje já não se lhes coloca o freio; com Reagan, autorizou-se os estúdios a comprar redes televisivas e inclusivamente – algo que o Supremo Tribunal tinha proibido desde 1948 – a possuir salas de cinema. (…)

Quando o México tentou aplicar umas quotas de mercado para proteger a sua indústria [cinematográfica], Steve Solot [o homem forte da MPAA no Brasil e para a América Latina] instalou-se na Cidade do México para coordenar uma estratégia de contra-ataque. Com o apoio em Washington de Jack Valenti e do Congresso norte-americano, a MPA conseguiu fazer fracassar o projecto de lei mexicano e anular essas quotas de mercado. «Os norte-americanos foram muito hábeis. Realizaram uma dupla ofensiva: primeiro face ao Governo mexicano, em nome da TLCAN, o Tratado de Comércio Livre da América do Norte e, a seguir, fazendo lobby no terreno com os donos das salas, como eu, para nos mobilizarmos contra as quotas. Os mexicanos gostam dos blockbusters norte-americanos, é um facto. Com as quotas, teria baixado o nosso volume de negócio. Por isso, lutamos contra as quotas», explica-me o mexicano Alejandro Ramírez Magaña, director geral da importante rede de salas Cinépolis, que entrevistei no México. (…)

Como presidente da MPA para a América Latina [durante muitos anos], [Harry Stone] convidava para grandes recepções os banqueiros, o jet set, os homens de negócios, as famílias da boa sociedade, mas também os militares da ditadura, dando festas num ambiente um pouco viscontiniano. (…)

As leis que protegem a livre concorrência nos Estados Unidos não se aplicam na América do Sul. Alberto Flaksman [da agência governamental para a promoção do cinema brasileiro] suspira: “E frente a esta formidável máquina de guerra, nós, os sul-americanos, estamos muito divididos. Não temos nenhuma rede de distribuição comum. E nem sequer um cinema ‘latino’ para defender”. (…)

[Diz] Jaime Campos Vásquez [que trabalha para a MPA na luta contra a pirataria]: “Aqui no México, saiba que o cinema deve muito aos norte-americanos. Há uns quinze anos, já não havia salas, não havia filmes. Hoje, constrói-se um multicine a cada dia e há o dobro de salas no México do que no Brasil, sendo a população metade [da brasileira]. Tudo isso, graças aos blockbusters de Hollywood, que permitem que o cinema volte a ser rentável e que o público regresse às salas. E os norte-americanos fomentam e financiam também a produção local. Formam os cineastas hispanos nas suas universidades e dão-lhes uma oportunidade em Los Angeles. Hoje, o cinema mexicano renasceu” (Hollywood tem 90% da bilheteira no México; o cinema mexicano, menos de 5%). (…)

Pensando bem, em Hollywood produziu-se uma mudança de estratégia sem precedentes: depois de, durante décadas, ter feito todos os possíveis para expandir o cinema norte-americano no mundo inteiro e por todos os meios, a MPAA passou, bruscamente, da promoção à repressão, da cultura à polícia. Importa referir que a falsificação de videocassetes e de DVD é uma verdadeira indústria na Ásia (90% do mercado na China, 79% na Tailândia, 54% em Taiwan, 29% na Índia, segundo a MPAA), em África, no Médio Oriente, na América Latina (61% do mercado no México) e na Rússia (79% do mercado). A MPAA estima, hoje, que Hollywood perca 6100 milhões de dólares por ano por culpa da pirataria (…) A MPAA converteu, portanto, a luta contra a pirataria na sua prioridade mundial; trata-se de uma nova estratégia que rompeu velhos equilíbrios e provocou uma mudança de alianças. Actualmente, a MPAA alia-se aos governos francês e alemão, que até agora eram renitentes a colaborar com ela e preferiam defender as suas cinematografias nacionais. Por outro lado, cada vez é maior a incompreensão com os países emergentes e os países do terceiro mundo, que se negam a sancionar a pirataria por razões económicas, ou políticas.

 


[Frédéric Martel, Cultura mainstream, Cómo nacen los fenómenos de masas, tradução para o castelhano de Núria Petit, Santillana, Madrid, Espanha, 2012, p.27-39; tradução nossa do espanhol para português]



Barroso e a 'reacção'






Barroso e a excepção cultural

Página 38, Y, 21/06/2013

AUGUSTO M. SEABRA


Que faz a Comissão Europeia? Avança e recua, mais recua do que avança. Durão Barroso e o comissário para o Comércio, o belga Karel de Gucht, senhor que insiste, por meias palavras, em manter a excepção na agenda negocial com os Estados Unidos.
Quando em Fevereiro passado, no discurso do Estado da União, Barack Obama apresentou a proposta de uma zona de comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia, de uma parceria Transatlântica para o comércio e o investimento entre os U.S e a U.E, houve reacções de euforia, bem características aliás da “novilíngua” do “economês” dominante.
O incremento do comércio livre, para mais nesta escala, abre a possibilidade de um aumento de escolha, facto assaz positivo se devidamente regulado. A perspectiva do acordo permitia criar em 2015 a mais vasta zona de comércio livre do mundo, representando um terço do comércio internacional e metade do PIB mundial.
Todavia, desde logo, havia e há outros factores a ter em conta. Do lado europeu, uma tal negociação foi encarada como uma janela de oportunidade, que é também muito uma fuga para a frente. Mergulhada na mais grave crise da sua História, a UE não apenas via abrir-se novas e importantes perspectivas, como era reconfortada no tocante à parceria transatlântica: se durante o primeiro mandato de Obama os EU tinham privilegiado o Pacifico, inclusive no novo Conceito Estratégico de Defesa, eis que afinal olhavam também para a Europa – ouviu-se um imenso suspiro de alívio em Bruxelas. Contudo, desde logo, havia fortes motivos de prudência, facto que o discurso eufórico das projecções econométricas escamoteou.
“Não quero parecer céptico, mas isto vai exigir muito trabalho e as duas partes terão de provar uma enorme vontade politica”, avisou Robert Zoellick, anteriormente negociador da administração Bush para as questões comerciais e ex-presidente do Banco Mundial. Para haver livre comércio é necessária uma equidade das condições de concorrência. Ora, entre vários outros factores, era sabido que os dois parceiros têm importantes divergências de principio, mormente no tocante ao cinema, audiovisual e cultura, à propriedade intelectual em geral, e às industrias agro-alimentares, em particular a questão dos OGM, os organismos geneticamente modificados, questão das maiores cautelas para os europeus, enquanto do lado americano há, e com apoio oficioso, um poderoso lobby de empresas como a sinistra Monsanto.
Mais, bastava atentar a dois processos negociais: as negociações entre a UE e o Mercosul, agrupando os países da área austral das Américas, está há anos num impasse, e sobretudo havia o precedente do “Uruguay Round”. Esta negociação no âmbito do então GATT, acordo geral do comércio e tarifas, iniciou-se em 1982, e era suposta terminar em 1990. Todavia, o desacordo entre os EU e a então Comunidade Económica Europeia, sobretudo no respeitante aos apoios à agricultura e à “excepção cultural”, fez os trabalhos prolongarem-se até 1994. Particularmente relevante foi o confronto entre o lobby da poderosa MPPA, Motion Pictures Producers Association, e os europeus, defendendo a “excepção cultural”, que finalmente acabaria por ser considerada no Tratado de Marraquexe, criando a Organização Mundial do Comércio. Mas afinal o que é isso de “excepção cultural”? Uma leitura caricata faz que seja desconsiderada uma espécie de “excepção francesa” alargada, o que, de resto, por méritos e deméritos tem alguma base: o chauvinismo francês mantem-se insistente no sonho de glorias de potência passadas, sendo certo também que aquele pais foi o que mais arduamente pugnou pela excepção cultural. Supõe isto, em termos básicos, que os bens culturais não são meras mercadorias como as outras, e há critérios de apoio e de diversidade – esta de resto consagrada também na Convenção da UNESCO sobre Diversidade Cultural – que urge preservar.
Não espanta assim, face à imensa importância económica e simbólica das indústrias cinematográficas e audiovisuais americanas, que esta questão tenha, desde logo, sido a que suscitou mais imediata mobilização na Europa. Em Maio, por iniciativa francesa, 14 países europeus, entre os quais Portugal, mas também o que pode parecer mais surpreendente, a própria Alemanha fizeram uma declaração conjunta de defesa de excepção cultural, e a exigência que essa fosse incluída na agenda negocial foi votado por lada maioria pelo Parlamento Europeu. Facto a notar ainda é que, se Angela Merkel é, com David Cameron, a principal defensora de uma agenda sem condições prévias, face à ameaça de voto de François Hollande, também o Bundesrat, a camara alta do parlamento alemão, onde estão representados os estados federados, os Lander, votou a favor da excepção e diversidade, o que é relevante por advir, não tanto do facto dos cristãos-democratas de Merkel aí estarem em minoria (e de qualquer maneira grande parte do PPE, a principal federação de direita, é também favorável à excepção), mas, sobretudo, porque os apoios ao cinema sempre foram da competência dos Lander, e não do Estado federal.
E ainda em Maio houve um “golpe de teatro” em Cannes, aliás duplo: o produtor Harvey Weinstein primeiro e depois do próprio Steven Spielberg, presidente do Júri, fizeram a defesa da excepção cultural, o segundo na ribalta da cerimónia do encerramento.
Por iniciativa dos irmãos Dardenne, dezenas e dezenas de cineastas europeus (mas não só, há também outros como a neozelandesa Jane Campion, o brasileiro Walter Salles ou o americano David Lynch) lançaram uma petição pública em defesa da inegociabilidade da excepção cultural. 
Ora, entretanto, que faz a Comissão Europeia? Avança e recua, mais recua do que avança. Durão Barroso e o “espantoso” comissário para o Comércio, o belga Karel de Gucht, senhor de um curriculum bastante controverso e nada recomendável para o cargo (mas com eurocratas como estes dois, ou o aterrador Olli Rehn, temos um espelho da governança europeia), insistem por meias palavras em manter a questão na agenda negocial.
Na terça-feira da semana passada, uma delegação de cineastas foi por ele recebida. Há um misunderstanding, um mal-entendido disse Barroso: “A excepção cultural não é negociável mas seria um erro excluir à partida o audiovisual” – mais dúbio que isto é difícil. E que disseram de Barroso os integrantes da Delegação? Que é um “homem perigoso” (Costa-Cravas) ou que é difícil acreditar que esteja de “boa-fé” (Lucas Belvaux). O mais cáustico foi o realizador romeno RADU Mihailenu: “Ele (Barroso) quer deixar a Comissão mostrando a sua boa vontade com os Estados unidos. Deve ter aspirações ao posto de Secretario Geral da ONU, como toda gente sabe.
A decisão tomada no final da semana, de resto após intensas pressões de Obama nas videoconferências de preparação da Cimeira do G8 esta semana, é o requinte de “europês”: o sector audiovisual e a excepção cultural ficaram de fora desta primeira ronda negocial mas podiam vir à discussão negocial do futuro.
Independentemente do que entretanto em concreto tenha ocorrido no G8, a excepção cultural, não apenas a europeia mas global, é um princípio decisivo, que urge defender não só contra os lobbies americanos (hoje até mais os gigantes da internet que Hollywood) mas em confronto também com as burocracias eurocráticas.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Chaves de leitura (conclusão)



Simone WEIL, Reflexões sobre o bom uso dos estudos escolares em vista do Amor a Deus, in Espera de Deus, col. Teofanias, Assírio & Alvim, Lisboa 2005.

 
 
Felizes pois os que passam a sua adolescência e a sua juventude a formar unicamente este poder de atenção. Sem dúvida que não estão mais próximos do bem que os seus irmãos que trabalham nos campos e nas fábricas. Estão próximos de outra forma. Os campone­ses, os operários possuem essa proximidade de Deus, de sabor incomparável, que jaz no fundo da pobreza, da ausência de consideração social e dos sofrimentos prolongados e lentos. Mas, se considerar­mos as ocupações nelas mesmas, os estudos estão mais próximos de Deus por causa desta atenção que é a sua alma. Aquele que atraves­sou os anos de estudo sem desenvolver em si esta atenção perdeu um grande tesouro.

Não é apenas o amor a Deus que tem por substância a aten­ção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção. A capa­cidade de prestar atenção a um infeliz é coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre; é um milagre. Quase todos os que crêem ter esta capacidade não a têm. O calor, o ímpeto do coração, a pie­dade não são suficientes.

Na primeira lenda do Graal, diz-se que o Graal, pedra mira­culosa que por virtude da hóstia consagrada sacia toda a fome, pertence a quem primeiramente disser ao guardião da pedra, rei paralisado em três quartos pela mais dolorosa ferida: “Qual é o teu tormento?”

A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz exis­te, não como unidade numa colecção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exac­tamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar.

Este olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção.

Assim, é verdade, ainda que de modo paradoxal, que um exercício de latim, um problema de geometria, mesmo que falhados, somente desde que lhe tenhamos dedicado a espécie de esforço conveniente, podem tornar-nos, um dia, mais capazes, se a ocasião se apresentar, de levar a um infeliz, no instante da sua suprema angús­tia, exactamente o socorro susceptível de o salvar.

Para um adolescente capaz de apreender esta verdade, e suficien­temente generoso para desejar este fruto de preferência a qualquer outro, os estudos alcançarão a plenitude da sua eficácia espiritual mesmo fora de toda a crença religiosa.

Os estudos escolares são um desses campos que encerram uma pérola pela qual vale a pena vender todos os bens, sem nada guar­dar para si, a fim de a poder comprar.

 

 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Brasil saiu à rua (IV)




1-Em Portugal, foi, sobretudo, à esquerda que se intentaram leituras mais detidas do que se está a passar no Brasil: Manuel Loff, Boaventura Sousa Santos e Elísio Estanque, escreveram, detida e consecutivamente, sobre o assunto, no Público. Não faltou sequer, na explanação do primeiro dos referidos autores, o conhecido jargão da “traição da social-democracia” (desta vez, pelos vistos, pelo próprio PT, com as políticas seguidas).

2- Foi, neste contexto, também dito que, por cá, muita gente havia sido apanhada desprevenida, porque não acompanha as dinâmicas sociais mais profundas do Brasil e que as oligarquias continuavam a ser protegidas pelo governo Dilma.
O espanto, porém, não se ficou por qualquer grupo ideológico português: “Dilma, perplexa, assistia a tudo na televisão do seu gabinete (…) O PT assistiu, pasmo e impotente” (p.68/69, Veja).

3- Não parece, com efeito, que estes movimentos sociais sejam facilmente previstos. Além dos motivos já aqui evocados que levaram muita gente à rua, é possível detectar, p.ex., nos mais de 100 depoimentos recolhidos pela Veja um leque de adesões aos protestos que não são apenas variados; eles remetem, em muitos casos, para dimensões que não tem que ver com o requerer de medidas concretas, mas com o participar “para construir um novo Brasil”, pela “emoção” de estar a fazer história, de se juntar ao conjunto de compatriotas, para perceber o que se está a passar.
Paulo Morais, em espaço de opinião na RR, retirava como principal conclusão do que se passara nestes dias brasileiros que o povo irmão já não se contentava apenas com o futebol. É certo, mas como explicação estrutural é muito curto e, a julgar pela sondagem da Abril, a questão da Copa nem é a petição que esteja entre as quatro grandes problemáticas que preocupam os inquiridos.

4- É muito interessante perceber, prosseguindo com o guião jornalístico aqui especialmente selecionado, quais foram as imediatas reacções de Dilma Rousseff ao que lhe estava a suceder: perguntou ao general José Elito, chefe de Gabinete de Segurança Institucional, “como é que a Abin [órgão central do Serviço de Inteligência Brasileiro] não percebeu nada disso?” e fez dois telefonemas – um para Lula da Silva e outro para o homem do marketing, João Santana: “Como é que as suas pesquisas nunca pegaram isso, João?”.
As figuras selecionadas para interlocutores primeiros, por Dilma Rousseff, dão-nos um retrato curioso da presidenta. Ela que, no entanto, recusou sugestões de colocar os militares na rua para reagir aos protestos, considerando uma solução de tipo conservador.

5- Faltou, entretanto, referir, aqui, o que significa o PEC 37. Tratava-se – o tempo verbal está no passo, porque parece ter sido metido na gaveta – de legislação que pretendia limitar o poder de investigação do Ministério Público (brasileiro), o que, face ao papel deste nos conhecidos escândalos políticos, em Brasília, nos anos mais recentes, surgia como pacote legislativo explosivo, as actuais circunstâncias.

6- Se o marqueteiro, com os seus estudos de opinião, não lobrigou a tensão que aí vinha – nem muitos dos manifestantes que foram à rua provavelmente saberiam, dias antes, que ali estariam em protesto -, a verdade, conta a revista de informação, é que tais inquéritos revelavam, já que “nos últimos anos, a vida do brasileiro médio melhorou ‘da porta para dentro’, com o aumento do emprego, da renda e do consumo. Mas piorou, significativamente, ‘da porta para fora’, com o crescimento da criminalidade, o piorar do trânsito e do transporte público”(p.71).
Que a atenção mediática que, durante anos, e, muitas vezes, quase em exclusivo se centrasse no ‘factor criminalidade’ quando se falava no Brasil e, hoje, quando esta aumenta, poucas notícias tenhamos dela – ou, no mínimo, em muito menor escala do que há alguns anos – é bem reveladora de como os preconceitos, os pré-juízos tendem, em demasiadas ocasiões, a superar os factos: os grandes dados macro-económicos (o crescimento, em média, de 4%/ano, durante os governos Lula da Silva), a efectiva larga redução da miséria (em cerca de 20 milhões de pessoas), acaba por obliterar realidades – como a criminalidade – que, mau grado a performance económica, aí estão.
Durante estes dias falou-se da criminalidade, ou do trânsito caótico, como leitmotiv da ‘revolta’? Outro dado incontornável, esse muito mais referido, a inflação.

7- Insistamos na dificuldade de uma completa bem sucedida hermenêutica deste – como de outros – movimentos sociais.
O Movimento Passe Livre, que iniciou os protestos em São Paulo, já saiu de cena, “seguindo a lei histórica segundo a qual as revoluções raramente são concluídas pelos que as iniciam” (p.71). E, noutro plano, “a história mostra que os grandes espasmos populares espontâneos nem sempre prenunciam mudanças políticas da mesma coloração e envergadura. O famoso Maio de 68 na França culminou com a eleição de um presidente conservador, Georges Pompidou. No mesmo fim de década, o movimento pacifista americano “flower power” conquistou corações e mentes de milhões, mas quem foi eleito presidente foi o candidato de direita Richard Nixon” (p.71).

8- Outras correlações intuitivas levam, não raramente, a afirmar-se uma associação entre ‘protesto social’ e grande retrocesso (social). Se manifestações ocorrem em tais períodos; se, mesmo no Brasil actual a inflação e o desaceleramento económico geram angústias, porém o professor de Sociologia da Universidade de Brown, Gianpaolo Baiocchi, lembra na mais recente edição da Veja que “grandes explosões sociais vêm quando a situação é de progresso, não quando há falta de avanços sociais (…) Quando os índices sociais melhoram, a população fica mais exigente. E muitas vezes as demandas são maiores do que as respostas alcançadas, como no caso dos brasileiros”.

9- No Brasil, volta a falar-se na hipótese de Luiz Inácio Lula da Silva se candidatar à Presidência, algo que o próprio rejeita firmemente e parece, hoje por hoje, uma hipótese remota.

10- Regressando aos anos que, em Portugal, precederam 2004, é possível lermos, que “havia a promessa de que os estádios seriam construídos pela iniciativa privada (…) [mas] é ingenuidade e raciocínio extremamente simplista, porém, acreditar que o dinheiro público investido na Copa pudesse ser destinado à construção de hospitais e escolas. São verbas novas, não existe essa troca automática” (p.80).
Olhando para manifestações, no nosso país, nos últimos meses/anos, vemos outra semelhança com o caso brasileiro: leitores há que exibem o seu desconforto por uma multidão tão heterogénea não permitir uma leitura unívoca – ao nível ideológico, partidário, de reivindicações – das manifestações.

11- Em realidade, acreditando na descrição jornalística, “o que as ruas brasileiras abrigaram na semana passada foram multidões de libertários independentes não ideológicos cansados de corrupção e descaso” (p.67).

12- Além da Copa, estão à porta os Jogos Olímpicos, também no Brasil. Espanta, realmente, que depois das experiências de campeonatos europeus, mundiais, jogos olímpicos que foram desastrosos para um conjunto de economias – o dossier que, há já uns bons anos, por exemplo, o Courrier International, dedicou ao estado das finanças gregas e das estruturas sobrantes e ao abandono dos Jogos de Atenas; e que referi, em artigo no Comércio do Porto, rejeitando, na cidadania, a proposta, recorde-se, de Fernando Seara, há uma meia-dúzia de anos, para uns Jogos Olímpicos em Lisboa – o Brasil tenha alinhado em tal novo-riquismo.

13- Também, e ao contrário do que prometiam os organizadores brasileiros do próximo Mundial – até em visitas em Portugal, para aprender com a experiência do Euro 2004, nas suas virtudes e defeitos -, é possível, agora, constatar, em vários lados, que também no Brasil vão sobrar elefantes brancos – estádios que de pouco, ou nada, servirão no pós-Copa do Mundo.

14- Não faltou, ainda, nos depoimentos registados pela Veja quem dissesse que o Governo brasileiro julgava que a Bolsa Família chegava para calar os cidadãos. Já esta semana, Miguel Sousa Tavares escreveu que “o Bolsa Família foi inspirado no RSI de José Sócrates”.
O rendimento mínimo foi introduzido, em Portugal, por António Guterres. A nomenclatura e regras de acesso à prestação alterada pelo Governo Barroso, com Bagão Félix. Novas alterações surgiram com o RSI, nos mandatos de José Sócrates, as últimas das quais, a contragosto ou não, pouco compatíveis com o que o PS sempre defendera sobre a matéria. Qual “o RSI de José Sócrates” é, por isso, mistério por desvendar.

15- Donos de empresas de “ônibus”, no Brasil, financiam campanhas partidárias (“de todos os partidos”). (p.86)

16- De entre os manifestantes nos protestos que ocorreram, até agora, no Brasil, “os arruaceiros representam uma parcela ínfima (…) [dos que] tomaram as ruas na semana passada – 1,3% em Brasília, 0,3% em São Paulo e 0,08% no Rio de Janeiro” (p.89).

17- Fortemente opinativas, o conjunto de peças/reportagens assinadas pela Veja, onde não falta, em algumas ocasiões, o tom corrosivo – em todos os casos, assertivo – e ao PT chega a recordar-se Koestler.


[a partir dos textos acerca d’Os sete dias que mudaram o Brasil, na Veja, de Otávio Cabral, Júlia Carvalho, Pieter Zalis, Robson Bonin, Alexandre Salvador, Cauê Marques, Natália Luz, Renata Lucchesi, Marcelo Sakate, Bianca Alvarenga, Alexandre Aragão, Hugo Marques, Leonardo Coutinho, Leslie Leitão, Bela Megale, Carolina Rangel].

P.S: Fernando Henrique Cardoso disse hoje, em alusão a palavras ambíguas da presidente brasileira, que plebiscitar a Constituição “é mais próprio de regimes autoritários”. O ex-presidente brasileiro acaba de lançar um ensaio – ou conjunto de ensaios - intitulado Pensadores que inventaram o Brasil, acerca de autores brasileiros que na sua reflexão acerca do Brasil mais o influenciaram (p.129).

The Economist escreveu que “os protestos são um sinal de que eles (os brasileiros que saíram da pobreza) estão acordando para o facto de que pagam impostos e merecem serviços públicos decentes, e não apenas estádios” (p.57)




quarta-feira, 26 de junho de 2013

O Brasil saiu à rua (III)






Sendo que entre as principais reivindicações pode não estar, apesar do que fomos vendo nas TV’s, a questão do preço das viagens de autocarro – esse poderá ter sido, apenas, o rastilho que levou à explosão social; também pode ocorrer que, na sondagem da Veja, o perfil sociológico dos entrevistados faça subvalorizar, no conjunto das reivindicações, o preço do “ônibus” -, essa não deixa de ser uma questão destacada na revista de informação – situada, no espectro ideológico, no centro-direita – que, um pouco na linha dos alertas iniciais do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, questionou o que deixa de se poder fazer com a receita que adviria do aumento dos transportes, sendo que o recuo nessa medida implicará mexidas noutros sectores.

É, então, recordado, que a perda da recita com a tarifa congelada em 3 reais até 2016 representa, ao todo, 2,7 biliões de reais, o que daria para construir 200 000 casas populares, contratar e pagar 20 000 médicos, ampliar em 10% o investimento anual na cidade



O Brasil saiu à rua (II)


Emblema Oficial
Recorrendo à infografia da Veja, pode, igualmente, recolher-se a informação sobre os gastos previstos para o Campeonato do Mundo de Futebol, no Brasil, no próximo ano.

A previsão em 2011, apontava para 23,8 milhões de reais e o valor actual é já de 25,5 biliões (crescimento de 7%). Isto faz da Copa do Mundo, no Brasil, o mais caro de sempre, superando os gastos com o Mundial na Alemanha, em 2006 (10,7 biliões de reais) e África do Sul, em 2010 (7,3 biliões).

Quanto às fontes de financiamento do Mundial, 21,3 biliões – ou seja, 83,5% - são dinheiro público e apenas 4,2 biliões (ou seja, 16,5%) advém da iniciativa privada.


    O Brasil saiu à rua


























    Na edição hoje nas bancas, a Veja (edição 2327, ano 46, nº26, de 26 de Junho de 2013) dedica uma ampla cobertura às grandes manifestações populares que nas últimas duas semanas têm ocorrido no Brasil – esta é mesmo uma “Edição Histórica”, da newsmagazine -, e, entre muitos outros dados extremamente pertinentes para que se compreenda o que se está a passar nas ruas brasileiras, publica uma sondagem, efectuada, nos dias 19 e 20 de Junho, pelo Departamento de Inteligência e Pesquisa de Mercado Abril que ouviu, pela internet, 9088 pessoas, em todo o Brasil, “para entender a motivação das imensas manifestações”. Devendo realçar-se a prevalência das classes A e B (84%) entre aqueles que responderam ao inquérito de opinião e, bem assim, atender-se ao facto de os inquiridos possuírem uma escolaridade elevada (“Superior completo até doutorado”, 61%), os resultados obtidos mostram que as principais bandeiras esgrimidas são:

    Corrupção: 53%

    Não à PEC 37: 49%

    Melhoria na Educação: 45%

    Melhoria do sistema de ensino: 38%

    Prisão para os políticos envolvidos em corrupção: 28%

    Contra os gastos do Campeonato do Mundo de Futebol: 23%


    De destacar, ainda, que entre os inquiridos, 100% manifestaram intenção de voltar às ruas e entre os que responderam e não tinham estado nas manifestações 99% são a favor dos protestos.


    Chaves de leitura (II)


    Simone WEIL, Reflexões sobre o bom uso dos estudos escolares em vista do Amor a Deus, in Espera de Deus, col. Teofanias, Assírio & Alvim, Lisboa 2005.


     
    Se estas duas condições se encontram perfeitamente bem preen­chidas, os estudos escolares são, sem dúvida, um caminho para a santidade tão bom como qualquer outro.

    Para preencher a segunda basta querê-lo. Não é o mesmo com a primeira. Para prestar realmente atenção, é necessário saber como consegui-lo.

    O mais das vezes, confunde-se a atenção com uma espécie de esforço muscular. Se dissermos a alunos: “Agora ides prestar aten­ção”, vemo-los franzir os sobrolhos, reter a respiração, contrair os músculos. Se dois minutos mais tarde lhes perguntamos a que prestaram atenção, eles não conseguem responder. Não prestaram aten­ção a nada. Não prestaram atenção. Contraíram os músculos.

    Aplicamos muitas vezes este tipo de esforço muscular aos estu­dos. Como isso acaba por fatigar, tem-se a impressão de que se tra­balhou. É uma ilusão. A fadiga não tem qualquer relação com o trabalho. O trabalho é o esforço útil, seja fatigante ou não. Esta espécie de esforço muscular nos estudos é completamente estéril, mesmo se realizada com boa intenção. Esta boa intenção é ainda das que enchem o inferno. Os estudos assim conduzidos podem, por vezes, ser escolarmente bons, do ponto de vista das notas e exames, mas é a despeito do esforço e graças aos dons naturais; e tais estudos são sempre inúteis.

    A vontade, que em caso de necessidade faz cerrar os dentes e suportar o sofrimento, é a arma principal do aprendiz no trabalho manual. Mas, contrariamente ao que habitualmente se crê, ela não tem quase nenhum lugar no estudo. A inteligência não pode ser produzida senão pelo desejo. Para que haja desejo é necessário que haja prazer e alegria. A inteligência não cresce e não dá frutos senão na alegria. A alegria de aprender é tão indispensável aos estudos, como a respiração aos corredores. Onde ela está ausente, não há estu­dantes, mas pobres caricaturas de aprendizes que no final da sua aprendizagem nem ofício terão.

    É o papel do desejo no estudo que permite fazer dele uma prepa­ração para a vida espiritual. Porque o desejo, orientado para Deus, é a única força capaz de fazer elevar a alma. Ou melhor, apenas Deus vem apoderar-se da alma e a eleva, mas apenas o desejo obriga Deus a descer. Ele não vem senão para os que lhe pedem que venha, e para aqueles que pedem frequente, prolongada, ardentemente, Ele não pode impedir-se de descer.

    A atenção é um esforço, o maior dos esforços talvez, mas é um esforço negativo. Por si não comporta a fadiga. Quando a fadiga se faz sentir, a atenção quase não é mais possível, a menos que se este­ja já bem exercitado; o melhor então é ceder, procurar repouso e depois, um pouco mais tarde, recomeçar; pegar e despegar como se inspira e expira.

    Vinte minutos de atenção intensa e sem fadiga valem infinita­mente mais do que três horas dessa aplicação de sobrolho franzido que faz dizer com o sentimento do dever cumprido: “trabalhei bem”. Mas, apesar das aparências, é também muito mais difícil. Há algo na nossa alma que a faz repelir a verdadeira atenção muito mais violentamente do que repugna à carne a fadiga. Esse algo está muito mais próximo do mal que a carne. É por isso que todas as vezes que prestamos verdadeiramente atenção destruímos mal em nós. Se prestamos atenção com essa intenção, um quarto de hora de atenção  vale muitas obras boas.

    A atenção consiste em suspender o pensamento, em deixá-lo disponível, vazio e permeável ao objecto, mantendo em nós mesmos, próximos do pensamento, mas a um nível inferior e sem contacto com ele, os diversos conhecimentos adquiridos que somos forçados a utilizar. O pensamento deve ser, para com todos os pensamentos particulares e já formados, como um homem que sobre uma mon­tanha, ao olhar em frente, percebe debaixo de si, mas sem as mirar, muitas florestas e planícies. E, sobretudo, o pensamento deve estar vazio, à espera, sem nada procurar, mas pronto a receber, na sua verdade nua, o objecto que o vai penetrar.

    Todos os contra-sensos nas traduções, todos os absurdos na solução de problemas de geometria, todas as atrapalhações de esti­lo e todos os defeitos de encadeamento de ideias nos trabalhos de francês, tudo isso decorre de o pensamento se ter precipitado precocemente sobre algo, e, ao preencher-se assim prematuramente, ter deixado de estar disponível para a verdade. A causa é sempre a de se ter querido ser activo, a de se ter querido procurar. Podemos verificar isto de cada vez, para cada falha, se recuarmos até à raiz. Não há melhor exercício do que esta verificação. Porque esta verdade é daquelas nas quais não podemos crer senão experimentand­o-as cem e mil vezes. É assim com todas as verdades essenciais.

    Os bens mais preciosos não devem ser procurados, mas esperados. Porque o homem não pode encontrá-los por intermédio das suas próprias forças, e se se põe à sua procura encontrará, em seu lugar, falsos bens nos quais não saberá distinguir a falsidade.

    A solução de um problema de geometria não é em si um bem precioso, mas a mesma lei também se lhe aplica, porque ela é a ima­gem de um bem precioso. Sendo um pequeno fragmento de verda­de particular, é uma imagem pura da Verdade única, eterna e viva, essa Verdade que disse um dia com uma voz humana: “Eu sou a verdade”.

    Pensado assim, todo o exercício escolar se assemelha a um sacramento. Há, para cada exercício escolar, uma maneira específica de espe­rar a verdade com desejo e sem se permitir procurá-la. Uma maneira de prestar atenção aos dados de um problema de geometria sem lhe procurar a solução, as palavras de um texto em latim ou em gre­go sem lhes procurar o sentido, de esperar, quando escrevemos, que a palavra justa venha por si própria colocar-se sob a caneta repelin­do simplesmente as palavras insuficientes.

    O primeiro dever para com os alunos e estudantes é o de lhes fazer conhecer este método, não apenas em geral, mas na forma par­ticular que se refere a cada exercício. É o dever, não só dos seus pro­fessores, mas também dos seus guias espirituais. E, mais, estes devem expor a uma luz plena, uma luz resplandecente, a analogia entre a atitude da inteligência em cada um destes exercícios e a situação da alma que, com a lâmpada bem provida de óleo, espera o seu esposo com confiança e desejo. Que cada adolescente inclinado a amar, ao fazer um exercício de latim, deseje fazer-se, por meio desse exercício, um pouco mais próximo do instante em que será verdadeiramente esse escravo que, enquanto o seu amo se encontra numa festa, vela e escuta perto da porta para a abrir logo que oiça bater. O amo instala então o escravo à mesa e serve-lhe de comer ele mesmo.

    Apenas esta espera, esta atenção pode obrigar o mestre a um tal excesso de ternura. Quando o escravo se consumiu de cansaço no campo, o mestre ao regressar diz-lhe: “Prepara o meu repasto e serve­-me”. E trata-o como escravo inútil que faz apenas o que se lhe orde­na. Bem certo que no domínio da acção é necessário fazer tudo o que é ordenado, à custa de não importa que grau de esforço, de can­saço e de sofrimento, porque aquele que desobedece não ama. Mas, depois disto, não se é mais do que um escravo inútil. É uma condi­ção do amor, mas não é suficiente. O que força o mestre a fazer-se escravo do seu escravo, a amá-lo, não é nada disso; não é, ainda me­nos, uma busca que o escravo tivesse a temeridade de empreender por sua própria iniciativa; é unicamente a vigília, a espera e a atenção.

    terça-feira, 25 de junho de 2013

    Chaves de leitura



    Simone WEIL, Reflexões sobre o bom uso dos estudos escolares em vista do Amor a Deus, in Espera de Deus, col. Teofanias, Assírio & Alvim, Lisboa 2005.

     

     

    A chave de uma concepção cristã dos estudos é a de que a oração é feita de atenção. É o orientar para Deus toda a atenção de que a alma é capaz. Da qualidade da atenção depende em muito a quali­dade da oração. O calor do coração não pode supri-la.

    Só a parte mais elevada da atenção entra em contacto com Deus, quando a oração é suficientemente intensa e pura para que um tal contacto se estabeleça; mas toda a atenção está virada para Deus. Os exercícios escolares desenvolvem, bem entendido, uma parte menos elevada da atenção. Eles são, não obstante, plenamente efi­cazes para fazer aumentar a capacidade de atenção que estará disponível no momento da oração, desde que os executemos para esse fim e para esse fim apenas.

    Se bem que hoje tal pareça ignorar-se, a formação da faculdade da atenção é o verdadeiro fim e quase o único interesse dos estudos. A maioria dos exercícios escolares tem também um certo interesse intrínseco; mas esse interesse é secundário. Todos os exercícios que fazem um verdadeiro apelo à capacidade de atenção são interessan­tes a título idêntico e de modo quase igual.

    Os alunos do liceu, os estudantes que amam Deus não deve­riam dizer nunca: “Eu amo as matemáticas”, “Eu amo o francês”, “Eu amo o grego”. Eles devem aprender a amar tudo isso, porque tudo isso faz crescer essa atenção que, orientada para Deus, é a substância mesma da oração.

    Não ter nem dom nem gosto natural pela geometria não impe­de que a investigação de um problema ou o estudo de uma demons­tração desenvolvam a atenção. É quase o contrário. É quase uma circunstância favorável.

    Mais, pouco importa que se chegue a encontrar a solução ou a perceber a demonstração, embora devamos fazer verdadeiramente um esforço por isso. Jamais, em caso algum, qualquer esforço de atenção verdadeiro se perde. Ele é sempre plenamente eficaz espiritualmente, e por conseguinte também, por acréscimo, no plano inferior da inteligência, porque toda a luz espiritual aclara a inteligência.

    Se procuramos com verdadeira atenção a solução de um proble­ma de geometria e, ao fim de uma hora, não estamos mais avança­dos do que no começo, avançamos todavia, durante cada minuto dessa hora, numa outra dimensão mais misteriosa. Sem que o sin­tamos, sem que o saibamos, este esforço aparentemente estéril e sem fruto introduziu mais luz na alma. O fruto encontrar-se-á um dia, mais tarde, na oração. Encontrar-se-á sem dúvida também, por acréscimo, num qualquer domínio da inteligência, talvez com­pletamente estranho à matemática. Possivelmente, um dia, aquele que despendeu este esforço ineficaz será capaz de apreender mais directamente, por causa deste mesmo esforço, a beleza de um verso de Racine. Mas que o fruto deste esforço se deve recuperar na oração, isso é certo, não oferece a menor dúvida.

    As certezas desta espécie são experimentais. Mas se nelas não acreditamos antes de as ter experimentado, se pelo menos não nos conduzimos como se nelas acreditássemos, não faremos nunca a experiência que dá acesso a tais certezas. Há aí uma espécie de contradição. É assim, a partir de um certo nível, com todos os conhe­cimentos úteis ao progresso espiritual. Se não os adoptamos como regra de conduta antes de os ter verificado, se não lhes permanece­mos ligados por tempo prolongado apenas pela fé, uma fé primei­ramente sombria, sem luz, não os transformaremos jamais em cer­tezas. A fé é a condição indispensável.

    O melhor suporte da Fé é a garantia de que se pedimos pão ao nosso Pai, ele não oferece pedras. Mesmo fora de toda a crença reli­giosa explícita, sempre que um ser humano realiza um esforço de atenção com o único desejo de se fazer mais apto a apreender a verdade, ele adquire esta aptidão maior, ainda que o seu esforço não tenha produzido qualquer fruto visível. Um conto esquimó explica assim a origem da luz: “o corvo que na noite eterna não podia encontrar alimento desejou a luz, e a terra iluminou-se”. Se há ver­dadeiramente desejo, se o objecto do desejo é verdadeiramente a luz, o desejo de luz produz a luz. Há verdadeiramente desejo quan­do há esforço de atenção. É verdadeiramente a luz que se deseja se está ausente qualquer outro móbil. Mesmo quando os esforços de atenção permanecem aparentemente estéreis durante anos, um dia uma luz exactamente proporcional a esses esforços inundará a alma. Cada esforço acrescenta um pouco de ouro a um tesouro que nada no mundo pode saquear. Os esforços inúteis empreendidos pelo cura d'Ars, durante longos e dolorosos anos, para aprender latim, deram todos os seus frutos no discernimento maravilhoso pelo qual ele distinguia a própria alma dos penitentes por detrás das suas palavras e mesmo por detrás do seu silêncio.

    É necessário, portanto, estudar sem qualquer desejo de obter as notas, de ter sucesso nos exames, de obter qualquer resultado escolar, sem nenhuma consideração por gostos ou aptidões natu­rais, com idêntica aplicação a todos os exercícios, com o pensa­mento de que eles servem todos para formar essa atenção que é a substância da oração. No momento em que nos aplicamos a um exercício, é necessário querer empreendê-lo correctamente; porque esta vontade é indispensável para que haja realmente esforço. Mas, através deste fim imediato, a intenção profunda deve dirigir-se unicamente para o acréscimo do poder de atenção em vista da oração, como quando escrevemos desenhamos a forma das letras no papel, não em vista dessa forma, mas em vista da ideia a exprimir.

    Pôr nos estudos esta única intenção, com exclusão de qualquer outra, é a primeira condição do seu bom uso espiritual. A segunda condição é a de nos obrigarmos rigorosamente a olhar de frente, a contemplar com atenção, durante muito tempo, cada exercício esco­lar falhado, em toda a torpeza da sua mediocridade, sem procurar nenhuma desculpa, sem negligenciar nenhuma falha nem correcção do professor, procurando recuar a origem de cada falha. É grande a tentação de fazer o contrário, de passar por um exercício corrigido, se ele está errado, um olhar oblíquo, e escondê-lo imediatamente. Quase todos fazem quase sempre assim. É necessário recusar esta tentação. Acidentalmente, e em acréscimo, nada é mais necessário ao bom sucesso escolar, porque se trabalha sem muito progredir, faça-se o esforço que se fizer, quando nos repugna conceder a nossa aten­ção aos erros cometidos e às correcções dos professores.

    Sobretudo, a virtude da humildade, tesouro infinitamente mais precioso do que todo o progresso escolar, pode ser adquirida desta forma. A este respeito a contemplação da estupidez própria é talvez mesmo mais útil que a do pecado. A consciência do pecado dá a ideia de que se é mau e um certo orgulho leva aí, por vezes, a melhor. Quando nos obrigamos violentamente a fixar o olhar dos olhos e da alma sobre um exercício escolar estupidamente errado, sentimos com uma clarividência irresistível que somos algo de medíocre. Não há conhecimento mais desejável. Se chegamos a conhecer esta ver­dade com toda a alma, estamos solidamente estabelecidos na ver­dadeira via.  

    Se estas duas condições se encontram perfeitamente bem preen­chidas, os estudos escolares são, sem dúvida, um caminho para a santidade tão bom como qualquer outro.