terça-feira, 30 de abril de 2013

Um dos grandes textos sobre a crise


Há dois topos de A condição humana, de Hannah Arendt, que mais me tocam e a que, a cada passo, regresso: por um lado, a relação entre os cristãos - e, nomeadamente, os primitivos cristãos - e a política (uma leitura que reforço, não raramente, com A agonia do cristianismo, de M. Unamuno). Uma tensão que creio nunca totalmente resolvida. O outro ponto cujo teor me convoca em permanência, nesta obra de Arendt, é aquele que tem a ver com a dimensão especulativa - outrora tão valorizada - e sua relação com a vida activa, a do trabalho. Porque vivemos no tempo e espaço em que vivemos, falta, por vezes, capacidade/vontade/imaginação para perscrutar um modo diferente de nos situarmos no mundo. O texto de José Tolentino de Mendonça, no último Sábado, no Expresso, com uma extraordinária luminosidade acerca do essencial do legado de Arendt, a este propósito, é, claramente, um dos melhores que pude ler sobre a crise de que não saimos (e devo dizer, inclusivamente, que na entrevista que li, e aqui sublinhei, de Bergoglio, a parte relativa ao tema/mundo do "trabalho", com que se inicia a conversa com os seus dois interlocutores, ganhava se tivesse em conta a perspectiva que Tolentino com tanta felicidade expõe):
 
 
 
 
 
Uma sociedade de trabalhadores sem trabalho
 
 
Hannah Arendt explica bem como este tempo a que nós chamamos, à falta de nome definitivo, era moderna se funda na inversão de posições entre a contemplação e a acção.
Os modos da existência contemplativa foram despojados da sua áurea (e, em grande medida, dos seus direitos de cidadania) e só a vida activa é considerada legítima. O resultado foi a transformação efectiva de todo o agregado humano numa sociedade de trabalhadores.
O trabalho passou a ser visto como o factor determinante para a humanização, e o valor de cada pessoa vem descrito pelo valor económico que lhe está associado. Mesmo os reis e os presidentes, os médicos e os filósofos (etc, etc) passaram a olhar a sua actividade como um ganha-pão. Deixou de haver lugar para itinerários de natureza espiritual, artística ou política, dos quais pudessem brotar a evidência de dimensões humanas que a actividade laboral não cobre.
Ao perdermos a certeza naquelas realidades que a crença ou as artes iluminam, as nossas sociedades passaram a consolidar-se sempre mais como uma esfera de trabalho, e a satisfação das necessidades vitais impôs-se como o verdadeiro (para não dizer o exclusivo) elemento polarizador da actividade humana.
Mas Arendt pressiona ainda a nossa ferida e escreve: a perda da fé numa vida futura (ou numa vida diferente) não nos fez propriamente ganhar a vida. Longe disso. Tudo ficou, simplesmente, afectado pela instabilidade fundamental que carregamos. O que se desencadeou, no fundo, foi uma corrida cega para a frente, para não pensar muito nisso. Chegámos assim à hiperinflação do mundo do trabalho e à banalização redentora do consumo. Vivemos para trabalhar e para consumir. A vida e os bens que ela produz passaram a valer o mesmo não sei quê, esquivo e imediato, como a chama de um fósforo.
E não é tudo, como agora se vê. O campo do trabalho vive hoje uma convulsão que foge em muito ao nosso controlo e que nos obrigará a curto prazo a uma revisão de paradigma civilizacional. Os irrazoáveis números do desemprego testemunham a extensão da incerteza em que naufragámos.
Mas, mesmo mantendo um trabalho, muitos veem-se obrigados a defendê-lo a todo o custo, com uma sensação repetida de frustração, irracionalidade e solidão. Os problemas dos limites colocam-se cada vez mais. Acentua-se o fosso entre o que é possível e o que é pedido, numa aceleração permanente contra o tempo. A implacabilidade do sistema de trabalho cada vez menos respeita e acolhe a fragilidade da vida. Os trabalhadores têm de ser perfeitos e neutros como as máquinas que os rodeiam.
O psicólogo americano Gregory Bateson descreve as actuais práticas das grandes empresas como aquelas mães que dão com os filhos em esquizofrénicos com a quantidade de "injunções paradoxais" que lhes transmitem, sempre impossíveis de satisfazer, mas cada vez mais imperativas. Aumentam os objetivos a alcançar com meios assumidamente diminuídos. Quer-se maior qualidade e menor investimento. Estimula-se a autonomia e a criatividade individual à medida que se reforça o peso do controlo e a sofisticação extenuante dos processos. A racionalidade opera em banda estreita e veiculada a um uso puramente instrumental.
A crise contemporânea da actividade produtiva coloca-nos perante uma encruzilhada. E volto às palavras proféticas de Hannah Arendt: «O que se nos depara é a perspetiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única actividade que lhes resta». Precisamos seriamente de conversar.

José Tolentino Mendonça, Expresso, 27/4/2013.


 
 

O peculiar contributo de Otto dov Kulka


 
Um dos contributos mais interessantes, peculiar, de Otto Dov Kulka, em Paisagens da metrópole da morte passa pelo valor epistemológico que confere à memória, à imaginação, em suma, àquele conjunto de imagens, sensações, dias, cores que fixou, que, aliás, nunca conseguiu abandonar, nas quais está, mesmo, sitiado, e a que chama ‘mitologia pessoal’, (mas e) que conferem o sentido pleno, que dão a real dimensão do que se passou na sua infância (em Auschwitz).
A este respeito, é particularmente curioso como descreve a rejeição de tomar os objectos artísticos, literários, ou outros, como os cinematográficos – cita o filme Shoa, de C.Lanzmann – para recuar aos acontecimentos por si vividos, não como uma rejeição psicológica – de reviver um profundíssimo trauma -, mas, bem mais, porque a única experiência deste tipo com que contactou – umas memórias de quem esteve num campo de concentração, autor muito lido, mas que Kulka não identifica – lhe revelou um mundo tão distanciado do por si vivido que para sempre tomou a decisão de não mais contactar com tais objectos (“Mas não consigo encontrar neles aquilo que procuram transmitir. É um mundo completamente diferente!”, p.137).
Ora, sendo Otto dov Kulka historiador, ensaiou, quando detido, de alguma forma, sobre o período histórico em causa, um dualismo que procurava evitar, em absoluto, qualquer contaminação da ciência – a História – pelo subjectivo que a estudava (mas a tinha vivido na carne; ele próprio, claro). E vice-versa: quando voltava ao seu espaço, quando se adentrava nessa ‘mitologia pessoal’, a História não tinha lugar. Grande questão que o ocupa – e nos interpela também – é se tal ‘mitologia’ tem um carácter puramente subjectivo, ou, ao invés, é porta por onde muitos outros – que querem aceder ao acontecimento – podem entrar: “Serão outros capazes de entrar pela porta que aqui abri, que continua aberta para mim?” (p.139).
A conclusão a que chega o historiador-vivente menino de Auschwitz é a de que
Insisti na dualidade, no distanciamento metodológico e tudo o mais. Mas a verdade, segundo me parece agora, é que aqui apenas tentei contornar a barreira daquela porta, para entrar nela com toda a força do meu ser, à maneira de, ou na metamorfose de, talvez, um cavalo de Tróia, destinado por fim a esmagar a porta e despedaçar a muralha invisível da cidade que me é proibida, fora de cujo domínio eu decretei que ficaria. Porque essa escrita rigorosa, «puramente científica» está cheia de cargas e tensões «metadimensionais» tremendas, que, de alguma forma, transcendem o tempo” (p.142).
 
 

segunda-feira, 29 de abril de 2013

As leituras a que sempre é preciso regressar (III)


 
Entradas do diário, 17 de Agosto de 2002 e 15 de Novembro de 2002

17.8.2002. Um sonho sobre experimentar a existência física ou a presença física de Deus – no crematório; ou um sonho sobre a existência de Deus e a questão da existência de Deus.
Não foi uma pergunta sequer, mas uma resposta – no sonho, em Auschwitz, no crematório – um sonho com um cenário recorrente: entrei nele através das ruínas do Crematório n.º2, do lado direito da linha de caminho-de-ferro, o lado que ficava em frente ao «nosso campo». Anotei-o depois em pedaços de papel, hoje, o dia subsequente à noite do sonho: manhã do Shabbat, mês de Av (não sei a data do mês hebraico), 17 de Agosto segundo o calendário dos gentios. (…)
Eis o que escrevi nos pedaços de papel no dia seguinte ao sonho:
 

E vi – a dor terrível de Deus, que esteve lá. Durante todo esse tempo. Na Sua imagem. De início senti-O (apenas) como uma espécie de radiação misteriosa de dor, que fluía para mim do vazio negro na parte não iluminada dos fornos de cremação. Uma radiação de uma dor intensa, insuportável, tanto aguda como difusa. Depois, começou a assumir a forma de uma espécie de embrião em cujo centro cintilava apenas um pouco da luz lançada pelo fogo intenso encerrado nos pesados fornos de ferro. Encolhido como algo, como alguém cujos braços compridos e corpo carnudo pairam no grande fresco de Miguel Ângelo no tecto da Capela Sistina, mas na forma que assumiu aqui estava vivo, encolhido, inclinado para a frente com uma dor intensa, como na posição contorcida da escultura O Pensador, de Rodin. Uma figura à escala das Suas criaturas, sob a forma de um ser humano que veio e esteve lá – também – como uma das Suas criaturas no reino dos exércitos de escravos que se encontravam ao nosso redor. E também aqui Ele veio, efectivamente, e estava no sonho, nesta encarnação medonha que tomou forma (ou apareceu deus ex machina, obscura, tremens) como uma resposta à «pergunta que estavam proibidos de fazer lá» mas era feita e flutuava naquele ar escuro.


Otto dov Kulka, o.c., p.165-166.
 
 
 

As leituras a que sempre é preciso regressar (II)


 
Regresso a Julho de 1944: a última imagem, na realidade, a única despedida da minha mãe (…) Sabia que ela ia partir. Para onde? Não sabia. (…) Com os olhos do espírito, vejo imagens: uma imagem. Na verdade, são segundos, segundos de um adeus apressado após o qual a minha mãe deu meia-volta e se afastou em direcção àquelas estruturas cinzentas do campo. Vestia uma saia que ondulava na brisa ligeira e fiquei a vê-la andando, desaparecendo ao longe. Esperava que virasse a cabeça, esperava um sinal de qualquer tipo. Não virou a cabeça e limitou-se a andar, andou até se tornar um ponto lá ao longe, um ponto que eu sabia ser aquela saia leve de Verão – e desapareceu. Não sei quanto tempo fiquei ali. Não conseguia compreender. Continuei a reflectir sobre o significado deste enigma, a crueldade do acto, seguido daquele desaparecimento lento que se transformou num mero ponto de cor. Pensei nisso depois e continuo a pensar nisso até hoje: porque é que ela não virou a cabeça, pelo menos uma vez? (…)
A minha explicação simples, na altura, foi que, se tivesse virado a cabeça, não teria sido capaz de aguentar a loucura do horror, a dor insuportável e o conhecimento de que estava a deixar-nos ali, ao meu pai e a mim, no seio da lei imutável de que ninguém estava isento e ainda menos eu, certamente, com a idade que tinha então. E talvez ela temesse que, no meio desta loucura de dor, de regressar para junto de mim, para junto de nós, todos perecêssemos.
Foi apenas muito depois, muito depois da guerra (…) [que] fiquei a saber algo que proporcionava talvez uma interpretação diferente para o mistério impenetrável daquele afastamento não decidido e daquele desaparecimento pelo caminho que levava para fora dali: a minha mãe transportava o embrião do meu irmão, um embrião de Auschwitz, do encontro que ali tivera com o meu pai, e também a sua determinação de tentar partir pelo menos com ele, se nós tivéssemos de ficar e perecer.
Aguentou todas as provações da viagem, o trabalho extenuante e, miraculosamente, e devido à habilidade e sacrifício das suas amigas, chegou até à hora do parto. O rapaz nasceu em Stutthof, e as amigas dela, ou as mulheres que trabalhavam no hospital, prometeram conservar o recém-nascido se não houvesse uma emergência e se não entrasse ninguém pertencente às autoridades, nomeadamente membros das SS. O bebé era forte e gritava como um bebé forte e os soldados das SS aproximando-se provocaram o seu fim: aquelas mesmas amigas puseram termo à vida do bebé.

 
Otto dov Kulka, o.c., p.105-107.

domingo, 28 de abril de 2013

Três poemas em Auschwitz: "ANTES MORRER"


ANTES MORRER

 

Eu sei: há palavras grandiosas

pelas quais se pode morrer.

Essas palavras inflamam

e a calma é cobardia

quando toca a reunir

sob as bandeiras regimentais.

 

Mas quem quer que conheça as velhas mães

deixadas entregues a si próprias

e os filhos sem pais

não acredita em nada do que dizem.

 

Eu sei: há grandes actos

e muitos exigem sacrifícios.

Eu sei: há actos heróicos

usados para consagrar

os ganhos de guerras inúteis

em longas tréguas.

 

Mas quem quer que tenha visto, de longe,

catedrais em ruínas

e cidades esmagadas em chamas

já não acreditará neles.

 

 

Eu sei: há grandes homens

com reivindicações de imortalidade.

Inscreveram-se nas épocas com o seu sangue;

e há um número mais do que suficiente deles

nos cemitérios de todos os países

à sombra de ilustres tílias.

 

Mas quem quer que tenha visto,

sob a espada ensanguentada,

o ferido a contorcer-se em agonia

conhece-as ainda melhor.

 

Eu sei: sou uma minúscula insignificância,

miserável e talvez desprezível.

Eu sei: estas minhas palavras

são um veneno perigoso

que pode envenenar

a vossa pomposa canção.

 

E, no entanto, antes morrer

com o vosso cuspo no meu rosto,

antes morrer como um cobarde

de que ter sangue nas minhas mãos.

 

(Tradução feita a partir da tradução inglesa de Gerald Turner)

 

In Otto dov Kulka, o.c., p.101-102.

Três poemas em Auschwitz: 'SEPULTURA ESTRANHA'


 
SEPULTURA ESTRANHA
 

Uma cruz inclinada e um capacete rachado;

a chuva não regará a terra ressequida.

Naquele túmulo sob a torre derrubada,

como estranhos numa sepultura estranha, jaz

a juventude chacinada da Europa.

 

Atravancada com uma raquítica cruz de vidoeiro,

aquela sepultura torna-se uma chaga medonha.

E estranhos, aqui, numa distante terra estranha,

entre os ossos, os ideais

de vinte anos juvenis.

 

Não, não é necessário qualquer monumento

na sepultura nesse silêncio

nem sobre todas elas uma cruz de metal.

Essa sepultura brada, uma e outra vez,

o seu lúgubre canto eterno.

 

Mas quando a tempestade sopra sobre ela

quem compreenderá, quem compreenderá

que aqui, numa sepultura estranha, apodrece

(quem dirá pela utopia de quem)

a juventude traída da Europa?

 

In Otto dov Kulka, o.c., p.100.

sábado, 27 de abril de 2013

Três poemas em Auschwitz: 'NÓS, OS MORTOS, ACUSAMOS!'



Estou a referir-me a três poemas, ao que parece as últimas palavras de uma poetisa desconhecida com cerca de vinte anos (a sua idade pode inferir-se num dos poemas), que escaparam à extinção na noite do grande extermínio dos membros do transporte em que também eu cheguei a Auschwitz. Nessa noite do grande incêndio, uma jovem à entrada da câmara de gás tirou no último minuto um maço de papéis e estendeu-o a um dos Kapos, cuja missão era certificarem-se de que essa «operação especial» era executada «sem dificuldades» (…) Os três poemas foram escritos em checo num papel de carta fino e descorado (…) em todos os três está preservada a única lasca brilhante que se salvou de uma grande obra de arte que existia e pereceu naquele lugar de destruição. (…)

 

 

NÓS, OS MORTOS, ACUSAMOS!

 

Não, não há cruzes a apodrecer nos nossos túmulos

e não há lápides em arco.

Não, não há grinaldas ou grades de metal forjado

ou anjos de cabeça inclinada,

salgueiros e uma grinalda com fio dourado,

uma vela que arde eternamente.

Desfazermo-nos em pó em valas inundadas de cal,

o vento sopra nos nossos ossos.

 

Crânios branqueados de desespero

estremecem no arame farpado

e as nossas cinzas vão aos quatro ventos

espalhadas por milhares de urnas.

 

Formamos uma corrente em redor da terra,

sementes dispersas pelos ventos;

contamos os dias e anos

em que esperamos; o tempo não nos apressa.

 

E há muitos e muitos mais de nós aqui em baixo;

avolumamo-nos e crescemos a cada dia que passa;

os vossos campos já estão inchados connosco

e um dia a vossa terra explodirá.

 

Então, emergiremos, em terríveis fileiras,

com um crânio nos nossos crânios e canelas ossudas;

e gritaremos no rosto de toda a gente

«Nós, os mortos, acusamos!»

 

 
In Otto Dov Kulka, o.c., p.95-99.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

As leituras a que sempre é preciso regressar

Paisagens da Metrópole da Morte




E, na verdade, alguns escreveram mesmo de lá [de Auschwitz], postais, mas os postais que as pessoas enviavam – aquelas que os enviavam – tentavam geralmente fazer saber aos que ficavam que, por exemplo, «todos os dias encontramos o Onkel Hlad» ou o «Onkel Mavet», o que significa «Tio Fome», em checo, ou «Tio Morte», em hebraico. (…) O que era aquele campo, que oficialmente se denominava BIIb mas a que os prisioneiros se referiam como Familienlager, porque estavam lá alojadas famílias completas, ao contrário do que acontecia nos outros campos? Qual o significado daquele «milagre»? Qual a finalidade daquele campo? Nunca ninguém descobriu, nem sequer depois de o campo ter sido liquidado. (…) Chamava-se Fredy Hirsch, um homem de prestígio e autoridade entre os jovens, um madrich (…) pediu que o dispensassem desse cargo [de ser Kapo, em Auschwitz, naquele bloco] e o deixassem fazer algo diferente (…) Reuniu todas as crianças e jovens numa grande estrutura – ou «bloco» como se chamava lá – e dedicou-se, juntamente com a equipa de madrichim que seleccionou, a educar e cuidar dos mais novos. Ao fim de um curto período de tempo, esses barracões tornaram-se o centro da vida espiritual e cultural do lugar. Digo isto na plena acepção das palavras: era um local onde se encenavam peças e davam concertos – e tudo isto, é claro, a entre cento e cinquenta a duzentos metros do cais de selecção e trezentos a quatrocentos metros dos crematórios. As experiências que recordo de lá constituem a base moral do modo como encaro a cultura, a vida, quase tudo, tal como ganhou forma dentro de mim durante esses poucos meses, aos dez e onze anos, entre Setembro de 1943 e a liquidação do campo, em Julho de 1944. (…) O que recordo com maior clareza é a nossa primeira aula de História. Nela ouvi falar pela primeira vez dos acontecimentos fascinantes da batalha das Termópilas e de toda a miríade de guerras entre os persas e os gregos. Lembro-me também de ter ficado tão fascinado com elas que absorvi quase todas as palavras das aulas, e quando chegou um inspector – havia, realmente, uma unidade de inspecção de criação própria que controlava o progresso dos alunos -, eu, o mais pequeno do grupo, desbobinei todas aquelas histórias fascinantes sobre a Primeira e a Segunda Guerras Pérsicas, a grande batalha naval de Salamina, a batalha das Termópilas, e a mensagem emocionante do corredor de Maratona…Não se tratava de uma experiência profunda – eu tinha experiências mais profundas e fortes -, mas era, julgo eu, a primeira de lá. Por vezes, rio para mim mesmo ao considerar a possibilidade de o encontro que talvez me tenha destinado à profissão que na juventude, quando cheguei à universidade, não me pareceu ter qualquer objectivo ou finalidade em seguir – o estudo da história – ter as suas raízes nessa experiência de formação. Possivelmente.
O que era muito mais entusiasmante, e me marcou muito mais fortemente, foi os eventos terem lugar no bloco e participarmos neles. Um deles, o mais grandioso, foi uma ópera infantil completa que lá representámos. Lembro-me de ter participado em muitos ensaios. Não vi a representação em si, porque na altura estava no hospital, com difteria. Foi tudo muito excitante, devido ao esforço tremendo que implicava a preparação dos textos – em alemão -, os recitativos e o canto, bem como os restantes preparativos, nomeadamente as pinturas das paredes.
Mas o que se fixou ainda mais na minha memória foram as sátiras em que participei. Cada grupo se encarregou de apresentar uma imaginária situação futura baseada na realidade de Auschwitz (…) Um grupo apresentou «Auschwitz Celeste-Auschwitz Terreno»: recém-chegados ao Céu, descobrimos, para nosso espanto, que no mundo lá em cima havia selecções e havia crematórios. Ou, noutra cena do espectáculo: para espanto do cirurgião que estava a fazer uma operação no Auschwitz Celeste, os mesmos parasitas emissários de morte das epidemias de Auschwitz forma descobertos nos intestinos do paciente.
Outra coisa de que me lembro bem é que os membros das SS assistiam às representações, como espectadores. Entre eles contavam-se o doutor Mengele e outro médico chamado Lucas – mais tarde, testemunhei contra ele no julgamento de Auschwitz, em Frankfurt. As insinuações crípticas, a linguagem codificada permitiam-nos – tanto às crianças como aos madrichim – dar expressão às duas facetas da nossa situação. Quer aqueles espectadores captassem a mensagem, quer não, aquilo era importante para nós. Aquele humor especial, aquele humor negro com que gracejávamos, mesmo sem espectáculo, acerca do único caminho por onde se saía de Auschwitz – através das suas chaminés, as chaminés dos crematórios -, piadas deste tipo, ou a linguagem que elaborámos para nosso vernáculo, eram um trabalho em curso constante que foi lá criado, e não consigo lembrar-me de algo semelhante, deste ponto de vista, em qualquer fase da minha vida. (…)
Nos barracões das crianças havia um maestro de coro. O seu nome, parece-me, era Imre (…) Organizou um coro infantil e fizemos ensaios. (…) Esse barracão tinha uma acústica excepcional (…) Lembro-me sobretudo de uma obra que cantávamos e também me recordo da letra. A letra estava relacionada com a alegria e com a fraternidade entre os homens (…) Cerca de um ano e meio depois, quando o campo já não existia, quando a maioria dos seus prisioneiros já havia sido cremada ou distribuída como escravos por todo o Reich, e apenas restavam algumas dezenas de jovens e havíamos sido transferidos para o Mannerlager, o grande campo de escravos, obtive, não sei bem como, uma harmónica. Aprendi a tocá-la e tocava coisas que me haviam ficado na mente, nomeadamente uma das melodias que cantávamos no coro infantil (…) Estava eu a tocar a melodia num desses raros momentos de silêncio e tranquilidade naquele campo, e um jovem prisioneiro judeu de Berlim vem ter comigo – era eu então um rapaz de onze anos – e diz: «Sabes o que estás a tocar?». E eu respondo-lhe: «Olha, aquilo que estou a tocar é uma melodia que cantávamos naquele campo – que já não existe». Ele explicou-me então o que eu estava a tocar e o que cantávamos lá e o significado daquelas palavras. Penso que também tentou explicar-me o terrível absurdo da situação, a terrível maravilha da situação, de uma canção de louvor à alegria e à fraternidade entre os homens, a Ode à Alegria de Schiller, da Nona Sinfonia de Beethoven, estar a ser tocada em frente aos crematórios de Auschwitz, a algumas centenas  de metros do local de execução, onde o maior incêndio jamais enfrentado por essa mesma humanidade que era o tema do que se estava a cantar ocorria no preciso momento em que falávamos e em todos os meses que lá estivemos.
Na verdade, nessa altura eu já sabia quem era Beethoven. Não sabia no tempo em que o cantávamos. Entre esse primeiro momento, quando cantámos, e a surpreendente descoberta e identificação da melodia, estivera no hospital, com difteria, e na enxerga por cima de mim encontrava-se um dos jovens prisioneiros, com cerca de vinte anos. O seu nome era Herbert. Acho que não se curou e, caso se tenha curado, acabou onde acabaram tantos outros na Metrópole da Morte. Um dos nossos divertimentos, embora fosse sobretudo dele, era explicar-me, ou transmitir-me, parte da riqueza cultural que acumulara, como se estivesse a legar-me esse património. A primeira coisa que recebi dele foi um livro, o único livro que ele possuía, e eu iria lê-lo. Começa com a descrição de uma idosa e de um jovem que a atinge com um machado, que comete assassínio e fica atormentado – Crime e castigo, de Dostoievsky. Foi o que ele levou para Auschwitz e foi a primeira obra de grande literatura que li desde que fora separado da biblioteca dos meus pais, na Checoslováquia, aos nove anos. Não nos ficámos por Dostoievsky. Passámos para Shakespeare e Beethoven e Mozart e tudo aquilo que ele me conseguiu fazer empinar sobre a cultura europeia. E empinei bastante.
Quando Schiller e Beethoven foram identificados mais tarde, comecei a reflectir, e tenho reflectido desde então, sobre as razões e o significado dessa decisão do maestro, o tal Imre, que recordo, como se fosse hoje, como uma figura grande e desajeitada envergando o uniforme azul-acinzentado de prisioneiro e grandes tamancos de madeira, com as mãos grandes de um maestro, dirigindo o coro, fazendo-o unir-se e depois dando-lhe liberdade, e pondo-os a cantar como anjinhos, com as nossas vozes proporcionando o acompanhamento aos cortejos de pessoas de negro engolidas lentamente pelos crematórios.
Naturalmente, a pergunta que fazia a mim mesmo, e que continuo a fazer a mim mesmo ainda hoje, é o que fazia mover aquele Imre – não quanto a criar o coro infantil, porque, afinal, poderia dizer-se que, no espírito daquele projecto do centro educativo, era necessário, de alguma forma, preservar a sanidade, de alguma forma, manter as crianças ocupadas -, em que acreditava ele. Qual fora a sua intenção ao decidir interpretar precisamente aquele texto, um texto que é considerado um manifesto universal de todo aquele que acredita na dignidade humana, nos valores humanísticos, no futuro – diante daqueles crematórios, no local onde o futuro era, talvez, a única coisa definida que não existia? Foi uma espécie de manifestação de protesto, absurda talvez, talvez sem qualquer finalidade, mas uma tentativa de não renunciar e de não perder, não a crença, mas a dedicação a esses valores a que, em última instância, apenas as chamas podiam pôr termo – apenas aquele fogo, e não tudo aquilo que o antecedia e que grassava à nossa volta; isto é, enquanto respirar, o homem respira liberdade, ou algo semelhante?
Trata-se de uma possibilidade, de uma possibilidade excelente, mas existe uma segunda, que parece ser muito mais provável, ou que pode ser invocada por vezes. Não direi quando prefiro a primeira e quando me inclino para a outra. Refiro-me à possibilidade de isso ter sido um acto de extremo sarcasmo, até ao máximo extremo possível, de autossatisfação, por parte de uma pessoa que controla seres ingénuos e implanta neles valores ingénuos, valores sublimes e maravilhosos, mas que, ao mesmo tempo, sabe que esses valores não têm qualquer desígnio ou intenção ou significado.
Por outras palavras, que se tratou de uma espécie de auto-satisfação quase demoníaca por tocar melodias para acompanhar aquelas chamas que ardiam silenciosamente, dia e noite, e aqueles cortejos engolidos pelos insaciáveis crematórios.
À primeira vista, a segunda ideia parece mais lógica. É muito tentador acreditarmos na primeira ideia. E talvez eu acredite nela, talvez ela me tenha influenciado, talvez tenha influenciado grande parte do que me ocupa e em que acredito. Mas há muitas vezes em que penso que me agarro a uma ilusão e a transmito de diversas formas. Porque aquele sarcasmo abissal, para além de qualquer limite possível, também podia ser um critério para variações menos extremas da realidade de um mundo onde as coisas não se desenrolam de acordo com a crença sem reservas de Beethoven e Schiller como tais, mas sim do Beethoven e do Schiller que haviam sido cantados outrora em frente aos crematórios de Auschwitz. Mas é claro que isso faz parte da minha mitologia pessoal.
Regresso amiúde a tudo isso e também me ocupa em termos profissionais, embora nunca refira directamente o episódio. Mas quando tenho de interpretar a continuidade da existência de normas sociais, de valores morais e culturais nas condições que foram criadas imediatamente após a ascensão dos nazis ao poder e no caminho que conduziu à orla das valas do assassínio em massa e dos crematórios, aí sinto-me inclinado amiúde, talvez inconscientemente, a escolher a crença naquela manifestação, uma manifestação sem esperança mas a única possível naquela situação, embora pense, como afirmei, que aqui a ilusão é por vezes muito maior do que a ferocidade do sarcasmo ou o divertimento cínico de alguém que ainda era capaz de brincar com isso perante morte daquela ordem de grandeza. Essa abordagem era talvez mais – não direi mais realista – mas mais autêntica.

Otto Dov Kulka, Paisagens da metrópole da morte, Temas e Debates, Lisboa, 2013, p.40-60.




quinta-feira, 25 de abril de 2013

Portugal e o futuro: Quo vadis, Europa?



22- Muitas comparações têm sido feitas entre a actual crise e aquela pela qual o mundo passou durante a década de 1930. Nessa altura, o desemprego chegou aos 38% nos EUA e aos 43% na Alemanha e mais de 30% em vários outros países (p.86).

23- De entre as analogias estabelecidas entre estas duas épocas, Vítor Bento (VB) selecciona a rigidez cambial, para procurar pontos de contacto entre os dois períodos em análise.

24- Em 1929, mais de 40 países estão vinculados nocionalmente ao padrão-ouro. O que quer isto dizer? Os países aderentes a tal padrão “definiam o valor unitário das suas moedas através da sua equivalência a uma certa quantidade (expressa no seu peso) de ouro” (p.87).
Muito importante anotar a este respeito: “É hoje geralmente reconhecido que a rigidez assim estabelecida nas taxas de câmbio foi instrumental no aprofundamento e no prolongamento da recessão, pelo enviesamento deflacionário com que o sistema foi gerido” (p.87).
E quanto às semelhanças com a situação presente, aprofunde-se um pouco mais a descrição do cenário de há oito décadas: “O quadro geral, como se referiu, era o de um sistema de câmbios fixos – o padrão-ouro -, com a recusa dos países excedentários em inflacionar as suas economias, o que colocava, por conseguinte, o ónus de todo o ajustamento do lado dos países deficitários, mais precisamente do lado de cada um deles, sem uma instância de coordenação sistémica. Além disso e para que o padrão-ouro se pudesse manter intacto – isto é, sem desvalorizações -, os países deficitários não tinham outra forma de eliminar os défices nas suas balanças externas, que não fosse através da via deflacionária, reduzindo a procura, preços e salários. Ou seja, teriam que pôr em prática fortes medidas de austeridade” (p.103-104). VB cita, neste contexto, Barry Eichengreen e Peter Temin: “[q]uanto mais os governos se rededicavam às políticas [de sustentação] do padrão-ouro, piores se tornavam as condições económicas. À medida que o estado do doente continuava a piorar, até os mais crentes começaram a ponderar remédios não convencionais…Até governos conservadores intelectualmente empenhados nas medidas deflacionárias hesitavam em manter o rumo por receio de incitarem a uma adversa reacção política” (p.105-106).

25- O passo seguinte, então dado por alguns países, é, como sabemos a questão das questões que hoje se nos coloca de modo iniludível e relativamente á qual teremos de tomar posição: “as autoridades de alguns países, a começar pelo Reino Unido, em presença do crescente desemprego e da associada agitação social, e sentindo que a amarra cambial os tornava impotentes para lidar com aqueles problemas, começaram por questionar a utilidade de manter aquela amarra e acabaram por libertar a sua moeda dos compromissos do padrão-ouro” (p.106). Apoiando-se em Liaquat Ahamed, VB assegura que mesmo o voluntarismo económico de Roosevelt, nos EUA, não foi o principal elemento que conduziu ao turn-over do estado de coisas naquele país na década de 30 do século XX: “foi o abandono do padrão ouro e a desvalorização do dólar” que conduziu a uma mudança significativa do ponto de vista dos resultados da economia norte-americana (p.108).

26- Entramos, portanto, no ponto crítico das decisões. Do futuro que se pretende para a Europa, para Portugal. Vítor Bento regressa ainda, antes do pronunciamento final, às lamentações da construção europeia, a partir de uma frase que Martin Wolf atribui a um político italiano: “Renunciámos às válvulas de segurança da inflação e da desvalorização, em troca de taxas de juros baixas, mas agora nem sequer temos as taxas de juro baixas” (p.131). Bento reforça: “Neste sentido, a política monetária em Portugal, Grécia, Irlanda e outros países ditos periféricos, aproxima-se hoje mais dos limites de crédito praticados em Portugal nos anos 70 e 80 do que do “mercado aberto” que caracteriza o resto da zona euro, bem como os demais países desenvolvidos. O que, para efeitos práticos, os coloca definitivamente fora da união monetária. ‘Reintegrá-los’ é, porém, tarefa essencialmente da responsabilidade das autoridades europeias, que pouco têm feito nesse sentido, continuando presas no quadro mental da culpabilização. Mas eliminar o risco cambial é responsabilidade do BCE” (p.138).

27- Um dos modos de superação da actual crise, fora de um quadro de rompimento na Zona Euro, seria a mutualização das dívidas – não necessariamente eurobonds, já que o BCE transformado em credor dos Estados em dificuldades tem cumprido esse papel, escreve VB – mas sempre que acompanhada por “uma significativa reestruturação dos planos de pagamento das dívidas, que envolvesse um alívio efectivo durante o período de ajustamento macroeconómico por parte das economias do ‘euro fraco’. Um tal mecanismo de apoio financeiro seria, no fundo, o sucedâneo mais eficaz da simetria nos processos de ajustamento entre economias deficitárias e economias excedentárias. Assim como seria uma etapa muito mais eficiente do que a pressa no ‘regresso ao mercado’ dos países intervencionados” (p.149).

28- Sendo Vítor Bento, como já se disse, um reputado economista que se situaria, ideologicamente, no centro-direita, creio que, por contraponto a muitos outros economistas/comentadores/ensaístas da mesma tendência do ponto de vista político, no nosso país, e que se manifestam nos media constantemente, muito releva que rejeite “o quadro mental da culpabilização”; que fale na necessidade de “processos de ajustamento entre economias deficitárias e economias excedentárias”; que olhe para a história sem ver as actuais regras económico-financeiras na Zona Euro como “verdade revelada” e imutável; que atente na “perificidade” de alguns países/regiões, vendo nela uma constante que é preciso ter em conta, em suma, que grande parte do seu livro seja, também, dedicado a mostrar as falhas de arquitectura, as lacunas institucionais que contribuíram, tão decisivamente, para o lugar onde, hoje por hoje, nos situamos.

29- Quando o autor vê que “os países do ‘euro fraco’ estão assim confrontados com duas situações muito adversas ao seu crescimento nos próximos anos: um rácio de Dívida/PIB demasiado elevado e uma taxa de câmbio real sobrevalorizada, sem instrumentos que permitam a sua rápida correcção. Além do seu contexto de perificidade em que ocorre a sua inserção na União Europeia”, não tem dúvidas, pois, de que se torna “necessário (…) que as medidas contraccionistas que estes países têm que pôr em prática sejam contrabalançadas por medidas expansionistas nos países do ‘núcleo duro’, com espaço financeiro para o fazer, sob pena de toda a zona euro mergulhar numa recessão que, entre outras consequências, poderá levar à exaustão do capital político necessário para resolver a crise e evitar a desagregação da zona euro. Esta é, pois, uma importante lição que tem que ser retirada da lamentável experiência dos anos 1930s”.

30- Se esta ideia veiculada por VB não é, em rigor, original e, entre nós, vimos formulada tal exigência pelo Partido Socialista – a saber, políticas expansionistas dos países do núcleo duro, para contrabalançar a austeridade nos países com fortes medidas de austeridade a impenderem sobre si -, deve notar-se, contudo, a diferença entre uma exigência de esta ser uma regra a positivar (juridicamente), ou tratar-se, e é neste campo que VB se situa, de uma exigência de visão política, mesmo no interior do ‘núcleo duro’, para que a zona euro se mantenha intacta.

31- Ou as regras económicas mudam para se aproximarem um pouco mais das preferências sociais tidas a Sul; ou os países do Sul continuam com reformas draconianas e são acompanhadas pelo expansionismo do Norte para compensar; ou, então, a clivagem Norte-Sul virá a ser ainda mais marcada, com um Sul muito deprimido económica e socialmente (p.162-163), ainda que a desanexação do Sul, da zona euro, não implicasse, necessariamente, o fim da União Europeia (p.165).

32- Vítor Bento, já se viu, não entende que o melhor caminho seja o do abandono da Zona Euro. Mas também entende que a solução não é o federalismo - dada a existência de “nações identitariamente diferenciadas” (p.168) – nem a existência de uma “união fiscal” (p.169).
Não ao “federalismo”, sim à “federalização de várias funções, hoje descentralizadas nos estados nacionais” (p.169) é a fórmula de resposta proposta por Vítor Bento.
É preciso, então, perguntar de que “funções” se trata, neste âmbito. O autor enumera: federalização “dos sistemas bancários nacionais” (p.169); federalização “da responsabilidade financeira pública sobre a sua solvabilidade e a segurança dos depósitos”; federalização das “prestações sociais que, como os subsídios de desemprego, funcionam como estabilizadores automáticos nas economias nacionais e que, ao nível “federal” – financiados por contributos nacionais indexados ao PIB -, passariam a funcionar como estabilizadores automáticos das dessincronizações de ritmos económicos” (p.170).

33- Sendo uma fórmula de uma certa ginástica federalizações sem federalismo – ela remete, neste último ponto, o da federalização de prestações sociais para algo que também à esquerda – e nomeadamente o PS – foi defendido, bem como outras instituições da sociedade civil (ouvimos já a ideia de federalização de certas prestações sociais ao actual presidente da Caritas, por exemplo).
Ora, a este propósito, Vasco Pulido Valente escrevia, no passado Domingo, no Público, que se trata de “uma utopia”. Independentemente de se tratar, ou não, de uma quimera, a questão é que coloca no plano da proposta política algo que não depende do voluntarismo do proponente. Algo que vem sendo apontado como grande fragilidade à actual liderança do PS. Todavia, sem que a urgência de mudança de um dado paradigma seja claramente afirmada, e se batalhe nesse sentido – luta que só será encetada se houver a convicção de que o rumo não tem sido o correcto, pois, caso contrário, não se dão passos firmes, mesmo ao nível diplomático – certamente, também, nunca nada será de outro modo.

34- Para lá das ditas “federalizações”, a mudança a operar “não poderá deixar de incluir programas especialmente destinados a apoiar as regiões mais periféricas da união monetária, quer para as ajudar a reestruturar as respectivas economias – em linha com o já citado conselho do Relatório Delors -, quer para as compensar da desvantagem competitiva que a sua perificidade lhes acarreta dentro do mercado único” (p.170).
Aqui se reafirma de modo muito claro, como em posts anteriores já fizéramos notar, quanto seria injusto dizer que VB oblitera as condições geográficas como factor a levar em linha de conta na avaliação da performance económica de um país/região.

35- VB, num outro ponto sem especial originalidade, exorta os países da UE a manterem uma forte união entre si, pois no mundo global em que vivemos só em conjunto poderão ter peso – político-económico. Individualmente, nenhum país europeu conseguirá impor-se verdadeiramente (p.171).

36- Conclui o economista, de um modo que apreciei particularmente: que as soluções europeias a encontrar concretizem para os seus cidadãos, para cada humano, “a oportunidade de uma vida plena, cuja natureza é ontologicamente social, e para cuja realização a economia é um meio indispensável, mas não pode ser um fim” (p.172).

(conclusão) 

Portugal e o futuro: da necessidade de reforma da arquitectura institucional europeia



16- Entre os países do Euro Forte (Alemanha, Áustria, Holanda, Luxemburgo, Bélgica) e os países do Euro Fraco (Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Chipre), Vítor Bento (VB) identifica uma terceira via: Finlândia e França estariam a meio caminho entre as preferências sociais e as opções económicas preconizadas a Sul e a Norte, sendo que o caminho por ambos prosseguido nos anos mais recentes colou finlandeses ao Norte e franceses ao Sul.

17- Um dos passos mais interessantes da elaboração do autor, na medida em que é um dado muitas vezes obliterado nos debates públicos sobre a matéria, passa por recordar o Relatório Delors, de 1989 (!), sobre a futura adopção da moeda única, os desafios e os riscos que essa escolha traria: “A importância da balança de pagamentos, como reflexo de graves desequilíbrios económicos e como atempado sinalizador das necessidades de ajustamento, que importava não descurar, sob pena de conduzir a graves desequilíbrios “regionais”, já havia sido advertida no Relatório Delors. Escrito dez anos antes do lançamento da moeda única, constituindo o verdadeiro “mapa da estrada” para a criação da união monetária europeia, já lembrava que: “a medida estatística e a interpretação de desequilíbrios económicos poderá tornar-se mais difícil porque, num mercado totalmente integrado, os dados da balança de pagamentos, que são actualmente um indicador altamente visível de desequilíbrios económicos, deixarão de desempenhar esse importante papel de guia para a política económica. Não obstante, tais desequilíbrios, se deixados sem correcção, manifestar-se-ão como desequilíbrios regionais” (p.39-40).
E adiante [citando-se, de novo, o Relatório Delors]: “De certa forma, as forças do mercado podem exercer uma influência disciplinadora…Todavia, a experiência mostra que as percepções do mercado não fornecem necessariamente sinais fortes e convincentes e que o acesso a um extenso mercado de capitais pode, durante algum tempo, até facilitar o financiamento de desequilíbrios económicos. Ao invés de conduzir a uma gradual adaptação dos custos de financiamento, as opiniões do mercado sobre a qualidade dos devedores oficiais tende a mudar abruptamente e a fechar o acesso aos mercados de financiamento. Os constrangimentos impostos pelas forças de mercado podem ser demasiado lentos e fracos, ou demasiado súbitos e desestabilizadores. Por isso os países deverão reconhecer que partilhar um mercado comum e uma moeda única condiciona a política [económica]” (p.45-46).

18- O ponto é exactamente este: como um mercado comum e uma moeda única condicionam a política (económica); como embora “em teoria se possa argumentar que o regime monetário do euro pode ser reajustado para acomodar uma espécie de “ponto médio” dos dois sistemas de preferências sociais, esse desenvolvimento é muito pouco provável” (p.37), curava-se, de perceber, afinal, quem – quais dos grupos de países – conseguia condicionar mais o bloco oposto, fosse pelas normas pactadas, fosse pela gestão política.

19- Ora vejamos os dois pontos de partida estratégicos na abordagem desta problemática: “de um lado, acreditou-se que, sem o marco, a eficiência alemã teria que convergir para a média; e, do outro lado, acreditou-se que, forçando o euro a seguir as regras do marco, se forçaria o outro lado a alinhar a sua eficiência e o seu funcionamento pelo rigor alemão” (p.73).
Enquanto um grupo de países constituído por França, Bélgica, Itália, ditos “monetaristas”, sustentavam “que o estabelecimento de um regime monetário comum forçaria a convergência das economias e das instituições subjacentes ao seu funcionamento, homogeneizando as funções de preferência”, um outro bloco de países, composto por Alemanha e Holanda, ditos “economistas”, defendiam que “só a prévia convergência de comportamentos (i.é., das funções de preferência social) e das políticas económicas tornaria sustentável a convivência de vários países num mesmo regime monetário” (p.77). Assim, também, este segundo grupo postulava um conjunto restrito de países, convergentes entre si, na fundação do euro.

20- Dito isto, “a experiência que nos conduziu à presente situação, se se aceitar a narrativa atrás apresentada, parece dar razão à tese “economista”. Ou, analisando por um outro ângulo, o que acabou por criar as dificuldades ao funcionamento da UEM, e que conduziu à presente situação, foi terem acabado por prevalecer simultaneamente, na fundação da UEM, duas perspectivas, não só diferentes, como antagónicas na sua concepção: a perspectiva alemã, plasmada no modelo e no regime monetário, e a perspectiva francesa, reflectida numa ampla e diversa composição” (p.78).

21- Quando, assim, se olha do plano da arquitectura institucional europeia para a presente crise conclui-se que: a) “quando a crise rebentou, na Grécia, as autoridades europeias não tinham, pura e simplesmente, quadro mental – nem legal, nem institucional! – para lidar com ela. E daí a confusão, as hesitações e os erros por que começou a reacção oficial” (p.73); “for fim, o (sensato) recurso ao FMI, como pivot do programa de ajustamento associado à ajuda financeira, e das respectivas negociações, tornou explícita a impreparação (técnica) de uma união monetária para lidar com sérios desequilíbrios macroeconómicos que possam surgir no seu seio” (p.84). 

(cont.)