domingo, 31 de março de 2013

Páscoa: dom gratuito de si


PÁSCOA: "êxodo" supremo de Deus para o Homem e do Homem para Deus

O esplendor da Beleza: a Páscoa e a salvação do mundo
A Páscoa faz resplandecer a Beleza que salva, a caridade divina é derramada sobre o mundo. No Ressuscitado, cumulado do Espírito de vida pelo Pai, não só se cumpre a vitória sobre o silêncio da morte e é oferecida a forma do Homem novo, que assim é em plenitude, segundo o desígnio de Deus, mas também se cumpre o "êxodo" supremo de Deus para o Homem e do Homem para Deus, realizando-se aquela abertura de si ao outro, a que aspira o coração humano. Se fizermos nosso, na fé, o acontecimento da Páscoa, também nós seremos arrastados nesse vórtice que nos convida a sair e a esquecer-nos de nós próprios, e a saborear a beleza do dom gratuito de si.

Carlo Maria Martini, Que Beleza salvará o Mundo?, Paulinas, Lisboa 1999, 32-33.
 

sábado, 30 de março de 2013

Maria do Sábado Santo



MARIA DO SÁBADO SANTO, FÉ DO SILÊNCIO DE DEUS 

Há um ícone bíblico que nos pode ajudar a concluir esta leitura do nosso presente à luz do mistério pascal, revelação da Trindade, e a melhor superar as resistências de tantas negações da beleza: é a cena da Anunciação (cf. Lc 1 , 26 38).
Maria é a figura da crente que se mantém à escuta do mistério de Deus, mesmo frente ao carácter imperscrutável dos seus desígnios: "Como será isso, se eu não conheço homem?" (v. 34). Ela não duvida: só quer ser guiada pelo Senhor nas suas vias. É já a mulher de Sexta-Feira Santa, cuja alma será trespassada por uma espada (cf. Lc 2, 35) aos pés da Cruz do seu Filho (cf. Jo 19, 25-27). É já a Maria do Sábado Santo, a única que conserva a fé no tempo do silêncio de Deus e da sua aparente derrota na luta contra as potências deste mundo. Contudo, é também a mulher da reconciliação, a Virgem coberta pela sombra do Altíssimo, a fim de conceber o Verbo na carne, envolta nas relações entre Deus Pai e o Filho, que Se faz presente nela pela força do Espírito.
Em tudo próxima de nós, na fragilidade da condição de criatura e na experiência dolorosa de acompanhar o seu Filho no caminho até à Cruz, Maria é a mulher que, com o sim da sua fé transforma o seu hoje em hoje de Deus. Ela "guardava todas as coisas, meditando-as no seu coração" (Lc 2, 19), ou então - como melhor se poderia traduzir do grego - colocando-as em relação entre si e todas elas com o mistério de Deus. Maria, na Anunciação, ensina-nos a ler o nosso hoje à luz da Trindade que o envolve reconhecendo no desenvolvimento do mistério pascal a misteriosa beleza que ilumina o nosso tempo e todo o desenrolar dos séculos, sobretudo dos 2000 anos que nos separam da primeira vinda do Eterno ao tempo.
Por intercessão de Maria, Virgem da escuta e Mãe do Belo Amor, peçamos a capacidade de reconhecer em cada ser e em cada situação da vida e da história a presença do amor trinitário de Deus, guardião de tudo o que existe. Trata-se de viver uma espécie de contemplação para obter o amor, análoga à que Inácio de Loiola propõe nos seus Exercícios Espirituais  (ns. 230-237), de maneira a reconhecer e confessar a presença em todas as coisas do Deus amor no acto de Se entregar a nós e de se oferecer como referência última de todo o valor. Foi para este olhar contemplativo do Amor que tentei orientar o meu serviço episcopal no meio de vós, na convicção de que não há dom maior a acolher e transmitir do que o Dom da glória de Deus e do olhar que aprendeu a reconhecê-la e testemunhá-la em todo o tempo.

Carlo Maria Martini, Que Beleza salvará o Mundo?, Paulinas, Lisboa 1999, 45-46.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Do silêncio de Deus



Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.
A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.
Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana. Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança. Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.

Como contar o seu gesto?

Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão. Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali varada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me: de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenhei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

Pai, Pai, por que me abandonaste? 

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

 - Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.
Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.
Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência. 
A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.
Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.
Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.
Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.

 

                                                                                                                                     1959

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Homem, in Contos Exemplares, 31. ed., Figueirinhas, Porto 1997, 141-146.

Sexta-feira santa: a Beleza crucificada



A Beleza crucificada: Sexta-Feira Santa e o hoje da dor do homem

A Cruz é revelação da Trindade na hora da entrega e do abandono: o Pai é Aquele que entrega o Filho à morte, por nós; o Filho é Aquele que Se entrega por nosso amor; o Espírito é o Consolador no abandono entregue pelo Filho ao Pai na hora da Cruz ("E inclinando a cabeça entregou o Espírito": Jo 19, 30; cf. Hb 9,14) e pelo Pai ao Filho, na ressurreição (cf. Rm 1,4). Na Cruz, a dor e a morte entram em Deus por amor dos sem Deus: o sofrimento divino, a morte em Deus, a debilidade do Omnipotente são outras tantas revelações do seu amor pelos homens. É este amor incrível e ao mesmo tempo suave e atraente que nos envolve e fascina, exprimindo a verdadeira Beleza que salva. Este amor é fogo devorador, ao qual só se pode resistir por uma incredulidade obstinada ou por uma recusa persistente em nos colocarmos em silêncio frente ao seu mistério, ou seja, pela rejeição da "dimensão contemplativa da vida".

É verdade que o Deus cristão não dá, deste modo, uma resposta teórica à interrogação sobre o porquê da dor do mundo. Ele oferece-Se, simplesmente, como "guardião", como "seio" dessa dor, o Deus que não deixa que se perca nenhuma lágrima dos seus filhos, porque as faz suas. É um Deus próximo, que precisamente na proximidade revela o seu amor misericordioso e a sua ternura fiel. Convida-nos a entrar no coração do Filho, que Se abandona ao Pai, e a sentir nos, assim, dentro do próprio mistério da Trindade.

O Filho é o grande companheiro do sofrimento humano, Aquele que nos é dado reconhecer em todos os sofrimentos, sobretudo naqueles aos quais chamamos "inocentes": pensemos como foi forte este motivo da "dor inocente" na obra incansável de um D. Carlo Gnocchi pelos seus "mutilados". O rosto "frente ao qual todos cobrem o rosto" (Is 53, 3), revela-se-nos como um rosto belo, aquele que Madre Teresa de Calcutá contemplava com ternura nos seus pobres e nos moribundos.

Carlo Maria Martini, Que Beleza salvará o Mundo?, Paulinas, Lisboa 1999, p.31-32.
 
 

quinta-feira, 28 de março de 2013

'O substituto' (II)


O filme de Tony Kaye reduzido aos últimos ensinamentos com que vamos contactando da área da neurologia e da psicologia, parece, também, suportado/sustentado. Se a este blog trouxéramos, há mais de um ano, alguma da pesquisa pessoal que fizéramos acerca dos escritos de John Bowlby ou Mary Ainsworth, e, bem assim, dos escritos de Daniel Goleman, a propósito da vinculação, um dos últimos livros que frequentaram, por aqui, a mesa de cabeceira, foi Educar para o futuro, uma obra de Paul Tough – edição revista e adaptada, para Portugal, por Teresa Lobato de Faria, psicóloga pediátrica do Hospital Dona Estefânia -, um dos melhores do ano para o New York Times.
Aí pode ler-se:

A teoria da vinculação foi desenvolvida nos anos 50 e 60 por um psicanalista britânico chamado John Bowlby e por uma investigadora da Universidade de Toronto chamada Mary Ainsworth. Nessa altura, a área do desenvolvimento infantil era dominada pelos behavioristas, que acreditavam que as crianças se desenvolviam de uma forma mecânica, adaptando o seu comportamento de acordo com o reforço positivo ou negativo que experimentavam. As vidas emocionais das crianças, segundo os behavioristas, não eram muito profundas: as aparentes saudades que uma criança tinha da mãe não passavam de uma indicação das suas necessidades biológicas de alimento e conforto físico. O conselho prevalecentemente dado aos pais nos anos 50, baseado na teoria behaviorista, era que evitassem «estragar» as crianças ao pegarem-lhes ao colo ou confortando-as de outra forma quando choravam.
Numa série de estudos durante os anos 60 e princípio dos anos 70, Ainsworth mostrou que o efeito dos cuidados infantis era exactamente o oposto daquele que os behavioristas esperavam. Os bebés cujos pais reagiam pronta e completamente ao seu choro nos primeiros meses de vida eram, quando tinham um ano, mais independentes e intrépidos do que os bebés cujos pais tinham ignorado os seus choros. No jardim de infância, o padrão prosseguia – as crianças cujos pais tinham respondido com maior sensibilidade às suas necessidades emocionais quando eram bebés eram mais autoconfiantes. O cuidado parental terno e sensível, defendiam Ainsworth e Bowlby, criavam uma «base segura» a partir da qual a criança podia explorar o mundo (…) Os pais que se adaptavam à disposição do seu filho e reagiam aos seus sinais produziam crianças vinculadas com segurança; os cuidados parentais desapegados, conflituosos, ou hostis produziam crianças ansiosamente vinculadas. E a vinculação precoce, dizia Ainsworth, criava efeitos psicológicos que poderiam durar uma vida inteira.
Mas a tese de Ainsworth de que a vinculação infantil tinha consequências a longo prazo era, nessa altura, pura teoria. Ninguém descobrira uma forma fiável de a testar. E então, em 1972, um dos assistentes de pesquisa de Ainsworth, Everett Watters, formou-se na Johns Hopkins e entrou no programa de doutoramento em desenvolvimento infantil na Universidade do Minnesota (…)
A prova que o estudo produziu, que Egeland e Sroufe e dois co-autores sintetizaram do modo mais completo no seu livro de 2005, The Development of the Person, surge como a avaliação mais conseguida até à data dos efeitos a longo prazo das relações parentais na infância sobre o desenvolvimento da criança.
A classificação da vinculação, descobriram os investigadores do Minnesota, não era absolutamente determinante – por vezes, as relações de vinculação mudavam durante a infância, e algumas crianças com vinculação ansiosa acabavam a desabrochar. Mas, para a maioria das crianças, o estatuto da vinculação aos 12 meses de idade, medido pela Situação Estranha e por outros testes, era altamente preditiva de uma larga área de desfechos mais tarde na vida. As crianças com vinculação segura precoce eram socialmente mais competentes ao longo da sua vida: mais capazes de estabelecer relações com os colegas da pré-primária, mais capazes de estabelecer relações de amizades próximas durante a infância mais avançada, mais capazes de gerir as complexas dinâmicas das redes sociais da adolescência (…) As crianças cujos progenitores tinham sido julgados desinteressados ou emocionalmente ausentes nas primeiras avaliações do seu estilo parental foram as piores na escola pré-primária, e os professores recomendaram educação especial ou retenção de ano para dois terços delas. Quando os professores classificaram os alunos segundo indicadores de dependência, 90 por cento das crianças com um historial de vinculação ansiosa caíram na metade dependente da turma, em comparação com apenas 12 por cento das crianças com historial de segurança. Quando os professores e as outras crianças eram inquiridos, as crianças ansiosamente vinculadas eram mais frequentemente designadas como más, antissociais e imaturas. (p.60-63)

Paul Tough demonstra, ao longo das primeiras dezenas de páginas do livro como o stress infantil e a adversidade podem causar danos durante uma vida inteira. Mães violentadas, irmãos agredidos, vidas em bairros onde a tensão é permanente podem causar grandes problemas, pois “é na primeira infância que o nosso cérebro e o nosso corpo estão mais sensíveis aos efeitos do stress e do trauma” (p.47). O stress é elemento mais importante do que a pobreza no que tem de influência sobre o indivíduo – pois dois miúdos advindos de famílias com idênticos graus de pobreza podem vir a ter resultados muito diversos, em função dos cuidados que receberam na primeira infância e dos níveis de stress que cada um, pois, alberga. Evidentemente, muitas vezes a pobreza conduz, por exemplo, a uma habitação em bairros mais problemáticos, em piores zonas de cidades e, nessa medida, há alguma correlação de factores.
E por que é que o stress afecta? “Os fisiologistas do stress descobriram também uma explicação biológica para este fenómeno. A parte do cérebro mais afectada pelo stress infantil é o córtex pré-frontal, determinante nas actividades de autorregulação de todo o tipo, tanto emocionais como cognitivas. Em resultado, as crianças que crescem em meios stressantes têm, por regra, mais dificuldade de concentração, em manter-se sentadas quietas, em recuperar de desapontamentos e em seguir instruções. E isso tem um efeito directo no seu desempenho escolar. Quando se é invadido por impulsos incontroláveis e distraído por sentimentos negativos, é difícil aprender o alfabeto. E, de facto, quando os professores da pré-primária são inquiridos acerca dos seus alunos, dizem que o maior problema que enfrentam não são as crianças que não sabem as letras e os números, são os miúdos que não são capazes de gerir o seu temperamento ou acalmar-se depois de uma provocação” (p.43).

Visto do estrito ponto de vista destes estudos da psicologia e das neurociências, dir-se-ia que o “sufoco” que os alunos da muito problemática escola que o brilhante professor substituto enfrentou durante um mês – “sufoco” sentido e confessado, também, pelo ‘substituto’ na primeira pessoa; “sufoco” a que se juntava o telelixo que todos os dias procura estupidificar – tinha um nome: stress (infantil).

'O substituto'




O filme é duro, duríssimo. Sem contemplações, sem espaço para tréguas. O lado negro do humano, nos precipitados de uma violência omnipresente nos gestos/explosões de raiva, ou numa linguagem de uma brutalidade incessante, desestruturado, fragmentado, em busca de um pai, do arquétipo de pai, da segurança (paterna) que dá estabilidade, das fronteiras, dos limites, da compreensão que permite progressão estão lá.
É a escola transformada no lugar onde desaguam todas as ânsias, todas as frustrações, todo um mal-estar subjectivo e social e lugar, também, de todos os experimentalismos e todas as modas ideológicas que não concorrem para um dia-a-dia pacífico.
Substituto o professor magistralmente desempenhado por Brody, ele próprio, o personagem, vítima de todas as infâncias por viver. Por isso, nunca fixo numa escola, nunca preso a cidades, escolas, ou, sobretudo, pessoas, porque a perda inicial, a perda de infância, tão magoada, tão dorida, não quer ver-se repetida – no substituto, há, neste sentido, uma solidão compreensível/compreendida, a negação chorada da ligação ao outro, uma fuga mundi.
O não querer prender-se, a recusa de arriscar – este hobbesiano ensinamento sabido de cor, traumaticamente, desde o berço, pelos fustigados pela sua circunstância, o cada um por si e o todos contra todos – pode descobrir-se fatal – ademais, no contexto de uma sociedade que recusa, em nome de um novo puritanismo, o afago, o abraço (salvador) entre o adulto e a criança/adolescente, em um cinismo que só adiciona à ausência de rosto de uma ‘sociedade de ecrãs’ – quando se assiste ao salto mortal no desespero, mas logo, em sequência deliberadamente dicotómica, a procura (activa) da responsabilidade pelo outro dá lugar a uma felicidade que redime – ou como, sem novidade, em cada um pode conviver um assassino (mesmo que involuntário) e um santo.
A escola espaço do derradeiro combate de pugilismo, onde só os mestres de combate – também eles sofredores; e só na identificação, na “assimilação”, na irmandade nesse “aperto”, no “sufoco” sentido pelos que tem a seu cargo os conquista – podem sobreviver, numa projecção-limite dos resultados da perda irreparável de uma meninice atropelada – e aqui, talvez, que se pretenda que não há pais perfeitos, mas que há os que conhecem a Lei de Murphy e assim, porventura, se procurem cautos e prudentes em palavras e gestos que podem desesperar, ou salvar -, da família fracturada (que está bem para lá de uma divisão de tipo económico-social), da selva ideológica.
Como lidar com os flashbacks, com os demónios interiores que perseguem escola dentro e se intrometem em cada interstício do recreio, com uma maldade latente, se não reconhecendo a comum condição ferida do humano e a caminhada conjunta nessa complexa realidade que é a vida humana?





Título original:
Detachment
De:
Tony Kaye
Com:
Adrien BrodyChristina HendricksMarcia GayLucy Liu
Género:
Drama
Classificação:
M/12
Outros dados:
EUA, 2011, Cores, 97 min.

100 mil€


Depois do líder do Eurogrupo ter dito que a solução adoptada para Chipre iria constituir modelo para futuros resgates, imagine-se a reacção de muitos portugueses ao verem esta quinta-feira, nas bancas, manchetes como esta (para lá do que esses mesmos portugueses possam pensar sobre as mais variadas formas de pressão ao Tribunal Constitucional):

 
 

A luta continua


A luta entre comentadores-políticos está de tal modo ao rubro que qualquer detalhe pode fazer a diferença. Hoje a Sábado conta um pormenor picante: no último ano e meio Sócrates "leu mais de 80 livros".
 

quarta-feira, 27 de março de 2013

A entrevista de José Sócrates



Depois de mais de uma hora em que a assunção de responsabilidades políticas se fez (apenas) em abstracto – “claro que assumo responsabilidades”; “só não erra quem não tem responsabilidades”; “assumo as minhas responsabilidades, mas não as dos outros” -, finalmente a identificação de uma falha própria – e não, propriamente, uma falha qualquer -, por parte de José Sócrates, na condução política governativa: “[eu] não devia ter assumido um governo minoritário”. Embora o ex-PM tenha dito que “é mais fácil fazer as críticas depois das coisas acontecerem”, a verdade é que nesses anos – 2009 e seguintes – o que não faltaram foram advertências, de vários responsáveis políticos, comentadores, ‘senadores’ da vida pública portuguesa, e, inclusivamente, mesmo membros do seu Governo (Luís Amado) nesse sentido.
Como espectador, tinha ficado admirado, por, até esse momento da entrevista, nunca a questão acerca da formação de um governo minoritário, em 2009, em virtude da situação económica e política nacional e internacional, ter sido posta sobre a mesa.

Esta, e os números aduzidos relativamente aos encargos com as PPP’s – “é a primeira vez que estou a dizer publicamente que recebi mais encargos com PPP’s, do governo que me precedeu, do que aquela que deixei ao governo que me sucedeu” – foram as maiores novidades que a entrevista produziu. Quanto aos números relativos às PPP’s imagino que nos próximos dias, ou horas, exista algum/bastante contraditório e, naturalmente, aí qualquer cidadão poderá ajuizar. Dentro da ‘pequena história’ ficou também a saber-se que as relações pessoais com Teixeira dos Santos estão melhoradas. E considerou que não há “liderança política” no actual governo.

No mais, sem qualquer surpresa, assumiu-se como a oposição (no que isto tem de crítica ao PS de António José Seguro); justificou a sua participação no comentário político com a necessidade de “haver mais de que uma narrativa” sobre o actual estado do país e no comentário não estarem apenas ex-líderes de um outro partido ou segmento ideológico (um argumento já ontem antecipado por Augusto Santos Silva, na TVI24); e expôs, com particular veemência, razões de queixa – que, de facto, tem e são justificadas – relativamente ao Presidente da República (face ao inadmissível caso das escutas, a um discurso de tomada de posse de Cavaco II e a uma duplicidade de actuação em virtude dos executivos com que lidou). O argumento de que Portugal não teria recorrido à ajuda externa se o PEC IV não tivesse sido chumbado, outra exposição que se antecipava, com facilidade. Não creio que neste caso tivesse convencido os que não estivessem já convencidos – não houve nenhum argumento novo (decisivo) a este propósito (coisa diferente seria perguntar se o país ganhou alguma coisa com o chumbo do PEC IV e com eleições naquele momento, e aí, hoje como então, considero que não).

Vai haver muito ruído, como também se sabia, com as intervenções de José Sócrates e as comparações entre a eficácia comunicativa deste com António José Seguro serão permanentes, muitas vezes em desfavor deste último. Uma semana depois, as palavras de António Costa e Francisco Assis, quanto à oportunidade – falta dela – desta intervenção, pelo menos do ponto de vista do PS e do país, não creio que tenham perdido pertinência.

O manifestado desinteresse quanto a um futuro político pessoal, por banda José Sócrates, naturalmente não fica, necessariamente, para a história.


Da modernidade como cultura da separação (III)


Isto é mesmo muito bom e convém tomar nota quando pensarmos na modernidade como "cultura da separação": 



Na revisão do legado da modernidade e centrando-se no que esta nos oferece, no âmbito da “razão”, e de como devemos apropriar-nos de tal património, postula o autor João M. Duque, em Dizer Deus na pós-modernidade (p.124/125): “frente à tão apregoada eliminação da forte razão universal, a favor, quando muito, de débeis razões contextuais, a revisão da revisão obriga-nos a defender a permanência de uma razão unificadora, como referência comum a todas as possíveis racionalidades – caso contrário, as racionalidades parciais ou contextuais acabariam por se absolutizar a si mesmas. Contudo, essa razão unificadora teria que assumir a sua realização concreta em racionalidades parciais, sem que nenhuma dessas se afirme dominadora das outras. Trata-se daquilo a que se poderia chamar uma razão transversal ou, ainda melhor, multidimensional, superadora, portanto, da moderna razão monolítica e unidimensional. Assim entendida, uma legítima crítica da razão absoluta e unidimensional, como a que foi elaborada pela pós-modernidade, não implica manter ou reacender a dicotomia entre a razão e o «outro» da razão, na sua mútua concorrência. As dimensões da realidade humana são, antes, distintas dimensões da própria racionalidade. Assim também a dimensão crente, ligada à dimensão religiosa. Porque não falar de uma razão crente ou da racionalidade própria da fé ou da religião, em vez de uma fé ou de uma religião por distinção – ou mesmo por oposição – à razão?”. A conclusão (p.143/144) é a de que “em contexto pós-moderno não se fala, pois, de uma razão universal, mas em múltiplas formas de racionalidade. Evocam-se, assim, âmbitos da realidade que anteriormente aqui não enquadrariam: razão estética, a razão ética, a razão crítica, a razão comunicativa, a razão hermenêutica, mesmo a razão religiosa ou até a razão crente. A comunicação entre esses âmbitos da racionalidade já não se realiza através da violência de uma razão absoluta, mas quando muito através de uma razão transversal que instaura uma comunicação inter-racional respeitadora das respectivas diferenças. O processo de comunicação passa a ser, assim, um processo dinâmico de movimentação, com base em múltiplas passagens entre os vários âmbitos da racionalidade. Só assim se torna possível evitar que qualquer desses âmbitos se afirme como absoluto e exclusivo detentor de racionalidade, estabelecendo-se assim como norma universal, à qual todos os outros âmbitos teriam que se sujeitar, caso pretendessem evitar tornar-se irracionais. Mas também se supera, desse modo, a extrema posição pós-moderna que defenda uma total incomensurabilidade de todos esses âmbitos, reduzindo-os a compartimentos ou contextos estanques, não comunicáveis entre si. Entre os extremos do único absoluto e do plural isolado, a pós-modernidade procura agora um caminho de conjugação entre identidade e diferença, na articulação das racionalidades e dos correspondentes saberes – até porque os extremos se tocam e ambos conduzem a posições absolutistas, necessariamente violentas e produtoras de graves reducionismos”.



Um roteiro para Francisco


Bergoglio propõe o roteiro a Francisco.

P.S: Lembram-se da visita Ad Limina, dos Bispos Portugueses, ao Vaticano e do que então lhes foi dito por Bento XVI? Comparem.


Se nem os alemães se sentem seguros...

 
El 54% de los alemanes duda de que los depósitos estén a salvo. El 54% de los alemanes duda de que sus depósitos bancarios estén a salvo, pese a la promesa formulada en este sentido por la canciller, Angela Merkel, según un sondeo publicado por la revista Stern y la cadena RTL.
 
no twitter de ElPais
 
 

terça-feira, 26 de março de 2013

Do 'mestre interior'


Paul RICOEUR, A figura do “mestre interior” (O Si-Próprio “mandatado”, in Amor e Justiça, Edições 70, Lisboa 2010, 82-85.

 
A figura do “mestre interior”

Se escolhi neste estádio da nossa reflexão a figura do “mestre interior” segundo Santo Agostinho, é porque esta constitui um marco significativo do pensamento ocidental no caminho da interiorização da relação de correspondência entre o polo divino do apelo e o polo humano da resposta. Se está fora de dúvida que o platonismo e o neoplatonismo desempenharam um papel considerável neste processo de interiorização, não continua a ser menos verdade que a componente bíblica deste neoplatonismo cristão permanece dominante e que a componente grega sofre urna transformação decisiva, ao ser assim integrada nessa figura nova que é o si-próprio “mandatado”.

O De Magistro de Santo Agostinho constitui no que se refere à figura em causa o documento de base (Bibliotheque augustinienne, n° 6, 1- série VI): por mais poderosa que seja a atracção exercida pelo tema da iluminação (por meio do qual se caracteriza justificadamente o pensamento de Santo Agostinho), a relação de ensino, constitutiva da relação entre mestre e discípulo, não é transformada a ponto de se tornar irreconhecível, ou até insignificante, ao penetrar neste novo espaço de gravitação. Muito pelo contrário, é ela que assegura a especificidade cristã do próprio tema da iluminação, tão próximo de resto da reminiscência platónica. A relação mestre-discípulo continua a ser com efeito o fio condutor desse diálogo comovente entre Agostinho e Adeodato (“O filho do seu pecado”, segundo a expressão mais humilde do que autopunitiva do reitor recentemente convertido) nas Confissões (Livro I, 9), diálogo que recorda muito oportunamente o de Sócrates com o jovem escravo do Ménon. Na relação de interlocução própria da relação ensinar/aprender, tal como é praticada em particular nas escolas em que a linguagem constitui o próprio objecto do discurso, há dois traços notáveis. Por um lado, os papéis do mestre e do discípulo não são intercambiáveis: um é superior ao outro; este primeiro traço será sublimado, mas não abolido, na figura do senhor interior. Por outro lado, o mestre parece ser exterior ao discípulo: um ensina, o outro é ensinado; de facto, este segundo traço será francamente apagado; o processo de interiorização começa com efeito a partir do conhecimento profano; completa-se com as verdades inteligíveis; a este nível, ninguém aprende do exterior; melhor, nunca se aprende nada (nusquam igitur discere) (Livro XII, 40); é o homem interior que descobre em si próprio a verdade, simplesmente auxiliado pelo mestre; quanto aos signos da linguagem transmitidos de  um homem a outro na relação de ensino, servem tão-só para “advertir” no momento em que são “consultados”; mas é a verdade das coisas que “preside” e assim “governa por dentro o próprio espírito”.
Eis-nos mergulhados, segundo todas as aparências, no platonismo e ressituados na posteridade da reminiscência platónica. O parentesco com o Livro X das Confissões, consagrado à memória, reforça-nos nesta impressão: não aparecerá aqui a memória como a recolecção das verdades eternas, muito mais do que como o vestígio deixado pelos acontecimentos do nosso passado pessoal. Sem dúvida. Mas, com Agostinho, a teoria da reminiscência acha-se separada da pré-existência da alma, e, nessa medida, preparada para uma inflexão ainda mais decisiva. Esta inflexão vem-lhe da identificação de toda a verdade interior e superior com o Cristo, que só ele pode não só ser mestre, mas do qual nos é dito por São Paulo na Epístolas aos Efésios (3,16-17) que «habita no homem interior» (livro XI, 38).
Não é negável que a própria figura crística foi assimilada à Sabedoria Eterna, segundo uma tradição que, por mais helenística que se queira considerá-la, se encontra efectivamente incorporada na Escritura, e, mais ainda, na Escritura hebraica. Assim, tal é o mestre interior que «consultamos» quando descobrimos em nós a verdade na ordem inteligível. A partir de então, «consultar a verdade interior» não é «ser ensinado» pelas palavras, não é «aprender» do exterior, é conhecer por contemplação, «nesta luz interior da verdade que inunda esse a que chamamos o homem interior de claridade e gozo» (XIl, 40). O tema da iluminação parece ter de facto absorvido o do ensino, a ponto de o abolir, na medida precisa em que a contemplação se emancipou da mediação da linguagem e das palavras. (…) De facto, a contemplação continua a ser uma instrução porque a descoberta da verdade não é em si mesma a leitura de ideias inatas, e portanto sempre presentes, mas uma descoberta interior. Esta descoberta merece ainda o nome de «ensino interior» (XIV, 45). Nessa precisa medida, a figura do mestre interior não é abolida, mas exaltada frente à condição de uma alma que permanece itinerante, porque criada, até mesmo na contemplação dos inteligíveis. A metáfora da luz não pode pois substituir-se à figura do mestre, pela simples razão de a luz e o verbo serem o mesmo.

Húmus



Realidade.
Afinal, não sei o que será melhor: se andar no sobressalto deste mundo, amando a vulgaridade das experiências e acabando com melancólicos pensamentos, ou se, sem nunca perder de vista a realidade, ver nela a extensão do espírito, que em tudo se manifesta, e não só no ideal que foge à evidência e é engenho e arte. É inevitável que aquele que muito inventa e vagueia nas suas invenções, dá com os ossos no cepticismo e termina cansado de ter mentido, ainda que a mentira se chame inspiração. Mas quem acredita no diálogo decorrido no seio da humildade, vendo e contemplando o que é igual em todos os dias da vida, esse não morre nunca, nem é preciso até comemorá-lo.

Agustina Bessa-Luís, Dicionário Imperfeito, p.247.


Implosão


Quando as tropas norte-americanas libertaram os campos de extermínio nas áreas conquistadas às tropas nazis, o general Eisenhower ordenou que as populações civis alemãs das povoações vizinhas fossem obrigadas a visitá-los. Tudo ficou documentado. Vemos civis a vomitarem. Caras chocadas e aturdidas, perante os cadáveres esqueléticos dos judeus que estavam na fila para uma incineração interrompida. A capacidade dos seres humanos se enganarem a si próprios, no plano moral, é quase tão infinita como a capacidade dos ignorantes viverem alegremente nas suas cavernas povoadas de ilusões e preconceitos. O povo alemão assistiu ao desaparecimento dos seus 600 mil judeus sem dar por isso. Viu desaparecerem os médicos, os advogados, os professores, os músicos, os cineastas, os banqueiros, os comerciantes, os cientistas, viu a hemorragia da autêntica aristocracia intelectual da Alemanha. Mas em 1945, perante as cinzas e os esqueletos dos antigos vizinhos, ficaram chocados e surpreendidos. Em 2013, 500 milhões de europeus foram testemunhas, ao vivo e a cores, de um ataque relâmpago ao Chipre. Todos vimos um povo sob uma chantagem, violando os mais básicos princípios da segurança jurídica e do estado de direito. Vimos como o governo Merkel obrigou os cipriotas a escolher, usando a pistola do BCE, entre o fuzilamento ou a morte lenta. Nos governos europeus ninguém teve um só gesto de reprovação. A Europa é hoje governada por Quislings e Pétains. A ideia da União Europeia morreu em Chipre. As ruínas da Europa como a conhecemos estão à nossa frente. É apenas uma questão de tempo. Este é o assunto político que temos de discutir em Portugal, se não quisermos um dia corar perante o cadáver do nosso próprio futuro como nação digna e independente.

Viriato Soromenho-Marques, DN, 26/03/13

segunda-feira, 25 de março de 2013

O 'scouting' do Dragão


Vi, no Sábado, pela televisão, o Porto-benfica, em Juniores (futebol). Pela primeira vez em bastantes anos, observei uma equipa do Porto montada num esquema diferente do clássico 4x3x3. Desta vez, Gonçalo Paciência – já com mais estampa que o pai Domingos, e com boa técnica, todavia ainda não tão apurada quanto a do progenitor – e André Silva – cuja força impressionou, um avançado todo terreno, tendo, no entanto, que aprender a não se prende tanto à bola – jogaram ‘abertos’ (formando uma dupla de avançados). Além destes dois jogadores, o polaco Tomás e o defesa esquerdo Rafa sobressaíram. Na equipa liderada por Nuno Capucho, faltou, no entanto, meio-campo – talvez por ausência de um dos habituais titulares, nessa zona do terreno, Graça - e, pessoalmente, gosto da profundidade existente nos flancos do 4x3x3 e que não foi possível, desta feita, vislumbrar. Kadu, muito falado a quando do negócio Izmailov, como possível futuro guarda-redes leonino, ainda não apresenta os índices de maturidade e concentração mais desejáveis (a saída da baliza, no golo encarnado, foi extemporânea). Deu, contudo, para perceber que há dois bons avançados na ‘costa’. Para memória futura.

Decadência



Decadência.
Ao mesmo tempo que desdenhamos da vida eterna, queremos eternizar-nos. A doença aterra-nos, porque já não somos mais um corpo entregue aos golpes do destino, ou julgamos que o não somos. O nosso sangue empalideceu, perdemos a força da decisão, a hesitação tornou-se uma espécie de compadrio entre os povos. O nosso tempo quer arranjos e não grandes obras. Os pensamentos são tímidos e vulgares.

Agustina Bessa-Luís, Dicionário Imperfeito, p.71.


"Pub": 'O substituto', no Teatro, hoje, às 22h



Mais logo, ao serão, conto estar por aqui.

domingo, 24 de março de 2013

A imprensa do fim de semana e a política


1-      Pacheco Pereira pede, em tom dramático e lancinante, no Público de Sábado que Rui Rio e António Costa cheguem a um acordo político e depois se lancem aos seus respectivos partidos, com vista a (virem a) governar Portugal, nem que tal (pré-acordo) seja “um gesto quixotesco”, das duas únicas figuras – “e pouco mais” – capazes de inspirarem e de serem esperança, numa altura em que o país se encontra face ao abismo.
Um artigo pouco ou nada comentado nos telejornais que vi, durante o fim-de-semana. Pacheco Pereira não costuma ser pouco lido, mas desta vez teve ecasso ou nenhum eco televisivo. Veremos se o terá fora dos ecrãs. Um ponto em que concordo completamente com o que diz neste texto a que aludimos é que o modo de funcionamento interno dos partidos não permite a emergência dessas figuras de mérito na política portuguesa.
Há, no entanto, outras figuras, e no PSD melhores figuras, do que as citadas, capazes de protagonizarem essa esperança, a meu ver.

2-      No mesmo dia, o Público escreve, em editorial, e em tom idêntico ao do seu articulista, que “Portugal está num beco sem saída”.


3-      Vasco Pulido Valente, no artigo sobre o regresso de Sócrates a Portugal, tem a vantagem de não restringir as motivações de Relvas – quanto à satisfação deste, por ver o regresso de Sócrates-comentador – às aduzidas pelos vários comentadores até então. Acerta, também, Marcelo Rebelo de Sousa quando diz que se o objectivo passa pelas próximas presidenciais, Sócrates não poderia chegar em cima da hora – logo, a antecedência tem sentido - e que o ex-PM pode mesmo ser o que Sampaio foi para Guterres: um facto consumado, que se impõe ao líder do partido que, depois, mais não tem que fazer do que apoiá-lo.



5-      Divertido, ou melhor, trágico-cómico ler os jornais locais, cada um com a sua foto do “agora sim”, “verdadeiro”, “autêntico”, “real”, “certo” candidato do PSD à Câmara Municipal de Vila Real. Também aqui, nos sociais-democratas locais, fazia falta um Bento XVI que permitisse uma mudança de paradigma de uma cultura de poder para uma cultura de serviço. Contar espingardas para ver qual o pior candidato e/ou lista possíveis não leva a lado nenhum e chega a ser caricato. A oposição está, também, a este propósito, em parte incerta. Luís Ramos e Ascenço Simões pareciam-nos, claramente, as duas propostas de liderança para as principais listas candidatas ao executivo municipal mais sólidas e preparadas, a benefício do concelho. Mais uma vez, ergue-se um muro entre a lógica de funcionamento interno dos partidos e a das pessoas que se interessam pela polis sem comprometimentos apaixonados ou em busca de qualquer benefício (pessoal).


6-      Magnífica a entrevista de José Tolentino de Mendonça a Bárbara Wong e Miguel Gaspar, este Domingo, no Público e interessante, igualmente, mais um trabalho de Cristina Ferreira, desta vez acerca do Professor António Borges (reconheça-se, um trabalho politicamente incorrecto, em contramão com a opinião que vimos formando, e se tornou predominante, se não exclusiva, no nosso espaço público).

7-      Paulo Trigo Pereira publica mais um importante artigo no Público: defende que o Tribunal Constitucional, em tomadas de decisão complexas, como aquela que tem em mãos acerca do Orçamento de Estado, devia ouvir/consultar economistas. E que uma coisa é criticar o governo pelo excesso de austeridade e ausência de políticas viradas para o crescimento, outra dizer que há alternativa a algum corte em salários e pensões. Para Trigo Pereira, essa alternativa não existe e uma decisão do Constitucional que impedisse in limine quaisquer cortes dessa natureza seria errada e insustentável.

8- Nesta entrevista a José Bastos, na RR, Bernardo Pires de Lima diz que não foi propriamente a diplomacia portuguesa, ou Portugal, a ganhar com a estratégia que esteve subjacente ao "sim" português à Cimeira das Lajes, mas dela houve um vencedor claro como o futuro provaria: José Manuel Durão Barroso.

9- Tem toda a razão João Rodrigues, no Ladrões de bicicletas: não nos iludamos quanto ao posicionamento ideológico deste Governo. Além de João Miguel Tavares, também Sarsfield Cabral, no Sol, esgrimiu a tese de que não se trata de um governo liberal, o que, manifestamente, não colhe.


Subsídios para um dicionário de ideias políticas e morais (III)


Pietas: A pietas define-se habitualmente como um sentimento de obrigação para com aqueles a quem o homem está ligado por natureza (pais, filhos, parentes). Quer dizer, por conseguinte, que liga entre si os membros da comunidade familiar, unidos sob a égide da patria potestas, e projectada no pretérito pelo culto dos antepassados. Está, pois, firmada nos sentimentos religiosos dos Romanos (tinha um templo na Urbe desde 181 a.C.), os quais se sentiam protegidos pelos deuses Manes, Lares e Penates, e que pensavam que o dono da casa tinha o seu genius tutelar e a esposa era protegida por Juno.
Estabelecendo assim um vínculo afectivo entre os membros de uma família, a pietas alargava-se à divindade e acaba por compreender também as suas relações com o Estado. MEISTER dá como prova desta última asserção o momento mais solene do mito final de A República de Cícero, quando Paulo Emílio exorta Cipião Emiliano a cultivar as virtudes maiores:


Tal como o teu avô aqui presente, tal como eu, que te gerei, Cipião, cultiva a justiça e a pietas que, devendo ser grande para com os parentes e aderentes, maior ainda deve ser para com a patria.


Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de história da cultura clássica – II Volume: cultura romana, p.338-340.

Mistérios da história (III)


Marinus van der Lubbe, comunista holandês de 24 anos, chegou à Alemanha no começo de Fevereiro de 1933. Perto do fim do mês, e para criar dificuldades aos nazis, provocou em Berlim diversos incêndios de pouca importância. Tem-se afirmado que Lubbe era um débil mental ou um joguete dos nazis, ou que não poderia ter lançado fogo ao Reichstag sem ajuda – mas as provas sugerem que, quando ele foi capturado no edifício em chamas e confessou livremente haver posto o fogo, estava a falar inteiramente verdade (…) Se os nazis tivessem arquitectado o plano de fogo, com certeza não teriam deixado de condenar todos os acusados (…) A sua execução foi ilegal, pois a lei que aplicava a pena de morte para os casos de fogo posto só foi promulgada depois do incêndio do Reichstag, mas nessa altura as ilegalidades deste tipo eram totalmente ignoradas.

Obra colectiva, de vários autores, Os grandes acontecimentos do século XX, Selecções do Reader’s Digest, 1979, p.238-239.

Da modernidade como "cultura da separação" (II)


"Do ponto de vista mais especificamente cristão, uma posição de secularização radical pode conduzir - e, de facto, muitas vezes conduziu - por um lado, à impotência do Evangelho frente a sistemas políticos violadores dos direitos humanos, em nome da autonomia do contexto político; por outro lado e como reverso da medalha, a um fideísmo crasso, em nome da autonomia do contexto crente"
João M. Duque, Dizer Deus na pós-modernidade, p.114.

sexta-feira, 22 de março de 2013

A 'modernidade líquida' e a crise da 'Paz de Vestefália'


Luís Ricardo Duarte, Zygmunt Bauman, A tirania do momento, in Jornal de Letras, número 1108, ano XXXIII, 20 de Março a 02 de Abril, 2013,p.28-29.

 

Diz que o casamento entre poder e política está perto do divórcio litigioso e que devíamos colmatar os aspectos negativos da Globalização, para fugirmos a esta modernidade líquida em que nada assenta e, como diz o poeta, tudo se transforma. Entrevista com uma das vozes mais respeitadas da actualidade.

Só visitou Portugal uma vez, há muito tempo e por breves horas. É país que não faz parte das suas memórias - a estadia não chegou para tanto - mas o mesmo não se pode dizer da sua literatura. Zygmunt Bauman, 87 anos, destacado sociólogo da actualidade, tem em José Saramago um dos seus escritores “mais amados”. “Li todos os romances dele a que consegui deitar a mão e a notícia de que ele não mais escreveria foi um terrível golpe para mim”, diz-nos já no final desta entrevista por email(s) a propósito da sua presença no Festival Literário da Madeira, que se realiza de 1 a 7 de Abril (ver notícia na pp 3) e do lançamento entre nós de Europa Líquida, um série de entrevistas com Giuliano Battiston (ed. Nova Delphi). “Tenho uma grande dívida para com Saramago. De uma dúzia das suas obras-primas aprendi mais sobre os mistérios da condição humana, dos seus desejos, vitórias e derrotas, do que com centenas de eruditos estudos sociológicos”.
A esses mesmos mistérios, quando vividos em sociedade, tem dedicado Zygmunt Bauman a sua obra. E desde a experiência da II Guerra Mundial aos efeitos da Globalização, o tempo que lhe coube viver nunca deixou de o surpreender. Por isso, brinca: “Ao longo da minha vida profissional, o mundo nunca falhou em despertar novas ideias e interpretações... O tempo presente não é excepção”.
Zygmunt Bauman nasceu em 1925, em Poznan, na Polónia. Ensinou durante vários anos na Universidade de Varsóvia, de onde foi afastado em 1968. O exílio foi a única solução para continuar a desenvolver o seu trabalho académico. Passou por vários países, até se fixar em Inglaterra, onde leccionou Sociologia durante 20 anos na Universidade Leeds, sendo hoje seu prof. emérito. Publicou numerosos ensaios sobre o Holocausto, a Modernidade e a sociedade contemporânea. A partir do ano 2000, muitos dos seus trabalhos passaram a ser dominados pelo conceito de “Modernidade Líquida”, por si cunhado, que parte do princípio da volatilidade das decisões e dos objetivos que perseguimos.
Na sua passagem por Portugal talvez fale dos temas que agora o ocupam: “As novas formas e papéis de vigilância impulsionados pela nossa atual obsessão pela segurança” e “a verdade ou a falsidade de uma ideia insistentemente disseminada após o recente colapso dos bancos e do crédito: que a riqueza de poucos beneficia todos nós... ”.

Jornal de Letras: Diz que são as perguntas certas que fazem a diferença entre confiar no destino e perseguir um alvo. Qual a pergunta certa para os tempos conturbados que estamos a viver?

Zygmunt Bauman: À medida que a confiança nas instituições políticas (partidos e suas representações parlamentares e governamentais) se evapora, a grande questão para a qual se procura urgentemente uma resposta é “Quem vai fazer?” e não tanto “O que deve ser feito para melhorar a sociedade?”. Enquanto a primeira não encontrar resposta, a segunda parecerá a muitas pessoas uma dúvida ociosa e indigna de ser levada a sério.

E há quem faça essa pergunta?

Se não por palavras, pelo menos por atos. Por toda a parte as pessoas estão a fazer experiências e a procurar formas alternativas de acção colectiva. Uma dessas formas é o Movimiento de Los Indignados, outra são as iniciativas cooperativas locais (urbanas) e outra ainda são os projectos de “slow food” e “citta slow”. Também se tem testado as possibilidades de novas mobilizações políticas fornecidas pela tecnologia digital. A dificuldade é que nenhuma dessas experiências produziu resultados conclusivos.

A busca por respostas está num estádio razoavelmente inicial.

 

Essa procura de alternativas está relacionada com o divórcio entre o poder e a política que tem identificado nos seus ensaios?

Claro que sim. Esse divórcio é sem dúvida o cerne da questão. Por um lado, deixa-nos com poderes emancipados de todo ou da maioria do controlo político. Por outro, deixa-nos a política esvaziada de todo ou da maior parte do poder (entendendo-se “poder” pela capacidade de fazer coisas, e “política” significando a capacidade de decidir o que precisa de ser feito).

 

Viveremos então numa ditadura económica?

Esta é uma ditadura sem ditadores... A economia está “desregulada”, tem múltiplos centros, corre atrás de oportunidades efémeras, voláteis e fugazes de lucro em vez de ser guiada por um objetivo bem definido e constante. Os governos, limitados aos seus territórios, pouco mais podem fazer do que tentar aliciar esses capitais nómadas a permanecerem durante mais algum tempo no interior das suas fronteiras, prometendo-lhes boas oportunidades.


O consumidor usurpou o cidadão?

Não sei. O que sei é que o primeiro-ministro britânico John Major foi o autor de “uma carta do cidadão” que definia a cidadania como satisfação com os serviços prestados pelo Estado em vez de uma participação activa na modelação das políticas estatais... E como se está a subcontratar a generalidade das funções que o Estado costumava ser obrigado e queria desempenhar, entregando-as às forças de mercado sem controlo político, os cidadãos serão levados a esperar cada vez menos serviços...

 

Como vê a opção pela austeridade como saída para a crise?

A “austeridade” é um código (ou designação politicamente correta) para fazer cair os custos das razias perpetradas pela economia desregulada (“libertada” em terminologia politicamente correta) nos ombros dos sectores menos protegidos, e por isso mesmo mais vulneráveis, da população. A maior parte do investimento feito para responder à crise foi apropriado pelos 10% do topo (ou talvez mesmo o 1% do topo), enquanto o resto de nós enfrenta quedas constantes nos rendimentos e a incerteza do futuro. A “austeridade” não tem a ver com o aumento da riqueza nacional, mas com a sua redistribuição e com tornar os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

 

A MODERNIDADE LÍQUIDA

Que papel pode desempenhar a sociologia no nosso tempo?

O nosso tempo é, entre outras coisas, de uma profunda “individualização”: todos assumem/esperam/empurram para sermos os nossos próprios parlamentos, governos e tribunais supremos. Esta “obrigação social” é uma tarefa incrivelmente difícil, porque existem inúmeras forças e mecanismos que, apesar de serem difíceis de examinar a partir do ponto de vista da experiência individual, influenciam profundamente as escolhas de cada um. A sociologia vem em nosso auxílio, trazendo o conhecimento que tantas vezes é preciso para transformar as nossas vidas em algo com mais significado e mais gratificante.

 

Em 2000, criou o conceito de modernidade líquida. Ele continua atual?

Talvez hoje seja ainda mais actual. Porque a velha ordem de distribuição da soberania, assente no Território, Estado e Nação, está neste momento moribunda. E o casamento aparentemente inquebrável entre o poder e a política, que referíamos há pouco, está a terminar em separação com perspetiva de divórcio. A soberania já não se encontra ligada a nenhum destes elementos ou se ainda se mantém é de uma forma muito ténue. A soberania está hoje, por assim dizer, sem âncora, flutuante.

 

Todo o mundo é composto de mudança, canta um poeta português, Camões. A velocidade da mudança é a grande novidade da sua modernidade líquida?

A velocidade da mudança passou um limiar crucial: é agora demasiado rápida para que as formas emergentes solidifiquem em permanência ou mesmo em semi-permanência. Já não perseguimos sistematicamente objetivos fixos e pré-designados; vivemos sob a tirania do momento...

 

Há a ideia do fim do emprego para a vida. Isso também se aplica às crenças e acções individuais? O que mudou com a modernidade líquida?

A gravidade dessa preocupação foi algo atenuada, hoje em dia, com a substituição da ideia de pertença pelo processo contínuo e vitalício de re-identificação e re-invenção. Para um número crescente de indivíduos, a preocupação principal é: como encaixar um sem fim de vidas entre o espaço que medeia o nascimento e a morte? Ou: como substituir uma comunidade para sempre fixa por uma série de “redes” simultâneas e sucessivas?

 

Aplicou também o termo líquido ao amor e ao medo. Porquê?

Os nossos medos são “líquidos” na medida em que flutuam livremente sem itinerário fixo, de uma ilha ou um porto para o outro, nunca deitando âncora durante muito tempo. O comportamento amoroso, antes pensado para durar “até que a morte os separe”, é semelhante - serpenteia impulsionado pelo conflito entre valores igualmente indispensáveis e altamente desejáveis: a segurança e a liberdade... A fortificação de uma relação amorosa significa, afinal, a hipoteca de um futuro que se crê / espera que traga novas oportunidades de encantamento, que o presente amor-compromisso impedirá que se aceite. Muitos parceiros-de-amor preferem manter os laços fáceis de desatar. Por outras palavras: manter as suas opções para sempre abertas.

 

É curioso porque também tem identificado uma tendência oposta, não no amor, nas na vida em sociedade. A maior preocupação com a segurança em detrimento da liberdade.

Liberdade significa correr riscos. E a ascensão das liberdades individuais, antecipando mais riscos individuais, é sentida por muitos como exposição aos caprichos do destino em oposição à defesa dos próprios direitos. A segurança da posição social e a capacidade de prever os efeitos das próprias acções - condições sine qua non da defesa dos próprios direitos e do controlo sobre a própria vida - estão em grande escassez.

 

A GLOBALIZAÇÃO NEGATIVA

A Europa nunca viveu tantos anos em paz. Esta crise revela as fragilidades do sonho europeu?

A crise tem revelado a fragilidade das estruturas construídas até agora para concretizar o sonho europeu... Ainda sofremos o peso da Paz de Vestefália, de 1648, que segundo o princípio “cuius regio eius religio” atribuiu soberania plena – inalienável e indivisível – aos soberanos de cada unidade territorial política. É uma soberania cada vez mais fictícia no nosso mundo globalizado, mas apaixonadamente defendida. Por isso, somos confrontados com política (de Bruxelas e do Conselho Europeu) sem política. Ou com a inanidade do convite aos especuladores monetários que é esta moeda única gerida por 17 ministros das finanças “autónomos”.

 

É por isso que fala de uma globalização negativa?

A globalização “negativa” é a globalização já conseguida de capitais financeiros e de investimento, comércio, informação, criminalidade, terrorismo, tráfico de drogas e de armas - todos unidos na capacidade de ignorar as fronteiras políticas e de depreciar as leis locais e os valores locais estimados, bem como a sua capacidade de resistir a todo e qualquer controlo político. “Positiva” seria a globalização de uma instituição política capaz de alcançar o que a “globalização negativa” rejeita: restrição e controlo...O novo casamento do poder e da política requer que se complemente a globalização negativa com uma globalização positiva, o que até agora não existe ou é manifestamente insuficiente.

 

Com a globalização passámos também, como diz, para uma condição de diáspora. Quais as consequências desta realidade?

A diasporização do planeta cria uma enorme tensão, uma vez que os problemas que gera já não podem ser resolvidos pela “assimilação” dos migrantes, como se esperou nos primeiros estádios da modernização. Os recém-chegados pretendem fixar-se nos países mas não querem abandonar as suas identidades separadas, enquanto os nativos temem que a sua própria identidade seja erodida ou dissolvida. Precisamos, por isso, de desenvolver novas capacidades e práticas, já que viveremos (coexistindo em paz e cooperando com benefícios mútuos) permanentemente num ambiente étnico, religioso, linguístico é culturalmente variegado.

 

Não são as crises que mudam o mundo mas a nossa reação a elas. Que mudanças podemos antever a partir da reação atual?

Prever o futuro é coisa de cartomantes. Os sociólogos responsáveis deviam precaver-se contra isso... Afinal, o futuro não existe enquanto não se transformar em presente, a sua forma depende das nossas escolhas. Apenas posso dizer o que considero ser indispensável e inevitável a longo prazo: uma profunda reconsideração do nosso modelo de vida baseado no crescimento económico infinito e no crescimento inesgotável do consumo. Este modelo promove a rivalidade e degrada a cooperação, cultiva a desconfiança e a inimizade em vez da solidariedade. Ao mesmo tempo, traz consequências devastadoras para o planeta - o nosso lar comum. De forma geral, é insustentável.