segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Cuidado com as imitações


Revela Vítor Matos que durante largo tempo a desenvoltura patente nas notas de Marcelo, no Exame, da TSF, era pura ilusão de...audição. Tudo o que o Professor dizia vinha, afinal, escrito, muito preparado, e era no segredo da leitura acelerada, gingona, coloquial - mas sempre leitura, só anos depois substituída por pequenas anotações - que nos passava a ideia de espontaneidade no comentário. Tenho que treinar para as segundas-feiras on air.
 
 
 
 

Do "desmame da ego trip"


No espaço de duas semanas, Nuno Morais Sarmento deu duas bem interessantes entrevistas, aos dois semanários políticos portugueses. Na primeira delas, ao jornal SOL, bem para lá de, com certa brutalidade - por vezes, característica -, ter elaborado o soundbite do ano - "Os EUA tiveram o 11 de Setembro, nós tivemos o 7 de Setembro" [por referência ao discurso do PM, nessa data, sobre a TSU] -, desenhou um verdadeiro programa alternativo (ao governativo), com os já célebres 4 mil milhões a passarem, no seu desenho, ao lado de cortes no Estado Social, mas a envolveram mais reformas no poder local - extinção de todas as freguesias -, nas Forças Armadas - adaptando-as ao já longínquo fim do Império -, nos Negócios Estrangeiros - na rede diplomática -, na privatização de funções que entende não fazerem sentido (estarem) no Estado. Que tal seja preferível às anunciadas mexidas no Estado Social, dependerá tanto, por certo, da observação dos detalhes das propostas, quanto da ideia de cidade que cada um albergue.
Ao Expresso, saudado pela entrevistadora como tendo saído do Executivo (de Durão Barroso) com boa reputação, "que não tinha quando entrou", além de reconhecer a impreparação do governo em 2002 entrado em funções - "Se estávamos preparados para assumir o poder conhecendo as contas do país? Não estávamos. Isso repete-se. A impreparação por falta de consciência da base de partida, repete-se" -, no que não deixa de constituir um sério alerta para o nosso presente colectivo, e após se juntar ao (bom) grupo dos que entedem que "reflexão política [em Portugal] é quase inexistente. Não há livros, tirando as autobiografias e as colectâneas de discursos (...) um exercício conceptual sobre o modelo económico? Não existe. Não somos um país de grandes pensadores. Vou a França a qualquer livraria vejo todos os meses 7, 10 livros novos de pensamento político" (p.50-56), entrou em curioso momento introspectivo e, com a frontalidade de sempre, deixou concretizada uma imagem impressiva de como o poder pode ser afrodisíaco, viciante, e quanto pode deslumbrar na persona que permite/impõe (?) fabricar: os irmãos de Morais Sarmento, conta o próprio, quando este saiu do Governo Barroso, não queriam falar com ele "porque [eu] estava numa ego trip. O desmame da personagem, do ministro, demorou dois anos". 
 
 
P.S.: Curioso o facto de, em ambas as entrevistas, nunca Morais Sarmento ter sido questionado, directamente, sobre a sua participação, no PSD, no pós-Passos. Ele que juntamente com Paulo Rangel, Rui Rio, Jorge Moreira da Silva, ou Miguel Macedo não deixará - caso a crise deixe inalterado o panorama partidário português - de fazer parte de um potencial totobola laranja (que a execução orçamental, o T. Constitucional, o parceiro de coligação, ou o PR, poderá colocar sobre a mesa mais cedo que o previsto).
 
 
 

O golo do ano, em Portugal

 
 
"Dos tais casos que, como escreveu Galeano sobre Zico, até os cegos lhe pediam assombrados: Jackson, conta-me esse golo!"
 
Luis Freitas Lobo, A Bola, 26/12/12
 
 


domingo, 30 de dezembro de 2012

Possibilidades de leitura


 
* Como que oferecendo pequenos fascículos de alguma da mais marcante Filosofia do séc.XX, Rui Bebiano, começa por propor, no ciclo Filosofia ao domicílio, no seu A terceira noite, 'A condição humana', de Hannah Arendt.
 
* Homenageando a heterodoxia de Manuel Maria Carrilho, João Gonçalves, anota, no seu Portugal dos pequeninos, um dos acontecimentos editoriais do ano, em Portugal (no fim-de-semana, em que Morais Sarmento, em entrevista a Clara Ferreira Alves, no Expresso, falava, justamente, na ausência de pensamento político sistemático, no nosso país).
 
* O futuro do crescimento económico, em um mundo tecnologicamente avançado, por Paul Krugman, no ElPais. Sobre o tema, reflectiu, igualmente, com interesse Leonel Moura, ao longo do ano, e nomeadamente este fim-de-semana, no Jornal de Negócios.
 
* Francisco Seixas da Costa faz justiça a Nicolau Santos, no seu Duas ou três coisas. 
 
* Jean-Marie Colombani e as dúvidas sobre Hollande e a sua política fiscal, no ElPais, num fim-de-semana em que a sua taxa confiscatória de 75% de imposto foi chumbada pelo Constitucional.
 
* Da clara compatibilidade entre fé e ciência fala um não crente, Peter Higgs, no ElMundo, recusando fundamentalismos ateus.
 
* Thatcher e o Estado Social, por Alan Travis, no The Guardian.
 
* Julio Maldonado, 'Maldini', mostra no As que a sua colecção de DVD de futebol talvez supere a de Rui Malheiro.
 
* César Luis Menotti chamou-lhe o 'mais bem guardado segredo' do futebol mundial. Ramón Bessa, no ElPais, dedica uma excelente e justa prosa a Busquets.
 
* O momento, e o espaço de informação, da RTP Informação, em que António Guterres assumiu a sua quota-parte de responsabilidade do estado do país.
 
* 2012 foi o ano de celebrar as bodas de prata da mítica final da Intercontinental, na neve de Tóquio. O carismático Mlynarczyk evocou o momento único, no Maisfutebol.
 
* Refutando as teses de que as taxas de aborto diminuiram, com as modificações da lei, estas incrementaram-se, substancialmente, em Espanha, últimos números conhecidos, em 2012, como demonstra esta peça da Cadena Ser.
 
* Pedro Laíns dá o devido valor ao tema da semana, que gerou uma inexplicável euforia, em alguns sectores.
 
 

2012, o ano do caranguejo


Houve retrocessos sociais de grande magnitude, em Portugal, em 2012. Indiscutivelmente, um dos principais traços do ano que agora termina.



Beveridge, nascido em 1879, é um produto das aspirações reformistas vitorianas. Como vários contemporâneos seus, foi para Oxford e tomou parte em debates sobre os problemas da prostituição, do trabalho infantil, do desemprego, da falta de habitação, etc. Ao deixar Oxford, dedicou-se a trabalho de caridade com o fito de vencer essas patologias da sociedade industrial. Em muitos casos, a palavra «cristão» figura nas organizações a que ele e os seus amigos dedicavam as suas energias. O mesmo se passava com Clement Attlee, quase seu contemporâneo, o futuro primeiro-ministro trabalhista que iri pôr em prática ideias de Beveridge.
Para vermos de onde estas vinham, devemos ter uma ideia da história do que agora chamamos política social em Inglaterra. A Lei dos Pobres do reinado de Isabel I e o sistema Speenhamland da última década do século XVIII tinham fornecido teoricamente um apoio caritativo irrestrito aos indigentes e indefesos, pagável através de taxas locais, desde que os beneficiários se encontrassem no distrito que era obrigado a sustentá-los. Os pobres, portanto, não podiam ser forçados a entrar num albergue, nem forçados a trabalhar; tinham de receber os meios para o seu sustento.
A Nova Lei dos Pobres de 1834 tornava obrigatório o trabalho. Para obter auxílio, era necessário ir ao albergue local e trabalhar por um salário inferior ao praticado no mercado livre do trabalho. A intenção era evitar que as pessoas se aproveitassem do auxílio à pobreza e, também, tornar muito claro que havia algo de indigno em estar reduzido a essa situação. A Nova Lei dos Pobres distinguia assim entre os pobres ditos dignos e indignos, criando portanto categorias que não respondiam à realidade económica. E forçava mesmo as pessoas à pobreza, pois estas tinham primeiro de esgotar os seus recursos antes de se tornarem elegíveis para assistência pública ou local. A lei agravava o problema que aparentemente se destinava a tratar. A Nova lei dos Pobres foi desde cedo encarada como uma mancha no rosto da sociedade inglesa. Ela estigmatizava aqueles que, sem culpa disso, haviam sido temporariamente postos de lado pelo capitalismo.
O que une Beveridge e Attlee e que, por fim, os liga a reformadores de proveniências muito diferentes é a obsessão pela reforma da Lei dos Pobres.

Tony Judt, Pensar o século XX, p.338/339.

Da história particular à Históra universal


«Mas começar o livro em 1945 permite-te não escrever sobre o assassínio em massa dos judeus» (p.50), atira  Timothy Snyder a Tony Judt, sobre o ponto de partida - de historiador, mas também pessoalíssimo/íntimo ponto de partida - do monumental Pós-guerra.
 
 

Livros do ano: "Pensar o século XX"

Pensar o Século XX

A escolha dos críticos do Babelia, do ElPais, para melhor livro do ano, já tinha passado - e continuará a ser presença - neste blog. Pensar o século XX é a mais recente obra publicada em português, de Tony Judt (1948-2010). Um historiador consagrado, um refinado leitor, um cidadão empenhado, um professor com quem, em todos os livros, não cessamos mesmo de aprender. Um autor de referência cá em casa.
 
 
 
Pensar el siglo XX
Nadie de los que han votado Pensar el siglo XX como el mejor libro del año lo ha hecho por considerar las tristes circunstancias en las que se produjo y fue escrita esta conversación de Tony Judt, un enfermo de esclerosis lateral amiotrófica que tenía pocas oportunidades de verla impresa, y su colega y admirador Timothy Snyder. En esa misma época angustiosa había surgido también un breve pero intenso panfleto sobre la crisis de civilización que todavía nos aqueja, Algo va mal (2010), y una sugestiva autobiografía ordenada por ámbitos temáticos, El refugio de la memoria (2010), ambos dictados por el autor y transcritos por manos amigas. Lo que sucedió es que todos reconocimos en estos libros la lucidez, la libertad y la inteligencia que nos habían deslumbrado en los dos inmediatamente anteriores, la síntesis histórica sobre la historia europea posterior a 1945, Posguerra (publicado en 2005, traducido en 2006), con enorme éxito internacional, y los brillantes ensayos de Sobre el olvidado siglo XX (2008), escritos casi todos para las exigentes páginas de The New Yorker.
Leer algo que se ha escrito con la contumaz voluntad de un testamento impresiona por fuerza. Pero, desde un comienzo, Tony Judt había observado la experiencia de su propia vida como un objeto de historia y en estos libros postreros se aprecian las dotes intelectuales que siempre tuvo: la vehemencia y la brillantez expresivas, la capacidad de evocación de lo concreto y revelador, la legítima soberbia de quien puede ser osado o impertinente, pero sin rozar la autosuficiencia o la pedantería. En la conversación con Snyder se habla a menudo de la doble condición de insider y outsider como formas de socialización y disposiciones de ánimo, y se infiere que Judt se sabía beneficiario de las ventajas de ambas: como historiador fue un insider con resabios de outsider (formado en Cambridge, enseñó muy tempranamente en Reino Unido y en Estados Unidos, pero siempre fue bastante rebelde a consejos, actitudes y supersticiones académicas) y como ser humano fue un outsider con voluntad de insider (fue un judío británico de clase media que cursó estudios gracias al excelente sistema de becas, que siempre echó de menos, y supo lo que debía a las tradiciones pedagógicas británicas). En El refugio de la memoria, el precioso capítulo dedicado a ‘Joe’, su primer profesor de alemán, deja muy claro el orgullo por el propio esfuerzo. Y otro apartado, ‘Palabras’, consigna la deuda con la retórica y la exactitud verbal que aprendió en el King’s College. Y nunca se sintió incómodo por haber sido —como sus compañeros becarios— “al mismo tiempo radicales y miembros de una élite. Es la incoherencia de la meritocracia: dar a cada uno su oportunidad y luego privilegiar a los que tenían talento”. Tampoco resulta fácil clasificarle en virtud de otras decisiones vitales. Se dedicó temprana y brillantemente a la historia intelectual de la Francia moderna, pero nunca estuvo cómodo en el mundo ceremonioso y mandarinesco de las grandes Écoles, donde tuvo la oportunidad de completar su formación. Por edad vivió la conmoción de 1968, pero no sintió el atractivo de la revolución, ni militó en el comunismo, porque en esos años prefirió ser sionista. Y, de hecho, su gran descubrimiento intelectual se produjo, ya en los noventa, cuando empezó a leer (y logró hacerlo en sus lenguas de origen) a pensadores disidentes polacos y checos a los que sus coetáneos anglosajones y franceses habitualmente desdeñaban.
El análisis de esta trayectoria marca el sistema conjuntivo que pactaron Snyder y Judt para la escritura de Pensar el siglo XX. El arranque de cada capítulo es un memorándum autobiográfico de Judt que plantea lo sustancial del tema y que va dando paso a las matizaciones, apostillas o sugerencias de su colega y, al cabo, a un diálogo animado entre dos hombres de distinta edad (el entrevistador es veinte años más joven) y biografía (Snyder es un norteamericano de Ohio), aunque ambos compartan el mismo interés por la cultura centroeuropea y la misma aversión a los dos totalitarismos del siglo XX, el fascismo y el comunismo. Snyder escribe al frente de su prólogo que “este es un libro de historia, una biografía y un tratado de ética”, porque recuerda, sin duda, que la definición de historiador que más complacía a Judt era aquella que los hacía “filósofos que enseñan mediante ejemplos”. En las páginas de los capítulos 7 (‘Unidades y fragmentos: historiador europeo’) y 8 (‘La edad de la responsabilidad: moralista estadounidense’), que se refieren respectivamente a la escritura de Posguerra y a la participación en los debates políticos de las revistas norteamericanas de los últimos diez años, encontraremos a un defensor del concepto clásico de la historia (“la historia es un relato moral”), que prefiere como arrimo la referencia de las Humanidades a la de las llamadas Ciencias Sociales y que se confiesa poco amigo de las corrientes poshistóricas de patente francesa, o de las surgidas al calor de los Cultural Studies. Y a quien no le quita el sueño la querella de hogaño entre la Historia profesional y la Memoria histórica, concebida como una suerte de democratización de la primera: “Son hermanastras que se odian —apunta en sus conversaciones— y son inseparables porque comparten una herencia indivisible”. El objetivo de la Historia es la dilucidación de la verdad y no un acto personal de reconciliación o de querella con el pasado: la “verdad de la autenticidad”, le cuenta a Snyder, “es distinta de la verdad de la honestidad. Del mismo modo, la verdad de la caridad es diferente de la verdad de la crítica”.
No le gustaba que la Historia se haya arrogado la función de corregir el presente, mediante la lectura masoquista del pasado. Como historiador de los acontecimientos del siglo XX, pudo tener la tentación de hacerlo pero la conjuró porque no creyó (como escribió en el prefacio a Sobre el olvidado siglo XX) que aquella centuria fuera solamente “una Cámara de los Horrores Históricos de utilidad pedagógica cuyas estaciones se llaman Múnich o Pearl Harbor, Auschwitz o Gulag, Armenia o Bosnia o Ruanda, con el 11 de septiembre como especie de coda excesiva, una sangrienta posdata”. Pero en los artículos de ese libro no había tenido inconveniente en manifestar su antipatía por la megalomanía obstinada de Juan Pablo II, por la fatuidad vana de Tony Blair, por la soberbia de Jean-Paul Sartre, por los silencios del gran historiador Eric Hobsbawn, a la vez que exponía su consideración negativa de la sociedad belga de hoy y de los errores que parecen presidir los rumbos de la historia israelí después de 1967 y de la rumana de los últimos cien años. En las conversaciones con Snyder, leemos que lo esencial del legado del último siglo no fueron las guerras y los conflictos de identidad nacional, sino que “durante gran parte del siglo nos dedicamos a debatir, implícita o explícitamente, sobre el surgimiento del Estado”, algo que, en puridad, fue herencia del fecundo siglo XIX y desembocó en la opción por “Estados democráticos y constitucionales fuertes, con una fiscalidad alta y activamente intervencionistas, que podían abarcar sociedades de masas complejas sin recurrir a la violencia o la represión”. Y, a despecho de su proclamada renuncia a aleccionar, Judt concluye: “Seríamos unos insensatos si renunciáramos alegremente a ese legado”.
Estas briosas afirmaciones y la nostalgia del pensamiento de quien las dijo es lo que —a mí, cuando menos— me han llevado a considerar estas conversaciones de Judt y Snyder como el mejor libro del año pasado. Hubo otros excelentes, sin duda, pero ninguno nos habla tan claramente de la estirpe rahez del poder financiero y de la estupidez de sus corifeos políticos y periodísticos, dedicados al resignado masoquismo (los sacrificios nos harán dignos de la felicidad futura) y al cuidadoso desmantelamiento de aquello que, desde hace más de cien años, tanto ha contribuido a la libertad y la dignidad de los seres humanos.
José-Carlos Mainer, ElPais, 29/12/12.
 
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Da polícia, dos polícias


Até há pouco mais de meia-dúzia de anos, provavelmente as notícias relacionadas com o concreto da vida de um polícia e sua preparação/formação, ter-me-iam passado, rigorosamente, ao lado. Não podemos ir a todas, reconhecemos a importância e mérito do muito a que não podemos prestar atenção - porque, claro, seleccionamos, para o nosso tempo, outros rumos, outras actividades, outros gostos e interesses - e convivemos, com naturalidade, com o humaníssimo facto. Acontece muitas vezes, porém, também: a proximidade pessoal faz-nos interessar por temas, profissões, agrupamentos musicais, filmes, livros, legislação ou reportagens de jornal que, anos antes, juraríamos a pés juntos, nada terem a ver connosco.
Percebi, então, nessa descoberta (pessoal) as condições péssimas de habitabilidade com que muitos dos nossos polícias se deparam; a depauperização (económica) que tantos enfrentam; a precocidade com que são lançados às feras e o seu não raro desenraízamento cultural nas zonas onde trabalham; as fardas por si pagas; as esquadras em decadência; o deficiente treino com armas; a obsolescência de muitas destas. Talvez algumas destas situações possam ter conhecido, entretanto, alguma evolução, mas, convenhamos, os tempos não permitem demasiado optimismo. Li toda a legislação que conformava a actividade das nossas forças de segurança e percebo, hoje, até, que alguns dos atractivos - nomedamente, familiares - à época ainda existentes, passaram à categoria de privilégios...e desapareceram. Fui ler as estatísticas: os polícias apresenta(va)m uma menor esperança média de vida face à média nacional, uma taxa de divórcios muito superior à média, idem aspas no que diz respeito ao suicídio...Acabara de sair, nessa altura, este premiado ensaio sobre a função policial (e sua relação com o poder): entre outras coisas interessantíssimas da história francesa, fiquei a saber que no símbolo policial há um olho, um desconfiado olho, e olho aberto!, ou um olho no burro e outro no cigano é o que se reclama, afinal, da personalidade (toda; não apenas - ingenuamente não se pense na não contaminação das esferas - na fisionomia profissional) do polícia.
Não foi por mim, mas o caso tão próximo não acabou polícia. Ainda bem. Que é como quem diz, igualmente: tire-se o chapéu a muitos dos que estão no terreno. Para mais, fiquei hoje a saber, leitores de Kant na academia.
 

A polícia e Kant


Bom de ler, na reportagem do Público, na/acerca da Academia de Polícia, um oficial a interrogar-se, retoricamente, sobre como poderia imaginar-se mandar um polícia para o terreno sem antes lhe dar Kant a ler - ficámos a saber que faz parte dos actuais currículos, na formação de um polícia (português). A prova de que muitos mais do que outrora - "há dez anos teria sido muito pior", garante o formador - verão na pessoa um fim (em si mesmo) e nunca um meio - nomeadamente, de testar a aprendizagem no treino físico... - estará no recente comportamento policial, mesmo perante reconhecidas situações de especial stress e desafio ao auto-controlo. E apesar das (sempre lamentáveis) excepções.
 
 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Documentários para ver até ao fim do ano: 'Estética, propaganda e utopia'

Estética, Propaganda e Utopia no Portugal de António Ferro
 


Foi já no último passo de Estética, Propaganda e Utopia, um documentário de Paulo Seabra, produzido por Marta Seabra, com pesquisa e coordenação de  Maria Antónia Linhares de Lima e Paulo Seabra, que a RTP2 exibiu, em duas sessões, neste mês de Dezembro, dedicado à figura de António Ferro, que Fernando Guedes sintetizou aquela que foi a mais marcante das intervenções na vida pública nacional por parte de António Ferro, a sua colaboração com Salazar e o Estado Novo: “o acordo tácito entre estes dois homens [Salazar e Ferro], durante uma década e meia, foi proveitoso para ambos”. Para António Ferro, porque de outro modo nunca teria os meios de que dispôs à frente do Secretariado Nacional da Propaganda para colocar em prática a sua “política do espírito” (inspirado no termo e suas ambições, cunhados por Paul Valery); para Oliveira Salazar, porque a informação à população do que pretendia fazer – não para que esta, necessariamente, concordasse, mas para que fosse obedecido – era um dos seus objectivos, e os media, no início da década de 30, do século passado, muito escassos.
Múltiplos, plurais na proveniência científica/profissional e ideológica, foram os testemunhos recolhidos neste trabalho. Creio, contudo, que enquadramentos estritamente negativos do personagem em apreço não sobejaram, porventura com a excepção do depoimento do crítico de arte Rui Mário Gonçalves. Não que defeitos, comportamentos negativos, práticas censuráveis não fossem, por outros dos entrevistados, identificadas. Mas aí sempre surgiam como traços de um horizonte mais amplo em que a personalidade era enquadrada, não resultando propriamente, bem pelo contrário, ao fim e ao cabo, da selecção testemunhal apresentada, o tom mais negro ou corrosivo possíveis.
Nas duas partes de que o documentário se compõe – tal como observado na RTP2 – cabe a Eduardo Lourenço a conceptualização do mundo da vida em que se exige apresentar o (assim) cinematograficamente – de alguma forma - biografado. Uma frase destacada de Verbo Escuro expõe do que se trata: “o futuro é a aurora do passado”. Cura-se, como Todorov também reflecte, de assim dizer a reciclagem a que o passado sempre está sujeito, com a apropriação que cada tempo – com as suas idiossincrasias e novos conhecimentos (também do passado) – faz dele. Não é, convenhamos, um ponto de partida de somenos para compreendermos a figura e a actividade de António Ferro.
Ele que, aos 17 anos, edita o seu primeiro livro de poesia e que, pouco depois, aparece como “editor responsável” do Orpheu, para gozo de Pessoa: o seu trabalho resumiu-se, aqui, porém, à angariação de assinaturas; nada escreve em tal publicação, conta o historiador José Barreto.
Em 1895 conhece Mário Sá-Carneiro; desde cedo se relaciona, pois, com os futuros modernistas.
É Sidónio Pais quem desperta Ferro para a política: no testemunho do próprio, “descobri o sentido poético da palavra chefe”, ou, no dizer de José Augusto-França tratava-se da “necessidade de [António Ferro] se ligar a uma figura mítica, a um ditador”. Destacar-se-á, então, o biografado pelas reportagens e entrevistas com grandes figuras (muitas das quais ditadores): Papa Pio XI, Mussolini, Garibaldi, Primo de Rivera…até Hitler – embora, neste caso o documentário o não refira – lhe responde a três brevíssimas questões sobre o seu programa (isto, ainda antes da II Guerra Mundial).
Fernando Guedes evoca, então, Ezra Pound, o poeta que “hesitava entre Lenine e Mussolini”, o homem que se comprometeu com o fascismo, entendia que tais homens de ferro “faziam um país andar para a frente”. Fernando Pessoa, que glosara o Ferro editor do Orpheu, respeitava, porém, o Ferro repórter, o homem que conseguia furos jornalísticos, era moderno na propaganda e marketing políticos, ainda que não na literatura (segundo José Barreto).
Ferro foi crítico literário e teatral do Diário de Lisboa e, no mesmo ano, dirigiu a Ilustração Portuguesa. Viajaria por um fervilhante Brasil, estaria no Harlem, seria um admirador do jazz. “O jazz surge em Portugal com a I República”, o que se coaduna com o facto de ser “símbolo de liberdade, igualdade, supressão das hierarquias”, sentenciará João Moreira Santos. A figura de Josephine Baker alcandorava-se, á época, ao estrelato, no que ao jazz diz respeito. Ferro escreve “A idade do Jazz Band”, lá onde o jazz simboliza, ainda, a máxima celebração da vida, a aceleração, a concentração demográfica nas cidades, o surgimento do transporte aéreo, a urbanização, a importância do automóvel – o jazz a isto dará expressão. Contudo, mais tarde, a sua posição sobre o jazz, inserido no Estado Novo, será alterada. Viva-se, não se julgue, propõe Ferro: “amemos a nossa época; a nossa época não se julga; canta-se”, dirá.
A antropóloga Vera Marques Alves aborda, no documentário em causa, as exposições, na década de 1920, no Rio de Janeiro – destacando aqui o pavilhão do México – e a exposição de Barcelona “Pueblo espanhol”, como motores – especialmente esta última – da Exposição do mundo português. Arte popular, ali bebida – porque fixada, aí, a sua importância – presente no Pavilhão de Portugal, em Paris (neste sentido, Ferro “era um homem do seu tempo”, pois, repita-se, tal arte é, especialmente, valorizada então).
António Ferro casa com Fernanda de Castro e, com esta, faz recitais de poesia portuguesa, no Brasil, vencendo aí um concurso de originais, em obra escrita em co-autoria com Teresa Leitão de Barros.
Mar Alto é uma peça “apupada, aplaudida, interrompida, tempestuosa” e, em definitivo, proibida pelo Governo Civil. Em defesa de Ferro, saem nomes tão importantes como os de Raúl Brandão, Aquilino Ribeiro, Cortesão, Mário Sá, João de Barros, Pessoa, Sérgio, Raúl Proença, Claudino Gomes…
Para Fernando Dacosta, o retrato de Ferro é, ao fim e ao cabo, o de um homem que “deu mais a Portugal do que ao Estado Novo”. No entender do autor de As máscaras de Salazar, “Salazar deu conta das suas limitações: entendeu que para criar um regime que regenerasse o país, necessitava de chamar três homens: Cerejeira – para a dimensão espiritual; António Ferro – para a cultura, história e identidade; Duarte Pacheco – para a parte desenvolvimentista”. No seu testemunho, estamos em presença de um personagem “extremamente culto, que convive com toda a gente, imaginativo e com uma visão moderna do mundo” e do qual Salazar tomou devida nota a quando das entrevistas, a si feitas, por Ferro, para o Diário de Notícias.
No entender de Fernando Rosas é uma evidência que Ferro se oferece a Salazar como chefe de propaganda: “escreve no jornal sobre a necessidade de quem tratasse da fachada” do regime. O historiador afirma que Salazar “tem uma visão elitista das suas relações com as massas; era preciso informar as pessoas dos actos da governação – não era necessário que as pessoas concordassem, bastava que obedecessem”. Salazar “à partida vê com desconfiança os tambores da propaganda (…) Em 1932, não há media modernos [nem sequer a rádio]” e por isso as entrevistas nos jornais são (tão) importantes. “Forjar uma consciência nacional através da propaganda e não apenas incensar o governo (…) mudar-lhes [ao cidadão comum] o gosto, a consciência, criar o homem novo salazarista”, eis o objectivo maior de António Ferro.
Já para Adriano Moreira, António Ferro foi um interveniente “com êxito na corrente europeia da época de criar o carisma do dirigente”. Para que tal sucedesse, regista o cientista político, dá-se “uma contradição das convicções dele do ponto de vista estético e tal intervenção”, o que se explicará com “o compromisso [de Ferro] com o patriotismo: à época, ele achava essa liderança [de Salazar] importante”. Adriano Moreira é muito claro quanto ao sucesso da empresa de António Ferro: “É ele que cria o carisma do Salazar”.
O cineasta Lauro António considera que, em António Ferro, “havia preocupações cinematográficas e artísticas, mas não sei se orientadas no melhor sentido”. Seja como for, Ferro “tem um dos primeiros ensaios portugueses sobre cinema”, cinema que, para o Estado Novo, “era um vínculo para a sua política do espírito”. Mais: o líder da SPN – “máquina preparatória da obediência” (F.Rosas) – “é dos poucos que saúda o realismo poético do Aniki Bobó, de Manoel Oliveira”. Ainda no domínio do cinema, Fernando Rosas considera que A Revolução de Maio é a obra maior da propaganda do Estado Novo, tendo o seu realizador, António Lopes Ribeiro, ido à então URSS observar o trabalho de Eisenstein.
Rui Mário Gonçalves explica a ambiguidade da criação dos prémios Columbano – para uma certeza da pintura – e Amadeo Souza Cardoso – para uma promessa. Logo aqui parecia pretender dizer-se, simbolicamente, que a solidez de Columbano superava a obra de Souza Cardozo. Deste modo se procurava “calar a modernidade crítica em Portugal – a obra de Sousa Cardoso só foi mostrada em 1959”. Ferro é “mais-valia: nos contactos internacionais, na capacidade de trazer essas pessoas e fazer coincidir a sua vinda com as festas populares”. É, de resto, a um destes ilustres visitantes (franceses, no caso) que Salazar, em entrevista, assume: “pretendo que os portugueses aprendam a viver habitualmente”. Algo que, como nota a historiadora Margarida Acciaiuoli, se “torna num programa de existência”.
No âmbito cultural, ainda, registo para o facto de Helena Vieira da Silva fazer, neste período da história pátria, exposições sem qualquer resultado, nem apoio à sua obra.
António Lopes Ribeiro, com Thomas de Melo, Thom, vai por todo o país: aos mercados, a artesãos identificados, etc., para que a afirmação de Portugal, na comunidade internacional, se faça, também, pelo recurso à sua especificidade/singularidade.
A terminar o documentário, Maria Keil fala de António Ferro como “esperto e espertalhão”, que “ajudou” [a fazer coisas novas, no mundo cultural].
 
 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A década da identidade


Foi no último quarto de 2001. O 11 de Setembro ficava como um marco que mudaria o mundo. A profecia, em certo sentido pelo menos, cumpriu-se. A busca identitária teve uma indiscutível aceleração. O nós/eles, a força dos binómios e do antitético, reforçava-se de sobremaneira. O religioso assomava com particular força no espaço público como marca distintiva de uma identidade. Se a reacção ao globalismo já se traduzira, em muitos lugares, nesse entrincheiramento nas comunidades, se estas serviam de conforto em tempo de severo individualismo, a doutrina – largamente difundida mediaticamente e, por certo, bastas vezes mal compreendida – de um choque civilizacional só acrescentou a esta necessidade sentida de ter lugar num espaço colectivo (absolutamente) coerente/homogéneo. Até ao abalo da chamada crise do subprime esta (2002-2012) foi a década da – em buca da – identidade. Veremos se o abandono do político e suas visões maximalistas será definitivo, ou se, em virtude de uma crise tão profunda como aquela que vivemos numa parte do globo, reaparecerá este em força.
 
 


«O desinteresse em relação ao político é agora contemporâneo de um surto de comunitarismo e de «meandros identitários». Ao criar um vazio, a dinâmica da individualização e o desaparecimento das grandes visões ideológico-políticas precipitaram a necessidade de se identificar com comunidades particulares, étnicas, religiosas ou infranacionais. Enquanto recuam os polos de identificação de carácter universal sentidos como abstracções longínquas, os indivíduos voltam-se para as suas comunidades particulares imediatas. A identificação dos indivíduos passa cada vez menos pela adesão aos princípios políticos gerais e cada vez mais pelos referenciais da história, da cultura, do religioso, da etnicidade. Um explosão de identidades que engendra um processo de balcanização social feita de uma multiplicidade de minorias e grupos que se ignoram ou são hostis uns aos outros».
Gilles Lipovetsky, A sociedade da decepção, p.65/66.
 
 

Dos livros do ano: 'a poesia do pensamento'

A Poesia do Pensamento

Um dos livros do ano, para mim, numa recensão muito estimável de António Guerreiro:
 
 
Ao escrever sobre a “a poesia do pensamento”, George Steiner confronta-se explícita ou implicitamente com três grandes questões que atravessam a história do pensamento ocidental (como sabemos, ele tende a situar-se sempre neste nível de grande alcance e que implica as grandes sínteses). Em primeiro lugar, temos a complexa relação entre a filosofia e a linguagem, não só no sentido em que é sempre a experiência da linguagem que abre ao pensamento a pura existência do mundo, mas também no sentido para que remetia Wittgenstein, quando dizia que pensar é algo que nós só podemos fazer na linguagem e que, por conseguinte, toda a interrogação filosófica pode ser apresentada como uma interrogação sobre o significado das palavras. Em segundo lugar, temos a velha inimizade, inaugurada por Platão, entre poesia e filosofia, entre uma palavra que nasce de um polo extático e inspirado, e outra que releva do polo racional, do logos (esta última, como sabemos, abre uma cisão crítica, que é a do conhecimento; e sabemos também como a poesia, a partir do Romantismo, se abre a essa dimensão crítica). Em segundo lugar – e é aqui que Steiner se detém, muito embora fazendo necessárias incursões nos outros dois domínios – temos a questão da filosofia como um género literário ou, seguindo com mais rigor a hipótese ensaística de Steiner, o estilo e os protocolos retóricos com os quais identificamos o texto literário inerentes aos textos filosóficos.
Poderíamos estão dizer que Steiner vai contra o princípio de que há uma musa dos poetas, mas não há uma musa dos filósofos. Mas é preciso também ter em conta que um título como “Poesia do Pensamento” joga numa duplicidade, obriga-nos a ter em conta tanto o genitivo subjectivo (que se refere à poesia inerente ao pensamento). É num movimento constante entre um e outro que se move George Steiner. Trata-se então de ler os grandes filósofos da tradição ocidental como produtores de estilo, de uma retórica, conduzindo-nos assim não só ao coração da linguagem, mas também à “criatividade da razão”. Nietzsche ocupa na economia do livro e na argumentação de Steiner um lugar muito importante. Não só porque Nietzsche fornece, nos seus textos, matéria suficiente para pensar a “poesia do pensamento”, mas também porque a operação Steiner é muito nietzschiana: não se trata propriamente de insistir no nascimento do pensamento a partir do espírito da tragédia, mas no nascimento da filosofia a partir da literatura. O seu corpus é imenso, como convém a um velho humanista e erudito, cuja obra, a partir de certa altura, se inclinou para a tarefa desesperada de salvar o que, no seu diagnóstico, é uma cultura ameaçada. Esse  corpus vai dos pré-socráticos a Celan, com estações obrigatórias e prolongadas em Heraclito, em Platão, em Dante, em Hölderlin, em Hegel, Heidegger e muitos outros. E dá um especial relevo a certas relações e diálogos problemáticos entre filósofos e poetas: Hegel e Hölderlin, Heidegger e Celan, etc. Por outro lado, Steiner vai mostrar que a “poética dos géneros”, na medida em que “tanto em filosofia como em literatura, o estilo é a substância”, tem uma importância fundamental. E por isso o pensamento filosófico é sempre consubstancial a uma determinada forma literária, seja ela o diálogo, o fragmento, o aforismo, ou outra qualquer.

António Guerreiro, Atual, Expresso, 08/12/12, p.42.
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Para uma hermenêutica capaz


Um dos pontos altos do diálogo entre os dois amigos historiadores, encontra-se, em minha opinião, no exemplo muito feliz que Judt encontra para concretizar isso de a realidade ser complexa e da apropriação da mesma estar longe de ser exaurida por um único método, por um ângulo só:



Repara, por exemplo, na tal expressão controversa: «a banalidade do mal». Arendt está a escrever em termos que reflectem uma percepção weberiana do mundo moderno: um universo de estados governados por burocracias administrativas, por sua vez subdivididas em unidades muito pequenas, onde as decisões e escolhas são exercidas pela, chamemos-lhe assim, não iniciativa individual. A inacção, num tal ambiente institucional, torna-se acção; a falta de escolha activa substitui a própria escolha, e assim por diante.
Lembra-te de que Arendt publicou Eichmann em Jerusalém no início dos anos 1960. O que ela defendia ainda não era uma opinião convencional, mas viria a sê-lo num par de décadas. Nos anos 1980, era uma ideia geralmente defendida entre os especialistas da área que a história do nazismo, e mesmo do totalitarismo em todas as suas formas, não podia ser completamente percebida se a reduzíssemos a um conto de gente malévola que se dedica consciente e deliberadamente a actos criminosos visando o mal.
É evidente que, de um ponto de vista ético ou legal, isso faz mais sentido: não só nos causam desconforto noções de responsabilidade ou culpa colectiva, como exigimos algumas provas de intenção e acção para arrumar a nosso contento questões de culpa e inocência. Mas critérios legais, e mesmo éticos, não esgotam as condições ao nosso dispor para a explicação histórica. E certamente não proporcionam uma base suficiente para uma explicação das razões e do modo como pessoas comuns a exercer de consciência tranquila acções decididamente comuns (como a gestão dos horários de comboios), podem ainda causar um mal tão grande.
São as mesmas questões de Ordinary Men, de Christopher Browning, a história de um batalhão da Polícia de Ordem Alemã na Polónia ocupada. Aqui, homens que de outra forma seriam anónimos e invisíveis cometem, dia a dia, semana a semana, actos que por qualquer padrão constituem crimes contra a humanidade: o fuzilamento em massa de judeus polacos. Como pensar sequer no que eles fazem, em porque o fazem e de que maneira descrevê-lo? Arendt pelo menos fornece um ponto de partida.

Tony Judt, em diálogo com Timothy Snyder, em Pensar o século XX, p.52.
 
 

Raízes


É interessante ver que muitos daqueles que mais tarde, no início do século XX, se destacaram como planificadores, especialistas de política social e até ministros do governo trabalhista ou liberal fizeram o seu começo em obras sociais neo-cristãs e organizações de caridade concebidas para mitigar a pobreza.
 
Tony Judt, Pensar o século XX, Edições 70, Lisboa, 2012, p.336.
 
 

'Pensar o século XX': 'Tony'


Chama-se Tony Robert Judt. Tony - e não Anthony - tomado de uma prima do pai, que morreu em Auschwitz.
 
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A derradeira pobreza, a liberdade real: o bem pelo bem


Desafiei, entre amigos e colegas, interpretações para este poema de Tolentino. Dir-se-ia que ela se encontra, melhor do que em qualquer outro lado, no ensaio publicado logo a seguir, pelo mesmo autor, lá onde se plasma que a pobreza das pobrezas é despojarmo-nos dos castigos e das recompensas que funcionariam como estímulos ao(s) nosso(s) comportamento(s). Se tudo doarmos e dermos para termos o Céu, ainda aí sobrevirá um último interesse do qual não nos despojamos, ainda, então, não verdadeiramente pobres, nem livres. Liberdade é fazer o bem pelo bem, sem mais nada, diz o padre-poeta.
 
 
É verdade que sobrevém-nos sempre a tentação de um certo providencialismo («ai Deus me acuda, Deus faça isto, faça aquilo…»), quando o importante é a experiência fundamental de saber que Ele está, e nos tem por amigos. Deus faz isso sem nos querer controlar, domesticar, sem invadir o nosso segredo. Por vezes, a ânsia que temos de ser poupados aos sofrimentos do presente torna a religião uma coisa muito confortável, feita à nossa medida, como se a religião fosse um clube de escapistas. Se a religião é um seguro de vida, vamos fazê-lo, porque não? O caminho da amizade com Deus, porém, é outro. É necessário amar a Deus sem ser por nada. Amá-lo, simplesmente. «A rosa não tem porquê./Floresce porque floresce./Não cuida de si mesma./Nem pergunta quem a vê…», ensina Angelus Silesius. Ou, como escreveu Gertrude Stein, «uma rosa é uma rosa é uma rosa». Amar a Deus sem ser por nada. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia: «Ainda que não houvesse paraíso eu continuaria a amar Deus.» Temos de ultrapassar uma determinada concepção do cristianismo como máquina de fabricar castigos e recompensas. Os santos ensinam-nos o mistério da amizade divina: aceitar o que Deus me quer dar, aceitar a noite e o nada, o silêncio e a demora, aceitar a graça e fraqueza. Aceitar, aceitar. De tudo fazer caminho. Quando nos dispomos a isso, estamos finalmente a mergulhar numa experiência de amizade. Não apreciamos os nossos amigos apenas pelo que eles nos dão: podem vir de mãos vazias que os amamos na mesma. Para dizer a verdade, por vezes, as coisas, na amizade, só atrapalham. A nossa relação com Deus também passa pelas mãos vazias, onde o fundamental é o encontro, aquilo que, misteriosa e gratuitamente, se comunica de coração a coração.
José Tolentino de Mendonça, Nenhum caminho será longo, p.20/21.

Epistemologia da fé


Inúmeras vezes, por aqui, me tenho referido à intelegibilidade que a fé proporciona e implica; da necessidade, quando dela nos abeiramos, de procedermos a um epistemologia (da fé). Este intrincado problema surge, com particular acuidade, na questão do tratamento jornalístico de algumas das questões que contendem com o religioso. Neste Natal, a publicação de A infância de Jesus, de J. Ratzinger, deu origem a um imenso coro acerca do que o Papa retirara ao presépio:
 

"Numa altura em que o mordomo do Papa é sujeito a prisão domiciliária por violar o segredo de documentos confidenciais e em que os anglicanos ingleses debatem a ordenação de mulheres bispos, talvez seja esta a sua ideia de renovação - tirar o burro e a vaca do presépio".
Paulo Fonte, chefe de redacção/Revistas, Correio da Manhã, 24/11/12.


“Papa revela que vaca e burro em presépio são invenção
Título de notícia do Correio da Manhã, 21/12/12.


Papa retira vaca e burro ao presépio
Título de notícia, RTP, Bom dia Portugal, 22/11/12.


Uns bons quilómetros a norte, na região de Barcelos, Evaristo Leão desfia contas à crise que chegou à sua empresa. A cerâmica Leão, em Galegos, São Martinho, orgulha-se há muito de ser a maior fábrica de presépios do país. «Temos capacidade para fazer trezentas figuras por dia, mas as quebras estão na ordem dos cinquenta por cento. Ainda mais agora que o papa tirou o burro e a vaca do presépio. São os mais fáceis de pintar, os que dão menos trabalho e, por isso, os que têm maior margem de lucro.»
Reportagem da Notícias Magazine, 18/12/12.


O papa Bento XVI, que anda a mudar velhos conceitos (fim da vaca e do burro no presépio, alargar as regiões da origem dos Reis Magos até à Andaluzia...) talvez reponha a banana no seu lugar.
Crónica de Ferreira Fernandes, na NM, 08/12/12, em que o tema aparece incidentalmente, mas assim.
 

E, no entanto, a páginas 62, da edição portuguesa de A infância de Jesus, Bento XVI não podia ser mais claro: Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento”.
Para lá de qualquer jeremiada - embora a primeira reacção seja de espanto face a tão flagrante contradição - sobre o assunto, é preciso compreender que habituados a raciocinar em termos do que é estritamente demonstrável no plano histórico-crítico - e, neste, de facto, Ratzinger diz não existirem 'provas', não há documentação (evangélica) da presença do 'boi' e do 'jumento' a quando do nascimento de Jesus Cristo -, qualquer transição para um modo de aproximação que nas coisas busque a sua verdade última - "aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo", p.62 - é posta de parte. Mas, o que, relativamente ao presépio, Ratzinger faz é, justamente, sublinhar a importância de uma iconografia que traduz uma verdade que os seus leitores apressados e ansiosos trataram de dizer que fora arrumada/posta de parte. O problema, em todo o caso, situa-se, em realidade, na existência de «jogos de linguagem» que, não raramente, se tornam impenetráveis e que não comunicam entre si e, nesse sentido, há uma urgência de religação entre o emissor e receptor de cada mensagem. Que terão, ambos, de ter em conta a apropriação feita pelo outro, buscando um esforço de tradução. Responsabilidade mútua. 
Mas, com franqueza, muito mais do que esta questão da 'vaca' e do 'burro', há muitas outras afirmações, contidas neste livro sobre a infância de Jesus, que contendem com a intervenção de Deus no mundo - e respectivos modos -, liberdade humana e da história, "fala" de anjos, recurso a fontes extra-canónicas etc., que levantam sérios problemas e que justificariam, aí sim, uma vasta interrogação teológica. Mesmo para um crente, embora leigo - aqui sim -, há um claro espaço de interrogação e até de perplexidade (e, para se entender esta perplexidade, a entrevista do pe.Carreira das Neves, a Manuel Villas Boas, na TSF (22/12/12) é, com efeito, um guia útil). Mas, para além destas, sempre permanecerá a beleza de uma escrita, em traços extraordinários, como, a meu ver, o destacado no post precedente.
Retomando, todavia, o caminho do presépio fica o esclarecedor texto publicado no ABC, para o qual o Pedro me chamou a atenção:
 
Que no saben leer o tal vez que han querido leer con torcida intención afirmando que el Papa ha escrito algo totalmente distinto de lo que recoge en su libro «La Infancia de Jesús» y en su preciosa página 76, cuyas lecturas recomiendo. Con comentarios absurdos y con sandeces sin fundamento, han intentado «montar un belén» para escandalizar al pueblo sencillo y atacar la religiosidad popular que a ciertos sectores tanto molesta. Todo el que sabe leer o haya escuchado el relato evangélico del Nacimiento sabe que no se cita la presencia de animales en el establo.
El apóstol san Juan, al terminar su Evangelio, afirma que ocurrieron otras muchas cosas que si se escribiesen no cabrían en todos los libros del mundo. En cualquier personaje histórico ocurre lo mismo que con Jesús: por muy exhausta que sea una biografía, es imposible relatar todo lo que ocurrió, pero el hecho de que no esté escrito no quiere decir que no ocurriera. Muchas cosas pueden considerarse ciertas porque son obvias, por puro sentido común, y otras porque hay indicios o datos que hacen razonables cosas que no fueron escritas, pero fueron verdad. En torno al tema que nos ocupa, en este tiempo navideño se cantarán hermosos villancicos llenos de encanto y poesía, con esa belleza de lo sencillo: «La Virgen se está peinando entre cortina y cortina» ciertamente no lo dice la escritura, pero es razonable pensar que la Virgen se peinara y difícil imaginar que nuestra Dulce Señora anduviese desgreñada. También se canta: «La Virgen lava pañales», y esto no solo es razonable, sino que hay indicios en el relato evangélico; dos veces se habla de pañales: «María lo envolvió en pañales» y en el anuncio a los pastores: «Encontraréis al Niño envuelto en pañales». Es razonable pensar que había que lavarlos, y quién los iba a lavar sino María.
La presencia de la mula y el buey no solamente es razonable, sino que hay datos que la confirman; por ejemplo, la distancia entre Nazaret y Belén, dado el estado ya avanzado de María, hace pensar que usaran un animal como la mula, o incluso una carreta tirada por un buey. El argumento en contra de que los esposos eran pobres no tiene fundamento; no eran pobres de solemnidad, José era artesano, y por otro lado se lo podrían prestar familiares o vecinos. Otro dato evangélico es el pesebre que cita el Evangelio; todo pesebre supone un establo y en él suele haber animales. En la Antigua Escritura hay profecías sobre la mula y el buey: «El buey conoce a su Amo y el asno el pesebre de su Señor: Israel no me conoce, mi pueblo no comprende». Así dijo Isaías. Y Habacuc viene a profetizar que cuando llegue el tiempo aparecerá «entre dos seres vivientes». En la luminosa página del libro de Su Santidad, reconoce lo que todos sabemos: «En el Evangelio no se habla en este caso de animales», pero antes afirma: «El pesebre hace pensar en los animales». Después reafirma: «La meditación guiada por la Fe, leyendo el Antiguo y Nuevo Testamento relacionados entre sí, ha colmado muy pronto esa laguna». Para los que sepan leer eso es muy serio. El Papa señala que esta ausencia de la mula y el buey es una «laguna» en el relato evangélico y que no solo la meditación, sino también la fe fundándose en la Sagrada Escritura, la ha rellenado o colmado. Cita los textos proféticos de Isaías y de Habacuc aplicándolos a la presencia de la mula y el buey y realiza una preciosa exégesis sobre el simbolismo de estos animales. Alaba que la iconografía cristiana ha captado ya muy pronto este motivo y termina afirmando con rotundidad: «Ninguna representación del Nacimiento renunciará al buey y al asno». No sé cómo ha podido afirmarse con tanta ligereza que el Papa ha dicho que no existieron la mula y el buey, y los comentarios que esto ha suscitado. Por cierto, que me animó a escribir estas líneas la llamada telefónica de unas monjas de clausura de una pequeña aldea que me preguntaban si podían poner en su belén la mula y el buey, porque les habían dicho que el Santo Padre lo había prohibido. Consultaron al capellán, anciano y muy achacoso, que las atiende, que les había contestado: «Madre, yo no estoy bien enterado, por si acaso no lo pongan». En estos días he puesto el nacimiento en casa recordando el simbolismo de que habla Su Santidad, he colocado la mula y el buey con especial respeto y veneración. Animo a todos a hacer lo mismo, que no falten en los hogares cristianos el pequeño belén o el misterio adornado con primor, y por supuesto animo a cantar los villancicos de nuestra tradición:
Camilo Olivares, prelado de honor de su santidad, no ABC.

ALEGRA-TE!


Na saudação do anjo, impressiona o facto de não dirigir a Maria a habitual saudação judaica shalom – a paz esteja contigo -, mas a fórmula grega khaire, que se pode tranquilamente traduzir por «Avé», como sucede na oração mariana da Igreja, formada com palavras extraídas da narração da Anunciação (cf. Lc 1, 28.42). Mas é justo individuar, neste ponto, o verdadeiro significado da palavra khaire: alegra-te! Com este voto do anjo – podemos dizer -, começa propriamente o Novo Testamento (…)
Depois disto, segue-se a terceira reacção, a resposta essencial de Maria: um simples «sim» daquela que se declara serva do Senhor. «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38).
Bernardo de Claraval, numa homilia de Advento, ilustrou de forma dramática o aspecto emocionante deste momento. Depois do fracasso dos primeiros pais, o mundo inteiro está às escuras sob o domínio da morte. Então Deus procura entrar de novo no mundo; bate à porta de Maria. Tem necessidade do concurso da liberdade humana: não pode redimir o homem, criado livre, sem um «sim» livre à sua vontade. Ao criar a liberdade, de certo modo Deus tornou-Se dependente do homem; o seu poder está ligado ao «sim» não forçado duma pessoa humana. Ora Bernardo afirma que, no momento do pedido a Maria, o céu e a terra como que suspendem a respiração. Dirá «sim»?! Ela demora…Porventura lhe servirá de obstáculo a sua humildade? Só por desta vez – diz-lhe Bernardo – não sejas humilde, mas magnânima! Dá-nos o teu «sim»! Este é o momento decisivo em que dos seus lábios, do seu coração, surge a resposta: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». É o momento da obediência livre, humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão mais sublime da liberdade humana.


Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré – a infância de Jesus, Principia, Cascais, 2012, p.28 e pp.35-36.

 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Noite de consoada


NATAL

Outro Natal. / Outra comprida noite / De consoada, /  Fria, /  Vazia, /  Bonita só de ser imaginada. // Que fique dela, ao menos, /  Mais um poema breve, / Recitado / Pela neve / A cair, ao de leve, /  No telhado.

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1975., Miguel Torga, Antologia poética, Coimbra Ed., Coimbra 1981, p.449.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Clássico de Natal, em Vila Real

Foto: Concerto de Natal - 20 de Dezembro - Sé de VIla Real (foto da página do facebook do Coral de Vila Real, Concerto de Natal, na Sé de Vila Real, dia 20/12/12)
 
Impôs-se, em definitivo, como um clássico do Natal vilarealense, o concerto anual do Coral de Vila Real, dirigido pelo maestro Adérito Silveira. Todos os anos, a Sé, inevitavelmente, enche para um serão muito agradável e aconchegante que, na sua simplicidade e entusiasmo, a cidade acarinha e não dispensa. Parabéns aos seus intérpretes e, como antigamente se dizia nestas ocasiões, bem hajam.
 
 

Natal


NATAL

Não tivesses tu simplicidade, como poderia / acontecer-te o que agora a noite enche de luz? / Vê, o Deus que sobre os povos em ira ardia / torna-se manso e em ti ao mundo vem Jesus. // Terias imaginado maior esse Menino? // O que é a grandeza? Através de toda a medida / pela qual Ele passa, se traça o Seu vertical destino. / Nem mesmo um astro tem uma rota assim erguida. / Vês, estes reis são grandes, imponentes,  // diante de ti depositam presentes //  que tomam por tesouros sem par, /  e talvez te assombre a oferenda que aí está: / mas para as pregas dos teus panos dirige teu olhar,  / vê como Ele tudo supera já.  // Todo o âmbar que se envia para a distância //  Todas as jóias de ouro e especiarias do ar, /  que turvando-se nos sentidos se vêm envolver:/ tudo isto rapidamente veio a terminar, /  e por fim todos se vieram a arrepender.  // Mas, hás-de ver, Ele enche de alegria toda a ânsia.

Rainer Maria Rilke, A Vida de Maria, Portugália, Lisboa 2008, p.67.
 
 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Uma desilusão (III)


1-      O texto de Helena Vasconcelos, no Y da semana passada, elogioso bastante para com a última obra de Mario Vargas Llosa, A civilização do espectáculo – “o que o redime e o que importa é, sem dúvida, o seu desassombro em relação a esta polémica e a sua defesa da liberdade de expressão, que advoga com arrojo e mestria”, sentencia, em conclusão -, despoletou em mim, por manifesta discordância com a avaliação (tão) positiva, a vontade de concluir os apontamentos que neste blog tomara acerca da obra.

2-     Principio, contudo, esta conclusão, retomando o ponto principal que me afastou dos qualificativos de H. Vasconcelos. Faço-o, até, recorrendo a uma frase sua, na recensão do livro em apreço: “esta linha de pensamento não é, felizmente, original ou isolada”. Ora, justamente, a (excessivamente) evidente falta de originalidade do articulado de Llosa foi o que mais me prendeu, pela negativa, na leitura de A civilização do espectáculo. Logo depois, “a facilidade da denúncia apocalíptica” – uma formulação feliz de Gilles Lipovetsky que a endossa ao que chama de “detractores profissionais” [das nossas sociedades] -, paradigmaticamente expressa no tópico do fim da cultura, um outro travo amargo colhido na primeira obra pós-Nobel, de Vargas Llosa.

3-     Não cito Lipovetsky ao acaso: foi com ele, no Instituto Cervantes, que o escritor peruano debateu o conjunto de asserções, por si efectuadas, no retrato tirado às sociedades hodiernas (diálogo transmitido, então, em directo pelo site do ElPais e com direito a manchete e tema da edição Julho/Agosto de 2012 da LER); é com o que Lipovetsky postula, na sua última obra/entrevista (a Bertrand Richard), que questionarei as afirmações de Vargas Llosa naquele que, para mim, é o mais interessante e conseguido capítulo de A civilização do espectáculo, a saber, O desaparecimento do erotismo.

4-     Pedro Mexia, na recensão crítica ao ensaio em causa – com a qual, em grande medida, me identifico - no Actual, afirmou, e bem, que Vargas Llosa é a antítese do puritano. Se, no texto de Mexia, feita esta observação, se seguia que, no domínio da sexualidade, qualquer emancipação implica uma animalização, expondo, assim, o reparo à abordagem de Llosa, a mim pareceu-me fazer todo o sentido – com o plus de autoridade, reafirme-se, de um não puritano – o que o escritor desenvolveu num capítulo de bom gosto e erudição, que tinha por mote – e, digamos, síntese – o que no desenho introdutório (às sociedades contemporâneas) deixara expresso (na abertura do livro):

Ora bem, a contrapartida desta emancipação sexual foi também a banalização do acto sexual, que, para muitos, sobretudo nas novas gerações, se converteu num desporto ou passatempo, uma ocupação partilhada que não tem mais importância, e talvez até menos, do que a ginástica, a dança ou o futebol. Talvez seja saudável, em matéria de equilíbrio psicológico e emocional, esta frivolização do sexo, embora nos devesse levar a reflectir o facto de que, numa época como a nossa, de notável liberdade sexual, até nas sociedades mais abertas não tenham diminuído os crimes sexuais e até tenham, porventura, aumentado. O sexo light é o sexo sem amor e sem imaginação, o sexo puramente instintivo e animal. Alivia uma necessidade biológica, mas não enriquece a vida sensível nem emocional nem estreita a relação do casal para lá da ligação carnal; em vez de libertar o homem ou a mulher da solidão, passado o acto peremptório e fugaz do amor físico, devolve-os a ela com uma sensação de fracasso e de frustração.
O erotismo desapareceu, ao mesmo tempo que a crítica e a alta cultura. Porquê? Porque o erotismo, que converte o acto sexual em obra de arte, num ritual a que a literatura, as artes plásticas, a música e uma refinada sensibilidade impregnam de imagens de elevado virtuosismo estético, é a própria negação desse sexo fácil, despachado e promíscuo em que paradoxalmente desembocou a liberdade conquistada pelas novas gerações. O erotismo existe como contrapartida ou desacatamento da norma, é uma atitude de desafio aos costumes instaurados e, de igual modo, implica segredo e clandestinidade. Empurrado para a luz pública, vulgarizado, degrada-se e eclipsa-se, não leva a cabo essa desanimalização e humanização espiritual e artística da actividade sexual que outrora permitiu. Produz pornografia, desvalorização obscena e canalha daquele erotismo que irrigou, no passado, uma corrente riquíssima de obras na literatura e nas artes plásticas, que, inspiradas nas fantasias do desejo sexual, produziram memoráveis criações estéticas, desafiavam o statu quo político e moral, combatiam pelo direito dos seres humanos ao prazer e dignificavam um instinto animal transformando-o em obra de arte”, p.49/50.

5-      De imediato se confronte esta perspectiva, com o olhar de Lipovetsky, sobre o mesmo ponto, em A sociedade da decepção:

Na verdade, o culto do novo, no domínio sexual, está em declínio. Na imprensa feminina, são muitos os artigos em volta da temática: «já não há homens». O cinema e a literatura já não colocam muito em cena a figura de Don Juan. A inclinação masculina para a conquista amorosa é menos evidente. Os jovens vivem depressa em casal. Tudo se passa como se a conquista das mulheres se tornasse menos prioritária, menos identitária, numa cultura que privilegia a atenção sobre si-mesmo, o relacional, a comunicação intimista. À obsessão do quantitativo sucede a primazia da qualidade, dos projectos a dois. No tempo do hiperindividualismo, valorizamos menos a experiência pela experiência que o «experiencial», menos a «colecção» do que a emoção”, p.43/44.

6-     Durante - e nomeadamente no final - (d)a década de 90 do século passado não faltavam D.Juan e a ideia do “novo”, do “muito” da “conquista” sucessiva, da “experiência múltipla” era extremamente difundida/exigida (e, não raramente, concretizada). Creio que o testemunho de muitos da minha geração não divergiria, quanto a esta afirmação. Pedro Abrunhosa cantava, então, por cá, a “noite após noite” e advertia que não se desse “o corpo pela alma”, em concertos celebratórios (e celebrados) que fixavam, como poucos, o espírito do tempo. Num registo totalmente diverso, Steiner – Quatro entrevistas a Ramin Jahanbegloo – puxava pela sua erudição para dizer que o tempo não era de Antígonas, mas de Bacantes.

7-     Dessa memória, conjugada com uma dada pauta mundividencial, se faz o entendimento das palavras de Llosa como sábias. Mas, talvez, hoje por hoje, uma década depois, sensivelmente, as coisas tenham mudado.
No início de A sociedade da decepção, Lipovetsky fala em “inflexão de tonalidade” e, mais uma vez, a qualidade da formulação ressalta. Ela não indic(i)a uma mudança abrupta, absoluta, total; ela expõe, porventura, o que há de, simultaneamente, perene e dissemelhante face ao que contara/descrevera em A era do vazio (uma obra dos anos 80, do séc.XX, em que a tal “frivolização” da sexualidade era, também, assinalada), comparada com o actual momento que vivemos – em um exercício mais cartográfico que filosófico.
Claro que num mesmo tempo se conjugam/confluem vários tempos; permanecem, portanto, os exploradores da viagens mil –  viagens nunca redentoras, também para o autor de A felicidade paradoxal – com uma metamorfose de comportamentos, com as diferentes crises despoletadas ao longo da década a levarem a mais ansiedade, mais seriedade, vida menos light e aligeirada, pessoas mais exigentes e de corte mais afectivo (para enquadrar a fotografia do pensador francês). Assim, nestes termos - algo de importante terá mudado, mas as roupagens de ontem ainda não foram, não podiam ser completamente despidas -, se explicariam, possível ou provavelmente, as duas posições, não exactamente convergentes, dos autores aqui convocados.

8-     Para quem se interessa por política, A civilização do espectáculo oferece, ainda, o registo – muito semelhante, de resto, ao português, no imediato pós-25 de Abril – de que quando a ditadura peruana – por momentos – findou, os melhores, os mais qualificados, os que tinham verdadeiro espírito de serviço público disseram presente...mas, após poucos anos, tudo voltou à banalidade – o que para muitos não é, nas democracias, nenhum drama, pois que estas estariam asseguradas e, a partir de então, natural seria, ou será, não gerarem grandes entusiasmos ou arroubos.
A constatação de que a religião não foi eliminada, apesar de todos os programas que a visaram proibir e aniquilar, a prova da sua força e uma antropologia que a tem de encarar seriamente. Minoritária, a Ocidente, na sua expressão forte, ela deixou de produzir um discurso crítico sobre o político, lugar que a cultura devia ocupar mas que tem tardado em assumir, sustenta Vargas Llosa.

9-     Sobre esta permanência do religioso, uma nota para terminar. Regresso à afirmação de Vargas Llosa de que esta é uma civilização tão frívola que é incapaz de gerar, por exemplo, para o cinema, um Ingmar Bergman. As duas dezenas e meia de vilarealenses – que pena não se ter feito nada para que mais pessoas pudessem usufruir da obra – que na passada segunda-feira – julgo que numa versão mais compacta do que aquela a que eu vira já -, no Teatro local, assistiram a O cavalo de Turim, não terão sentido - como todos os que puderam ver o filme - menos a desolação, a angústia imensa, por um eclipse tremendo, experimentada pelos personagens do filme de Béla Tarr, do que o sofrimento exemplarmente traduzido pela câmara de Bergman, em Persona, com a subtileza do “teólogo ateu” (Ravasi) a fazer-nos perscrutar as questões últimas.