domingo, 30 de setembro de 2012

A Igreja e os jovens


"Acredito que ele [Jesus Cristo] iria despertar precisamente os jovens bem instalados e pô-los a seu lado para que eles, consigo, mudassem o mundo. Mudar o mundo significa tirar o medo das pessoas, restringir as agressões, eliminar as injustiças entre pobres e ricos. E acima de tudo proporcionar uma morada aos homens, para que se possam sentir acolhidos, sejam eles crianças, idosos, moribundos ou doentes. Acredito que para isso Jesus iria procurar as pessoas mais fortes e esses são em primeiro lugar os jovens. Tal como então, Jesus recorreria a pessoas jovens para fazer deles apóstolos. Apóstolo significa “enviado”: pessoas activas, convictas, abertas, que partilham com ele a vida”. Mais: “Alegro-me por haver também muitas comunidades católicas vivas, com muitos jovens e uma boa pastoral juvenil; contudo, não podemos ignorar que a Igreja nas últimas décadas perdeu muitas pessoas jovens. Pergunto-me como os podemos reconquistar. Onde é que os jovens podem encontrar aqueles tesouros sem os quais no meu tempo de jovem não podíamos passar? Onde aprendem a rezar, a procurar aventuras juntos, a comprometer-se em tarefas sociais? Onde celebram as festas? Onde é que os jovens são formados para ser personalidades de liderança? Onde aprendem a ser bons amigos, a ser pessoas que têm um olhar para as necessidades dos outros? E a ter coragem para se dirigirem a quem está triste ou abandonado? Onde aprendem a ter consciência da necessidade de lhes prestar ajuda? Onde conhecem Deus?"
 
 
Carlo Maria Martini, Colóquios nocturnos em Jerusalém, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 2009, 35-36 e 60.
 
 

Do poema



Do poema como contrato social


Comércio bilingue, o poema precisa de troca,
sobretudo se inútil,
da espontaneidade de poucos, dessa ideia de passagem,
de derrocadas e do silêncio que lhes sucede,
precisa de descendências particularmente radicais
do relâmpago ou de um absurdo ainda maior
para se tornar próximo

 

O poema é conversa humana
palavra que recuperamos
ao abandonar

 

José Tolentino de Mendonça, Estação central, 46.

sábado, 29 de setembro de 2012

Génios incompreendidos


Já chegámos àquele estádio no qual o ideólogo, face a uma ideologia que não cola com a realidade, não quer acertar/mudar a ideologia, mas culpa a realidade por não acertar/mudar para encaixar na ideologia. Não está a ser bonito de ver:



O conselheiro do primeiro-ministro para as privatizações diz que os empresários portugueses são ignorantes ao criticarem a descida da taxa social única (TSU) proposta pelo Governo. António Borges, que falava esta manhã no Fórum Empresarial Algarve, em Vilamoura, diz que a medida é inteligente, só os empresários é que não a perceberam.
“Que a medida é extraordinariamente inteligente, acho que é. Que os nossos empresários, que se apresentaram contra a medida, são completamente ignorantes, não passariam no primeiro ano do meu curso da faculdade, isso não tenham dúvida”, afirmou António Borges.

RR, 29/09/12

'Uma multidão não é um colectivo'


Em entrevista televisiva, esta semana, a propósito de Pensar o mundo, Manuel Maria Carrilho explicitaria o que ainda há bem pouco afirmara à Visão: as manifestações que temos visto em Portugal “são um forte operador mediático, mas um fraco operador político”. Pois bem, em sociedades atomizadas, profundamente individualistas, como são aquelas em que vivemos, as reivindicações, a estruturação do pensamento, a concepção de uma linha programática que agregue os vários grupos ou indivíduos que se manifestam – ou, pelo menos, uma boa parte destes - não se vislumbra. Depois de palavras de ordem mais primárias não se segue, portanto, um upgrade que transforme a “multidão” em um “colectivo” e que, por consequência, dê um sentido próprio/específico – relativamente ao qual, pois claro, não há consenso, nem maioria sólida, entre os manifestantes – a um protesto expresso.
Conversava, precisamente sobre isto, com um amigo, com quem estive na manifestação de há 15 dias em Vila Real, quando este se manifestava descontente com a qualidade do orador local, naquele Sábado: se alguém for para o púlpito e puxar de um discurso estruturado, com um eixo bem delineado, consistente e coerente, mais de metade das pessoas vai embora em desacordo.
A reflexão de Carrilho, aliás, é pertinente, mas não exactamente original, pois tal já se havia dito e escrito a propósito do movimento dos indignados, em Espanha, bem como do Occupy Wall Street.
Sobre o tema, de resto, Stiglitz dizia em entrevista ao ElPais, há duas semanas, o seguinte:

 
La severidad de la crisis económica refuerza esta idea de declive. ¿Dónde está la voz de esa rabia? El movimiento Ocupemos Wall Street se esfumó. El gran problema que tuvo ese grupo de protesta social es que no creyó en la organización. Vieron a los partidos políticos como una fuente de los problemas actuales y no quisieron imitarlos. Es simple, no se puede cambiar la sociedad sin organización. Se distanciaron del sistema actual, y eso les hizo menos atractivos como movimiento. El momento fue también equivocado, porque con las elecciones la gente pone más esfuerzos en la esperanza de que quizá haya un cambio político, pero saben que no será así.


Outro tema importante que Carrilho levanta é o de saber se o momento federal europeu não terá já passado. A explosão mais recente do fervor independentista na Catalunha, ajuda, evidentemente, a agudizar a dúvida.

Pub: 'Quem fala assim'


Gostei da estreia do concurso 'Quem fala assim', Domingo, RTP2, 19 horas. Gostei da ideia de colocar alunos no início do Secundário, 10º ano, a discutirem um artigo - sempre diferente, obviamente, a cada sessão - da Constituição da República Portuguesa (CRP). No programa inaugural, debatia-se se a proibição do uso de calão ou gíria nas aulas, nas escolas portuguesas, contrariava o preceituado no artº37º da CRP, o mesmo é dizer, se a liberdade de expressão não era, assim, colocada em causa. Esgrimiram-se argumentos 'pró e contra', houve boa fluência verbal, fundamentação jurídica buscada quanto à ordem interna e europeia, investigação demonstrada, evocação de figuras clássicas da cultura portuguesa com vista a sustentar um ponto de vista, réplica substantiva, e um juri composto por uma jornalista, uma jurista, uma convidada especial - no caso, Isabel do Carmo - e um presidente (do júri) Narana Coissoró.
No processo de repolitização, de ganho de literacia política, no seu sentido mais amplo e nobre, desde idades juvenis, eis um pequeno contributo.
 
 

Deambular



                         O mapa

Aprendido num salmo sufi

 

Para os teus discípulos não há heresia
nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
a verdade que vem de ti

 

Insista o herético na sua heresia
e o ortodoxo na sua ortodoxia

 

O teu fiel é mercador de perfumes
em busca da essência de rosas
do amor divino
eu deambulo

 

José Tolentino de Mendonça, Estação central, p. 45.
 
 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

É de homem!


Francisco Assis escreveu no Público desta quinta-feira (28/09/12) que o Jornal de Notícias e o Correio da Manhã, "com as actuais linhas editoriais", "são inimigos da democracia". Concorde-se, ou não, com a frase - e, no segundo dos casos, não será muito difícil concordar; no caso do JN, a alteração recente, ao nível do grafismo, mas, mais importante ainda, na importância dada aos diferentes temas, não deixou de caminhar, também, num sentido tablóide, levando, por exemplo, com tal opção, à saída de uma jornalista com a qualidade de Ana Sousa Dias - há que reconhecer a coragem que a suporta, em um político no activo e, certamente, com justas ambições futuras. É em casos como estes que reconhecemos a força das convicções, a clareza das afirmações e das atitudes. O que em Francisco Assis, aliás, sublinhe-se, não é inédito - e não, não me estou a referir, exclusivamente, ao caso Felgueiras, mas, igualmente, à sua posição quanto aos meios de comunicação social serem susceptíveis de serem abertos aos privados, a quando, ainda, da exclusividade da posse destes pelo Estado quando essa não era uma posição absolutamente confortável no interior do seu partido.
 
 

'Estação central' (III)



                                    Os justos

 

Começam o dia louvando o imperfeito:
o tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

 

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

 

Estão sentados à soleira dos espaços
Trabalhados devagar pelo silêncio

 

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas

 

                                                                           para José Mattoso

 

José Tolentino Mendonça, Estação central, 13.

 

 

'Economia de comunhão'


Luigino Bruni esteve em Portugal: no livro “A caridade dá que fazer” (ed. Paulinas), o primeiro do autor publicado em Portugal, pode ler-se:

«Visto que a pobreza não é vergonhosa, mas sim a injustiça que cria a pobreza, um objetivo da ação caritativa para com o pobre é libertá-lo da vergonha de ser pobre. E esse objetivo seria certamente possibilitado por uma Igreja pobre, por uma Igreja que se apresente a ela própria com as conotações da pobreza, e não só como aquela que age em favor dos pobres, assistindo-os e socorrendo-os».
 
 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

'Pensar o mundo'




As crises também já não são o que eram. Uma crise era, normalmente, um acontecimento que tinha princípio, meio e fim, um momento instável que exigia uma decisão difícil que, uma vez tomada, lhe punha termo. Agora, tornou-se quase no seu contrário, transformou-se num estado de interminável indecisão, ou mesmo na imagem da própria indecisão, que se vive como se fizesse parte do ar que respiramos.
E esta crise, cada vez mais vivida como a atmosfera incontornável dos nossos dias, torna simultaneamente mais imperativo e mais difícil pensar o mundo. Mais imperativo, porque só assim se conseguirá romper com a cortina de estereótipos que nos atordoam e paralisam, ainda que por vezes possam conduzir a acções mais espectaculares, mas quase sempre, inconsequentes.
Mas também mais difícil, porque a tentação, nestes momentos adversos e penosos, é para nos concentramos no nosso pequeno universo, deixando o cepticismo, a depressão e a indiferença tomar conta de tudo o mais, privando-nos assim cada vez mais do próprio mundo.
Pensar o mundo é, contudo, uma condição sine qua non para se enfrentarem as dificuldades atuais, contrariando o provincianismo - hoje em dia tão mediaticamente insuflado - que continua a dominar o País, impondo focalizações tão insuficientes como erráticas sobre a natureza das nossas dificuldades, e obstruindo a via de tantas soluções possíveis.
Pensar o mundo é, antes do mais e acima de tudo, compreender que a globalização não é uma figura de retórica mas a realidade central do nosso tempo, uma realidade em aceleração constante nos últimos trinta anos, com consequências e efeitos de toda a ordem na nossa vida, seja do ponto de vista económico, financeiro, social ou cultural.
Pensar o mundo é, por exemplo, refletir em análises como as que comparam os salários médios dos países da OCDE com os da Ásia, dez vezes inferiores em média. Ou nas inquietantes projecções que atiram o salário médio diário ocidental para cerca de metade, dentro de quinze anos. Ou em factos como o de a China investir metade do seu PIB, enquanto os países ocidentais não chegam a investir um quinto do seu. Ou em surpresas como a da degradação escolar que ultrapassa 20% dos alunos da União Europeia, que saem da escola sem as competências básicas de leitura, enquanto na China essa percentagem é de 4% (leia-se, a propósito, o muito informativo e útil The decline of the West, de J. Moynihan).
Pensar o mundo é assumir estes dados e as suas já previsíveis consequências. Confrontando-os sem artifícios com o anémico crescimento europeu, que data do começo do século e não da crise dos subprime ou das turbulências do euro.
Pensar o mundo é compreender que hoje, nas sociedades pós-industriais do Ocidente, como Daniel Cohen bem o explica no seu recente Homo Economicus, o cerne da economia passou para os serviços e para a produção imaterial, com os inegáveis ganhos de produtividade que a revolução informática tornou possíveis.
Mas também, como ele enfatiza e quase sempre se esquece, com uma diferença fundamental entre esta "revolução, a da informática, e as anteriores, a da electricidade no século XX e a da máquina a vapor no século XIX. É que estas foram, em ambos os caos, revoluções energéticas, que aumentavam mecanicamente a capacidade de trabalho, enquanto a revolução informática só permite aumentar a produtividade intensificando o trabalho, reduzindo os tempos mortos e organizando a multiactividade dos trabalhadores". E tudo isto faz com que o crescimento mude de natureza e, sobretudo, de potencial, que se revela bem mais reduzido do que aquilo a que nos habituámos: são os segredos do crescimento, de que já aqui falei várias vezes....
Pensar o mundo é o que tem faltado à União Europeia desde que se deixou embalar na miragem de uma moeda única que só traria benefícios e não teria custos, hiperbolizando a sua capacidade e ignorando olimpicamente as dificuldades, tanto internas como externas, que entretanto se multiplicavam. Até ao ponto em que os desafios exteriores e os seus desequilíbrios e impasses interiores a colocaram à beira do colapso, onde estamos. De um colapso a que agora só um improvável federalismo político e um prudente proteccionismo estratégico nos poderão poupar.
Pensar o mundo é também o que Portugal precisa de fazer, se quisermos "dar a volta" aos seus problemas, de modo a que o futuro seja realmente diferente do passado. Portugal precisa de um novo projeto, ousado e realista, que não pode ser dirigido nem pelos lobbies habituais nem pelos cleptocratas do costume, que nos últimos anos atiraram Portugal para o indigenato europeu e para a irrelevância internacional.
Agora, depois do fiasco dos milagres do memorando e do fracasso das suas políticas, este projeto só pode ser concebido com Portugal de olhos postos na Europa e no mundo, valorizando a sério em termos estratégicos o nosso potencial, os nossos recursos naturais e humanos, apostando numa nova república. É essa, agora, a missão mais urgente: pensar o mundo, repensar Portugal.


Manuel Maria Carrilho, DN, 27/09/12.
 
 

 

'Estação central' (II)


Quando Deus vacila em mim

                                             

 

                                                                      «Deus é impotente e fraco no mundo,
                                                                      e somente assim está connosco e nos ajuda.»

                                                                       DIETRICH BONHOEFFER

 

 

Quando Deus vacila em mim
sem adornos, ataduras, sem outro pretexto
Quando o sinto a ponto de perder-se
na folhagem a meu lado
compreendo o grande mistério
uma lei face à qual as palavras
não servem

 
Deus abraça o meu vazio profundamente grato
Abraça a imundície de todos os seus filhos
e continuamente declara-os bem-aventurados

 
Pois Deus sendo casto deixa-se consumir
com a paixão insultuosa
dos devassos

                                               

José Tolentino de Mendonça, Estação central, p.25.

A ressaca, ou os deuses devem estar loucos


Um familiar adolescente conta-me a sua primeira aula de Filosofia, há duas semanas: "Preparem-se que na próxima aula já vamos dar muita matéria", avisa a professora. "Não podemos antes ver um filme?", atreve-se uma aluna. "Então que filme sugerem?", anui a docente. "A ressaca", atira a aluna.
"Parece-me bem", conclui a professora.


Um nó cego que sufoca o país


 
O primeiro-ministro não tem a densidade e a estatura para o lugar que ocupa (…) Se o Governo é um absoluto desastre, o PS é pior (…) O Estado social deu lugar ao Estado dos interesses e das rendas. O problema é que, para sair da crise, o Estado dos interesses e das rendas tem que ser parcialmente, ou mesmo totalmente, desmantelado. Desmantelar esse Estado é negar a essência da própria classe política predatória.

Nuno Garoupa, Jornal de Negócios, 27/09/12
 
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Passo a passo



Precursores mais imediatos das medidas de segurança social adoptadas na década de 1930 nos EUA foram as medidas implementadas na Grã-Bretanha, iniciadas com a Old Age Pensions Act aprovada em 1908, e a National Insurance Act de 1911.
A Old Age Pensions Act proporcionava a qualquer pessoa de mais de 70 anos, cujo rendimento se cifrasse abaixo de uma soma especificada, uma pensão semanal que variava consoante o rendimento do beneficiário. Esta pensão era estritamente não contributiva, pelo que constituía, num certo sentido, simples ajuda directa – uma extensão da Poor Law que existiam, sob uma ou outra forma, há séculos na Grã-Bretanha. Existia, não obstante, como realça A. V. Dicey, uma diferença fundamental. A pensão era considerada um direito cuja concessão, segundo o articulado da lei, «não deverá privar o pensionista de qualquer franquia, direito ou privilégio, ou sujeitá-lo a qualquer inelegibilidade». (…)
A National Insurance Act visava «a prossecução de dois objectivos. O primeiro que qualquer pessoa…que esteja empregada no Reino Unido…seja protegida, dos 16 aos 70 anos, contra a doença, ou, por outras palavras, que lhe sejam assegurados os meios para curar a doença…O segundo objectivo é que qualquer dessas pessoas que se encontre empregada em determinados lugares especificados no National Insurance Act seja protegida contra o desemprego, ou, por outras palavras, lhe seja assegurado o apoio em períodos de desemprego». Ao contrário das pensões de velhice, o regime era neste caso contributivo. Deveria ser financiado em parte pelo empregador, em parte pelo empregado e em parte pelo Estado.

 

Ibidem, 132-133.

Estado Social: o papel da aristocracia, visto por um liberal


 
Pode parecer paradoxal que um Estado essencialmente autocrático e aristocrático, como era a Alemanha anterior à Primeira Guerra Mundial – seria caracterizada nos nossos dias por ditadura de extrema-direita – tivesse de liderar a introdução de medidas geralmente associadas ao socialismo e à esquerda. Mas não há paradoxo algum, mesmo pondo de lado as motivações políticas de Bismarck. Os adeptos da aristocracia e do socialismo partilham a fé no governo centralizado, em regra imposto e não caracterizado pela cooperação voluntária.
Divergem sobre quem deve governar: uma elite determinada pelo nascimento ou os especialistas supostamente escolhidos com base no mérito. Ambos os grupos proclamam, seguramente com sinceridade, desejar promover o bem-estar da «sociedade em geral», saberem o que é do «interesse público» e como atingi-lo melhor do que a pessoa comum. Ambos professam, por isso, uma filosofia paternalista.

 

Ibidem, 131-132.
 
 

Estado Social: origens


 
O primeiro Estado moderno a introduzir numa escala relativamente grande o tipo de medidas de cariz social popularizado na maioria das sociedades dos nossos dias foi o império alemão, pouco tempo depois da sua fundação, sob a liderança do «chanceler de ferro», Otto von Bismarck. No início da década de 1880, Bismarck introduziu um esquema abrangente de segurança social que providenciava ao trabalhador protecção contra acidentes, doença, velhice. As suas motivações constituíam uma mistura complexa de preocupação paternalista com as classes baixas e política astuta. As suas medidas cumpriram o propósito de minar a atractividade política dos sociais-democratas, força política recém-criada na altura.

Milton Friedman e Rose Friedman, Liberdade para escolher, Lua de Papel, Alfragide, 2012, 131.
 
 

O bem pelo bem, livre-arbítrio, ausência (de julgamento e recompensa), misericórdia, graça sem méritos




Voto de pobreza


Escolheram viver em casas frias
com enfermos, bêbados, criminosos
e podem descrever muitos tipos de piolhos do corpo
Deixam que os olhos se mortifiquem
na visão de excrementos e membros mutilados
bocas, narizes, olhos
(não são pecadores decentes
os receptores do amor de Cristo)

 

A frugalidade alumia neles o que vem
a escassez interpreta a oferenda
mas tendo esvaziado assim os seus celeiros
ainda dizem
«nada entreguei»

 

pois a pobreza verdadeira não é essa:
é aceitar que depois de tudo
o pai do filho pródigo não queira saber
porque se parte
ou porque se regressa

 

José Tolentino de Mendonça, Estação central, Assírio & Alvim, Lisboa, 2012, 42. 

 

Boa televisão: o documentário sobre Herberto Hélder


Continua a RTP2 a fazer distinto serviço público no conjunto de documentários com que nos tem presenteado acerca de grandes figuras da cultura portuguesa contemporânea. Nesta segunda-feira à noite, o documentário sobre Herberto Hélder foi mais um dos que devem ficar para arquivo e disponibilizados para todos os que queiram (continuar a) aprender. Ser despertos para as obras maiores do espírito humano. Cultivar o gosto. Documentário sem o testemunho do próprio Herberto, mas com profundos conhecedores/conhecedoras da sua obra e respectivas chaves interpretativas, nuances biográficas, localizadores de abalos sísmicos no encontro com o texto e com o mundo por ele criado. Com alguns relatos de companheiros de viagem, sempre desconcertantes, como Luiz Pacheco.
Continuem.
 
 
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

'Estação central'


Imagem

Nesta semana em que se celebra o primeiro ano de viagem, fica, ao João e à Carla, a saudação especial de quem os vê na Estação Central:
 
 
                                             A ciência do amor
 
O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria
 
Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam
 
Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam
 
José Tolentino de Mendonça, Estação Central, Assírio & Alvim, 2012, 24.
 
 

A dúvida como lugar de encontro (II)


Nenhum deles consegue fugir totalmente à dúvida, nem à fé; para um, a fé marca presença contra a dúvida; para outro, a fé está presente pela dúvida e sob a forma de dúvida. Faz parte da configuração fundamental do destino humano poder encontrar o carácter definitivo da sua existência tão-somente na rivalidade interminável entre a dúvida e a fé, entre a tentação e a certeza. Talvez seja justamente a dúvida aquilo que nos protege ambos da reclusão exclusiva no seu próprio eu, o lugar em que a comunicação poderá realizar-se. É ela que os impede a ambos de se fecharem completamente em si próprios, é ela que quebra a carapaça de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a carapaça de quem duvida para aquele que tem fé. Para um, a dúvida é a sua maneira de participar do destino do incrédulo; para outro é a forma que a fé encontra de continuar a ser um desafio para ele.[1]


[1] Idem, 33.

A dúvida como lugar de encontro


Claro que é preciso reconhecer que quem tenta anunciar a fé no meio de pessoas envolvidas na vida e no pensamento hodiernos pode sentir-se realmente como um palhaço, ou antes como alguém que se levantou de um sarcófago antigo e se apresenta ao mundo de hoje com os trajes e pensamento de antigamente, sendo incapaz de compreender este mundo e de ser compreendido por ele. Mas se aquele que tenta anunciar a fé assumir uma atitude autocrítica, depressa notará que não se trata apenas da forma ou de uma crise de roupagem com que a teologia se apresenta. Quem, na estranheza do empreendimento teológico dirigido aos homens do nosso tempo, levar a sério a sua missão experimentará e reconhecerá não apenas a dificuldade de se fazer entender, mas também a insegurança da sua própria fé e o poder aflitivo da incredulidade presente dentro da sua própria vontade de crer. Quem, portanto, se dispuser hoje, com toda a honestidade, a prestar contas da fé cristã a si mesmo e aos outros terá de aprender que não é apenas um mascarado que só precisa de trocar de roupa para ficar em condições de ensinar aos outros com sucesso. Antes terá de compreender que a sua própria situação pouco se distingue da dos outros, ao contrário do que talvez tenha pensado inicialmente. Perceberá que em ambos os grupos estão presentes as mesmas forças, muito embora atingindo de maneiras diversas nuns e noutros (…) Depois de termos reconhecido o facto de que o fiel não pode viver confortavelmente uma vida livre de problemas, porque está sempre ameaçado pela queda no nada, precisamos admitir agora, num segundo passo, que os destinos humanos se sobrepõem parcialmente, de modo que também o descrente não vive uma existência totalmente fechada sobre si mesma. Por mais que ele insista em agir como puro positivista que há muito superou as tentações e as vulnerabilidades sobrenaturais, vivendo agora só no âmbito da certeza imediata, jamais o abandonará a dúvida secreta a respeito do valor definitivo do positivismo. Assim como o fiel é sufocado pela água salgada da dúvida que o oceano não pára de lançar na sua boca, assim também existe a dúvida que o incrédulo nutre a respeito da sua incredulidade e da totalidade real do mundo que ele resolveu erigir como o seu tudo (…) Por outras palavras, não há como escapar do dilema da existência humana. Quem quiser fugir das incertezas da fé terá de suportar as incertezas da ausência de fé e nunca poderá dizer com certeza definitiva que a fé não é a verdade. Só na recusa da fé se revela a sua irrecusabilidade”[1]


[1] J. RATZINGER, Introdução ao cristianismo, Principia, Cascais, 2005, 31-32.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Filmes de 2012



Não é estranho que Oliveira se tenha interessado por “O Gebo e a Sombra”. Brandão é um quase-modernista genial, um Dostoievsky vimaranense, de mundividência sofrida e metafísica. E este texto parece bem pertinente no pós-2008, embora a peça tenha sido publicada em 1923 e levada à cena quatro anos depois, no Teatro Nacional D. Maria II (…) Obcecado com o sofrimento e com os “humilhados e ofendidos”, Brandão parece céptico face a quaisquer soluções políticas, e passa da denúncia social ao humanismo, e deste à angústia abstractizante do “mal”. É ao “mal” que o Gebo cede no fim, depois de ter passado toda a peça a defender a “honra” e o “dever”. Guilherme de Castilho, no seu estudo biográfico sobre Brandão, escreve: “(…) estas duas faces contraditórias (…) mais não são do que (…) a expressão de uma dúvida universal e eterna: o dever obriga ou não obriga?; existe ou não existe o dever e a consciência moral? Se o dever e a moral não existem – se não há para eles uma razão, uma necessidade -, tudo é lícito ao homem e outra vida – aquela a que Raúl Brandão tem chamado, à falta de melhor designação, “a verdadeira vida” – se lhe abre de par em par, onde faz lei o instinto e os apetites (…)”. É óbvio que tudo isto remete ainda para um universo cristão, ao qual nem Brandão nem Oliveira são alheios; mas também se avança para questões como a possibilidade de uma moral ateia, a falta de sentido das nossas acções e a natureza talvez ilusória de todos os valores (…)
Não aguenta aquele “mundo de pesadelo”, quem o diz é Sofia, rapariga desesperada e doce, quase personagem russa, crente numa “outra vida”, num outro mundo: “Neste mundo onde se grita, ninguém ouve os gritos dos que sofrem?”.
A conclusão da peça é profundamente pessimista. O Gebo cansa-se da “ilusão” em que fundou a sua vida, a ilusão de que mais vale ser honrado e pobre do que enriquecer e calcar os outros (Brandão parece não conceber dinheiro não-inquinado). Já que o velho não consegue vencer o mal do mundo, desiste e junta-se ao mal, repudiando o sacrifício e o viver habitualmente. O seu “negrume” deixa de ser a ilusão da honradez e passa a ser a ilusão da amoralidade. Foi a sombra do dinheiro que o fez abdicar das suas certezas tristes: “O dinheiro nunca se perdoa”. Mas através do dinheiro ele descobriu a podridão moral, da qual o dinheiro é tão-só um símbolo. E convence-se por isso de que qualquer ética não passa de uma ficção. Daí a conclusão horrenda: “A gente só se não arrepende do mal que faz neste mundo”.

 

Pedro Mexia, Actual nº 2082, Expresso, 22/09/12, p. 3.

Revisitar o passado: de Sá Carneiro a Passos Coelho



Rui Pena e os valores democratas-cristãos que pretendia ver acautelados na primeira AD.

Luís Coimbra e a visão do PPM sobre quais eram as convições político-ideológicas de Francisco Sá Carneiro, a partir de um trajecto partilhado na Aliança Democrática.

Emílio Rui Vilar e a importância da Igreja Conciliar e do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, no trajecto de Sá Carneiro.

Mário Soares e as primeiras conversas com Sá Carneiro sobre a concepção programática deste para o nascente PPD (PSD).

Guilherme d'Oliveira Martins, um dos fundadores da JSD, a memória de uma entrevista de Sá Carneiro a Jaime Gama, em 1969, ao República, e o porquê de a este (então) se ter juntado.

Marcelo Rebelo de Sousa, senador do PSD com obra publicada sobre a história do partido, acerca da formação social-democrata, à maneira nórdica, de Sá Carneiro, o seu catoliscismo progressista, o apreço pelas liberdades numa dimensão social-liberal, a Europa como desígnio. 
 
 



domingo, 23 de setembro de 2012

Consistência e pertinência



Há aqui uma demissão e há todos os dias uma demissão, por exemplo quando não exigimos facturas nos diferentes serviços, quando nós pactuamos com a pequena cunha. Isto são demissões cívicas. Ou quando nós não pagamos os impostos. Um povo que considera normal fugir aos impostos não pode impor ética à política (…)

No entanto, quando [o governo] está a fazer este ajustamento e um processo de reforma estrutural, que nuns capítulos corre melhor do que noutros, tem sido acusado muitas vezes de estar ao serviço de um paradigma ideológico neoliberal ou liberal que dá o empobrecimento como estratégia…(…) Na narrativa que o Governo tinha construído e nas medidas que tomava nada indicava a hipótese liberal tout court. O que acontece com a TSU é que, ao implicar uma transferência directa de rendimento dos trabalhadores para as entidades patronais, ou, como se diz com algum eufemismo, para as empresas, ele veio no fundo legitimar o pensamento daqueles que diziam que o Governo estava a seguir essa estratégia. É uma coisa que, de repente, parece que se torna óbvia para as pessoas. Eu estou convencido de que não era nada disso, mas este é que é o aspecto principal…(…)

O PSD tem várias correntes dentro de si. Agora se se disser que esta corrente [que lidera o partido] é mais liberal e que outras foram mais sociais, eu acho que sim. (…)

Há uma coisa que eu sempre disse, e continuo a dizer (e o meu partido não gosta que eu diga isto): eu acho que os juros que são cobrados nestes programas de assistência financeira são juros usurários. (…)

Eu acho que tem havido progressos, mas eu acho que o grande problema é o problema da legitimidade. Não como alguns dizem, da legitimidade democrática, que está mais do que assegurada. É a legitimidade, digamos, moral, política e essa só existe se houver uma distribuição tendencialmente equitativa dos sacrifícios. Não está demonstrado, embora esteja a ocorrer, que no caso das PPP, no caso do capital, no caso da banca, estejamos a fazer tudo o que seria possível para assegurar a equidade. (…)

No caso das PPP pode-se estar a fazer um trabalho fantástico de reformatação, mas nunca há uma transparência total do que está a ser feito. (…)

Acho que tem de ser possível [mexer nos contratos das PPP]. Se é possível mexer nos contratos todos de toda a gente, se nós estamos a mudar o contrato social, temos de mudar os contratos que o articulam. (…)

Temos um processo irreversível e que, aliás, é letal para as democracias: não existe uma correspondência entre as circunscrições eleitorais e os centros de decisão. Nós votamos nas eleições em Portugal, mas uma parte importante das decisões que verdadeiramente nos afectam são tomadas fora de Portugal. Nós temos de construir instituições nas quais possamos ter uma participação adequada à nossa dimensão. O federalismo é uma necessidade. Se não, não há democracia possível.

As pessoas na Espanha também têm opiniões sobre a Catalunha e a Catalunha de Madrid. E em Portugal as pessoas do Porto têm opiniões sobre Lisboa e Lisboa sobre o Porto. Vamos com calma.

Diferenças vai haver sempre. Um federalismo europeu nunca será como o americano ou brasileiro. A Europa está mais radicada em nós do que imaginamos. Mas como é uma segunda pele, é uma pele mais problemática.


Eu não sou muito favorável às transferências. Elas são contrárias à lei [da limitação dos mandatos autárquicos]. Fui eu quem redigiu essa lei, com Vitalino Canas, e na altura a questão [das candidaturas de autarcas a outros municípios] não se pôs. Não foi um assunto tratado. Mas o espírito da lei não contemplava as transferências.

 

Paulo Rangel, entrevista a Manuel Carvalho, Público, 23/09/12, p.10-11.

Poderes públicos e responsabilidades privadas


Faltava disponibilizar aqui o texto da Comissão Nacional de Justiça e Paz, dado a conhecer esta semana, sobre o nosso actual momento:



Em quarto lugar, o Governo nunca foi capaz de demonstrar que os sacrifícios exigidos aos portugueses estavam distribuídos com equidade. Apesar de frases sonantes nesse sentido, a política pública não tem combatido eficazmente as disparidades na distribuição do rendimento e outras formas de desigualdade na sociedade portuguesa, havendo mesmo indícios de agravamento destas desigualdades nos últimos anos. Só agora se ouviu o anúncio de que seriam sujeitos a impostos novos alguns tipos de bens e de rendimentos de capital. O contraste entre o pormenor das medidas que atingem os rendimentos do trabalho e o carácter vago e brando de algumas que irão afectar, no futuro, a riqueza e os rendimentos de capital é significativo (…) A preocupação da CNJP é, antes mais, de natureza ética. Por isso, não pode subestimar as graves responsabilidades dos poderes públicos, de modo particular no que respeita à equidade e aos direitos básicos de subsistência e emprego. Mas não deve ignorar, igualmente, que as responsabilidades de cada um, cidadão e cidadã, de cada grupo e de cada empresa não se restringem apenas ao que seja exigido pelo Estado. Numa situação tão grave como esta, que muitos portugueses e portuguesas atravessam, impõe-se que, para além do que se situa no âmbito da competência dos poderes públicos, cada um responda positivamente à sua própria consciência, em matéria de justiça e de solidariedade.


Pode ler-se o documento na íntegra a partir daqui.


Comissão Nacional de Justiça e Paz, 19/09/12.

Qual humildade?


 
 
 
 
 

A escola Howard Webb


Leiam as perguntas de José Manuel Delgado a Vítor Pereira, presidente do conselho de arbitragem da FPF, há meses em A Bola. Registem as comparações que fez com Proença - exaltando, evidentemente, Webb, com vista a denegrir o árbitro português. Notem os textos de opinião no mesmo sentido, escritos de forma sistemática.
Não resisto a citar aqui, porque o humor é um excelente antídoto contra a propaganda, o tweet da BBC SPORT após uma arbitragem muito infeliz e decisiva para o resultado do Liverpool-Man.Utd desta tarde, na Premier League:
 
 
"BREAKING: Congratulations to referee Mark Halsey for officially graduated from 'Howard Webb's School of Refereeing' after this performance".


Silêncio


O Silêncio
 
Durante anos o compositor John Cage sondou a possibilidade de uma obra sem sons, mas impedia-o duas coisas: a dúvida se essa tarefa assim não estaria, desde logo, votada ao fracasso, porque tudo é som; e a convicção de que uma composição tal seria incompreensível no espaço mental da cultura do Ocidente.
Foi contudo sendo encorajado pelas experiências que se realizavam nas artes visuais, em particular a série de pinturas de Rauschenberg, de quem era amigo, algumas todas em preto, outras em branco. Assim, em Agosto de 1952, estreia a sua peça 4’33’’; num concerto onde também se interpretaram obras de Christian Wolff, Morton Feldman, Pierre Boulez.
A proposta de John Cage era completamente insólita: o músico deviam subir ao palco, saudar o público, sentar-se ao instrumento e permanecer, em silêncio, por quatro minutos e trinta e três segundos, até que, de novo, se levantasse, agradecesse à plateia e saísse. Na assistência instalou-se a polémica e choveram as vaias. Mas ao longo de toda a sua vida, John Cage referiu-se a essa peça com sentida reverência: «a minha peça mais importante é essa silenciosa; não passa um só dia que não me sirva dela para tudo o que faço».
Susan Sontag num ensaio que intitulou “A estética do silêncio” pega, entre outros, neste exemplo de Cage para pensar no significado desta espécie de “fuga para o silêncio” que a arte e o pensamento contemporâneos têm sublinhado. Dá que pensar a frase com que abre o seu ensaio. Diz ela: «Cada época deve reinventar para si mesma o projecto de uma espiritualidade».
Quando medito no contributo que a cultura possa dar, num futuro próximo, à existência humana, pressinto que mais até do que a palavra será a partilha desse património imenso que é o silêncio. Mesmo que construamos a palavra como uma torre, temos de aceitar que ela não só não toca cabalmente o mistério dos céus, como muitas vezes nos incapacita para a comunicação e a compreensão terrenas. Precisamos do auxílio de outra ciência, a do silêncio. Já Isaac de Nínive, lá pelos finais do século VII, explicava: «A palavra é o órgão do mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo que está a chegar».


José Tolentino de Mendonça, no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, 22/09/12.

 

Novos termos


"A partir de agora, o orçamento terá de ser ideologicamente muito mais neutral".

André Macedo, diretor de Dinheiro Vivo, Telejornal, RTP1, 22/09/12

sábado, 22 de setembro de 2012

PPD-PSD: 1974-2012, uma entrevista para Passos Coelho


 
O Professor Jorge Figueiredo Dias dispensa apresentações. Esta entrevista, que talvez surpreenda os que sendo jovens são menos politizados, não dispensa, obviamente, o contraditório, mas devia passar nas concelhias do PSD, para este se redescobrir e repensar. A existir uma vontade de aprender e de mudar, fazia bem mais falta a sintonia com o que nela é dito sobre as marcas fundacionais do partido, do que mudanças puramente artificiais num elenco, ou alterações em medidas pensadas com todo o tempo do mundo e que, se estão mal, como estão, é no que subjaz de regressividade fiscal e no pensamento que leva até ela. E se mudança nessa sede não se verificar, o resto não passará de cortinas de fumo. A rua e as instituições obrigaram a uma inversão de rumo - que se espera equitativa e atenta aos que mais precisam - que julguei não ser susceptível de se concretizar, mas que, pelos vistos, já andou muito mais longe de se produzir.
 
 
 

Inorgânico


 
Vejo num directo das manifestações, em Belém, um senhor com o último livro de Rob Riemen na mão, junto às grades; ouço cantoras líricas, tenores e centenas de vozes ensaiarem, afinadas, o Acordai, de Lopes Graça; fotocópias não apenas contendo as letras, mas, também, a respectiva pauta musical passam entre a população; há cartazes pejados de criatividade.
 
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ser professor





Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.
A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.
(…) Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didáctica, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.
 Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.
Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.
Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.
(…) E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias. 

Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo.
 
 
 

Valter Hugo-Mãe, Os professores, in Jornal de Letras, ano XXXII, n. 1095, (19 Setembro a 2 de Outubro), 2012, 34.