sábado, 30 de junho de 2012

Bem-vindos ao deserto real

O Cavalo de Turim

Ao quarto dia, o poço secou. As personagens, muito a la Sísifo, parecem, na repetição, inusitada e infindável, dos gestos – o despir/vestir antes da imersão na cama; o “está pronto”, sinal desalmado e mecânico para chamar à refeição; a comida que sempre e sempre se repete – experimentar o absurdo. Pode ser na perplexidade de um olhar impassível e interminável pela janela que atira a um mundo inóspito e constantemente estrangeiro (Camus); pode ser na alienação dos gestos banais que, hora a hora, sempre os mesmos, podem conduzir/conduzem ao vazio. Não há só Nietzsche na tela: o outro – o outro cigano, por exemplo – é sempre um incómodo/estorvo à minha liberdade e realização (Sartre).
Tacteando em busca de uma chama que se apagou, parecem, curiosamente, os personagens, ainda à procura. Neste sentido, sim, o filme não seria deste tempo (como escreveu Luis Miguel Oliveira no Y da semana passada). Porquê? Porque este seria, afinal, o tempo da desistência de qualquer indagação (Lipovetsky). Mas não será que, ao fim e ao cabo, desistem também, humanos exauridos estes, os do filme de Bela Tarr, estes nós-outros também, ficando-se, de há muito, na indolência do que conserva – do útil, da roupa à aguardente -, em movimentos sem qualquer sentido – sem emoção, sem o belo, descarnados quase? O nihilismo é nossa casa (moderna/contemporânea).
O cavalo inamovível, sem forças, esgotado fez-me lembrar o gato anafado dos Maias, por muito que Tarr não goste de metáforas. Elas, aliás, nem necessárias são quando como que o louco da Gaia Ciência – em vez de louco, aqui, o (meio) bêbado – invade a tela para nos falar – sem recurso, cá está, a quaisquer imagens -, da ausência de bem e de mal, da ‘morte de Deus’ e como o humano devia ter buscado outras fontes (d)onde haurir. Não o tendo feito, em jeito de requiem, quando, até, os elementos naturais se foram – o poço que seca, o fogo (a luz) que já não há (“até as brasas se apagaram”) – o louco regressa, em todo o seu ardor, através da voz feminina, que pergunta: “Que escuridão é essa, pai?”.
É de noite, sim, mas somos com São João da Cruz que mesmo de noite sempre soube donde a fonte mana.



P.S.: sim, à luz dos filmes habituais, este é um filme que “já não existe” (Luis Miguel Oliveira). Quer dizer, "podemos imaginá-lo" há algumas “décadas”, mas não hoje. O que, por outro lado, não deixa de ser terrível, como se as interrogações que vão, vamos lá, até ao fim do mundo, tivessem, algum dia, deixado de fazer sentido. E esse é o nada em que não poderemos cair.
 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Carlos Ruiz Zafón

Cristina Margato, entrevista Carlos Ruiz Zafón, “A literatura é uma amante ingrata e perigosa. Apaixonas-te pela literatura, mas ela não se apaixona por ti nem por nada. Normalmente a literatura devora-te. Expresso. Atual, 23. 06. 2012, 6-10

Nos livros de Carlos Ruiz Zafón há um jogo a que é impossível escapar. Uma espécie de puzzle que nos está sempre a colocar desafios. Um labirinto onde nos podemos aventurar, sem nunca sair da gótica Barcelona. Pouco interessa se a leitura começa no último livro, "0 Prisioneiro do céu" (da tetralogia "0 Cemitério dos Livros Esquecidos"), que o escritor catalão está agora a lançar em Portugal. Ou se já se conhece a história apaixonante dos alfarrabistas Sampere desde 2008 altura em que Zafón lançou "A Sombra do Vento" (Edições Planeta). Os três livros publicados (há ainda "O Jogo do Anjo", de '2008) tem vasos comunicantes, diversas possibilidades narrativas que cabe ao leitor construir. Juntos já venderam mais de 25 milhões de exemplares, mesmo que seja difícil imaginar: como é que uma história de alfarrabistas, escritores e editores pode apaixonar tantos leitores. Zafón, porém, explica que se limitou a concentrar neste universo tudo o que sempre lhe interessou desde menino. Na altura, achavam-no estranho. hoje, acham-no escritor: Mas Zafón pode também ser um maestro. Até porque é à música, explica, que vai buscar a matriz.


Quer, como a personagem do editor Andreas Carelli [em "0 Jogo do Anjo"], criar um livro para incendiar o mundo e arder com ele? Não. É uma monstruosidade. Essa é a função de Corelli. O Diabo quer destruir toda a criação. Parece-me uma ideia interessante do ponto de vista literário.
A dada altura, ele também diz que quanto mais pomposa e pedante for a escrita menos há para dizer. É um recado? Em ficção, o cerimonial não funciona. Temos de convencer o leitor. Carelli, no entanto, diz muitas coisas com que não concordo. Lança ideias para provocar o leitor. Tudo o que ele diz é para confundir quem o ouve. Não é um humanista. Não tenho nenhum interesse em estar de acordo com as minhas personagens. Mas defendo-as honestamente, mesmo que tenha opiniões diferentes delas. Faço um exercício sofista. Não saboto argumentos.
Mas esta personagem do editor diabólico, é também uma figura muito pretensiosa e com ideias muito concretas sabre o mundo literário. É a voz do escritor? Não. A existência de personagens com pontos de vista distintos, e opiniões em conflito, é muito importante e torna a narrativa mais interessante. Estes livros jogam com muitas das convenções literárias do século XIX. Não significa que seja a minha ideia do mundo. Não vejo o mundo como um lugar maldito. Há nele, porém, muitas coisas más e lamentáveis, mas sem dimensão operática. O mundo real não tem, inclusive, a beleza obscura e grotesca que a literatura pode ter. A maldade real é banal, trivial, estúpida. Não tem interesse. Mas estes livros pediam esta estética operática. Não me interessa que os outros pensem o mesmo que eu. Interessa-me que o leitor pense e se sinta obrigado a entrar na história. Não o quero convencer. Não sou padre nem político. Nunca ponho as minhas ideias ou as minhas histórias no centro da narrativa, como se isso fosse a verdade. Há, no entanto, uma verdade que atravessa quase todas as personagens destes três livros: a de que a, Literatura salva, nomeadamente de uma existência triste, trágica, mas é também uma porta de entrada para o mundo dos demónios, para a loucura. Isso esta sempre Ia. Não creio que seja o mundo da literatura, mas o mundo das ideias, da (7) mente, da imaginação, que nos abre essa dimensão. Por um lado, pode redimir-nos, ser porta de entrada de um universo; por outro, devorar-nos, porque e muito poderoso. A literatura é uma amante ingrata e perigosa. Apaixonas-te pela literatura, mas ela não se apaixona por ti nem por nada. Não podes esperar que, ao dedicares a tua vida à literatura, a literatura te vá agradecer. Ela não te vai dizer: "Como tu foste boa comigo e me dás o melhor de ti, eu vou-te dar o melhor de mim." Normalmente a literatura devora-te. Estes livros são sobre escritores, editores, livreiros, leitores. Era um tema que me interessava explorar. Às vezes levo-o a extremos muito dramatizados. A literatura, a arte, o pensamento é aquilo que nós, os humanos, podemos fazer melhor. As outras espécies não chegam aqui. A relação entre os escritores e a criação é muito interessante quando apresentada de diferentes ângulos e não apenas através da visão mais bonita. reside a maravilha dos livros! Sim, tem um lado maravilhoso, mas também tem um lado obscuro. É interessante e foi o que tentei fazer com esses livros.
É uma surpresa pensar que uma série de livros sobre escritores e livreiros é um sucesso. Os três livros que compõem "0 Cemitério dos Livros Esquecidos" Já acumularam 25 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Imaginou algo assim? Quando se escreve alimenta-se sempre um desejo secreto: a de que aquilo que escrevemos vá interessar a alguém.
Como surge esta never ending story? Sim, podia, ser uma never ending story. Mas não vai ser. Esta história aparece numa altura muito especifica da minha vida. Comecei a escrever em 1992, para ganhar a vida. Escrevia coisas muito diferentes: livros para jovens, guiões. A certa altura, dei-me conta de que estava sempre a escrever o que os outros queriam, ou o que os outros esperavam que eu escrevesse. Até aquele momento, não me tinha permitido escrever o que queria. Quando esta história surge, estava a trabalhar como guionista e sentia-me desgastado. Decidi dar, uma oportunidade a mim mesmo, para poder explorar o meu mundo interior e criar algo que fosse pessoal, único. Queria escrever uma coisa sobre mim próprio, sobre livros, sobre literatura, leitura e criação de histórias. Algo que incluísse todas aquelas coisas que me interessavam desde sempre e que pudesse absorver as diferentes estéticas que, me atraiam, nomeadamente na arquitetura e na literatura do século XIX. Criei um mundo puramente literário que usa um lugar real [Barcelona] e um período histórico [final do século XIX até a primeira metade do século XXI, mas não deixa de ser apenas uma fábula. E é também um labirinto; porque as histórias são muitas e estão articuladas. O entendimento de cada uma das histórias vai depender da ordem pela qual são lidas.
Essa estrutura labiríntica é anterior aos livros? Sabia que queria fazer este sistema, sabia que me levaria algum tempo, mas não sabia se era capaz de o fazer. Primeiro tive a ideia geral. Atraia-me a complexidade, até técnica, de construir estes livros. Queria que cada um deles assumisse uma personalidade própria; que a leitura de cada um dos livros alterasse a leitura e a  percepção dos outros e também que cada romance fosse uma das quatro portas de entrada de um labirinto. Este era o projeto que eu tinha, mas é um grande desafio, e é um projeto vivo.
Falta o quarto livro. Para quando está previsto? Sim, o quarto vai ser a grande explosão final. O maior livro de todos, que partirá tudo. Acho que vou levar mais uns dois anos a acabá-lo. Será o final de tudo isto.
Quando se ala um mundo com esta complexidade torna-se difícil abandoná-Io... Sai-se. Mas pode-se sempre voltar. O próprio leitor pode voltar a cada um destes livros. Há uma série de detalhes que lhe podem ter escapado numa primeira leitura. Há imensos níveis nestes livros. Construi-os como se fossem um jogo para o leitor; que nunca será igual para todos os leitores. O jogo muda face às leituras de cada um. São as expectativas específicas do leitor face às personagens e seus desenvolvimentos que vão criando a tensão. O subtexto varia em função das referências a que cada um se agarra. Claro que pode haver um leitor que nunca leu nada, mas que terá ido, por exemplo, ao cinema.
Notam-se referências de origens muito distintas, dos clássicos ao "Pulp Fiction", passando pela BD, ou pela "manga" [banda desenhada Japonesa]. Só não Iê a lista telefónica? Não tenho uma fobia particular em relação a nada. Tenho referências de origens muito diferentes, das mais conhecidas as mais obscuras. Acho que não leio novelas cor de rosa.
As figuras femininas são as menos profundas e desenvolvidas... Sim, porque são construídas como os homens as veem. Em "A Sombra do Vento", por exemplo, todas as mulheres aparecem através dos olhos de um adolescente. Nunca e como as mulheres se veem a si mesmas. Há muito poucos escritores, e eu também não o tentei fazer, que consigam construir uma mulher a partir de dentro sendo homem, e vice-versa. Por uma questão de honestidade emocional prefiro não tentar construir uma mulher a partir do seu interior. Quando os quatro livros estiverem completos vai perceber-se...a razão por que cada um tem a perspetiva de uma personagem e é uma diferente porta de entrada no labirinto.
Faz desenhos, diagramas, maquetas para se orientar nesse labirinto? Não. Está tudo na minha cabeça. Tenho uma regra para que tudo isto funcione: tudo o que não posso conter na minha cabeça não devo usar. Se não sou capaz de manter todas estas bolas no ar, como um malabarista de circo, e porque são muitas. Se há uma bola que precise colocar à parte, num esquema, e num mapa para posterior consulta, e porque esta uma bola a mais. Tenho sempre uma visão de conjunto, um panorama muito grande, e dou ao leitor apenas uma janela muito pequenina. Há escritores que fazem desenhos das suas personagens. Eu utilizo peças de música. Escrevo música sobre as personagens e as situações. Isso diverte-me. O modo como penso a escrita tem muito a ver com a música, em que há um  material temático que depois se orquestra. O importante é o contraponto, o timbre, a cor, o tempo, a criação de tensão, as dinâmicas. Tudo isso está na orquestração. Quando ouvimos uma música não nos damos conta de que estamos perante um grande labirinto, um sistema complexo. Escrevo prosa dessa forma, como se fosse uma música. Essa é a minha maior influência na construção de um texto e quando o refaço e refaço e refaço.
Nota-se bastante esse trabalho de apuramento nos diálogos. Os diálogos são ferramentas muito importantes.
E que usa mais em "0 Prisioneiro do Céu" (2012)... Sim, porque quero que cada um dos livros tenha a personalidade daquele que considero o novelista dentro da novela. "A Sombra do Vento" é uma recordação de um menino e de um adolescente; é uma novela de Julian Carax. Estamos a ouvir falar de um livro de Carax e estamos a ler outro que se sobrepõe ao primeiro, até que na última página se unem e os dois livros se transformam num. "0 Jogo do Anjo", o segundo, é um romance de David Martin (jornalista e escritor), logo tem um tom totalmente diferente. Martin está isolado do mundo, e o livro é impregnado pela visão de alguém que vive no seu próprio inferno. "0 Prisioneiro do Céu" é, como uma memória, um relato oral de Fermin Romero Torres sobre a sua identidade, o seu passado.
E é também o livro mais político.  Devido a história. Fermin vive a tragédia política que teve lugar em Espanha durante a Guerra Civil.
Foi, por isso, um livro mais bem recebido na Catalunha? Todos foram. Claro que há muita gente na Catalunha que se sente mais próxima deste livro, porque os pais ou os avós passaram por situações semelhantes.
Neste momento há um forte movimento nacionalista na Catalunha. Sim. Este movimento nacionalista, como todos os outros,. passa por interesses muito precisos. Uma coisa e a retórica e outra e a realidade. E a realidade dos nacionalismos tem interesses muito concretos. Em Espanha, as tradicionais fraturas foram esquecidas com a prosperidade,. a calma, a transição. Mas neste momenta essas fraturas esmo de novo a evidenciar-se devido aos interesses económicos.
Sim, há aquele discurso de que a Catalunha é uma região rica que sustenta as outras mais pobres... Até há pouco tempo, o 'nacionalismo catalão tinha um discurso mais cultural. Era uma coisa sentimental e não convencia. Eram poucos os catalães que se juntavam a causa. Dizer às pessoas que estão a ser roubadas quando se vive um período de cataclismos económicos é uma estratégia muito poderosa e muito mais eficiente. No meu entender, e muito perigosa. E brincar com o fogo. É preciso ver que existe o outro lado; o "anticatalanismo". Espanha tem realmente uma série de lutas e tensões que nos últimos tempos se têm tornado mais evidentes, porque os interesses que estão por trás têm uma atuação mais desesperada. É algo que sempre se fez em Espanha e que acaba em desastre. Sempre.
Neste último livro há uma personagem que representa o poder de Franco e há também a ideia de que de Espanha, terra sangrenta, não pode vir nada de bom... Há uma expressão em Espanha que se utiliza muito e que é o "caimnismo", de "caimnita", de Caim, do irmão que mata o irmão. Isto está (9) muito presente na cultura espanhola. Espanha é um país que tem muito potencial e um reverso escuro, no qual se destrói a si mesmo. Às vezes, a inveja, a cobiça, o ódio entre os espanhóis crescem a tal ponto que produzem desastres. E essa é uma tradição histórica ou cultural. Provavelmente estas dinâmicas da história não são passiveis de desmontar. Os espanhóis estão conscientes delas, e desse "caimnismo", que aparece muitas vezes expresso na sociedade e sobre o qual se discute muito.
E essa é também a sua opinião? Penso que parte disto é certo e verdadeiro. Não tenho uma visão fatalista e "tremendista". Porque há outra coisa em Espanha a que se chama o "tremendismo". Já existia no século XIX. Está na cultura, na arte, nas pinturas de Goya. Passa-se da euforia ao dramatismo. Tudo é horrível e é o fim do mundo, quando na verdade nem tudo é assim tão mau. É claro que as coisas podiam ser melhores e que há uns lacraus que sabotam e que se sabotam a si mesmos. Mas há muitas outras culturas em que isto acontece. Acredito que há culturas onde as elites sao feitas dos melhores. Em Espanha, formam-se elites que não o são no sentido etimológico da palavra,  não estão lá os melhores, mas os invejosos. Há uma espécie de ditadura da mediocridade que vive da exclusão dos outros, para que estes não tenham acesso ao poder. 0 potencial do país fica destruído, o melhor dele fica sempre no fundo, enquanto quem o controla e dirige é, por vezes, o pior do que existe nele. É o  que está a acontecer agora mesmo com grande clareza, está-se a desmoronar toda uma estrutura e a aparecer o edifício da corrupção, da falta de ética, da podridão, enquanto do outro lado se vê uma enorme quantidade de gente com grandes capacidades e potencialidades mas que rapidamente cai nesse fatalismo. Eu não tenho essa visão tão fatalista.
E que também é muito portuguesa. Sim. Muito próxima, apesar de vivermos de costas voltadas. Nas culturas católicas. mediterrânicas partimos todos do mesmo material para diferentes versões, nas quais encontramos sempre, por exemplo, a inveja. Nas culturas protestantes e no norte, a expressão da inveja não é socialmente aceitável, ao contrário do que acontece nas sociedades latinas. No norte, a inveja é o reconhecimento do fracasso e da inferioridade. Nessas sociedades, se se critica é porque não se é capaz de fazer.
Os seus livros, provavelmente, em muito têm contribuído para o turismo em Barcelona [há até o "Gula de Barcelona de Carlos Ruiz Zafón", escrito por Sergi Doria]. Não sei. Barcelona disparou. nos últimos dez anos, como centro turístico. As vezes, quando OS leitores me dizem que depois de lerem os meus livros decidiram ir a Barcelona. Eu penso: ui! A cidade já tem demasiados turistas, que se concentram nas áreas históricas que a definem. Mas ao concentrarem-se lá também a descaracterizam. transformando-a numa espécie de parque temático.
Já não vive em Barcelona? Vivo metade do ano em Los Angeles e a outra metade em Barcelona. Fui viver para Los Angeles ainda jovem...
Queria ser guionista em Hollywood? Queria sair de Espanha. Gosto muito de Barcelona, mas não é  o mundo. Queria viver noutras culturas, ver mais. Gosto da Califasia, fiz lá muitos amigos e é uma parte da minha vida à qual não quero renunciar. Barcelona representa as minhas origens, a minha infância e juventude. Os meus pais viviam a apenas uma rua do Templo da Sagrada Família. Conheço bem a cidade.
Rosa Montero, romancista espanhola, diz que há sempre uma perda na infância de um escritor. Tem essa perda? Tenho o sentimento da perda muito desenvolvido e sempre tentei escrever sobre a perda. Pode ter a ver com a minha experiência com a minha família. Com a distância que sentia em relação  à  minha família e a incapacidade de me encaixar. Ninguém me entendia. Cresci nessa sensação de  distância desde muito pequeno e, quem sabe, a perda vem daí.
Não tinha nada a ver com eles? Lembro-me de a minha família me estar sempre a dizer que eu era muito estranho, esquisito. A minha família não era particularmente dada  à  leitura, o meu pai foi criança durante a Guerra Civil espanhola. Como muita gente de origens humildes, naquela época, teve uma vida muito dura. A minha mãe era. dona de casa e tinha um irmão, mais velho, que morreu há seis anos. Era uma família da classe media. O meu pai não teve acesso  à  educação e idealizava o mundo da educação e dos livros. Não queria ser ignorante e até se fez sócio de uma biblioteca porque achava que era importante ler os classicos. Creio que era mais um impulso de sobrevivência e de superação, um desejo de sair daquela miséria que era Espanha. Na minha família não havia precedentes. Eu gostava de muitas coisas que não lhes diziam nada: matemática, literatura, música, cinema, fotografia, arquitetura. Gostava de labirintos, de sistemas complexos. Sempre me interessei por todos os tipos de narrativa, por tudo o que se poderia utilizar para contar histórias. Quando se e criança desmonta-se a batedeira para ver o que está lá dentro e  como funciona. Pois eu fazia o mesmo com tudo o que via.
Foi muito difícil escolher uma área de estudo? Sabia exatamente o que queria fazer: escrever. Era muito pequeno e já dizia que queria ser escritor. Devia ter uns 5 anos. Escrevo desde pequeno.
Há em si um pouco da personagem de David Martin, o menino que Iê livros às escondidas do pai?
Creio que a personagem que se parece mais comi-. go e Julian Carax. Mas dei muitas coisas minhas a David Martin, nomeadamente no que diz respeito  à  infância dele.
A livraria Sampere? Sim, as coisas que o fascinam como criança. Em criança sentia-me um menino muito só, muito isolado do mundo.
E porque é que escreve? Sabe? O nosso cérebro está construído de modo a que seja mais fácil absorvermos tudo o que esteja organizado segundo uma sequência narrativa de informação, sejam números ou ideias. A psicologia evolutiva ensina-nos isso. O que é mais importante para nós e o que melhor define a nossa identidade está sempre articulado segundo uma sequência, uma narrativa, mesmo na matemática. Contar histórias foi o mecanismo que encontrei para entender o mundo.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Exames de Português

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redação que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.
Vou chumbar a Língua portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia "ele está em casa", "em casa" era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. "O Quim está na retrete": "na retrete" é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos "ela é bonita". Bonita é uma característica dela, mas “na retrete" é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar, etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um "complemento oblíquo". Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo "complemento oblíquo", já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o  que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta à outra: há por exemplo verbos transitivos diretos e indiretos, ou diretos e indiretos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há  o  determinante e  o  modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, "algumas" é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos "o Zé não foi ao Porto", era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos "A rapariga entrou em casa. Abriu a janela", o sujeito de "abriu a janela" era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice.  Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12. Estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjetivalização de verbal e de adjetival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico,  classes e subclasses do modificador, signo linguístico,  hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica,  discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto,  hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalho e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em "ampa", isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me poem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os outros o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redações também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redação – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8. o  ano, turma C (c de c...r...o,   setôra,  sem ofensa para si, que até é simpática).

Teolinda Gersão, Redação - Declaração de Amor à Língua Portuguesa (Debate Ensino do português), Público, 18. 06. 2012, 47.

Escritora. https:llwww.facebook.coml

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ainda a ERC: ser ou não ser, eis a questão

Pedro Lomba tocou, esta terça feira, no Público, em um ponto essencial na discussão acerca da ERC: os seus membros, a começar pelo seu Presidente, que "andou aos papéis na Quadratura do Círculo", não sabem, afinal, para que serve, e se serve, a ERC. Aliás, diga-se, instado, por Carlos Andrade, a dizer se, em sua opinião, a ERC se justifica, Carlos Magno andou em circunlóquios até ter que confessar não possuir resposta para tal questão. Conclui Lomba, de resto de modo magistral, que o problema não é de prática, mas de teoria (quer dizer, se, antes de mais, os próprios membros da ERC - e quiçá a sociedade em geral - não compreendem, verdadeiramente, o escopo, a utilidade, a oportunidade da ERC, então, nas respectivas práticas, como relatórios e afins, só pode sair asneira).
Dirão, de imediato, os mais cínicos que Lomba foi rebuscado para justificar, defendendo, de certo modo, em simultâneo, de forma mediata, o governo, uma decisão pré-concebida. Lomba, o jurista, dirá, é certo, que não pode estabelecer que houve dolo na decisão - e nesse estrito campo do Direito, com certeza que será impossível determiná-lo. Mas, quando o articulista encontra vários non sequitur no parecer da ERC, e percebe deliberadas fugas para 'lateralidades', certamente não terá deixado de registar o mesmo que os seus concidadãos quanto ao a priori da posição tomada. A valia do seu texto consiste em mostrar, ainda assim, que essa avaliação não chega: pode haver a priori, mas muitos desvios se devem, também, ao facto de aqueles senhores não saberem o que estão a fazer. Ora, a prestação de Magno, no programa de quinta-feira, provou-o abundantemente.

Yunus (VI)

A saúde é um outro sector com um grande potencial para a empresa social. A prestação pública de cuidados de saúde num grande número de países é ineficiente e muitas vezes não chega às pessoas que mais precisam deles. As clínicas privadas servem as necessidades das pessoas com rendimentos elevados. O grande fosso entre os dois tipos de serviço pode ser ocupado por empresas sociais.
No Bangladeche, a Grameen Healthcare (Grameen Cuidados de Saúde) está a desenvolver um protótipo de centros de gestão de cuidados de saúde nas zonas rurais que se concentrará na medicina preventiva e disponibilizará serviços de diagnóstico e de check-ups, seguros de saúde, sensibilização para questões de saúde e de nutrição, etc. A Grameen Cuidados de Saúde está a tentar explorar o acesso generalizado aos telemóveis colaborando com empresas líderes de mercado na concepção de equipamento de diagnóstico que permita transmitir imagens e dados em tempo real para técnicos de saúde localizados nas cidades. Explorando a nova eficiência que a tecnologia torna possível, acredito que a Grameen Cuidados de (24) Saúde conseguirá fazer baixar de tal forma os preços dos cuidados de saúde que até mesmo a zona rural mais desfavorecida poderá ser servida, cumprindo simultaneamente o objectivo de autosustentabilidade económica que define a empresa social.
A empresa social pode também desempenhar um importante papel no melhoramento das infra-estruturas do sistema de saúde. A Grameen Cuidados de Saúde está já a criar escolas de enfermagem para formar as filhas das famílias clientes do Banco Grameen. Há uma grande procura de enfermeiras qualificadas, tanto no Bangladeche como nos países ricos. Não vejo porque é que grandes números de jovens hão-de ficar sem fazer nada nas zonas rurais enquanto estas interessantes oportunidades de emprego ficam por preencher. As escolas de enfermagem geridas como empresas sociais podem ocupar esta lacuna.
A Grameen Cuidados de Saúde está a planear abrir centros de prestação de cuidados de saúde a nível secundário e terciário, também concebidos como empresas sociais. (Mais adiante, contarei a história de um desses centros, que está já em desenvolvimento, uma unidade para realizar algumas das intervenções cirúrgicas mais avançadas do mundo para tratar crianças que sofram de talassemia, um distúrbio genético que, se não for tratado, é fatal.) Para formar uma nova geração de médicos para esta unidade, a Grameen Cuidados de Saúde está a planear a criação de uma Universidade de Ciências e Tecnologia da Saúde.
Muitos outros segmentos do sector dos cuidados de saúde são apropriados para criar empresas sociais bem-sucedidas: a nutrição, o fornecimento de água, os seguros de saúde, os cursos superiores e estágios na área da saúde, os cuidados oftalmológicos, os cuidados materno-infantis, os serviços de diagnóstico, etc. Os protótipos levarão algum tempo a serem desenvolvidos. No entanto, quando mentes criativas concebem uma empresa social e um protótipo é desenvolvido com sucesso, ele pode ser replicado vezes sem conta.
Conceber cada um dos pequenos negócios sociais é como desenvolver uma semente. Depois de a semente estar desenvolvida, qualquer pessoa poderá plantá-la onde ela for necessária. Como cada unidade é auto-sustentável, os fundos necessários não constituem uma limitação. (25)
Entre outras coisas, a empresa social é uma maneira de dar aplicação às tecnologias mais potentes da actualidade.
O mundo actual dispõe de tecnologias incrivelmente poderosas. O seu crescimento tem sido muito rápido e elas têm-se tornado mais potentes a cada dia que passa. Quase toda esta tecnologia é propriedade de empresas com fins lucrativos que a controlam. As empresas usam esta tecnologia somente para fazer mais dinheiro, porque é essa a missão de que são incumbidas pelos seus accionistas.
No entanto, encarada de uma forma mais abrangente, a tecnologia é apenas uma espécie de veículo. Pode ser conduzida a qualquer destino que se queira. Como os actuais proprietários da tecnologia querem deslocar-se para os picos mais altos do lucro, a tecnologia leva-os até lá. Se outra pessoa decidir usar a tecnologia existente para pôr fim à pobreza, ela levará o seu utilizador a esse destino. Se outra pessoa quiser usá-la para pôr fim à doença, a tecnologia chegará lá. A escolha é nossa. O único problema é que o enquadramento teórico actual do capitalismo não nos faculta esta opção. Mas a inclusão da empresa social cria esta opção.
Um outro ponto a ponderar: de facto, não há necessidade de escolher. Usar a tecnologia para um determinado fim não a torna menos eficaz para servir um fim diferente. Na realidade, é precisamente o contrário. Quantos mais usos diversificados dermos à tecnologia, tanto mais potente ela se tornará. Usar a tecnologia para resolver problemas sociais não reduzirá a sua eficácia na produção de riqueza, aumentá-la.
Os proprietários de empresas sociais podem canalizar o poder da tecnologia para a solução da lista crescente de problemas sociais e económicos e obter resultados rápidos. Com este processo, possibilitarão o aparecimento de novas ideias, que futuras gerações de cientistas e de engenheiros poderão desenvolver. O mundo da empresa social beneficiará não só os pobres mas também toda a humanidade.
Quando o conceito de empresa social se tornar amplamente conhecido, aparecerão pessoas criativas com concepções atraentes de novas empresas sociais. Haverá jovens que desenvolverão planos empresariais para abordar os problemas sociais mais difíceis através de empresas sociais. As boas ideias, é claro, terão de ser financiadas. É com prazer que posso dizer que existem já iniciativas na Europa e no Japão para criar fundos de empresas sociais destinados a fornecer capital e empréstimos a empresas sociais.
A seu tempo, mais fontes de financiamento serão necessárias. Cada nível de governo - internacional, nacional, estatal e local - pode criar fundos de empresas sociais. Estes incentivarão os cidadãos e as empresas a criarem empresas sociais concebidas para abordar problemas específicos (o desemprego, a doença, o tratamento de resíduos, a poluição, a velhice, as drogas, o crime, as carências de grupos com necessidades especiais, como, por exemplo, os deficientes, etc.). Os doadores bilaterais e multilaterais podem também criar fundos de empresas sociais. As fundações poderão reservar uma percentagem dos seus capitais para o apoio a empresas sociais e poderão usar os seus orçamentos de responsabilidade social para financiar este tipo de empresas.
A certa altura, haverá a necessidade de criar uma bolsa de valores separada para facilitar o investimento em empresas sociais. Só estas empresas serão listadas nessa bolsa social de valores e os investidores saberão desde o início que não receberão dividendos. A sua motivação será desfrutar do orgulho e do prazer de contribuir para a resolução de problemas sociais difíceis.
Ibidem

terça-feira, 26 de junho de 2012

'Em defesa do Tribunal Constitucional'

Mas a sugestão [de extinguir o Tribunal Constitucional e substitui-lo por uma repartição do Supremo Tribunal de Justiça] é também ligeira. É ligeira porque parece ignorar a natureza própria das questões e dos conflitos jurídico-constitucionais. Tais questões não são nem política nem axiologicamente neutras ou assépticas. Elas implicam sempre, por parte de qualquer juiz – seja qual for o modo de nomeação -, uma pré-compreensão, uma mundividência, uma “chave de leitura”. Nesse tipo de matérias – como bem provam as bem-sucedidas experiências norte-americana e alemã -, não pode esperar-se uma jurisprudência “virginal”, desligada do mundo e das correntes de pensamento. A independência dos juízes não equivale à ausência de convicções ou opiniões; traduz-se, isso sim, na sua disponibilidade para ponderar os argumentos das partes e para, em razão do respectivo valor, eventualmente alterar a sua posição originária. A opção é, por isso, a de ter juízes cuja “mundividência” é de todos conhecida e pode ser cabalmente escrutinada, ou a de ter juízes (providos por via de carreira) cuja visão ou pré-compreensão permanece oculta e escapa a qualquer tipo de escrutínio democrático.

Eis aqui um outro ponto que tem de ser trazido à discussão: a resolução de questões jurídicas com grande melindre ético, social ou político implica uma legitimidade democrática adequada. Justamente porque lidam com a Constituição, tais matérias tocam as opções fundamentais da comunidade política e carecem, por conseguinte, de uma instância especialmente legitimada. Interpretar a Constituição é também, num certo sentido, fazer a Constituição; é ainda, mesmo que só epidermicamente, participar do poder constituinte. E isso não pode ser feito sem um quadro qualificado de legitimação democrática. Basta considerar o modo de designação dos juízes do Supremo Tribunal norte-americano ou do Tribunal Constitucional alemão para perceber por que faz sentido uma jurisdição constitucional própria com juízes democraticamente crismados.

(…)

Não é a justiça constitucional que tem legitimidade a mais; é o poder judicial no seu todo que tem legitimidade a menos. A existência do Tribunal Constitucional, devidamente autonomizado e separado dos restantes tribunais, é, só por si, um factor de reforço da legitimação de todo o poder judicial. Quanto mais os tribunais – mesmo os de instância superior dentro de cada ordem – forem plurais, abertos e diferenciados nos modos de selecção, recrutamento e formação dos magistrados, mais independentes (e, por conseguinte, mais legítimas) serão e aparecerão as suas decisões.

A ideia de “unicidade judicial” em que todos os juízes pertencem a uma só classe, com uma só carreira, governados por um só conselho, é uma ideia antiga, mas perigosa para a democracia. É totalmente contrária ao devir dos tempos e ao lugar que o poder jurisdicional deve ocupar nas sociedades políticas contemporâneas. O povo, os tribunais e a função jurisdicional precisam do Tribunal Constitucional. Oxalá os políticos portugueses o saibam preservar e prestigiar.


Paulo Rangel, Público, 26/06/12, 46.

ERC: uma deliberação deliciosa

O mais delicioso, na deliberação da ERC, sobre o caso Relvas, é isto: a conduta do ministro pode ser "objecto de um juízo negativo no plano ético e institucional". Mas, mas, mas "não cabe à ERC pronunciar-se sobre tal juízo". Melhor era impossível.
Quem não foi de modas foi Pacheco Pereira. Na mais recente emissão da Quadratura do Círculo foi brutal, no sentido do desvelamento da verdade, com todas as letras, na cara de Carlos Magno. Um grande momento de televisão e cidadania (e na linha do que fizera, aliás, com Jorge Coelho, a quando da ida deste para a Mota Engil, na sua última participação no programa enquanto comentador residente). Os dois restantes comentadores preferiram, ao invés, uma langue de bois que em nada contribui para o esclarecimento e a clareza no debate público.

Yunus (V)

Há seres humanos reais, que todos nós conhecemos, que ficariam encantados por poderem criar empresas com objectivos abnegados. A única coisa que teremos de fazer é libertá-los da atitude mental que põe a obtenção do lucro no centro de todas as empresas, uma ideia que lhes impusemos através da nossa teoria económica defeituosa.
Poderíamos perguntar-nos de onde virá o dinheiro para criar uma empresa que não tem qualquer intenção de produzir lucro. A resposta não é tão misteriosa quanto poderia supor-se. Uma das fontes será o dinheiro que actualmente se destina ao apoio a obras filantrópicas. Pensemos nas grandes fundações, assim como nas organizações sem fins lucrativos que prosperam graças à generosidade de milhões de doadores, grandes e pequenos. Só nos Estados Unidos, as receitas anuais das organizações sem fins lucrativos num ano recente atingiram mais de um bilião de dólares.
Como este montante sugere, as pessoas não se importam de dar dinheiro para apoiar organizações quando acreditam que elas estão a fazer do mundo um lugar melhor. Se as pessoas conseguirem ver que a empresa social pode atingir estes mesmos objectivos de uma maneira melhor, não transfeririam de bom grado cada vez mais os donativos que fazem a obras de beneficência para negócios sociais?
Para além de filantropos ricos como Bill Gates e Warren Buffett, muitas outras pessoas investirão em empresas sociais só para poderem partilhar a alegria de melhorar a vida dos seus semelhantes. As pessoas não só doarão dinheiro mas também a sua criatividade, as suas capacidades de estabelecer contactos, as suas aptidões tecnológicas, experiência de vida e outros recursos para criar empresas sociais que possam mudar o mundo.
Uma vez divulgada a ideia da empresa social, muitas pessoas reservarão algum do capital das suas empresas com fins lucrativos para empresas sociais. Essa será uma outra fonte de capital para as empresas sociais. Alguns dos fundos governamentais que são tradicionalmente aplicados em programas sociais serão usados em empresas sociais. Os fundos de responsabilidade social criados por empresas com fins lucrativos podem também ser disponibilizados para empresas sociais.
Quando a nossa teoria económica se ajustar à realidade multidimensional da natureza humana, os alunos aprenderão nas escolas e nas universidades que há dois tipos de empresas: as empresas tradicionais com fins lucrativos e as empresas sociais. Quando forem crescidos, pensarão em que tipo de empresa investirão e em que tipo de empresa quererão trabalhar. E muitos jovens que sonham com um mundo melhor pensarão no tipo de empresa social que gostariam de criar. Quando ainda estiverem na escola, alguns jovens poderão começar a conceber empresas sociais e até mesmo a lançar empresas sociais individual ou colectivamente para exprimirem o seu talento criativo para mudar o mundo.

Não um sonho, mas uma realidade
Tal como qualquer nova ideia, o conceito de empresa social necessita de ser demonstrado na prática. Por isso, comecei a criar empresas sociais no Bangladeche.
Algumas delas tornaram-se mais conhecidas porque foram criadas como joint ventures de empresas da Grameen e de grandes grupos económicos mundialmente famosos. O primeiro empreendimento conjunto desse tipo foi criado em 2005 em parceria com a empresa francesa de lacticínios Danone e tem como objectivo reduzir os níveis de subnutrição das crianças do Bangladeche. A Grameen Danone produz um delicioso iogurte para crianças e vende-o a um preço acessível aos pobres. A este iogurte são acrescentados todos os micronutrientes de que carece a dieta normal das nossas crianças: ferro, zinco, iodina, etc. Se uma criança comer dois boiões de iogurte por semana ao longo de um período de oito ou nove meses, obterá todos os micronutrientes necessários e tornar-se-á uma criança saudável e activa.
Como empresa social, a Grameen Danone segue o princípio básico de que deve ser auto-sustentável e de que os seus proprietários devem respeitar o compromisso de não retirar quaisquer dividendos para além do montante original que investiram. O sucesso da empresa é avaliado todos os anos, não pelo lucro gerado, mas pelo número de crianças que escapam à subnutrição nesse ano.
Contei a história da fundação da Grameen Danone no meu último livro, Criar Um Mundo sem Pobreza, e mais adiante neste livro actualizarei os dados sobre ela. Como os leitores verão, tem sido uma interessante experiência de aprendizagem, que proporciona muitas lições sobre como criar e desenvolver uma empresa social bem-sucedida.
O que é mais importante ainda é que a Grameen Danone tem servido como modelo a imitar, atraindo atenções por todo o mundo. Muitas outras grandes firmas têm abordado a Grameen com propostas para criarmos empresas sociais conjuntas. Pretendem a colaboração da Grameen para garantirem que o processo se desenrola de forma correcta, porque sabem que fomos os originadores deste novo conceito. Quando adquirirem experiência na área da empresa social, levarão o conceito aonde houver necessidade dele.
A nossa empresa social em parceria com a Veolia, uma grande empresa francesa de água mineral, chama-se Grameen Veolia Water Company e foi criada para fornecer água potável às zonas rurais do Bangladeche, onde a contaminação por arsénico é um enorme problema. As pessoas compram a água à empresa a um preço acessível em vez de beberem água contaminada. Ao longo do tempo, mediremos o impacto do fornecimento de água potável sobre a saúde dos habitantes locais.
Uma outra grande empresa mundial, a BASF, da Alemanha, assinou um acordo de joint venture com a Grameen para produzir mosquiteiros no Bangladeche com um tratamento químico. Quando estes mosquiteiros são usados sobre as camas, proporcionam protecção contra doenças transmitidas por mosquitos, como, por exemplo, a malária. A joint venture BASF Grameen produzirá e venderá estes mosquiteiros a um preço tão baixo quanto possível, para que os seus benefícios sejam acessíveis aos pobres.
A nossa joint venture com a Intel Corporation, a Grameen Intel, tem como objectivo usar as tecnologias de informação e da comunicação para ajudar a resolver os problemas dos pobres das zonas rurais - por exemplo, providenciando cuidados de saúde em áreas rurais dos países em vias de desenvolvimento, onde há falta de médicos e de enfermeiras e existem poucas clínicas. Como explicarei mais adiante neste livro, o objectivo é criar novas tecnologias de ponta que proporcionem o acesso aos conceitos de cuidados de saúde mais avançados aos pobres de áreas rurais - e, em seguida, criar um quadro de pequenos empresários que forneçam estes serviços vitais de um modo economicamente sustentável.
A nossa joint venture com a Adidas tem como objectivo a produção de calçado a preços económicos para pessoas de baixo rendimento. O objectivo da Grameen Adidas é que ninguém, criança ou adulto, ande descalço. Evidentemente, é mais agradável e confortável caminhar calçado em estradas de terra batida, mas, no fundo, trata-se de uma intervenção ao nível da saúde pública que visa contribuir para que os habitantes de zonas rurais, principalmente as crianças, deixem de sofrer das doenças que podem ser transmitidas por parasitas quando se anda descalço. A Adidas está a colaborar com a Grameen para trazer estes benefícios às pessoas mais pobres dos países em vias de desenvolvimento usando um modelo de empresa social economicamente viável.
Uma outra empresa alemã, a Otto GmbH, uma empresa líder na área das vendas por catálogo, está muito interessada em criar uma empresa social para fabricar têxteis e artigos de vestuário para exportação do Sul da Ásia para países do mundo desenvolvido. A Otto Grameen está a planear montar uma fábrica de confecções no Bangladeche que envidará todos os esforços para empregar pessoas frequentemente tratadas como economicamente marginais, como, por exemplo, mães solteiras e portadores de deficiência. Os lucros serão aplicados no melhoramento da qualidade de vida dos trabalhadores, dos seus filhos e dos pobres da zona.
Como estes exemplos demonstram, a empresa social não é só uma ideia agradável. É uma realidade, uma realidade que já começou a provocar mudanças positivas na vida das pessoas, para além de atrair verdadeiro interesse por parte de alguns dos grupos económicos mais avançados do mundo.
Muitas outras empresas sociais estão em marcha. Uma área interessante será a criação de emprego em localizações específicas ou para pessoas que se encontrem em condições particularmente  desfavorecidas. Como os negócios sociais funcionam sem a pressão de gerar lucro para os seus proprietários, o leque de oportunidades de investimento é muito mais amplo do que no caso de empresas com fins lucrativos. Antes de um empresário motivado pelo lucro decidir fazer um investimento, tem de garantir um mínimo predeterminado de retorno do seu investimento, digamos 25 por cento. Não fará o investimento se esse retorno não for possível, porque tem outras oportunidades de investimento que lho proporcionarão. Como o investidor procura o lucro, será motivado para certos projectos pela dimensão do lucro a obter.
Mas a decisão do investimento numa empresa social não se baseia no lucro potencial. Baseia-se na causa social. Se essa causa for criar emprego, a empresa social avançará se houver garantias de que pode ser autosustentável. Este facto dá à empresa social um enorme poder na criação de postos de trabalho. Podem até fazer-se investimentos em projectos em que o retorno é quase nulo e, através deste processo, criar oportunidades de emprego para muitas pessoas. Num mundo de negócios com fins meramente lucrativos, estes empregos nunca seriam criados. Que lástima!
Ibidem

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Yunus (IV)

Para mim, as pessoas pobres são como bonsais. Quando se planta a melhor semente da árvore mais alta num vaso minúsculo, obtém-se uma réplica da árvore mais alta, mas com poucos centímetros. Não há nada de errado na semente que se plantou; a terra em que foi plantada é que é inadequada. Os pobres são pessoas bonsais. Não há nada de errado na semente que lhes deu origem, mas a sociedade nunca lhes proporcionou a terra adequada ao seu crescimento. Para tirar as pessoas da pobreza basta criar um meio que lhes seja propício. Quando os pobres conseguirem libertar a sua energia e a sua criatividade, a pobreza desaparecerá rapidamente.
O conceito de empresa social
Dei os primeiros passos no sentido de ajudar as pessoas pobres em meados da década de 1970. Embora a pobreza tenha continuado a ser a minha principal preocupação desde então, avancei para outras questões por as considerar muito relevantes para a minha preocupação dominante. Ao longo dos anos, tenho-me envolvido nos sectores da agricultura, da pesca, das energias renováveis, da tecnologia da informação, da educação, da saúde, dos têxteis artesanais, dos serviços de emprego e em muitos outros sectores e subsectores similares. Pareceu-me que cada um deles poderia contribuir para ultrapassar a pobreza, se concebido de forma correcta. Criei uma empresa para cada sector e subsector, para ver se poderia abordar o problema da pobreza de forma sustentável. A pobreza é um estado de vida. Tem muitas facetas. Tem de ser abordada a partir de muitas direcções e nenhuma abordagem deve ser menosprezada.
Enquanto experimentava todas estas abordagens, dei comigo a passar de um nível do meu enquadramento conceptual para outro. Avancei do microcrédito para um conceito muito mais alargado, que também o inclui. Este novo conceito trará uma mudança fundamental à arquitectura da nossa economia capitalista, aproximando-a de um enquadramento completo e satisfatório (16) ao libertá-la das falhas básicas que conduzem à pobreza e a outros males sociais e ambientais. Trata-se do conceito de empresa social, que é o tópico deste livro.
Permita-se-me voltar por um momento à crise financeira de 2008-2009. Infelizmente, a cobertura dos meios de comunicação dá a impressão de que, quando resolvermos esta crise, todos os nossos problemas acabarão: a economia começará a crescer de novo e poderemos regressar de modo rápido e confortável ao «negócio como de costume».
Mas, mesmo que fosse desejável, o «negócio como de costume» não é realmente uma opção viável. Esquecemos que a crise financeira é apenas uma de várias crises que ameaçam a humanidade. Todos nós estamos a sofrer uma crise global de alimentos, uma crise de energia, uma crise ambiental, uma crise no sector da saúde e as crises sociais e económicas persistentes da pobreza mundial maciça. Estas crises são tão importantes como a crise financeira, embora não estejam a receber tanta atenção como ela.
Além disso, a cobertura dos meios de comunicação pode dar a impressão de que estas crises não estão relacionadas, que estão a ocorrer simultaneamente por mero acaso. Pura e simplesmente, não é verdade. De facto, estas crises têm uma origem comum - uma falha fundamental no nosso edifício teórico do capitalismo.
A maior falha na teoria vigente do capitalismo reside na sua representação incorrecta da natureza humana. Na actual interpretação do capitalismo, os seres humanos envolvidos em negócios são representados como seres unidimensionais cuja única missão é maximizar o lucro. Supostamente, os seres humanos tentam alcançar este objectivo económico de uma forma que exclui qualquer outro.
Esta é uma imagem distorcida do que é realmente um ser humano. Como um momento de reflexão bastará para demonstrar, os seres humanos não são robôs programados unicamente para fazerem dinheiro. O facto essencial sobre os seres humanos é que eles são seres multidimensionais. A felicidade advém-lhes de muitas fontes, não só da produção de riqueza.
E, no entanto, os economistas construíram toda a sua teoria de negócios assente no pressuposto de que, do ponto de vista económico, os seres humanos não fazem mais nada a não ser tentar atingir os seus objectivos egoístas. A teoria conclui que o melhor resultado para a sociedade ocorrerá quando cada indivíduo tiver rédeas soltas para procurar benefícios pessoais. Esta interpretação dos seres humanos nega qualquer papel a outros aspectos da vida - políticos, sociais, emocionais, espirituais, ambientais e outros.
Não há dúvida de que os seres humanos são seres egoístas, mas também são seres altruístas. Ambas as qualidades coexistem em todos os seres humanos. O interesse pessoal e a busca do lucro explicam muitas das nossas acções, mas muitas outras não fazem sentido quando vistas através desta lente deformadora. Se só o motivo do lucro controlasse todos os comportamentos humanos, as únicas instituições existentes seriam as concebidas para gerar o nível máximo de riqueza individual. Não haveria igrejas, mesquitas ou sinagogas, não haveria escolas, museus, parques públicos, centros de saúde ou centros comunitários. (Ao fim e ao cabo, instituições como essas não fazem de ninguém um multimilionário!) Não haveria organizações de beneficência, fundações ou organizações sem fins lucrativos.
Obviamente, os seres humanos também são movidos por motivações altruístas. Demonstra-o a existência de um grande número de instituições de beneficência sustentadas pela generosidade das pessoas. (É verdade que em muitos países os donativos para obras de solidariedade social desfrutam de benefícios fiscais. Mas estes benefícios fiscais só afectam uma parte do capital doado. Mesmo assim, é necessária uma motivação altruísta para tornar possível uma atitude de solidariedade social.) E, no entanto, esta dimensão de abnegação não desempenha qualquer papel nas teorias económicas.
Esta visão distorcida da natureza humana é a falha fatal que torna o nosso pensamento económico incompleto e impreciso. Ao longo do tempo, tem contribuído para criar as múltiplas crises com que nos deparamos actualmente. As nossas regulamentações governamentais, os nossos sistemas educativos e as nossas estruturas sociais baseiam-se no pressuposto de que somente as motivações egoístas são «reais» e merecem a nossa atenção. Por consequência, investimos enormes quantidades de tempo, energia, dinheiro e outros recursos no desenvolvimento e na manutenção de empresas com fins lucrativos. Partimos do princípio de que as empresas com fins lucrativos são a principal fonte de criatividade humana e a única forma de abordar os problemas da sociedade. E, mesmo quando os nossos problemas se agravam, não questionamos os pressupostos subjacentes que contribuíram para criar esses problemas.
Uma vez reconhecida esta falha na nossa estrutura teórica, a solução é óbvia. Temos de substituir o indivíduo unidimensional na teoria económica por um indivíduo multidimensional - um indivíduo que tem, simultaneamente, interesses egoístas e altruístas.
Quando o fazemos, a nossa imagem do mundo dos negócios muda imediatamente. Vemos a necessidade de dois tipos de empresas: um para obter ganhos pessoais e um outro dedicado a ajudar as pessoas. Num tipo de empresa, o objectivo é maximizar os lucros dos seus proprietários, com pouca ou nenhuma consideração pelos outros. (De facto, na tentativa de obter o máximo lucro possível, muitas pessoas não se importam de causar conscientemente danos à vida de outras pessoas.) No outro tipo de empresa, tudo se faz para o benefício dos outros e nada em benefício dos seus proprietários - excepto o prazer de servir a humanidade. Ao segundo tipo de empresa, assente na parte altruísta da natureza humana, chamei empresa social. É o que tem faltado à nossa teoria económica.
Numa empresa social, o investidor tem o objectivo de ajudar as outras pessoas sem obter qualquer contrapartida financeira para si próprio. A empresa social é uma empresa porque deve ser auto sustentável - ou seja, deve produzir um rendimento suficiente para cobrir os seus próprios custos. Parte do superavit que a empresa social cria é investida na expansão da empresa e uma outra parte fica de reserva para cobrir imprevistos. Assim, a empresa social poderia ser descrita como «uma empresa sem prejuízos nem dividendos» dedicada inteiramente a atingir um objectivo social.
Podemos pensar numa empresa social como um negócio abnegado cujo objectivo é pôr fim a um problema social. Neste tipo de empresa, existe lucro - mas ninguém fica com ele. Como a empresa está inteiramente dedicada à causa social, a ideia de obter lucros pessoais está arredada da empresa. O proprietário só pode retirar, ao longo de um determinado período, a quantia que investiu.
Alguém no mundo real estará interessado em criar empresas com objectivos abnegados? De onde viria o dinheiro para uma empresa social?
Ibidem

domingo, 24 de junho de 2012

Yunus (III)

Actualmente, a ideia de pequenos empréstimos sem garantia concedidos a mulheres pobres, conhecida como «microcrédito» ou «microfinança», alastrou por todo o mundo. Há agora programas do tipo do Banco Grameen em quase todos os países do mundo. A primeira delegação abriu na zona de Queens, em Nova Iorque, em 2008, para providenciar pequenos empréstimos sem garantia (em média, de 1500 dólares cada) para que as mulheres dessa zona pudessem montar pequenas empresas ou expandir empresas já existentes. Na maior parte dos casos, são mães solteiras a esforçarem-se por ganhar a vida com dignidade.
A Grameen America está agora a abrir novas delegações em Brooklyn (Nova Iorque), em Omaha (Nebrasca) e em São Francisco (Califórnia). O seu sucesso demonstra que até mesmo no país mais rico e com o sistema bancário mais sofisticado do mundo há uma enorme necessidade de bancos dedicados ao serviço dos milhões de pessoas com um acesso limitado ou inexistente a serviços bancários.
Porque é que atribuo tanta importância à ideia de fornecer serviços bancários aos pobres? Em parte, é claro, devido à forma como descobri acidentalmente o papel que os prestamistas exploradores desempenhavam na manutenção das suas vítimas na pobreza. Mas é também porque cada vez estou mais convencido de que a pobreza não é criada pelos próprios pobres.
Quando me encontro com contraentes de empréstimos do Banco Grameen, é frequente conhecer pares constituídos por mãe e filho ou mãe e filha nos quais a mãe é analfabeta, enquanto a filha ou o filho são médicos ou engenheiros. Passa-me sempre um pensamento pela cabeça: «Esta mãe também poderia ter sido médica ou engenheira. Tem as mesmas capacidades que a filha ou o filho. A única razão por que não conseguiu desenvolver o seu potencial foi o facto de a sociedade nunca lhe ter dado essa hipótese. Nem sequer pôde ir à escola para aprender o alfabeto.»
Quanto mais tempo passamos entre pessoas pobres, tanto mais nos convencemos de que a pobreza não é o resultado de qualquer incapacidade da parte dos pobres. A pobreza não é criada pelas pessoas pobres. É criada pelo sistema que construímos, pelas instituições que organizámos e pelos conceitos que formulámos.
A pobreza é criada por deficiências nas nossas instituições - por exemplo, nas instituições financeiras. Os bancos recusam-se a fornecer serviços financeiros a quase dois terços da população mundial. Ao longo de gerações, têm afirmado que não é possível emprestar dinheiro aos pobres e toda a gente aceita essa justificação. Esta atitude criou as condições necessárias para que os prestamistas sem escrúpulos prosperassem em todo o mundo. O Banco Grameen questionou este pressuposto e demonstrou que não só é possível emprestar dinheiro aos mais pobres como também é lucrativo.
Durante a crise financeira global que começou em 2008, a falsidade desses velhos pressupostos tornou-se ainda mais evidente. Enquanto os grandes bancos globais, com todas as suas garantias, entravam em colapso, por todo o mundo os programas de microcrédito, que não dependem de garantias, continuavam a manter-se tão fortes como sempre. Será que esta demonstração irá fazer com que as instituições financeiras convencionais mudem de opinião em relação à sua definição tradicional do que constitui um contraente de empréstimo fiável? Abrirão finalmente as suas portas aos pobres?
Faço esta pergunta com toda a seriedade (embora saiba muito bem qual é a resposta provável). Quando uma crise atinge o seu ponto máximo, pode proporcionar uma enorme oportunidade. Quando as coisas se desmoronam, podemos voltar a conceber, remodelar e reconstruir. Não deveríamos perder esta oportunidade de converter as nossas instituições financeiras em instituições inclusivas. O acesso a serviços financeiros não deveria ser vedado a ninguém. Como estes serviços são de importância vital para a auto-realização das pessoas, eu acredito vivamente que deveria ser atribuído ao crédito o estatuto de direito humano.
Que a pobreza não é criada pelos pobres mas pelas suas circunstâncias diz-nos algo importante - algo sobre o potencial dos próprios seres humanos.
Cada ser humano vem ao mundo não só com a capacidade de cuidar de si próprio mas também de contribuir para o bem-estar do mundo na globalidade. Algumas pessoas têm a oportunidade de explorar o seu potencial, mas muitas outras nunca conseguem desenvolver os maravilhosos dotes com que nasceram. Morrem sem explorar esses dotes e o mundo fica privado do seu contributo.
A Grameen deu-me uma fé inabalável na criatividade humana e a firme crença de que os seres humanos não nascem para sofrer os horrores da fome e da pobreza. A pobreza é uma imposição artificial e externa sobre as pessoas. E, como é externa, pode ser removida.
Nós somos capazes de criar um mundo livre de pobreza se reformularmos o nosso sistema de modo a eliminar as graves falhas que geram a pobreza. Podemos criar um mundo no qual o único lugar onde a pobreza poderá ser vista será em «museus da pobreza». Um dia, as crianças farão visitas de estudo a esses museus da pobreza. Ficarão horrorizadas ao verem o sofrimento e as indignidades por que inúmeras pessoas tiveram de passar sem qualquer culpa própria. Responsabilizarão os seus antepassados por terem tolerado esta situação desumana durante tanto tempo - e terão razão para o fazer.
Ibidem

Yunus (II)

Parecia-me que, afinal, emprestar dinheiro aos pobres não era tão difícil como geralmente se imaginava. Parecia-me até que servir as suas necessidades financeiras poderia ser um negócio viável. Seria de esperar que um banqueiro esperto fosse capaz de reconhecer esta oportunidade mais rapidamente do que um mero professor de Economia sem qualquer experiência da banca. Mas não. Eu continuava a confrontar-me com dificuldades ao tentar expandir o programa de empréstimos através dos bancos existentes.
Finalmente, constatando que não havia outra opção, decidi criar um banco autónomo para os pobres. Foi um processo longo e árduo. Mas, com o apoio do então ministro das Finanças do Bangladeche, consegui criar um novo banco, um banco ao serviço dos pobres. Chamámos-lhe Banco Grameen - ou seja, «banco da aldeia», na língua bengali.
Actualmente, o Banco Grameen é uma instituição bancária a nível nacional ao serviço dos pobres em todos os povoados do Bangladeche.
Dos oito milhões de clientes que pedem empréstimos, 97 por cento são mulheres. No início da criação do banco, decidimos concentrar-nos deliberadamente nos empréstimos a mulheres - inicialmente como forma de protesto contra a prática dos bancos convencionais, que se recusavam a conceder crédito a mulheres, mesmo que elas pertencessem a um estrato económico desafogado. Constatámos também que as mulheres do Bangladeche tinham o talento e as capacidades necessárias para desenvolverem uma actividade rentável. O nosso objectivo inicial era assegurarmos a paridade do número de homens e de mulheres que contraíam empréstimos. Mas, com a experiência, não tardámos a descobrir que as mulheres que contraíam empréstimos traziam muitos mais benefícios às suas famílias do que os homens. As crianças beneficiavam imediatamente do rendimento das suas mães. As mulheres estavam mais motivadas para ultrapassar a pobreza. Compreendemos que emprestar dinheiro às mulheres dos povoados pobres do Bangladeche era uma maneira eficaz de combater a pobreza em toda a sociedade.
O Banco Grameen tem ainda outras características pouco usuais. É propriedade dos seus clientes, os quais, enquanto accionistas, elegem nove dos treze membros do conselho de administração. O Banco Grameen disponibiliza mais de cem milhões de dólares por mês em empréstimos sem garantia, numa média de cerca de duzentos dólares por empréstimo. A taxa de pagamento dos empréstimos continua a ser muito elevada, cerca de 98 por cento, apesar de o Banco Grameen servir as pessoas mais pobres - aquelas que os bancos convencionais ainda consideram credores não viáveis.
O Banco Grameen até empresta dinheiro a pedintes. Estes usam os empréstimos para entrar no negócio da venda de produtos porta a porta - brinquedos, utensílios domésticos, alimentos -, combinado com a prática da mendicidade. Ao contrário do que algumas pessoas esperariam, os pedintes apreciam a ideia de serem capazes de se sustentar através dessa actividade, em vez de dependerem apenas da caridade dos outros. Contamos agora com mais de 100 000 pedintes neste programa. Nos quatro anos desde o lançamento do programa, mais de 18 000 pedintes deixaram de se dedicar à mendicidade. A maior parte dos pedintes vai já no seu segundo ou terceiro empréstimo.
O Banco Grameen também apoia os filhos dos seus clientes nos estudos, concedendo empréstimos com condições acessíveis para a frequência de cursos superiores. Mais de 50 000 alunos frequentam neste momento escolas médicas, institutos de engenharia e universidades com o apoio do financiamento do Banco Grameen.
Incentivamos estes jovens a comprometerem-se a não entrarem no mercado de trabalho à procura de emprego por conta de outrem. Serão eles próprios criadores de emprego. Explicamos-lhes: «As vossas mães são proprietárias de um grande banco, o Banco Grameen. Têm dinheiro que chegue para financiar qualquer empreendimento que decidam iniciar, por isso, para quê perder tempo à procura de um emprego por conta de outrem? Sejam empregadores, não empregados.» O Banco Grameen quer impulsionar o empreendedorismo e a auto-suficiência entre o povo do Bangladeche - não a dependência.
O Banco Grameen é financeiramente auto-suficiente. Os seus fundos provêm exclusivamente de depósitos. Mais de metade dos depósitos são dos próprios contraentes de empréstimos, a quem é solicitado que aforrem uma pequena quantia todas as semanas. Temos um balanço de poupança colectiva de mais de 500 000 milhões de dólares americanos.
Por si só, tudo isto seria um feito admirável com origem na minúscula faísca que o despoletou - aqueles 27 dólares do empréstimo que eu paguei na vez dos pobres de Jobra. Mas o trabalho do Banco Grameen no Bangladeche acabou por ser apenas o início.
Ibidem