sexta-feira, 23 de março de 2012

O primeiro discurso

Reconheço que é necessária alguma criatividade para dizer algo a propósito do primeiro e longuíssimo discurso de Passos Coelho, no Congresso que esta noite se iniciou. Ainda assim, sempre as questões programáticas a interessarem-me mais. E aí, para além das palmadas nas costas a Aguiar-Branco, que, como se sabe, foi o grande derrotado no processo de renovação do programa do PSD, surgiu um grande apelo á anti-utopia, ao realismo, ao desenho (alcançado?) do programa (do partido) de modo que nele se revejam "os que pretendem mais descentralização, ou menos descentralização; os que entendem que ao Estado deve caber um maior papel, ou um pouquinho menor", etc. Talvez meia-hora antes, porém, o mesmo Passos, falara numa "revolução tranquila" que tem, afinal, protagonizado. As revoluções não costumam ser excessivamente 'tranquilas', não deixam de estar eivadas de um sentido utópico, e nelas nem todos costumam, nem podem rever-se. Tem sido, precisamente, aquilo a que temos assistido.

Fora isso, o divertido apelo diácono Remédios: façam favor de criticar(-me), mas com cuidadozzz.

Se o congresso fosse a sério

Ser membro do PSD nestas alturas tem que ser um momento particular de perplexidade. Claro que me refiro àqueles membros do PSD que foram atraídos pela muito sui generis e portuguesa fusão de tradições políticas, que ia do liberalismo político à noção de que a política não esgota o campo do humano, até à consciência de que é obrigação do Estado garantir um quantum de justiça social, tudo isso fundido num partido com uma história que era o seu "programa não-escrito". Em momentos decisivos, em 1975, no PREC, na luta de Sá Carneiro contra a hegemonia militar pós-25 de Abril e pelo retorno a uma democracia civilista plena; em 1979, na vitória da AD e na materialização da alternância política; em 1987, com a maioria absoluta subvertendo um défice de governabilidade inscrito na Constituição; em 1989, na revisão constitucional que permitiu a reconstrução de uma economia privada fora do Estado, o PSD teve um papel central. Não me custa admitir que, em 1975 e em 1986, o PS teve um papel mais importante, quer na defesa da democracia, quer na entrada de Portugal na Europa, mas o PSD esteve ao seu lado. 

Nem toda a história do PSD é linear, há momentos em que se caiu numa lógica de gestão de interesses no "bloco central", ou se permitiu uma viragem à direita, com Durão Barroso, e com Santana Lopes, roçando-se um populismo e um culto da personalidade, que abriu caminho a uma diluição programática. Por outro lado, a qualidade da governação, que tinha sido um ponto de honra na AD, perdeu-se com o acesso ao poder de muita gente impreparada ou ligada a interesses, que ajudou a retirar ao PSD o prestígio da boa governação. Na oposição, com excepção do momento de patologia de Menezes, quer Marques Mendes, quer Marcelo Rebelo de Sousa, quer Manuela Ferreira Leite tentaram introduzir alguma sanidade interna e algum rigor nas posições, mas todos falharam às mãos da degenerescência oligárquica no seio do aparelho partidário. Permitiu-se, como no PS, uma captura de um partido democrático por um aparelho de poder interno, muitas vezes medíocre, interesseiro e corrupto. 

Assim se chegou aos dias de hoje. Em 2012, o PSD no Governo está a gerir apenas uma crise herdada, está a cumprir o seu programa, ou a permitir que se faça outra coisa de natureza muito distinta pouco coerente com o seu programa e a sua tradição? Temo que seja este último caso, e temo que se deixem isolados num vazio incómodo muitos dos militantes que ainda permanecem fiéis ao seu património fundador, que, esse sim, não é "actualizável", sob pena de perda da identidade do partido. Os mais veementes aplausos à acção governativa vêm de poderosos interesses na sociedade portuguesa, que pouco têm a ver com o eleitorado "genético" do PSD ou com os portugueses que é suposto representar pelo seu programa e acção. 

A deslocação à direita foi tão violenta, sem rigor nem memória, que hoje um moderado do PSD que tente reformular no actual contexto algumas preocupações que fazem parte do gene do PSD parece um adversário do capitalismo e da liberdade económicos. Olhem que não, olhem que não. Falo, como é óbvio, do gene mesmo e não da sua reconstrução mutante feita para incorporar o memorando da troika como sendo a quinta-essência do programa do PSD.

José Pacheco Pereira, Público, 17/03/12

quinta-feira, 22 de março de 2012

Poesia

No Bibliotecário de Babel, de José Mário Silva:

«Como a poesia pode mudar a nossa vida», discutem Yang Lian, Fernando Pinto do Amaral, Francesco Benozzo, Jaime Rocha, Barry Wallenstein e João Carlos Abreu. Modera a conversa Donatella Bisutti.
Algumas frases:

«O trabalho do poeta é exercer violência sobre a linguagem»
Barry Wallenstein

«A palavra é capaz de matar e ressuscitar uma pessoa»
João Carlos Abreu

«A poesia é o balastro que mantém o nosso barco estável»
«Eu sou dissidente da China mas não da língua chinesa»
Yang Lian

«Para mim a poesia é escrever o que não se vê, o que está para lá do visível»
«A descoberta dos primeiros livros do Herberto Helder mudou a minha vida. Era de uma beleza obscura, de uma violência, de uma força tão grande que me fez trocar o teatro pela poesia»
Jaime Rocha

«A poesia, a literatura, como toda a arte, devem ser inquietude»
Fernando Pinto do Amaral

«O poeta tem de lutar contra as rotinas da sua percepção»
«A linguagem foi criada para prevenir o ataque de uma realidade que nos ameaçava»
Francesco Benozzo

O que ando a ler


Estou no Congresso do mundo. Todos os dias (?).

quarta-feira, 21 de março de 2012

Grigory Sokolov



Como se a música fosse veludo.
Domingo passado, na Casa da Música.
Daqueles bilhetes para guardar. Conseguido in extremis. Viagens apressadas, perigos nocturnos, cordões à bolsa. Mas tudo vale a pena, se a alma não é pequena. Uma oportunidade rara, uma semana rara. Para continuar a ouvir, e ouvir, e ouvir...

Orquestra Fundação e Guy Braunstein



        
    Guy Braunstein 
      
A incrível jornada de Aristides Sousa Mendes fora encomendada a Nuno Côrte-Real. Pessoalmente, nos sons sonhados de véspera, esperava que a peça (musical) retratasse e nos fizesse sentir um tempo de medo, de ansiedade, perturbante como nunca, mas de uma luminosa generosidade, também. Entre o suspense de ser apanhado a desrespeitar ordens, cujas consequências poderiam ser tenebrosas; entre o mandamento de salvar o próximo (e o júbilo da coragem), até à penúria que assumir a grandeza da responsabilidade pelo outro acarretou, sendo o reconhecimento e amizade dos que se sentiram por ele auxiliados/salvos a estação final, tudo isso, de facto, perpassou o meu espírito enquanto ouvia a Orquestra Fundação, sob a batuta de Rui Massena, interpretar esta peça.

Depois, vindo da Orquestra Filarmónica de Berlim, Guy Braunstein, violinista, mostrou a razão de ser deste conjunto de afirmações suas, numa pequena reportagem da RTP: o país devia conhecer a Orquestra que ali tem (em abono da verdade, já algumas publicações nacionais se interessaram por esta formação, dada a peculiaridade do tempo escasso em que foi constituída; a pluralidade de nações, de culturas, a sua juventude); de entre as orquestras jovens (no sentido de 'recentemente formadas', ou com 'pouca história') "nunca vi nada igual", dada a entrega de todos e o prazer no trabalho conjunto; entre as três ou quatro grandes experiências que "tive" até hoje, esta é uma das mais "fantásticas".

P.S.: Duas horas e meia, sensivelmente, magníficas. O concerto terminou às 0h25, ao início da madrugada de dia 15/03/12. Concertos (ou outros espectáculos) principiarem depois das 22h, a meio da semana, único senão, para quem vai assistir e não é de Guimarães.

Entre parênteses

(Um longo problema técnico. Coisas que acontecem. Mais ainda, a quem não é um ás na informática. Nem  uma manilha, um rei, ou um valete. Pergunta-me um amigo se o post anterior é sinónimo de (subtil) abandono do país. Que não (: só o país nos abandona). É só coisa de computadores. Do que teria falado durante esta semana? Em rigor, em rigor, não posso saber. Mas é provável que a EDP viesse à baila. Que o Messi viesse á bola. Que a tentativa de refundação social-democrata a nível europeu, no congresso de Hollande, chegasse à tona. De um novo directório, agora de centro-esquerda. De se isso significa, de facto, coisa alguma, ou, se como disse Louçã, no Sábado, ao I, com Hollande nada muda (e então, o que faria mudar alguma coisa, afinal?). Era capaz de trazer aqui a entrevista de Anselmo Borges a Alexandra Tavares-Telles, na revista do DN, de Domingo (último). Provavelmente, teclaria  acerca de Jorge Silva Melo e acrescentaria posts a Danton. Talvez fizesse uma nota pessoal sobre um simpático prémio que recebi, quinta-feira passada. Porventura, em registo familiar, evocaria a figura de meu avô paterno, a propósito da exposição que esteve no Grémio Literário de Vila Real. Tudo isso foram, ou são, possibilidades. Seguem-se dois posts)

domingo, 11 de março de 2012

Emigração portuguesa, séc. XX

De regresso, em força, à emigração, vale a pena recordar como ela foi no nosso século XX. Até, por vezes, pelos mal-entendidos, pelas discussões que se geram em torno da política do Estado Novo relativamente a este fenómeno, importa revisitá-lo. 

Filipe Ribeiro Meneses, citando a académica francesa Marie-Christine Volovitch-Tavares, em Portugais à Champigny, les temps des baraques

A partir de 1962, quando os jornais franceses começaram a interessar-se pela imigração portuguesa e os seus aspectos dramáticos, multiplicaram-se as reportagens, pródigas em relatos verídicos: grupos de portugueses escondidos em cabanas e mal alimentados durante dias a fio; camiões frigoríficos transportando uma meia centena de trabalhadores. Insistiam sobretudo nas viagens feitas a pé (algumas duravam 15 dias), atravessando os Pirenéus no Inverno sem qualquer tipo de equipamento.

Filipe Ribeiro Meneses, Salazar, 592-593.

O admirável mr. Carlin

Um texto magnífico sobre o impacto do Barça na vida das pessoas; uma vénia, justíssima, a Pep Guardiola.

sábado, 10 de março de 2012

Portugal, 1961

Nas eleições de 1961, a oposição capitalizou o facto de Portugal ser o penúltimo da Europa, apenas acima da Jugoslávia, no que tocava à mortalidade infantil, enquanto o consumo de calorias per capita era 2470 e o consumo de electricidade era 15% da média da OCDE.

Filipe Ribeiro Meneses, Salazar, D. Quixote, Alfragide, 2010, 592.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Um desafio

Para o Renato:

Dos três F's, só o de Fátima é que não se conseguiu revigorar. O fado, hoje, é genuinamente cosmopolita. O futebol também. Há algum cosmopolitismo na Igreja, mas está confinado a muito poucas paróquias, urbanas, onde o padre é poeta, ou discute teoria filosófica. Mas isso ainda não é a imagem da Igreja de massas.

André Barata, Visão, 08/03/12

quinta-feira, 8 de março de 2012

Prof. Marcelo

Na semana passada, numa emissão especial do programa Bloco Central, nas comemorações do 24º aniversário da TSF, Marcelo Rebelo de Sousa, em aula de ciência política, explicou como se ganham as presidenciais: à direita, com um candidato que alargue para a esquerda; e, à esquerda, precisamente o inverso: alguém capaz de entrar no eleitorado de direita. Esta semana, para que o exercício não ficasse pelo campo da abstracção, o Professor apresentou o mais recente livro de Francisco Louçã (A dívidadura; escrito em co-autoria com Mariana Mortágua). Marcelo não era um cavaquista, mas tem sido um dos maiores defensores do actual PR; não é liberal, mas, no essencial, está com o governo; não concorda com a reestruturação da dívida portuguesa, preconizada pelo livro ora apresentado, mas corrobora uma parte do diagnóstico, nele expresso, sobre a actual situação; não coloca em causa o sistema, mas não gosta dos juros usurários praticados pelos credores (a sua parte mais progressista, que lhe advém, diz, da sua filiação católica). Conseguir, ao longo de anos de extensa exposição mediática, calibrar, assim, as posições tomadas, não é para qualquer um, tal a habilidade requerida. Veremos se Relvas e Cª. permitirão que a caminhada para Belém vá até ao fim, e, por outro lado, se Marcelo, desta feita, arrisca mais do que em outras ocasiões - onde  esperou que o poder viesse ter com ele.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Uma semana difícil

Custa ler, custa aguentar tanta desfaçatez dos poderes fácticos que o país permitiu construir, nos últimos anos. Por outro lado, quem ouviu o debate desta tarde, na AR, não pode deixar de pensar que a semana governativa vai difícil para evitar demissões imediatas.

O futebol português, visto de fora

"Acredito que o Sporting possa ter uma boa equipa, mas já eliminámos o FC Porto e parece-me que não há grandes dúvidas que é a melhor equipa em Portugal. Acredito que temos grandes hipóteses de seguir em frente. [...] Jogadores do Sporting? Não conheço. Quem? Elias? Jogou agora? Ainda bem..."

Dzeko, citado no Expresso on line, 07/03/12

A "opção preferencial pelos pobres"

Expressão que surge através da III Conferência Episcopal Latino-Americana, com a Declaração de Puebla, em 1979, aprovada por João Paulo II. Ele que, em 1980, na sua primeira visita oficial ao Brasil, se deslocou, em inícios de Junho, à Favela Vidigal, em nome da Igreja dos pobres, corroborando Puebla (sendo que aqui pobres não tem um sentido único, como se percebe pela leitura do discurso). Esta a genealogia - digamos, histórica que não a genealogia do exemplo, que essa remonta há mais de 2000 anos - de uma expressão muito recordada nos tempos mais recentes. Genealogia, outrossim, que, se fosse passível de transpor para o âmbito da governança mundial - e bem sei quanto seria imperfeita, ainda assim, a comparação, caso respeitasse, em rigor, a ideia do nobel indiano-, talvez mostrasse a razão de Sen, em A ideia de Justiça, quanto à necessidade de ouvir todas as vozes (implicadas, mesmo que não integrando, directa e territorialmente, (n)um dado contrato social), evitando cairmos no "procedimentalismo paroquial". Penso, especialmente, assim, p.ex., quando um amigo, Professor de Economia, me diz que, muitas vezes, corrigindo teses (de mestrado, por exemplo) de alunos oriundos da América Latina (maxime, Brasil) as referências à Doutrina Social da Igreja são vastas. Olhem para eles.

terça-feira, 6 de março de 2012

Uma entrevista

O diário espanhol ABC recorda, hoje, aquela que, a esta distância, acaba por se poder considerar uma entrevista histórica, com Adolf Hitler, em 1923. O repórter nota já a confusão mental, a falta de preparação intelectual, o recurso às comparações simplistas e o tom carregado para impressionar, por parte do seu interlocutor.

O que é perdoável?

O Leitor

Creio que é Primo Levi, em Se isto é um homem, que diz que já não está na sua – de si/dos judeus - disponibilidade perdoar a experiência dos lager. A magnitude do crime torna-o insusceptível de humano perdão (do humano decidir, aqui, sobre o perdão). É, também, sobre o que é perdoável que este filme fala. Da relação arte/literatura-barbárie. De se o amor supera o ódio. Da amplitude da confiança e dos seus limites de vulnerabilidade – será razoável quebrá-la para defender mesmo os que mentem em seu próprio, aparente, prejuízo, oferecendo-se em sacrifício (de redenção?)? Do analfabetismo literal ao ético. Do mistério que sempre somos – para os outros e para nós mesmos. Dos limites do Direito. Não li (ainda) a obra homónima de Bernhard Schlink – ao que leio, o filme é muito fiel ao livro – mas irei fazê-lo, brevemente.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Da 'História do Pensamento Político Ocidental' - Leão XIII

Um dos capítulos da História do Pensamento Político Ocidental, de Freitas do Amaral, é sobre Leão XIII. E, detido sobre a Rerum Novarum, explica que o Direito do Trabalho nasce por sua influência "expressa" (com a identificação de uma parte mais frágil na relação laboral) e que também o Estado Social ou Estado Providência vai directamente beber a uma das expressões da dita encíclica que diz que o "Estado providencia" a defesa da parte mais fraca, etc. Freitas do Amaral cita Ruetten, no qual se apoia.

domingo, 4 de março de 2012

O prazer ou a virtude?


O que nos move, afinal? A virtude, ou o prazer? O que convém a cada natureza, como diz Danton, ou a certeza de que o caminho é o da pureza ascética, como para Robespierre? Das questões do sentido da existência - a peça não dispensa um pedaço, bom, de discussão sobre a causa primeira -, das purgas internas que todas as revoluções acarretam ("as revoluções devoram os seus filhos"); dos 'famosos' que vão para a guilhotina para apaziguar o povo a quem falta comida e bebida ("o pão e circo", desde os romanos); das motivações últimas para a revolução, das políticas às pessoais ("esta gente mete-me nojo"); da queda no niilismo quando a revolução perde a bússola; da  ideia de que é necessário criar uma nova humanidade, (a partir do zero) fazendo sucumbir a presente, sem qualquer misericórdia ou gesto nobre (vejam, sobre uma época mais recente, O testamento do dr. Mabuse); com actuações para recordar, do Danton (Miguel Borges) mundano e felino, e de Robespierre (Pedro Gil) superior, acima dos desejos e vícios, a quem compete punir os que se afastam da linha justa. Assim, ontem à noite em Guimarães, na primeira incursão que fiz à capital europeia da cultura.

sábado, 3 de março de 2012

Reflexão

Uma entrevista muito interessante do Professor Viriato-Soromenho Marques, hoje, no suplemento cultural do Jornal de Negócios. As principais anotações que fiz do que foi dito:


No campeonato dos países com dez milhões de habitantes, não estamos atrás de ninguém.

E um país [Portugal] que, ao contrário da Alemanha, foi capaz de construir três impérios. A Alemanha não conseguiu construir nenhum que não tivesse terminado numa rápida tragédia para si e para o resto do mundo.

A razão pela qual somos um Estado muito antigo, nascido na Idade Média, consolidado a partir de D. João II na Idade Moderna, é porque houve gente que soube exercer o poder. A Segunda Dinastia, a mais gloriosa que Portugal teve, começa com uma revolução popular mas com uma liderança firme do Mestre de Avis, com um projecto nacional extraordinário. Portugal começou a globalização. A partida de Vasco da Gama para a Índia marca uma separação da história – “antes de Gama e depois de Gama”, Voltaire “dixit”.

[Os alemães] tiveram um império em África e um império no Pacífico e não ficou nada. Não ficou língua, não ficou memória.

Uma coisa é ter organização, outra coisa é ter capacidade de mandar e de exercer o poder. No que diz respeito ao exercício do poder, num quadro que não seja o doméstico, não temos nada a aprender com os alemães. Tivemos três impérios: um que terminou quando eu tinha 16 anos, em 1974, e construímos administrações, faculdades, fábricas, estradas, na Ásia, em África, no Brasil. Estivemos lá durante séculos de forma constante. Nessa capacidade de incluir os outros, diferentes de nós, não há qualquer comparação entre a capacidade portuguesa e alemã. Esta crise europeia só está a ser agravada porque a Alemanha não tem um projecto para a Europa.

[É necessária] uma união fiscal [que] funciona de uma forma simples: temos que ter um acordo mínimo em relação aos grandes impostos, o IRS e o IRC. Nos Estados Unidos existem um IRS e um IRC federais que são progressivos, variam entre os 10 e os 35%, dependendo do rendimento das empresas e dos particulares; e depois os estados acrescentam uma taxa estadual onde existe margem para competição fiscal. O que está a acontecer na Europa é que existe uma total autonomia. A política fiscal é uma competência totalmente soberana.

Se em vez de uma Comissão Europeia tivéssemos um governo europeu, um presidente eleito por sufrágio universal (não há outra maneira de termos a quem chamar nomes senão elegê-lo), com um orçamento de cinco ou seis por cento do PIB, faria toda a diferença.

O Mário Monti, na Itália, só tem feito coisas positivas. Não é um tecnocrata fechado, é um homem que tem uma cultura política baseada no rigor. E é uma pessoa com coragem, que diz à senhora Merkel que quer eurobonds, que faz um discurso no Parlamento Europeu que deixa toda a gente encantada porque tem um projecto europeu, que assinou a carta com Cameron e mais dez países para o crescimento económico.

Face a esta Europa em desagregação, os mais fracos estão naturalmente mais vulneráveis. Se pensarmos nas pessoas individualmente, e não em frases de tratados ou números, são vidas que estão a ser coarctadas quotidianamente nos seus aspectos essenciais.

Neelie Kroes, uma vice-presidente da comissão do Durão Barroso, disse que se a Grécia sair do euro ninguém morre. É falso! Estão a morrer pessoas por causa desta crise. E não só na Grécia. Estão a morrer pessoas em Portugal. A taxa de suicídio está a aumentar. Só quem não percebe o impacto psicológico de uma crise económica, de perder o emprego [pode dizer uma frase daquelas]. Já temos seis mil casais em Portugal em que ninguém trabalha naquela casa.

O discurso oficial é o de ir mais longe do que o programa da troika. É um discurso que tem uma dinâmica que pode ser suportada durante alguns meses, mas quando for confrontado com os resultados desastrosos vai voltar-se contra quem o profere; e vai prejudicar o país porque vai criar tensão social. Numa altura de dificuldade o pior pode acontecer a um país é ele fragmentar-se socialmente.

É inadmissível que o governo português não tenha assinado aquela cartinha do Cameron. É uma cartinha que não é inocente, mas que não tem nenhuma palavra mágica, daquelas subversivas – não tem eurobonds (…) É um erro político e estratégico perigosíssimo.

O contrato social implica uma visão de futuro. Um contrato social implica uma visão de futuro. Um contrato implica um projecto, o projecto implica tempo, implica uma promessa. Um dos estados básicos da política é a imprevisibilidade. As coisas nunca acontecem como são planeadas, por isso é que temos que prever.

O que digo é que temos que ter um plano B para o caso de haver uma ruptura com a União Europeia – que não desejo. Quero uma Europa federal, com a Alemanha bem dentro da Europa. Os alemães estão a meter-se num buraco absoluto. Daqui a cinco anos, se a Europa rebentar, é mais seguro estar em Portugal do que na Alemanha. Vão ficar entre uma Rússia com armas nucleares, e uma França que não lhes vai perdoar o facto de eles já se estarem a demarcar. E militarmente são um zero, não têm nada. Se voltarmos a uma lógica de política de força, a Alemanha não tem trunfos.

[Está a falar de um cenário belicista.]

Um cenário de regresso ao equilíbrio do poder. Se saímos de uma Europa proto-federal, multilateral, baseada no império das leis, para uma Europa Estado-nação, de equilíbrio do poder baseado na força, aí a força nua é que manda. Uma das coisas que está a acontecer na nossa democracia é que estamos a ser governados por pessoas muito levianas, muito superficiais, com pouco conhecimento da história.

Merkel tinha 35 anos quando caiu o muro. Na sua biografia não se conhece nenhum gesto de oposição. Fez a carreira normal de uma cidadã obediente a duas disciplinas, a luterana (é de uma família de pastores luteranos) e à disciplina do Estado da RDA. A grande diferença entre a RDA e a RFA é que na RFA havia uma coisa chamada “culpa alemã”. Os miúdos nasciam e eram educados na ideia de que a Alemanha tinha sido responsável pela Segunda Guerra Mundial, como foi, e pelo Holocausto, e que a democracia alemã tinha que ser capaz de compensar esse prejuízo à boa imagem da Alemanha, como país importantíssimo. Na RDA mergulhavam numa pia baptismal onde eram absolvidos de todos os crimes. Os alemães maus tinham sido ou mortos ou expurgados. Não há em Merkel uma dimensão de responsabilidade alemã que encontramos noutros líderes. É uma espécie de novo começo, como se o que aconteceu tivesse sido rasurado. Mas isso tem limites. A Europa tem que escolher entre ser os Estados Unidos da Europa ou ser uma hiper-Jugoslávia. Se entramos numa fragmentação, quais são as regras do jogo?

Deixar a Grécia entregue a si própria significa que vamos ter um “default” de 100%. Os privados e as instituições públicas, o BCE, o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira vão ficar com zero. Significa que a Grécia vai passar muitos anos antes de ter recurso aos mercados, e vai orientalizar-se, vai agarrar-se aos vizinhos que estão ali ao lado. A Turquia, que é o inimigo figadal, vai ajudar a Grécia.

O que é que vai acontecer à NATO no meio disto tudo? Qual é o interesse da Grécia em ficar na NATO depois de ter sido tão maltratada pelos seus parceiros europeus? Como estamos a falar de meninos a dirigir países, estas consequências complexas não são medidas. O que é que os mercados, que em grande parte não são europeus, mas que têm investimento na Europa, vão pensar?

Se a Grécia cair, Portugal cai logo. Não cai naquele dia, mas tudo o que é activo de dívida pública portuguesa fica infectado. Ficamos em coma assistido. A única coisa de que tenho quase certeza é de que a Grécia não vai cair antes de 20 de Março, que é quando têm que pagar 14,4 mil milhões de euros aos credores. A Alemanha tem que garantir que as eleições francesas se fazem em ordem, e as eleições são em Maio. Até aí a Grécia vai flutuar. O nosso plano B, verdadeiramente, é saber a que jangada de pedra vamos pertencer. É tolo pensar que podemos fazer uma jangada de pedra com os alemães. Temos que a fazer com aqueles que estão perto de nós.

É extraordinário que Paulo Portas, que tinha a ideia que seria a pessoa mais capacitada deste Governo, em termos intelectuais e de experiência, se tenha tornado numa espécie de ministro da Economia para os assuntos externos. Que tenha feito viagens para promoção da indústria portuguesa numa altura em que o fundamental era alicerçar as nossas alianças no quadro de uma possível recomposição da União Europeia (após fractura).

O que está em causa é também a nossa terceira república. Se o projecto europeu falhar, e se não encontrarmos uma resposta doméstica para permitir a viabilidade do país, para permitir que os portugueses tenham com que se alimentar, e que tenham um tecido económico que permita a sua subsistência, a terceira república cai.

[E então, que aconteceria? Que perigos?]
Nada garante que caia para o lado correcto, que caia para uma quarta república democrática. O que está em cima da mesa é de tal maneira momentoso que não podemos ter uma visão paroquial.

[Que apreciação faz de Vítor Gaspar?]
Conhece a situação europeia, os meios financeiros. É uma pessoa muito competente e está a fazer um trabalho muito difícil. Não foi a primeira escolha. As primeiras escolhas não tiveram a coragem de assumir o desafio – é um homem corajoso. E não pode fazer tudo. Há uma falta de visão estratégica. Um Governo tem um primeiro-ministro para alguma coisa. Há um défice estratégico ao nível do plano B, e isso é uma coisa que tem que ser feita em colaboração com a oposição.

Os portugueses são muito individualistas. O nosso analfabetismo é também a resistência à escola, a nossa fuga ao fisco é a resistência aos impostos. São aspectos perversos do individualismo. Esta crise, se não trouxer mais nada, vai certamente trazer a questão do poder. Temos que encontrar uma medida para o nosso contrato que permita que os portugueses façam em Portugal aquilo que são capazes de fazer no exterior. Que sejam capazes de entender quando é tempo de mandar e quando é tempo de obedecer. Quem é que manda, como é que manda, quem é que obedece, como é que obedece, e por que é que obedece. Estas questões continuam confusas na realidade nacional. Vão ter que ser clarificadas.


sexta-feira, 2 de março de 2012

'Se não tivesse saído na noite anterior, teria chegado aos 140 pontos'

Celebra-se, hoje, data histórica para os amantes do basquetebol: Wilt Chambarlain fez-se mito. E, pelos vistos, podia ter sido ainda melhor.

A visita de Krugman, por Pedro Laíns

A leitura da capa do Sol (de hoje) deve ser devidamente acompanhada deste post.

Um país a morar num contentor


Público (Editorial), Portugal mora inteiro num contentor, Público, 2. 03. 2012, 40.

Dois idosos foram instalados num contentor "só por dois meses". Já lá vão nove anos. A inépcia de Portugal é isto

0 caso tem vindo a ser falado, ora nas televisões ora nos jornais, e de cada vez que é contado parece ainda mais inacreditável. Um casal de idosos viu a sua casa inutilizada em 2003 por via das obras para construir um viaduto na A 1O, no troço de autoestrada que liga Bucelas a Benavente. As paredes racharam,  o chão fendeu-se,  o poço, a garagem e a arrecadação ficaram destruídos.
Perante tal cenário, os idosos avisaram os engenheiros no local. Instalaram-nos então num contentor, com tudo  o que havia em casa, mobília e outros haveres, dizendo-lhes que "era só por dois meses". Ora a A 1O ficou pronta, mas o contentor ficou ali, com dois seres humanos lá dentro, até hoje. Acionado o seguro, quiseram oferecer aos idosos 30 mil euros pelo estrago. Não aceitaram, alegando que isso não chegava para nada. E o caso foi-se arrastando pelos tribunais, com um processo metido em 2003 em que se pedia urna indemnização de 203 mil euros. Muito? Pouco? A justiça decidiria. Mas  o que foi judicialmente decidido, este ano, foi arquivar o processo. Porquê? Porque  o empreiteiro faliu em 2007 com um rol tamanho de credores que, entre eles,  o casal de idosos ficaria sempre para trás. Pior: entre os credores estão  o dono do terreno,  o dono do contentor e até  o dono dos aparelhos de ar condicionado ali instalados "provisoriamente", que até já foi buscá-los para "amortizar" a dívida. Resultado:  o casal de idosos decididamente está a mais. Num país onde só paga quem quer, onde é possível falir e desaparecer, onde a justiça demora anos a decidir  o que devia ser decidido em semanas, é um casal de septuagenários (que estava muito descansado em sua casa até lha destruírem) que entope o sistema. Portugal, é caso para dizer, mora inteiro naquele contentor.

Da história de França


Após a Revolução [de 1789], aparece uma esquerda democrata, que, em nome da igualdade política e das necessidades, reprime a liberdade; Danton, Marat, Robespierre e Saint Just são as suas figuras emblemáticas…Esta esquerda democrata e, em breve, ditatorial deixa em herança a ideia de sufrágio universal, uma aspiração à igualdade social pela democratização da propriedade, o desejo de uma escola pública gratuita e um apego á pátria revolucionária. Podemos dizer que era mais espartana que ateniense?

Marc Ferro, História da França, Edições 70, 2011, p.718.

Pub: Da importância ética e estética de A morte de Danton, de Georg Buchner


Com apenas três obras de teatro, Georg Buchner (1813-1837) é estimado como um dos mais importantes dramaturgos alemães, o que se deve, em parte, ao carácter inovador de A morte de Danton.
Por um lado, a peça rompe com aquela tradição do drama histórico – nomeadamente, pelo desalinho da narrativa -, lançando uma série de questões que viriam a ecoar no teatro do século XX. Por outro, foi considerada por alguns autores como premonitória da linguagem cinematográfica, dadas as mudanças abruptas de décor ou a rapidez com que se avança na narrativa. Jorge Silva Melo sublinha, além disso, a natureza niilista do texto – escrito antes do aparecimento do grande teórico do conceito, Friedrich Nietzsche -, e a existência de cenas, diz, “absolutamente geniais”, como aquela em que Simon (António Simão), um popular que trabalha como ponto teatral, insulta a mulher com vocábulos próprios da tragédia.
“A terra tem uma crosta muito fina, eu digo sempre que um dia se pode cair por um buraco destes. Temos de andar com precaução, a terra pode rachar debaixo dos nossos pés. Mas vá ao teatro, é o conselho que lhe dou”, declara um dos cidadãos anónimos da peça. Fica a sugestão.

Carolina Freitas, Idem