quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Bom gosto (futebolístico)

Um clássico é um clássico é um clássico.

Pub: Revolução Francesa ao vivo, em tempos conturbados


Não se trata de saber se a personagem morre ou não no final – o título já o diz. Tornando-nos espectadores de julgamentos e execuções arbitrárias, sem provas ou direito a defesa, Buchner prende-nos – quais testemunhas impotentes – dentro do pesadelo das personagens. Sobretudo, de Danton. Um dos maiores heróis românticos da História do Teatro (aqui magnificamente interpretado por Miguel Borges), que inspirou algumas das mais marcantes personagens do século XX, como Baal da peça homónima de Bertolt Brecht.
Danton reclama o ‘tudo ou nada’, oscilando entre momentos de grande intensidade e outros de puro niilismo – “A paz é o Nada”, dirá a certa altura. Para Jorge Silva Melo, há nele uma “ansiedade permanente”, um “inconformismo constante”. E daí o convite a Miguel Borges: “É o actor perfeito para essa exasperação dos sentidos. É um actor muito especial, único, e sempre surpreendente”, afirma. E conclui: “Quis trabalhar esta dicotomia entre o Miguel Borges, intempestivo, e o Pedro Gil [Robespierre], que é um actor, aparentemente, mais racional”.

Carolina Freitas, Idem

Missa solemnis, de Beethoven - DVD Gulbenkian

A imprensa internacional e a gravação Gulbenkian.

'Plano nacional de cinema'

Francisco José Viegas anunciou ontem, em entrevista a Paulo Magalhães (TVI24), a criação de uma espécie de congénere do Plano nacional de leitura, agora aplicado à literacia cinematográfica, com referências como, por exemplo, os 100 filmes que são obrigatórios (a uma formação ética e estética como convém). Além de que são reforçados os cine-clubes escolares. Na escola onde fiz o Secundário, a Camilo Castelo Branco (Vila Real), os últimos anos significaram já uma aposta neste sentido (recuperação de alguns clássicos e exibição de algumas das melhores propostas cinematográficas da actualidade). Uma excelente iniciativa - creio que um pouco na linha do que se passa nos liceus franceses - que mostra bem como a escola vai mudando com os tempos, sem que essa evolução signifique sempre perda, ou mudança para pior (como alguma opinião pública e/ou publicada sugere).

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Dos verdadeiros avanços civilizacionais em Portugal

A não perder, esta noite, na Sic Notícias.

Pub: Sexta e Sábado, em Guimarães

O maior desafio foi mesmo ‘iluminar’ o texto. “É uma obra obscura, enigmática, irregular, extremamente metafórica, e que cria imagens tão rápidas que muitas vezes se dissolvem. Por isso, insisti bastante na cor de cada palavra, na percepção que o actor e o espectador têm do porquê de cada deixa, na clareza das acções”, revela o encenador [Jorge Silva Melo]. Escrita em 1835, a peça é considerada o primeiro drama realista alemão. Foca-se no período do Reino do Terror (1793-1794), mais concretamente no conflito ideológico entre dois dos principais líderes da Revolução Francesa, George Danton (Miguel Borges) e Maximilien Robespierre (Pedro Gil), que culmina na execução daquele primeiro e dos seus amigos, Camille Desmoulins (João Meireles), Lacroix (Américo Silva) e Philippeau (José Neves).
“Como não foi possível que estas duas grandes personagens chegassem a uma solução? Por que há sempre um diálogo impossível? Por que há sempre a prisão, o desaparecimento, a morte de alguém? Rosa Luxemburgo e Lenine ou Gramsci e Lenine são outros exemplos históricos de conversas que ficaram por travar”, reflecte Jorge Silva Melo, para quem o centro nevrálgico da peça é a lenta caminhada para a morte de Danton.

Carolina Freitas, Idem

Redignificar e credibilizar a política

Se, constantemente, reclamamos da falta de abertura dos partidos á sociedade (civil); se tantas vezes se critica o reino dos apparatchiks e das juventudes sem mérito (JSM, uma sigla capaz de superar, sem dificuldade, diferenças ‘programáticas’); se se aponta a falta de estudo nos partidos (uma boa crítica de Pedro Magalhães, por exemplo) como forte défice do nosso sistema político-partidário e democrático; se se censura a aposta, reinante, no curto prazo, então, é, de todo, justo elogiar o conjunto (diverso) de quadros, da sociedade portuguesa, que o PS convocou para pensarem o país a longo prazo e proporem, em visão articulada, um programa devidamente fundamentado e sustentado para Portugal. As escolhas (das personalidades a integrar as equipas de estudo) não foram inócuas e, nessas concretas opções – daquelas que conhecemos – vai muito deste aplauso. Alfredo Bruto da Costa representa a sabedoria da doutrina social da Igreja, enfim, hoje, de novo revalorizada; João Cardoso Rosas é, certamente, dos maiores e melhores conhecedores da Filosofia e Ciência Política, em Portugal, com obra/investigação sobre as mais importantes teorias da justiça das décadas e anos mais recentes e organizador/coordenador de uma obra que se propôs (re)pensar radicalmente o humano (além de, ao longo de anos, ter publicado, na nossa imprensa, alguns dos mais estimulantes textos sobre política e de se ter afirmado, nessa qualidade, como um moderado); João Ferreira do Amaral anteviu, há dez anos, os perigos do euro para a economia portuguesa, quando as vozes públicas, com maior visibilidade, alinhavam, (quase) unanimemente, por outro diapasão (além de, hoje, já no actual contexto que vivemos, defender – lá, onde, por exemplo, a entrevista de Krugman à RTP/JNegócios entra num beco sem saída – a negociação para o abandono português, controlado e compensado, da moeda única, como única hipótese, a la longue, do país ganhar competitividade - não ignoro as várias vozes, de insignes economistas portugueses, que pensam que tal saída seria trágica; digo, apenas, que me impressionou sobremaneira a argumentação muito racional e sistemática que fez, por exemplo, no programa de Judite de Sousa e Medina Carreira, no TVI24, já lá vão uns meses, estávamos, ainda, em 2011). Do mesmo modo, o convite a Elísio Estanque parece prometer uma mais efectiva perspectiva social-democrata no PS (renovado).
Não são coisa menor as pessoas que fazem os programas e a doutrina, e os sinais, desde logo, enviados com as escolhas feitas (para elaborarem tais programas). Mas há muito mais do que isso. Como costuma contar Manuel Maria Carrilho, os Estados Gerais, levados a sério, como foram, ao tempo de Guterres, permitiram que cada equipa, em cada ministério, entrasse com o trabalho feito, os dossiers estudados e não necessitasse de grande tempo de adaptação, podendo, de imediato, começar a implementar um conjunto de medidas pensadas (atempadamente).
Claro está que muitos podem franzir o sobrolho a um novo comité de sábios, justificando o seu cepticismo com o desprezo a que, historicamente, têm sido votadas muitas propostas vindas de tais painéis (experiência histórica, aliás, também muito próxima, como alguns think tank que prepararam as últimas eleições legislativas portuguesas podem comprovar). A própria coabitação entre os aparelhos partidários e os independentes é, não raramente, muito difícil (gerando, a cada passo, demissões precoces, em iniciativas desta índole); falta provar a coesão e coerência dos grupos (ora constituídos) a articular. Tudo isso estará bem observado, mas, a três anos de distância das próximas legislativas – se tudo correr, como se deseja, com normalidade, a benefício de todos -, não deixa de ser uma das tais iniciativas que, pelo menos a meus olhos, mais contribui para a redignificação/credibilização da política: escolha de cidadãos com provas dadas na intervenção pública; intervenção essa não apenas pautada por competências técnicas, mas com uma mundividência mais ampla como critério; pessoas capazes de pensar contra a maré. E como sabemos, há mais marés do que marinheiros. Abandono do presentismo em função de um horizonte temporal mais vasto – capaz, espera-se, de incluir as gerações todas (entre as quais, as vindouras) no contrato social.
Considero, mesmo, que numa liderança até à data muito insegura, este foi o seu melhor momento.

O Estado Social foi responsável pela crise?


[O Estado Social] pode estar em causa. Não [foi ele que] causou o problema. Isso não é verdade. Vejam países europeus e classifiquem-nos por despesas sociais em função do PIB, e vemos que só a Itália está no terço superior e tem um Estado-providência ainda mais fraco que a Alemanha e muito mais fraco que o da Suécia, que está a sair-se muito bem nesta crise. Simplesmente, isso não é verdade. Não foram os Estados-providência que causaram [a crise]. Claro que as políticas de austeridade vão exercer uma grande pressão nesse Estado-providência. Mas não é necessário ir nessa direcção. Isto é um truque que a direita usa sempre. É oportunismo, e não a realidade, dizer que o Estado-providência é causa desta crise.

Paul Krugman, entrevista a Pedro Santos Guerreiro (Jornal de Negócios) e Vítor Gonçalves (RTP), in Jornal de Negócios, 28/02/12

Para uma história da social-democracia (V)


Quanto à Inglaterra, convém rememorar um pouco, dada a influência que exerceu no movimento da social-democracia actual. A história do Labour Party difere bastante do que ocorreu com os partidos socialistas ou social-democratas continentais. A força dos sindicatos, sobretudo os da mineração, o pragmatismo prevalecente, certa vertente mais igualitária da formação protestante inglesa e a própria luta operária dos inícios da industrialização, com os «cartistas», por exemplo, ou o «owenismo», deram feição própria à social-democracia britânica.
Some-se a isso que enquanto no continente os «intelectuais orgânicos» - como Kautsky com a sua revista Die Neue Zeit – actuavam dentro do partido e da Internacional, os influentes pensadores socialistas ou social-democratas ingleses (como o casal Webb e Bernard Shaw) formavam parte da Sociedade Fabiana que não se incorporou formalmente ao Labour.

Ibidem, 20

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Donas de casa desesperadas

Noticiou o Expresso deste fim-de-semana que a Passos Coelho foram apresentadas - pela 'assessoria' política (do partido, creio) - três possibilidades para o renovado programa do PSD: uma de "centro-direita", outra "mais à direita" e ainda "uma mais progressista". Como aquilo que interessa é 'parecer', como para os 'funcionários' não há convicções (estão com todos os líderes e com 'todas' as ideologias), como para uma elite dirigente não convém acrescentar 'ruído ideológico' à 'prática ideológica', não espanta que se trate o programa de um partido como quem trata da próxima colecção Primavera/Verão - à espera da escolha das cores mais adequadas para passarem bem na televisão. Trágico-cómico.

Pub: A morte de Danton, na capital europeia da cultura


Em palco, estão, ao todo, 32 actores e 12 figurantes (alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema). Um número que, segundo o encenador, responde às próprias características do texto, que varia entre cenas intimistas e outras de grande multidão – “É preciso muita gente para recriar o vendaval da História”. Talvez por isso esta seja apenas a segunda vez que a obra é representada em Portugal (a primeira estreou em 1989, com encenação de Carlos Avillez e interpretação de 17 actores, entre os quais António Marques, João Vasco, Carlos Freixo e Ana Paula).
Grande, média ou pequena. Para Jorge Silva Melo, a dimensão do elenco não constitui uma dificuldade no trabalho de encenação. A tira-se, primeiro, às cenas que julga serem ‘o coração da peça’ e, depois, vai compondo o resto. Assim aconteceu com A morte de Danton: em Dezembro do ano passado, começou a ensaiar as cenas mais íntimas com um pequeno núcleo de actores – Miguel Borges, Pedro Gil, Elmano Sancho, Maria João Pinho e Sylvie Rocha -, e só mais recentemente chamou os outros – entre eles estão João Meireles, Américo Silva, Pedro Luzindro, Rúben Gomes, Rita Brutt, Alexandra Viveiros e Nuno Pardal.

Carolina Freitas, Idem

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A árvore da vida

Mas, entre os concorrentes nomeados pela academia, o filme que eu gostaria de ver contemplado com o supremo galardão do ano foi talvez aquele que mais fascinou de quantos vi em 2011: A Árvore da Vida, de Terrence Malick. Há filmes que nos tocam de uma forma tão radical, tão surpreendente, tão prolongada que a partir desse momento se tornam parte integrante do nosso património afectivo. Este é um deles.

Pedro Correia, no Delito de opinião

A magna ERC

A minha consciência obriga-me a tornar público um episódio que sempre mantive privado, porque não me ocorreu fazer diferente. Em 2004, Santana Lopes era primeiro-ministro e eu mantinha, há uns anos, uma crónica de opinião semanal na Antena 1, cujo director se chamava Luís Marinho. Desde a tomada de posse que fui crítico contundente do Governo Santana Lopes, até que um dia o Luís Marinho me chamou e começou com uma conversa circular acabando por confessar que achava que a minha crónica devia ser substituída por um outro tipo de intervenção qualquer, talvez enquadrada com outros, e na qual ele iria meditar. Disse-lhe que não valia a pena quebrar a cabeça a pensar na alternativa: eu conhecia as regras do jogo. E ali mesmo me despedi, sem mais nem um tostão, deixando-o, ao que me pareceu, visivelmente aliviado. Hoje, depois de ter lido o depoimento do ex-subdirector da Antena 1, Ricardo Alexandre, não tenho dúvidas de que Luís Marinho continua fiel ao seu roteiro.

Miguel Sousa Tavares, Expresso, 25/02/12

Comentador residente, durante anos e até há bem pouco tempo, do programa Contraditório (Antena1, sextas, 19h10), Carlos Magno foi sendo sucessivamente moderado por Luís Marinho e João Barreiros. Primeiro, fazendo uma defesa intransigente de Sócrates - para lá da razoabilidade - e, depois, sem necessariamente abandonar o ex-PM, apoiando, com elogios vários, Passos Coelho. A sua chegada à ERC foi das notícias que menos admiração podia causar - bem como a ausência de contestação partidária, nos 'locais' (net e outros) mais 'ruidosos', pois tratou-se da designação do 'melhor' representante do 'bloco central' (das direcções mais recentes do dito 'bloco'). Outra coisa, contudo, foi (alguma) perplexidade inter-pares com a escolha feita.
Seja como for, eis o momento. Penso que todo o país já percebeu o escandaloso caso Rosa Mendes. Ou Magno - e a ERC - dá (dão), agora, o 'grito do Ipiranga', ou estaremos condenados a mais anos da sua irrelevância ou inutilidade. Pelo que atrás fica dito, eu não serei o maior dos optimistas, mas a esperança é a última a morrer.

A caminho da 'fase adulta' da humanidade

Destruam tudo que vamos longe.

Pub: A morte de Danton


“Se há uma cultura europeia é a formada pela Revolução Francesa”. Foi com esta ideia que o fundador e director dos Artistas Unidos, Jorge Silva Melo, escolheu levar à Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura a peça A morte de Danton, de Georg Buchner – cuja acção se situa, precisamente, no contexto desse movimento revolucionário. Uma opção simbólica, mas, diz, sobretudo política: “Num momento tão convulso como o actual, em que estão em causa os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que herdámos da Revolução Francesa, parece-me necessário voltarmos a discutir os fundamentos da democracia europeia”. Co-produzida pela Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, o Teatro Nacional D. Maria II e os Artistas Unidos, a peça estreia-se no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 2 e 3 de Março, seguindo depois para o Nacional de Lisboa, onde fica de 15 desse mês a 22 de Abril.

Carolina Freitas, JL nº 1080, 22 Fevereiro 2012