terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Douro

Desconhecer o Douro é ridículo, diz o New York Times. Pois é.

Para a história da Liga 2011/2012

E, quando a isso junta um histórico, sem desfalecimento, de prejuízo ao FCPorto e benefício do Benfica, é pura provocação nomeá-lo para um jogo do qual pode depender a escolha do campeão entre Porto e Benfica. Chamado a Barcelos, Bruno Paixão não falhou na sua missão (…)
Não foi o Gil Vicente que venceu o Porto. Com todo o respeito pelo esforço dos seus profissionais, quem venceu o Porto foi Bruno Paixão e ninguém mais. Provavelmente terá até conseguido evitar pela segunda vez que o Porto seja campeão. Um certo futebol, um certo sistema, recordará para sempre o seu nome com entusiasmo.

Miguel Sousa Tavares, A Bola, 31/01/12

P.S.: “Lucho retorna a casa; logo, não precisa de adaptação? De alguma terá necessidade, pois é do tempo, leia-se modelo de jogo, de Jesualdo Ferreira, não de André Villas-Boas e Vítor Pereira”, Santos Neves, A Bola, 31/01/12. É evidente.

Os caminhos da social-democracia

Um texto de António Cazorla.

A internet e a escola

Da crónica semanal, na rádio universidade:


O reparo de hoje vai para a entrevista de Umberto Eco, na passada semana, à revista brasileira Época, e ao desafio ali lançado à Universidade.
Trata-se, afinal, de um repto bem urgente no nosso tempo: enquanto que, como diz o professor de semiótica, na era da televisão alguém escolhia o que eu ia ver – e, mesmo que a minha informação/formação/cultura fossem escassas, havia a possibilidade – sublinho, a possibilidade – de alguém fazer uma boa selecção ou triagem dos conteúdos a que eu acederia; hoje, na era da internet, estou completamente só nessa navegação, o que em casos de ausência ou diminuta formação/cultura se torna, ainda, mais problemático (nesse espaço, ninguém escolhe ou selecciona por/para mim).
Portanto, o desafio colocado, assim, à Universidade é o de conseguir conceber um sistema de “filtros”, de elaborar uma “teoria da filtragem”, se quisermos, que possa fornecer instrumentos válidos para aqueles que se iniciam na rede, ou cuja instrução é parca possam ter, de algum modo, uma bússola orientadora, porque nem tudo o que vem à rede é peixe (e note-se que estes filtros nada têm que ver com os que já existem, por exemplo, para permitirem aos pais bloquear o acesso de menores a certos sites de conteúdo desadequado).
De resto, Umberto Eco havia, há meses, em entrevista à Ler, proposto um exercício escolar que consistiria em pedir aos alunos uma pesquisa na net de um determinado termo/conceito/tema e solicitar-lhes que seleccionassem, por exemplo, os 15 resultados que estes entendessem como mais significativos/objectivos e, claro, que fossem fidedignos/verdadeiros. Deste modo, se perceberia a que deitam mão, que recursos cognitivos/intelectuais convocam os discentes na hora de decidir por que uma informação é (ou não) segura/fidedigna, é (ou não) válida (por exemplo: bastará a repetição de um resultado, na minha busca, para poder afirmar um indício claro de que estou na verdade?).
Vai ser, aliás, muito interessante compreender como a escola que se vai desenhar a médio prazo lidará com um cada vez maior conjunto de informações ou conhecimentos, mais ou menos caóticos e fragmentados, que os alunos vão adquirindo fora do espaço escolar, na medida da prossecução da manutenção da autoridade – aqui, no sentido de auctoritas – de reconhecimento de que na sala de aula, para lá de todo o aparente nivelamento, há alguém que estudou mais e durante mais anos e sabe mais, sobre aquela disciplina, do que as restantes pessoas que estão a assistir à exposição, mesmo que estas possuam os recursos tecnológicos mais avançados -, mas, também, por outro lado, de que modo essa informação/conhecimento caótico pode ser organizado, relevado (e até revelado), em suma, valorizado.
São várias, sem dúvida, as questões que agora se colocam na utilização da internet – a nova legislação a aprovar nos EUA, em matéria de direitos de autor, ou a nova política de privacidade da Google, a partir de Março, estão aí para o provar -, mas é, sobretudo, este relacionamento com a escola que me parece particularmente interessante.
Nada melhor do que uma época em que a interdisciplinaridade ganha, felizmente, força, para que grupos académicos de letras, juntamente com especialistas em tecnologias de informação e comunicação, psicólogos e outros profissionais das ciências humanas, da filosofia e da ética possam reunir-se – porque não, também, na UTAD? – para responder a este estimulante problema hodierno.

FCP: o estado da nação (II)


http://www.correiodoporto.com/wp-content/uploads/vitor_Pereira.jpg

As contratações que se avizinham para o FCP não deixam, uma vez mais, de suscitar perplexidade, e de prosseguirem/acrescentarem um caminho de confusão, instalado no plantel desde o início da época. Então, avaliadas conjuntamente, as contratações de Lucho e Janko, menos se percebem.
Só o desespero ou a completa ignorância do jogo – no caso de Vítor Pereira, claro, é a primeira das hipóteses que se coloca – poderiam permitir supor que a mudança de modelo de jogo, em três dias (em Novembro último), não iria redundar na ausência de qualquer plano ou fio de jogo em que a equipa mergulhou (e que nem uma acidental melhoria, em uma parte de qualquer desafio, pode escamotear). Se, na visita a Alvalade, se criticou a ausência de meio-campo e um futebol directo para Hulk (mas como, se o futebol de posse fora substituído pelas transições, em Novembro?), agora, em Barcelos, com um Gil Vicente de bloco baixo, reclamou-se da ausência de Hulk (mas, verdadeiramente, para quê? Para jogar entre os centrais? Para romper pelas costas da defesa baixa, do Gil? Mas como, se, precisamente, o bloco era baixo, e os espaços inexistentes?).
Para quem acompanha, de há muito, o campeonato português, é óbvio que a maioria das equipas joga com defesas cerradas, bloco médio-baixo, obrigando os grandes, quando as defrontam, a ter (muita) posse de bola e a saber o que fazer com ela. Pois, desistindo do modelo que vinha da época passada – que é o mesmo que desistir de imensas rotinas, centenas de treinos, coisas feitas de olhos fechados -, sem que um novo estivesse/pudesse sido treinado (com o tempo devido), o caos e a anarquia sobrevieram, como esperado (como aqui assinalámos).
O Porto terá sempre grandes dificuldades em ganhar os desafios que não sejam de vitória por inércia – isto é, aqueles jogos em que a diferença é de tal modo abismal para a outra equipa e jogadores, que é impossível não ganhar; se quiserem um exemplo, vejam o Sporting - Beira-Mar; mas não é por inércia que se vence uma inteira competição.
Ora, a partir deste final de Janeiro, o Porto jogará para a velocidade de Hulk, para as costas das defesas contrárias, em futebol (mais ou menos) directo, num modelo de transição, para o centro do ataque (onde Hulk, previsivelmente, estará) e/ou para as alas – na Liga Europa. E, depois, jogará em futebol em posse, com a necessidade de um dez (João Oliveira, sobre Janko), e de fazer chegar a bola, em condições, às alas, para dali surgirem os cruzamentos para Janko (um novo Jardel, para Wetl, um novo Carlão, para João Oliveira, um jogador que “não tem o perfil tecnicista de Cardozo”, nas palavras do seu empresário) – na Liga portuguesa. Se isto não é esquizofrenia futebolística…o Porto ainda ganha o campeonato.
Mas somemos Lucho à equação. No seu melhor, foi o médio rotativo, intenso, de pura classe, de vistas largas, que o Porto teve, no futebol de transição rápida de Jesualdo Ferreira. Com Adriaanse, era o oito que jogava atrás de Diego (o 10 da equipa). Não era o 10, nem passou a sê-lo assim que Diego foi retirado ao onze, para se acrescentar um ponta de lança (o FCP passava, à época, a jogar com dois extremos e dois pontas de lança, McCarthy e Adriano; o futebol directo dos centrais para os extremos passou a fazer parte do dia-a-dia da equipa).
Com Jesualdo, o modelo de jogo nunca contemplou, propriamente, um 10 – nem no Porto, nem em Braga, onde João Alves, com o Professor, fazia a sua melhor temporada, como 8 de qualidade. Ainda assim, face ao génio de Anderson, não restava outra alternativa que não a sua titularidade (Assunção a 6, Lucho a 8, Anderson a 10). A lesão do criativo brasileiro, num célebre jogo com o benfica, fez com que, em definitivo, se introduzisse o modelo de jogo privilegiado de Jesualdo, e el comandante assumia incontornável protagonismo, mesmo no plano dos golos – pois que inúmeras vezes aparecia na área (um plano de jogo, não o meu preferido, mas bem gizado, potenciava-o).
Justamente se assinalou que a entrada de Moutinho para o lugar de Lucho – dois grandes jogadores – retratava, exemplarmente, a passagem de uma estrutura, bem montada, para chegar com maior rapidez, menos toques, maior objectividade à baliza adversaria (Jesualdo), para um estilo mais pausado, com muito passe e posse, capaz de resgatar a bancada, com Vilas-Boas (leiam OJogo da época – de transição de treinadores, no FCP - e reparem como os adeptos do Porto são românticos).
Hoje, sem um avançado móvel como Lisandro, mas com um pinheiro (de novo, João Oliveira), em que se prevê um futebol de muita posse, como conciliar o rotativo Lucho a aparecer na área, com os centros que se adivinham surgir de todo o lado – para mais, face à falência do técnico e, consequentemente, do futebol portista - para o ponta-de-lança austríaco?
Este novo ponta-de-lança teve o aval de Vítor Pereira? E do técnico de 2012/2013? Sabe/tem-no já a administração do FCP, conhecendo, portanto, o modelo de jogo (e até quase o sistema táctico, já que com um ponta-de-lança com as características referenciadas exige dois alas) da época que começa em Agosto próximo, ou irá escolher um treinador com um perfil que se encaixe no modelo assim postulado? Bem pior seria nem uma coisa, nem outra, para mais face ao que parece uma míngua de recursos (em que não faria nenhum sentido contratar agora um ponta de lança e dentro de meses este não encaixar no esquema do novo treinador).
Sobra, enfim, neste reino da confusão, essa junção ao clube dos nostálgicos – se o Manchester tem direito ao seu Paul Scholes, se o Arsenal tem direito ao seu Henry, porque não os portistas com direito ao seu Lucho? -, do qual quero ser sócio, pois claro, e lá estarei no Dragão, um dia destes, mesmo em hora cinzenta, para cantar a esse craque que jogou bilhar no tapete do dragão – três toques de mestre e “está lá dentro!” -Lucho, Lucho, Lucho González, Luuuchooo…

P.S.: João Oliveira é o olheiro, especialista em futebol austríaco e holandês, que hoje entrou para o estrelato,via RR e maisfutebol.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O admirável futebol português

Notícias do mundo da selva.

Obviamente, demita-se!

Lapidar

. Jorge Mourinha disse, no Público, na semana que passou, que A àrvore da vida não precisa dos óscares, mas os óscares que precisam de A árvore da vida. Exactamente.

. Um dos líderes de uma das maçonarias portuguesas afirmou, ao Expresso, que "somos tão abertos que até admitimos espiões". Espirituoso.

. Guilherme de Oliveira Martins gostou tanto de A história do pensamento político ocidental, de Diogo Freitas do Amaral, que, pelo segundo número consecutivo do JL, lhe dedica toda a crónica, renovando o elogio. Além disso, em Artes e Letras, aí na qualidade de presidente do Centro Nacional de Cultura, deixou importantes registos do último livro de Anselmo Borges, (sobre) Deus e o sentido da existência. A este autor, e a tal obra, se refere, igualmente, este Domingo, no Público, Frei Bento Domingues. Leituras aconselháveis.

. Luis Reis Torgal, na última Revista da história das ideias, deixa fortes críticas à biografia de Salazar, de Ribeiro Meneses. Junta-se, assim, a Manuel Loff que o havia feito, já, nas páginas do Público, num extenso ensaio. Nas críticas, pode vislumbrar-se um sentido convergente: o de que a biografia como que assume a imagem que o estado novo, e Salazar, em Portugal, gostavam que dele se tivesse. Curioso: Reis Torgal acusa o Público de sensacionalismo, de fazer a propaganda da obra, descobrindo-lhe qualidades que não tem. Mais: uma pecha decisiva, sublinha Torgal, nesta biografia é não ter consultado alguma da bibliografia fundamental sobre o tema/pessoa objecto de estudo/investigação. Olhar de leitor leigo, o meu, só relativamente a um "pormenor": difícil de provar a tese, presente em toda a conclusão (da biografia), de que o que moveu António de Oliveira Salazar a permanecer tanto tempo - e para lá do "razoável", se se admitir um "razoável" aqui - no poder foi o facto de este se entender (a si próprio) como possuindo uma missão (digamos, de tipo messiânico) a realizar em Portugal. Os elementos carreados para justificar essa como a motivação, talvez não sejam absolutamente convincentes.

Desilusão

Invictus


Iniciei o ano, na RTP1, vendo o único filme que (me) faltava para completar a colecção eastwoodeana da década. De longe, em minha opinião, a pior película do autor, nos últimos 10 anos. Nem se trata, exclusivamente, do filme ser “bonzinho”, como diz Henrique Raposo. As cenas do público, criado digitalmente, a assistir aos jogos (de rugby) chegam a ser patéticas (p.ex., sempre em euforia, independentemente dos momentos do jogo); os próprios momentos de jogo (em si mesmo) deixam muito a desejar; o som, “no estádio”, não ajuda. Matt Damon, por sua vez, nunca chega a ser o capitão determinado, com toda a garra do mundo, para agarrar um país. Morgan Freeman é brilhante, admira – quem não? – Mandela, e merecia um filme só para si (de biografia de Mandela).

Alberto Pinto Nogueira: uma entrevista corajosa

A sua autonomia foi posta em causa com a nomeação de equipas especiais de Lisboa para investigar no Porto?Isso foi um desaforo. Doeu-me. Vocês nunca viram uma equipa especial do Porto nomeada para investigar crimes em Lisboa. Porquê? Mais: nos 400 magistrados do Norte não havia nem um competente? Os competentes eram só de Lisboa? Atenção que até vivi 20 anos em Lisboa e gosto de Lisboa. Relativamente à do futebol [chefiada por Maria José Morgado, para o Apito Dourado], era todos os dias notícias nos jornais e televisões, mas na hora certa ninguém pediu contas. Quantos processos chegaram a julgamento? E condenações em 80 processos? Zero! Quanto dinheiro se gastou? Ninguém fez contas e ninguém as pediu...

E os “crimes da noite do Porto”?Essa designação ofende-me. Porque sou do Porto e o Porto não é uma cidade de criminosos. É que ninguém diz crimes da “noite de Lisboa”... É inadmissível. Como se o Porto fosse Chicago dos anos 30. Em Lisboa, há crimes mais graves e ninguém descobriu nem criou equipas especiais... Por outro lado, nesses processos houve condenações. E quem investigou foram o DIAP e a PJ do Porto. No dia seguinte, por acaso, veio uma procuradora de Lisboa e uma operação com200 pessoas foi como se tivesse sido feita por ela. Quem acreditou ou acredita nisso? Depois, os que a equipa especial mandou prender foram todos absolvidos.

Alberto Pinto Nogueira, este Domingo, no JN, onde, além destas declarações - recolhidas a partir do câmara corporativa - disse, ainda, entre outras coisas, que no lugar de Rui Rio nunca teria pegado num barco para ir ver a derrocada de casas dos pobres. Não é o tipo de coisa "que se vá apreciar", disse.

domingo, 29 de janeiro de 2012

O discurso de Obama sobre o estado da união


Com grande sacrifício para o sono, assisti, em directo, a meio da semana, ao Discurso do Estado da União, de Barack Obama.
Uma primeira – e, para mim, fundamental – nota tem que ver com o artifício da coisa. Eu sei que há muita gente que se excita com o acontecimento, no qual identifica um inequívoco sinal da excepcionalidade norte-americana: se o comandante-em-chefe for democrata, os republicanos aplaudirão entusiasticamente esta (específica) comunicação; se for republicano, teremos, precisamente, a mesma atitude dos democratas, no que se prova, imaginam, que aí está um povo capaz de resistir à mesquinhez da politiquice e se eleva acima do acessório – o que é tão verdadeiro, ou tão falso, para dar um exemplo paradigmático, quanto se assistiu, neste mandato de Obama, a uma política, deliberada, de obstrução e bloqueio, por parte dos republicanos a tudo o que viesse dos democratas, tornando-se a obstrução, absurdamente, um fim em si mesmo.
O que se observa, contudo, são os aplausos de pé, a cada dois minutos, muitas das vezes perante a mais absoluta banalidade dita pelo orador; os que se levantam, a aplaudir, são, sensivelmente, os mesmos (a cada interrupção do discurso); e há, em cada olhar, em cada trejeito, um gesto tão impressivamente cinematográfico que ficamos na dúvida sobre o evento em causa. Cada pessoa, obviamente, sabe-se filmada, desempenha o seu papel, numa pose estudada.
Se é preciso dizer isto – quando devia estar no campo dos adquiridos, mas que uma retórica fantasista e ilusória obriga a destacar -, é, também, porque a própria construção do discurso obedece, de tal forma, a um guião que se inscreve na forma e espírito deste momento.
Quer dizer, o discurso de Obama começa pela exaltação dos valores militares e patrióticos – durante 5 a 10 minutos, Obama fala, sobretudo, à direita. Passa depois, de modo mais demorado, é certo, a falar na necessidade de progressividade nos impostos, no fim da desregulação da economia, nas necessárias apostas na educação, saúde, crescimento económico (e, aqui, no crescimento da economia, residiu, talvez, o ponto com mais interesse, do discurso de Obama, para quem não acompanha de perto a realidade norte-americana: a invocação da sua retumbante vitória, em matéria de manutenção e criação de empregos na indústria automóvel, que estava à beira da catástrofe quando se iniciou o actual mandato). Portanto, durante um pouco mais de meia-hora, Obama fala à esquerda, para a sua base de apoio.
Segue-se a apologia do pragmatismo: nós aceitamos reduzir a despesa na segurança social, desde que aceitem aumentar os impostos para os milionários; sou democrata, diz Obama, mas inspiro-me, também, no que disse o republicano Lincoln; tenho as minhas convicções, mas não devemos fazer finca-pé na ideologia. Numa era pós-ideológica, de derrocada dos grandes relatos, em que 40% dos americanos se diz afastado dos dois partidos, eis a parte dirigida a eles, aos independentes. E, a concluir, mais uma dose dos valores militares, um olhar para a bandeira – a um presidente democrata só faltou enroscar-se na bandeira, dizia Teresa de Sousa, na sexta, no Público, destacando, justamente, o populismo da cena – e para essa força que nos guia, Deus abençoe a América, presumivelmente, então, (comunitariamente) unida.
Maia Abreu, no TVI24, insistia na matriz social do discurso, quando ele, o discurso, perpassara todo(s) o(s) eleitorados – não sendo inócuo nem incolor, é verdade, (nomeadamente) na economia – enquanto o pivot da sic notícias perguntava a Martim Cabral se não era uma evidência que se defendesse que os ricos pagassem, relativamente, mais impostos que os mais pobres. Ao que Martim Cabral, muito marxista e redutoramente, afirmou que se calhar se fosse milionário não pensava assim – que é como quem diz, o que pensamos depende do dinheiro que temos no bolso (ideia que rejeito, por completo).
De resto, o jornalista de A sociedade das nações foi esclarecendo o pivot que eram “filosofias políticas” – afinal, eram filosofias, ou o que tinham no bolso é que determinava a defesa da regressividade dos impostos? – e que uns dizem que é assim que funciona melhor a economia, e outros que sustentam o contrário. As tiradas só me pareciam menos insólitas, porque estávamos aí por volta das 3h30 da manhã.
Em síntese: retoricamente bem menos inspirado do que há 5 anos (claro, não no discurso do estado da união, mas enquanto candidato, então, a um dia proferi-lo), que Obama volte a ganhar, mas que desta vez fure o bloqueio republicano, não volte a festejar, triunfalista, a morte de um humano, e que a ideia de compromisso não traia – como por vezes sucedeu neste mandato – o essencial do seu programa.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Homens em tempos sombrios

Belíssimo o concerto de Pedro Burmester, esta tarde, no Teatro de Vila Real. De encher a alma, em tempos de chumbo.

Mourinho, o treinador hooligan

Um magnífico retrato, de John Carlin

Repensar filiações


Mas, mesmo olhando para a identificação entre política e religião numa dada mundividência, há outros modos de pensar as coisas que nos obrigam a desinstalar de um certo conforto (ético-intelectual):

A comunidade cristã é antes de tudo sacramental (ou mística): corpo de Cristo, animado pelo Espírito de amor de Cristo; e a sociedade visível que o encarna está integralmente ordenada a esta comunhão. Depois de tudo, o cristão é enviado à construção de um mundo cujas estruturas não estão definidas previamente, antes sendo necessário inventá-las ou reformá-las para que favoreçam essa comunhão. Por consequência, é-nos difícil compreender algo que às vezes nos parece uma infundada amálgama do religioso com o político ou o social. A confusão de planos inquieta-nos. Temos medo do totalitarismo religioso porque sucumbimos nele demasiadas vezes (…) Mas não podemos deixar de nos impressionar ante a solidariedade profunda e activa, aberta e acolhedora, que caracteriza as autênticas comunidades muçulmanas. E essa fraternidade coloca-nos a questão do fundamento das nossas próprias solidariedades, fraternidades ou comunidades, e nos remete Aquele que é a sua fonte”[1].

Quer dizer, que é isso de pensar o político apenas politicamente? Como separar, cerebralmente, a nossa mundividência (cristã) das opções políticas que sufragamos? Não dizemos nós que foi, precisamente, a emancipação do financeiro, da economia, face ao seu tecido social que criou a crise por que vimos passando, assim crise ética, económico-social, antropológica, ambiental, de segurança, etc.? Não iremos, por um certo regresso do ideológico, regressar, também, holisticamente pensando, ao identitário e redefini-lo diferentemente, integrando, nele, agora, desejavelmente, todas as humanas dimensões/filiações?


[1] P. CLAVERIE, o.c., 16-17.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cristianismo/Islamismo: diferenças


No entender de José Morales, em nenhum assunto são tão fundas as divergências Islão- Cristianismo – para lá da concepção de Deus – como na perspectiva acerca das relações governo-religião-sociedade. “De um lado dai a César o que é de César; do outro, a não separação de estas esferas”. No islamismo não há a diferença regnum/sacerdotium como na Cristandade. “Os muçulmanos converteram-se numa comunidade político-religiosa com o Profeta como chefe de Estado. Este governava directamente um território e um povo, dispensava a justiça, cobrava impostos, mandava nos exércitos, fazia a guerra e estabelecia a paz[1]. Citando, aliás, S. Schartz, em Two faces os Islam, “é incorrecto referir-se ao ‘islão político’ como distinto do islão como fé religiosa: todo o islão é político”.
Porém, balizadas, assim, as diferenças, importa complexificar o discurso, com I.M. Lapidus, relativo á osmose politico-religiosa no Islão:

A suposta norma muçulmana de identificação de Estado e comunidade religiosa teve apenas vigência numa pequena parte do Médio-Oriente. Situações político-religiosas indiferenciadas emergiram em sociedades tribais, como na Arábia, alguns lugares norte-africanos, e o primeiro Irão safavida, assim como em alguns períodos reformistas dos sécs. XVIII e XIX. Mas inclusivamente nestes casos, o crescimento de uma sociedade urbana começou um processo de diferenciação que acabará dissolvendo a conexão integral de estado e religião”[2].



[1] J. MORALES, o.c., 19.
[2] J. MORALES, 35.