sábado, 31 de dezembro de 2011

Sonho de uma noite de Verão

Uma das expectativas e esperanças de 2012 é que Guimarães Capital Europeia da Cultura nos dê momentos solares, para aguentarmos o frio da noite (que aí vem). Um dos espectáculos que tenho particular interesse em ver será encenado por um vilarealense, João Pedro Vaz, a partir do Homem sem qualidades, de Musil. Enquanto a hora não chega, fica o deleite da memória de uma noite de Verão, com a mamãe, no centro cultural vila flôr, em peça, cenicamente muito conseguida, ao ar livre, nos jardins de MacBeth
Macbeth, "a preferência pessoal" shakespeariana de Harold Bloom, que, no Cânone Ocidental, nos diz nunca se recompor da incrível economia da peça, em que "cada discurso, cada frase" são decisivos. 


Descalabro ético

Ficar sem palavras face ao(s) desgoverno(s) do meu país.

Primo Levi

Daniel Innerarity e a necessidade de pensar o político

Dos instrumentos - e seus limites - de lidar com a crise

Deolinda, um dos fenómenos (sérios) do ano

Fui ao concerto que deram em Vila Real. Repleto. E com uma cadeia de tv alemã,  no local, a fazer reportagem, algo raramente visto por estas bandas, bem demonstrativo da importância do movimento social que se viu espelhado na canção Parva que sou. Centenas de textos na imprensa e nos blogs deram origem a acaloradas discussões em torno da interpretação autêntica da mensagem transmitida. Falou-se, então, a propósito da geração à rasca, do regresso da canção interventiva. Centenas de milhares, nas ruas, cantaram-na.

Quando ainda não era conhecida de ninguém, esta canção incendiou o Coliseu e, qual vírus, espalhou-se pelas redes sociais

"Eu estava lá. Ouvi a letra com muita emoção. As lágrimas não pediram licença, porque também eu sou dessa geração-escrava. Eu nunca me tinha emocionado tanto num concerto. E eu vou a bastantes...
Não percebi os risos, porque, para mim, este é o retrato fiel de uma realidade dura, cruel. Mas há sensibilidades para tudo. Imagino que, para algumas pessoas, isto pareça uma anedota. Mas não é.
SaraVeiga há 11 meses 31"

no youtube

Requiem pela universidade de Ortega


Ortega y Gasset dijo que las universidades deben cumplir tres misiones: enseñar una profesión, preparar investigadores y formar hombres cultos. Los bienes involucrados en cada una de ellas son distintos: se aprende una profesión por razones prácticas y en función de su utilidad social; la investigación académica persigue el conocimiento teórico; ser culto es un imperativo emparentado con la propia dignidad de ciudadano. Un buen sistema universitario debería saber conjugar los tres bienes de forma armónica y equilibrada (…)
Las actuales reformas "a la boloñesa" de la Universidad española postergan temerariamente la misión de formar hombres cultos en beneficio exclusivo de la preparación de profesionales. Oímos que la Universidad ha estado demasiado alejada del mundo laboral y que lo prioritario ahora es crear puentes con la empresa. Por eso los nuevos planes prevén pocos años de estudio para obtener un título universitario, conocimientos técnicos especializados y aplicados, y muchas prácticas desde el primer curso. Mutilada la Universidad de su misión educativa, el resultado previsible será la producción industrial de una masa abstracta de individuos preordenados para competir y producir, tan hipercompetentes como incultos, autómatas como los niños cantores de villancicos, ávidos consumidores de escasa civilidad como los del cumpleaños. Empezarán a trabajar antes que nunca y se jubilarán más tarde que nunca, lo que, privados de conciencia crítica, romos en su visión del mundo, asegura más de medio siglo de dócil mansedumbre a las leyes del mercado, diciéndose a sí mismos lo que el cínico personaje de Galsworthy en su novela La saga de los Forsyte: "¿De qué le sirve al hombre salvar su alma si pierde sus propiedades?".
Lo más chusco del asunto es que precisamente lo inútil, lo desinteresado, la curiosidad errática y sin objetivo fijo, las horas infinitas aplicadas al cuidado de sí sin mira de rentabilidad, la mocedad extraviada y enamorada, todos esos ingredientes del otium activo contrapuesto al neg-otium tendrán a la postre un efecto positivo en el universitario que busca trabajo porque servirán para distinguirlo, entre aquella masa indistinta, con un perfil individualizado más atractivo para las empresas. De manera que los jóvenes deberían integrarse no antes sino después en la economía productiva, lo más tarde que puedan permitirse, emulando a esos jóvenes ingleses del siglo XVIII que hacían el grand tour durante años por Europa para acumular experiencias y refinar su buen gusto antes de ocupar una posición en el mundo. Claro que el mozo vuelve hecho un espíritu libre y eso comporta riesgos (…)
Hoy que viajamos a lugares remotos del planeta en vuelos low cost y la tecnología nos pone en contacto con todas las tendencias culturales, ese grand tour debería ser un viaje más interior que exterior hacia las profundidades de la propia intimidad destinado a apropiarse del propio yo y hacer de él una materia menos controlable, menos dócil, más resistente a la voz autoritaria. Nada en contra del mercado, ¡faltaría más!, cuando sabe servir al ciudadano: también a mí me gustan las golosinas. Pero como tiende a reducir al hombre a servidumbre (léase consumidor acrítico), conviene estar en guardia.

Javier Gomé Lanzón, ElPais, 31/12/2011

Da razão universal à razão socialmente construída

Um texto absolutamente exemplar - e essencial - de Henrique Raposo

Da trágica Coreia do Norte

Do relato da alucinação colectiva

Uma cortina monstra 


P.S.: a entrevista de um diplomata português, que esteve várias vezes na Coreia do Norte, entre 1993-1997, publicada na edição desta semana da Sábado contém, também, elementos verdadeiramente surreais.

Perguntas com futuro: rebentará a China?

A chegada, em força, dos chineses à EDP, à banca e à REN (?), (re)suscitou, em Portugal, um conjunto de comentários sobre a evidência da actual superioridade (económica) chinesa, e sobre o seu papel, insusceptível de questionamento, liderante a nível mundial (a partir de agora). Estaremos, apenas, a assistir, pois, ao início de uma longa era de (natural) supremacia internacional da China, porventura em regime de bipolaridade – com os EUA - durante certo lapso de tempo, mas destinada a uma liderança (isolada) inequívoca que, verdadeiramente, apenas retoma uma herança histórica, cujo intervalo de dianteira ocidental, não passou disso – de um intervalo.
Para a teoria, não faltam citações eruditas, como as que José Manuel Fernandes, no Público, foi buscar a Kissinger, com Clausewitz e a Sun Tzu pelo meio, com o xadrez oposto ao wei qui – o go -, com a lógica (ocidental) da aniquilação do monarca, a dar lugar à lógica (oriental) da vitória pelo cerco, ou Joaquim Aguiar, na XXI, em pele de ficcionista – mas muito ideológico e um tanto moralista – a garantir que seremos apenas, em 2099, uma remota província asiática, em busca de um passado – perdido irremediavelmente – glorioso, derrotado pelos gastadores que cederem lugar aos poupadinhos. Será. A vantagem do condicional é o de enunciar uma possibilidade, logo a dúvida, logo até o contrafactual: e se?...

E na salvaguarda do futuro, a criatividade

Um dos autores que descobri em 2011, em matéria de educação, através de um texto de António Pinto Ribeiro: Ken Robinson. A revisitar, brevemente.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Os robots e o futuro da educação


A edição de Dezembro de 2011 do Courrier Internacional, e a Foreign Policy (edição lusófona) de Outubro/Novembro 2011, coincidem no tema (principal) de capa: o nosso futuro robótico. Isto é, desde a fusão homem-máquina, até á relação dos robots com as modernas guerras, terminando na relação entre esta tecnologização e o emprego.
De há muito que Alvin e Heidi Tofler – aliás, citados abundantemente na Foreign Policy – nos advertem para a certeza de que a grande questão do próximo meio século será “definir o humano”. Em tempos de muita fome, tende-se, com naturalidade, aliás, a pensar estas como questões mais ou menos exóticas, claramente marginais e secundárias. Os mais avisados compreendem que não: todas as discussões ao nível do direito – precisamente nos interstícios de uma extensa malha legislativa onde se definirá o humano -, da ética, da filosofia, da medicina, da economia, etc., que a crescente robotização, inevitavelmente, imporá, obrigariam, inclusivamente, a que os currículos educativos fossem repensados – como bem viu George Steiner, em Os livros que não escrevi, propondo introduções aos conceitos da biologia molecular e da genética, para não discutirmos no vazio da desinformação, do desconhecimento, do preconceito, e a cidadania se exerça efectivamente.
Do que pudemos ler nas citadas edições, em tais periódicos, fica essa ideia de os empregos que estão na pirâmide e na base, os mais desqualificados e os qualificadíssimos dos jobs disponíveis se manterão sem ameaça – e, ainda assim, nem a consultadoria jurídica, nem a medicina estão totalmente ao abrigo da chuva (programas informáticos jurídicos a resolverem muita coisa, p.ex., como em algumas das surpreendentes reportagens destes números, podemos observar). Isto adverte-nos, por um lado, para a repercussão – então – mais económico-social desta robotização e, por outro, para a especialização da especialização na procura do emprego que o robot ou o computador não possam tirar, ou para a concentração em empregos que implicam, hoje e sempre, um rosto humano.
Se, em 2003, nenhum robot existia - na guerra do/no - Iraque, hoje já lá se encontram 12 mil robots americanos, com sete mil mais encomendados – sim, os robots também dão emprego a muito boa gente.
Sim, o futuro é um lugar estranho, mas a educação deve preparar-nos para ele.

Martha C. Nussbaum e a livraria Leitura


Foi na Leitura que descobri Martha C. Nussbaum. Mais concretamente, numa recensão de uma excelente revista de filosofia, espanhola, que ali se podia encontrar, sobre Las fronteras de la justicia. Não existindo, em português, nem a obra cuja crítica me entusiasmara, nem qualquer uma outra, foi, também, em tal livraria, que a encomendei, na sua versão castelhana. E com proveito a li. Martha C. Nussbaum assumia-se como admiradora de Rawls, e, no último livro de Amartya Sen, A ideia de justiça, aparece, igualmente, como alguém cujo contributo ouvido relevou para essa obra.
Há mais de um ano, seguramente, o Courrier Internacional publicou um longo excerto do último livro de Nussbaum, que muito me chamou a atenção, em defesa das humanidades como condição sine qua non para a (boa) democracia. Entretanto, esperei que algum tradutor se ativesse à tarefa de no-la introduzir em Portugal. Debalde. Só que agora, apesar da já existente tradução na vizinha Espanha, não será, com certeza, nessa companheira de faculdade – a proximidade ajudava -, em cuja companhia passei várias horas, que poderei confiar para resolver o assunto. E não é apenas por causa das esbeltas amazon’s (e quejandas). É da tristeza do (mau) envelhecimento. Passando em finais de Novembro pela Leitura, pude constatar como os livros de entrada, na montra, em castelhano e francês, eram, exactamente, os mesmos que ali vira um ano antes. A secção de Filosofia e ensaio degradara-se. A revista de filosofia espanhola evaporara-se…
 Por vezes, a nostalgia do antigamente é que era bom ou não tem, rigorosamente, qualquer base, ou, então, peca pela hipérbole. Neste caso, não se trata nem de uma coisa, nem de outra.

Através do blog Cachimbo de Magritte, encontrei, porém, esta lição, pela própria, do livro a convocar para a(s) biblioteca(s).

Dos (grandes) soundbites do ano

"Vítor Gaspar é o dicionário de Passos Coelho"

Francisco Assis, Público, 29/12/11

Em defesa da comunidade de leitores de jornais

Muito de acordo com o que aqui diz Pedro Lomba: desde os nossos índices, lastimáveis, de leitura de jornais, até à qualidade (comparada) da nossa imprensa.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ler para governar (melhor)

Enquanto nesta entrevista a Ana Daniela Soares, na antena um, ontem, ainda a propósito da sua "História do Pensamento Político Ocidental", Freitas do Amaral, com excepção de um elogio a Karl Popper, voltava a sair do século XX nos autores e nas obras aconselhadas a futuros governantes (ou a cidadãos politicamente empenhados), um conjunto de intelectuais, ouvidos por ElPaís, no mesmo dia, dava sugestões bem mais actuais. Opções...

P.S.: Como saberão, ao título, em castelhano, Algo va mal, de Tony Judt, corresponde, na edição portuguesa Um tratado acerca dos nossos actuais descontentamentos. Menos complicados, nuestros hermanos.

Bunker Roy - vidas alternativas

Este homem foi já considerado pela Time como um dos 100 mais influentes do planeta. Da capacidade de pensar e viver de outro modo.

Anita no avião

Levei, hoje, com uns dias de atraso, uma prendinha de Natal para o filho de um grande amigo. De idade muito precoce, ficou com um livrinho da minha estante da memória, da infância dos 80´s. Com aquelas ternurentas dedicatórias, de que nunca nos separamos, mesmo quando o livro vai. E vai, aliás, com o valor acrescentado dessa afectividade. Vendo-me com a relíquia debaixo do braço, atirou o simpático gerente de um café que frequento: "Vem com um livro muito engraçado!". "É, estou a regressar à primeira infância", respondi. Pediu-me que visse a data. 1984. Ah, não pode. Há mais de uma dúzia de anos que já o lera. Esse livro tem, á vontade, 40 anos. Vou já à net descobrir. Acertou. O livro, Anita no avião, Martine en avion, data, originalmente, de 1965. A série Anita - na Macedónia, Mapuka, nos EUA, Debbie, na Itália, Cristina - principiou em 1954 e ter-se-á concluído em 2006. Os seus autores foram Gilbert Delahaye (que escrevia as histórias) e Marcel Marlier (que ilustrava). Dupla franco-belga. Delahaye, também poeta, venceria o prémio literário Prévert, em 1985. Morreria em 1997, enquanto Marlier faleceu em Janeiro deste ano. Estava, no entanto, de regresso, neste nosso café, a magia das idades de ouro, e criada, instantaneamente, a nossa irmandade dos ex.leitores de Anita.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Do encontro (falhado)

J. DUQUE, Cultura Contemporânea e cristianismo, Universidade Católica, 2004, 150-151: “Em última instância, é a própria arte pela arte que entregue ao absoluto de si mesma, faz levantar a questão de saber se não estará, ela mesma, a trabalhar na sua própria morte. De facto, sem valores transcendentes que lhe sejam origem e, de certo modo, orientem a sua própria realização – isto é, sem se assumir como figuração e transfiguração de uma realidade acolhida como dom gratuito – a arte nada tem a dizer e, assim sendo, desagua no silêncio desqualificado de quem a si mesma se esgotou”. Vale a pena, igualmente, registar as palavras de G. STEINER, em A. SPIRE-G.STEINER, Barbárie da Ignorância, Fim de Século, Lisboa, 2004, 70: “Quando falamos de Miguel Ângelo, de Rafael, de Beethoven, de Shakespeare, estamos a falar de um mundo cheio de Deus, e não me refiro à fé pessoal de cada um deles. O campo de referência à transcendência está sempre ao alcance da mão. A obra de arte é uma mimésis, uma imitação do acto primeiro da criação. Miguel Ângelo, num grande soneto, fala do outro escultor que é Deus. E, ainda Picasso, homem extremamente complexo, dizia: “Ele é o concorrente”. O que é muito importante: este sentido de um artista que é rival ou servidor de um artista último e final. Uma estética transcendente da existência real, ou, em Kafka (e noutros), o peso sem fim da ausência de Deus: o horrível sentido de um vazio concreto (…) A minha hipótese é que quando estas questões se transformam em palavreado oco e absurdo, ou infantil (…) as antigas formas não voltarão a aparecer (…) gostaria de ter já diante de mim uma obra de extrema grandeza onde não houvesse, pelo menos, a questão possível da existência, ou da não existência, de Deus”. Mas não a encontra.