sábado, 20 de janeiro de 2018

Diários


Quinze dias volvidos, sinto-os finalmente mais descansados, tranquilos, a aula flui com outra, bem outra, leveza. A coisa dura rigorosamente uma semana. Depois, regressa o grão que faz com que pegar na máquina exija uma energia e paciência muito assinaláveis. Sigo até à biblioteca - e percebo que nos níveis mais básicos ninguém treina e ensina a pesquisar online, a selecionar o trigo do joio, uma das grandes competências para este século, advertira Eco, sem interlocutores no nosso primeiro ciclo, pelo menos (imaginam-se quiméricas revoluções onde, por vezes, falham os mínimos...de abertura a realidades que são fundamentais nos nossos dias). Não admira que, já mais maduros, ainda muitos façam copy paste à Wikipedia - a questão é, evidentemente, mais complexa e envolve a facilidade com que se copia para trabalhos sem referir fontes, problema tanto "técnico" quanto "ético". Não acontece mais vezes, essa ida ao primeiro resultado apresentado pelo motor de busca, porque em casa há hoje mais conhecimento, formação, cultura, exigência. Onde estas, no entanto, não estão presentes - e, apesar de tudo, não são assim tão poucos casos - é aquela pobreza franciscana a que me referia. 
A fechar fico a saber que entre 2008 e estes dias, o nosso concelho perdeu cerca de 3000 estudantes e que no terceiro ciclo e Secundário poderá vir a colocar-se a questão de uma sobre-oferta (e do que isso significará relativamente aos estabelecimentos de ensino do concelho).

A DEMOCRACIA É UM FENÓMENO ATENIENSE/GREGO?


John Keane chamou recentemente a nossa atenção para dois importantes aspectos relacionados com a noção histórica de Democracia. Por um lado, reconhece «a prevalência de democracias de diferentes formas e tamanhos», muitas delas antecedendo o modelo ateniense, que remetem para «a existência na região [o mundo helenístico] de tradições inventadas de comportamento que favoreciam a igualdade, o respeito pelas leis e o autogoverno através de assembleias», deste modo lançando dúvidas fortes sobre o preconceito arreigado segundo o qual o modelo ateniense seria um fenómeno localizado e fortuito. O facto de muitas das cidades-Estado terem experimentado essas formas de Democracia apenas por períodos breves que terminariam com a sua substituição por outro tipo de regimes - aristocracia ou monarquia, tanto nas suas formas benignas como nas outras - não pode ser menosprezado, na medida em que tem sido uma importante base argumentativa daqueles que vêem na Democracia um sistema intrinsecamente propenso a falhar perante as adversidades do tempo
Por outro lado, a arqueologia linguística permite-lhe sustentar a ideia de que vocábulos fortemente aparentados com o demos da Grécia clássica se encontram numa língua pictórica chamada Linear B usada pelos Micenos da Idade do Bronze, uma civilização que terá florescido no Peloponeso por volta de meados do segundo milénio a.C. Esta civilização teria «legado aos atenienses uma família de termos que continham o vocábulo vital que simultaneamente descrevia e defendia os poderes de um grupo potencialmente activo no corpo político». Mais do que isso, as estruturas políticas micénicas ter-se-ão inspirado nos Fenícios, que as adoptaram a partir de contactos com os povos da Mesopotâmia. Em breve resumo, não só a «democracia de assembleias» deixa de poder ser vista como um fenómeno singular em Atenas, mas as suas origens remontam a tempos bem mais recuados. Keane entende que a primeira fase de criação e difusão de assembleias públicas deve ter ocorrido por volta de 2500 a.C. nos vales da Mesopotâmia, daí seguindo para leste para a Índia Védica, e para ocidente, nomeadamente através das cidades fenícias de Biblos e Sídon até à costa atlântica
A abordagem de John Keane abre novas perspectivas, e vai ao encontro das críticas formuladas por Amartya Sen a conceitos etnocêntricos de Democracia, encarados como sendo portadores de uma imposição de valores e práticas correntes no Mundo Ocidental a qualquer outra sociedade, sem respeito pelas suas tradições. (...) [ainda que] o grau de sofisticação atingido pelos Atenienses na sua Idade de Ouro, e os conceitos que então desenvolveram, continuam a ser um pináculo do génio humano, cuja atractividade se deve muito ao engenho com que foram plasmados num modelo facilmente reconhecível [ou seja, outros povos desenvolveram possíveis fórmulas em que o debate público influenciou as escolhas públicas, com participação dos cidadãos, em que existiu «deliberação pública», com tolerância e encorajamento de participação, mas sem a sofisticação do arranjo grego]. (...) Esta posição especial não implica que o debate deva ser limitado às suas fronteiras, mas, muito pelo contrário, que as diversas tradições assentes em diferentes níveis de formalização devem ser igualmente consideradas.

Rui Graça Feijó, Democracia - linhagens & configurações de um conceito impuro, Afrontamento, Porto, 2017, pp.30-32.

DEMOCRACIA ATENIENSE


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Na Atenas do séc.V a.C.., ekklesia (assembleia) reunia-se no Pnyx, local que foi sofrendo vários melhoramentos, e onde cabiam, pelo menos, 12 mil cidadãos. A assembleia tinha como quórum mínimo 6000 pessoas e uma população «elegível» para nela participar de não mais de 30 mil cidadãos - de fora, a maioria composta por mulheres, estrangeiros e escravos. Estas reuniões plenárias eram muito frequentes, cerca de 40 por ano. Um grupo de 400 indivíduos (mais tarde, cerca de 500) era designado para preparar as reuniões e organizar aspectos da vida colectiva; Atenas dispunha também de cerca de 700 archai (magistrados), que incluíam os comandantes militares. "A selecção destas pessoas era estritamente controlada, os mandatos eram geralmente de um ano, não renováveis, e o modo de escolha seguia regras que preveniam a hipótese de um mesmo indivíduo exercer cargos em anos consecutivos. Tal). Muitos séculos mais tarde, Montesquieu haveria de afirmar: «A selecção por sorteio está na natureza da democracia» (...) [Todavia] Atenas dispunha [igualmente] de um corpo de oficiais seleccionados por eleição - talvez uns 100 - e não sujeitos à regra dos mandatos não renováveis. Por exemplo: Péricles foi eleito como strategos durante vinte e cinco anos consecutivos" (pp.28-29). A isonomia - direito conferido a todos os cidadãos para exercerem os seus direitos em pé de igualdade - e a isegoria - igual direito à palavra e a apresentar propostas à Assembleia - faziam parte da estrutura democrática ateniense.
O conceito de polis tem duas acepções: tanto designa a comunidade política, como a comunidade sócio-económica.

[a partir de Rui Graça Feijó, Democracia - linhagens & e configurações de um conceito impuro, Afrontamento, Porto, 2017]

LIBERDADE, PARA OS ANTIGOS


Nós não dizemos que um indivíduo que não se interessa pelos assuntos públicos é um homem que trata apenas dos seus negócios. Nós dizemos que um homem assim não tem lugar na nossa sociedade. (Péricles, citado in Blaug and Schwarzmantel, 2014: 26)

in Rui Graça Feijó, Democracia & configurações de um conceito impuro, Afrontamento, 2017, p.27.

PURO SORTEIO, NA DEMOCRACIA ATENIENSE?


O sorteio [na selecção do corpo político da cidade-estado de Atenas clássica] apenas recaía sobre os indivíduos que de alguma forma se tinham proposto para o lugar, não sendo totalmente aleatório.

Rui Graça Feijó, Democracia. Linhagens & Configurações de um conceito impuro, Afrontamento, Porto, 2017, p.29.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Grande coligação


Em torno de que temas se vão tecendo acordos para uma nova Grande Coligação, na Alemanha, entre a CDU/CSU e o SPD? Baixa de impostos; mais apoios sociais; quota-limite para a entrada de refugiados (220 mil/ano); fim da venda de armas à Arábia Saudita.
A juventude do SPD, e a ala mais esquerda do partido, estão contra a coligação.

Do avesso

Resultado de imagem para utopia para realistas

O livro começa com uma chusma de estatísticas que tanto podemos encontrar aqui, como nos livros de Pinker ou de Harari (ou também, ainda, na recente entrevista de Bill Gates à Time, por exemplo) e que supostamente documentam a nossa (humana) evolução quanto às fomes, pestes e guerras. O problema destes dados é, não raro, não resistirem a um mínimo esforço crítico em procurar perceber que realidades humanas que por trás deles estão: por exemplo, em Utopia para realistas, Rutger Bregman diz-nos que hoje há "apenas" 10% da população que é extremamente pobre. Quando se verifica o que isso quer dizer, compreendemos que estamos a falar de pessoas que vivem com menos de 90 cêntimos por dia. Não apenas 10% é muita gente, como quem viva com 1 euro por dia já não se encontra na lista. Na edição mais recente de 2077 - 10 segundos para o futuro registava-se que 800 milhões de pessoas vão, todos os dias, com fome para a cama e mais de dois mil milhões alimentam-se insuficientemente. Esta cifra dos 10% parece-me que nada explica, e surge como mais uma das estatísticas que não se aproxima realmente da situação e da qualidade de vida das pessoas - um problema que alguns destes conjuntos de dados que procuram provar como vamos andando muito melhor do que de pretérito apresentam. 
De resto, na obra de Bregman fixam-se grandes constrangimentos políticos e de modos de vida dos nossos dias, sendo que se busca a conclusão: com tanto que temos e evoluímos, como temos ainda estes problemas?! A nota não seria necessária, porque se estamos como estamos é porque não evoluímos assim tanto. Nalguns casos, como o da guerra, a doutrina divide-se quanto ao esplendoroso futuro que aí vem: a guerra foi uma constante em toda a história da humanidade e não é crível que desapareça mesmo no mais avançado panorama tecnológico; outros contrapõem: as democracias nunca se digladiram (entre si) e o caminho democrático continua a ser percorrido (para me ficar na troca de argumentos de 2077...). 
Um dos pontos do livro Utopia para realistas passa por nos mostrar o passado como um país diferente, capaz de irrigar a nossa imaginação: as coisas não têm que ser como hoje são, dado que ontem foram diferentes (e, supõe-se, não para pior, no entendimento do autor). E isso tanto nas horas vagas - no exemplo do feriado, já aqui delineado -, seja na ponderação e quase aprovação de um rendimento básico universal como sucedeu durante o final dos anos 60/início de 70, nos EUA, com a liderança da Administração Nixon. Aí, falhou a passagem da legislação nas câmaras porque, por um lado, inicialmente os democratas acharam o valor escasso e não deixaram passar; depois, porque um erro estatístico-matemático inflacionou valores de divórcios na comunidade onde o rendimento havia sido testado e isso levou ao chumbo do projecto. Finalmente, e não mais importante, porque Nixon, influenciado por assessores, fez questão de vincular a nova prestação social a trabalho ou disponibilidade para trabalho, o que não estava inicialmente previsto - petição de princípio que tornou o debate enviesado e acabou por ajudar a chumbar o projecto. Petição que impede que esta forma de combate à pobreza seja inscrita como cumprindo a legislação atinente aos direitos humanos e seja vista como uma benesse (e não um direito). Da Administração republicana liderada por Nixon fazia parte Milton Friedman. No livro, faltou explicar a diferença entre o rendimento básico incondicional defendido por liberais - de modo mais simples: o rendimento básico como substituindo, em grande medida ou na totalidade o Estado Social - e aquele postulado por sociais-democratas (a acrescer ao Estado Social como o conhecemos na generalidade da Europa Ocidental, nas suas diferenças; na boa entrevista que há dois dias lhe fez o Observador, esta questão já surge: ver aqui. ). Se outros filiam esta medida, na arqueologia da filosofia política, em Thomas Paine, Rutger Bregman fá-lo em Thomas More, em Utopia [que significa não lugar e bom lugar]. Outros diriam que é mais ou menos indiferente saber quem formulou a hipótese pela primeira vez, por pouco ligar o rendimento básico incondicional de Hayek ao de Philippe Von Parijs
Para Bregman, a utopia, se pensada como um modelo a encaixar em dado lugar, uniforme, para todos os tamanhos e gostos, transformar-se-à num desastre. A utopia só fará sentido como o apontar caminhos, o romper preconceitos e ideias feitas, o permitir sair das àguas estagnadas e da tecnocracia. A utopia seria um referencial - mas apenas - para um trabalho político que não iria além do work in progress
Na obra, por vezes, percebemos bem de onde viemos - Thatcher considerava a pobreza um "defeito de personalidade"(p.56), na abordagem não apenas moralista, mas de inexistência de sociedade e de contexto que pudesse explicar mais alguma coisa da explicação pronta a vestir do madraço, do malandro, do preguiçoso. 
Observamos, ainda, como os apoios sociais, não raro, não chegam aos pobres - menos informados e conhecedores, incapazes, sequer, de aceder a estes. E não, os pobres não gastam dinheiro em álcool e tabaco, evidenciam múltiplos estudos (p.36). Dar dinheiro diretamente aos pobres - sem o paternalismo de lhes dizer onde gastar - revela-se em diferentes partes do mundo a melhor e mais rentável opção (porque o que o estado gasta depois, em diferentes serviços, da saúde à segurança, é bem mais do que o que gastaria entregando este dinheiro aos mais pobres).
Somos surpreendidos, igualmente, pela época pré-I Guerra Mundial, praticamente a inexistência de fronteiras - e da necessidade de passaporte, exigência de países primitivos, e mesmo nestes a ser superada brevemente. A ideia de fronteiras abertas não é uma evolução ou reclamação recente: tem mais de cem anos
Tal como, por exemplo, Pedro Adão e Silva e Mariana Vieira da Silva destacaram em livro, nos anos mais recentes, entre nós, também este pensador político holandês sublinha que o Estado Social dirigido só a pobres será um pior estado social (e, logo, também para estes): " 'uma política para os pobres é uma política pobre', observou Richard Titmuss, o grande teorizador do estado social britânico. É um reflexo enraizado na esquerda tornar todos os planos, todos os créditos e todos os subsídios dependentes do rendimento. O problema é essa tendência ser contraproducente. Num artigo hoje célebre publicado no final da década de 1990, dois sociólogos suecos demonstraram que os países com os programas públicos mais universais têm sido os que mais conseguiram reduzir a pobreza. As pessoas estão essencialmente mais abertas à solidariedade se esta as beneficiar também. Quanto mais nós, a nossa família e os nossos amigos ganharmos com o Estado social, mais estamos dispostos a contribuir" (p.46). De resto, o tipo  de Estado Social que criámos foi pensado tendo em conta empregos para toda a vida e o homem como provider em casa.
E anote-se como a desigualdade está associada ao bullying: "tomemos o assédio moral (bullying) como exemplo. Os países com grandes disparidades de riqueza têm mais comportamentos deste tipo, porque há maiores diferenças de estatuto. Ou, nas palavras de Wilkinson, as «consequências psicossociais» são de tal ordem, que quem vive em sociedades desiguais perde mais tempo a preocupar-se com a forma como os outros os veem. Isso mina a qualidade das relações (que se manifesta, por exemplo, em desconfiar de estranhos e ansiar por um estatuto). O stress que daí resulta é, por sua vez, um factor determinante de doenças e problemas de saúde crónicos" (p.65). 
Cada época tem os indicadores que lhe são necessários para aferir de como vai e como vive uma sociedade - na nossa época, o PIB é manifestamente insuficiente, foram criados outros indicadores que levam em conta dimensões como a pegada ecológica mas falta ainda prosseguir. 
Há "empregos da treta" que mesmo que muito remunerados não correspondem a nada de útil para a sociedade - cerca de um terço do total de empregos - que podiam ser feitos por máquinas, ou pelo menos não serem tão bem pagos e haver uma redistribuição salarial em favor de enfermeiros, professores, empregados de recolha do lixo. Era revermos as prioridades da sociedade, agora que devíamos ter mais tempo livre para a arte, a ciência, o desporto, a família e os amigos, apostando no que vale a pena nesta vida (e até, em pessoas como idêntica formação e próxima experiência partilhar o emprego).
E, lá está, o papel dos professores: "Se há lugar onde a demanda por um mundo melhor devia começar, é a sala de aula
Ainda que possa ter fomentado o fenómeno dos empregos da treta ["num inquérito a 12 mil profissionais realizado pela Harvard Business Review, metade dos inquiridos afirmou sentir que o seu emprego não tinha «significado nem importância», e a mesma proporção era incapaz de se identificar  com a missão da empresa onde trabalhava", pp.148-149; "sondagem recente revelou que 37% dos trabalhadores ingleses consideravam ter um emprego da treta", p.149; "olhemos para a saúde, a educação, o combate aos incêndios e a Polícia e descobrimos muita gente que chega a casa todos os dias sabendo que, apesar do salário modesto, fez do mundo um lugar melhor", p.149; "na análise de Graeber, inúmeras pessoas passam toda a sua vida laboral em empregos que consideram inúteis, tais como operadores de telemarketing, gestores de recursos humanos, estrategas das redes sociais, assessores de relações públicas e uma imensidão de cargos administrativos em hospitais, universidades e gabinetes de administração pública. Graeber apelida-os de «empregos da treta»", p.147] a educação também tem sido fonte de prosperidade nova e tangível. Se fizéssemos uma lista das profissões mais influentes, professor seria provavelmente uma das primeiras. Isso não acontece porque os professores acumulam recompensas como dinheiro, poder ou estatuto, mas porque o ensino molda algo muito maior: o curso da História humana.
Pode soar grandioso, mas olhemos para um professor do ensino primário. Quarenta anos a dirigir uma turma de 25 crianças significa influenciar as vidas de mil crianças. Além do mais, esse professor está a moldar alunos na idade em que se encontram mais maleáveis. Afinal de contas, ainda são só crianças. O professor não se limita a prepará-las para o futuro, mas nesse processo tem também um papel direto em moldar o futuro delas
Assim, se há lugar onde podemos intervir de uma forma que traga dividendos para a sociedade mais à frente, é a sala de aula
Mas isso mal acontece. Todos os grandes debates sobre educação centram-se no formato. Na forma de ensinar. Nas didáticas. Apresenta-se sistematicamente a educação como meio de adaptação - um lubrificante que nos ajuda a deslizar pela vida com menor esforço. No circuito das conferências sobre educação, um cortejo sem-fim de gente que observa as tendências profetiza as futuras competências essenciais do século XXI, com as palavras da moda: criativo, adaptável e flexível
O foco invariável é nas competências, não nos valores. Nas didáticas, não nos ideais. Na «capacidade de resolver problemas», não nos problemas que precisam de ser resolvidos. Invariavelmente, tudo gira em torno da pergunta: que saber e competências precisam os alunos de hoje para serem contratados no mercado de trabalho do amanhã - no mercado de 2030? 
Mas essa é a pergunta errada.
Em 2030, é muito provável que haja uma grande procura por contabilistas despachados e sem problemas de consciência. Se se mantiverem as tendências actuais, países como o Luxemburgo, a Holanda e a Suiça tornar-se-ão paraísos fiscais ainda maiores, o que vai permitir às multinacionais escaparem aos impostos com uma eficácia ainda maior, e deixa os países em desenvolvimento com a fatia mais pequena do bolo. Se o fulcro da educação é ir ao encontro deste tipo de tendências em vez de as virar do avesso, o egotismo será por excelência a competência do século XXI. Não porque a lei ou o mercado ou a tecnologia o exijam, mas tão-só porque, ao que parece, é assim que preferimos ganhar dinheiro
Devíamos, pelo contrário, formular uma pergunta diferente: que conhecimentos e competências queremos que os nossos filhos tenham em 2030? Ora, em vez de antecipar e adaptar, estaríamos a concentrar-nos em orientar e criar. Em vez de nos perguntarmos de que precisamos para viver ou ganhar a vida num qualquer emprego da treta, iríamos refletir como queremos ganhar a vida. Trata-se de uma pergunta a que nenhuma das pessoas que anda a observar tendências é capaz de dar resposta. Como poderia fazê-lo? Limitam-se a seguir as tendências, não as criam. Isso cabe-nos a nós.
Para lhe responder, precisaríamos de nos analisar a nós mesmos e aos nossos ideais pessoais. O que queremos? Mais tempo para os amigos, por exemplo, ou para a família? Para fazer voluntariado? Para a criação artística? Para praticar actividades desportivas? A educação do futuro teria de nos preparar para o mercado laboral, mas sobretudo para a vida. Queremos domar o sistema financeiro? Então talvez devêssemos dar ensinamentos de filosofia e de moral aos futuros economistas. Queremos maior solidariedade entre raças, sexos e grupos socioeconómicos? Comece-se com um seminário de estudos sociais
Se reestruturarmos a educação em torno destes ideais, o mercado laboral há de acompanhá-la. Imaginemos que iríamos integrar nos currículos escolares mais arte, história, filosofia. Aposto que a procura de artistas, historiadores e filósofos vai aumentar. O aumento da prosperidade - e o aumento da robotização do trabalho - permitir-nos-ia por fim «valorizar os fins em detrimento dos meios e preferir o bem ao útil». O propósito de uma semana de trabalho mais curta não é ficarmos todos sentados sem fazer nada, mas despendermos mais tempo naquilo que verdadeiramente importa para nós
No fundo, não é o mercado ou a tecnologia, mas a sociedade, que decide o que tem valor real. Se queremos que este século nos torne a todos mais ricos, precisamos de nos libertar do dogma de que todo o trabalho é relevante. E, já que estamos com as mãos na massa, livremo-nos também da falácia de que um salário mais alto reflete automaticamente o valor social. Talvez possamos assim entender que, para a criação de valor, simplesmente não compensa ser banqueiro" (pp.152-155).

Rutger Bregman, Utopia para realistas, Bertrand, Lisboa, 2018.