sábado, 21 de outubro de 2017

MUITO BOM


Bárbara Wong entrevista Nuccio Ordine, no Público:




O meu livro é um grito de alarme. Quando pergunto aos meus alunos por que estão na universidade, respondem-me que é para obter um diploma. Um diploma não serve para nada! Há uma visão utilitarista da educação que mata a ideia de escola. Vamos à escola para sermos pessoas cultas! Para sermos pessoas melhores, para sermos éticos, não importa o curso. Na apresentação do meu livro, viajei de Norte a Sul de Itália e os estudantes diziam-me: “Professor, adoro os gregos e os latinos, mas os meus pais perguntam-me ‘o que vais fazer com literatura? Porque não te inscreves num curso onde possas vir a ganhar dinheiro?’ Isto é a corrupção da ideia do que deve ser a universidade! É corromper os estudantes. Temos médicos que o são porque ganham muito dinheiro e não por razões humanitárias e não pelo que prometem no juramento de Hipócrates. Esta corrupção – a ideia de ganhar muito dinheiro – atravessa a sociedade inteira, chega à política, à economia. Por isso temos corrupção no mundo inteiro. Costumo ler uma história belíssima de Kavafis [poeta grego, 1863-1933] sobre Ítaca, a história de Ulisses, que diz que a experiência da viagem é que fará de ti um homem rico, fará de ti um homem melhor. 



Contesto a ideia de que as universidades sejam empresas. A nossa missão não deve ser vender diplomas que os estudantes compram. Isso é uma enorme corrupção. A escola não pode ser uma empresa porque a lógica da educação não é a do mercado. O princípio da educação é aprender a ser melhor, para si mesmo e não para o mercado. O que vemos na City em Londres [no centro financeiro britânico] são pessoas com elasticidade mental, pessoas que vêm dos estudos clássicos ou da filosofia porque compreendem melhor o mundo do que os especialistas em economia ou programação. As consequências da Declaração de Bolonha, que veio alterar a forma como o ensino superior está organizado, são negativas? Bolonha foi muito dura para o futuro do ensino. Há coisas graves, a começar no léxico, as palavras não são neutras, têm significado, e quando as primeiras palavras que os alunos aprendem, quando chegam ao ensino superior, é “créditos” e “débitos”, impomos uma lógica da economia no ensino. As universidades recebem financiamento consoante os seus resultados, quanto mais alunos com sucesso, mais financiamento recebem, e assim baixa-se o nível para todos passarem. Ninguém vai avaliar a qualidade, só a quantidade. Deixa-se de financiar as pesquisas de base, mas se não fossem essas não seria possível fazer ciência. As grandes revoluções são fruto de pesquisas de base. Por isso, é preciso redireccionar as coisas porque o inútil de hoje pode ser o útil de amanhã. 





Na íntegra, aqui.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

MOBILIDADE SOCIAL EM PORTUGAL



Estudo de Teresa Bago d’Uva e Marli Fernandes sobre a mobilidade social em Portugal, para a FFMS, publicado esta semana. Principais conclusões:

*Mobilidade social em Portugal é mais baixa do que na média da UE;
*Houve progresso e aproximação à média europeia, ao longo das últimas décadas;
*Mobilidade intra-geracional (o mesmo indivíduo ao longo dos anos passa de um patamar de rendimentos para outro?): também aqui uma mais fraca mobilidade em Portugal do que na média europeia;
*Entre 2003 e 2013, uma tendência de maior mobilidade intrageracional em Portugal (e alguma descida na UE);
*Em 1940, 84% de reprodução social (filhos, em 84%, com a mesma escolaridade que os pais);
*As alterações que mais se verificaram foi o aumento de escolaridade dos filhos de pais com o ensino básico;
*Dos anos 60 – onde a reprodução social ainda era muito próxima da década de 1940 - em diante é que se verifica a tal mobilidade social: em 1970, já são 41% os filhos a terem uma escolaridade superior à dos pais;
*Na UE, os filhos nascidos em 1940, em 40% dos casos, iriam ultrapassar a escolaridade dos pais;
*Na Mobilidade em termos de Profissões, de pais para filhos, verifica-se que entre os nascidos na década de 1940, em 64% dos casos, a categoria profissional era semelhante à dos ascendentes; entre os nascidos em 1970, esse valor cai para 51%; passam a ter uma categoria profissional superior à dos pais, nessa data, 36%; Não há, neste caso (da análise profissional) a mesma alteração dramática verificada para o caso da escolaridade;
*Ao nível dos rendimentos, quanto mais o pai estudou, mais o filho ganha; em Portugal, um filho de um pai com o ensino superior ganha, em média, mais 6700€ (ano) do que um filho de um pai com o ensino básico (mesmo entre os nascidos depois de 1970);
*Na mobilidade intra-geracional, entre 50 a 60% dos indivíduos mantém-se no mesmo decil de rendimento de um ano para o outro (nos anos 1986-2009); os que muda de decil, não vai muito longe (40-50%); ao longo dos anos, a este nível, menos mobilidade social (ao longo dos anos, menos pessoas conseguem passar, na sua vida, para um decil de rendimento maior, na sua carreira);
*Talvez o maior canal de transmissão de pais para filhos sejam os recursos financeiros;
*Podemos pensar nas aptidões inatas, competências adquiridas; saúde física e saúde mental; contexto familiar: normas, expectativas, estímulos, apoios; ambiente social, rede de contactos (na transmissão do estatuto sócio-económico);
*Possíveis políticas públicas face a este contexto: o país ter um ensino público de qualidade (que permita que quem vem de baixo possa ascender socialmente; as ferramentas que não teve em casa, possa adquiri-las na escola); combate à pobreza e exclusão social; combate ao desemprego de longa duração; orientação escolar e profissional nas escolas; pré-escolar; políticas de habitação (que promovam a integração em vez da segregação);
*Houve maior mobilidade de pai para filha e menos de pai para filho.

Comentários ao estudo de Carlos Farinha Rodrigues:

*Nos últimos anos, com a crise económico-financeira, assistiu-se à inversão de expectativas quanto ao bem-estar das novas gerações (face às gerações que as precederam), como estando estas a caminho de uma vida pior, ao nível de rendimento. Ainda não há dados, nesta altura, que validem esta hipótese;
*Relação entre mobilidade social e desigualdade: quer a mobilidade inter-geracional, quer a intra-geracional é bastante mais baixa do que na Europa, ao mesmo tempo que o nosso país possui das taxas mais elevadas de desigualdade na Europa;
*O estudo refere um papel equalizador à mobilidade; que relação entre níveis de desigualdade e a mobilidade social na Europa?;
* Relação entre mobilidade social e crescimento económico: até 2009, houve efectivo crescimento económico. Entre 1993-2000, diminuição da mobilidade intrageracional; entre 2003-2013 aumento. Era bom conhecer-se a relação entre o tipo de crescimento e o tipo de mobilidade; em períodos de crescimento é mais fácil haver mobilidade, ou o contrário?;
*No passado recente em Portugal, há períodos em que a desigualdade familiar desce, mas a desigualdade salarial sobe e períodos, recentes, em que se verifica o oposto;
*Mobilidade inter-geracional: uma abordagem exclusivamente económica é redutora; exige-se uma abordagem multidisciplinar;
*Em nenhuma parte do estudo, se avança com a questão legislativa sobre a escolaridade obrigatória; o mesmo grau obtido, pode representar coisas diferentes, ao nível do estatuto sócio-económico ao longo das décadas; a questão, ainda, do forte decréscimo de actividades como a pesca (há aqui factores estruturais – da estrutura do emprego – para além da mobilidade social);



Só considerar o pai – neste estudo – e não a mãe não levará a algum enviesamento no estudo, perguntou-se da plateia?