quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A crise do futuro e da esperança, o cansaço da transcendência como causas da corrupção


Há uma profunda questão cultural que é necessário abordar. Hoje em dia, muitos nem sequer conseguem imaginar o futuro; para um jovem, é difícil de acreditar de verdade no seu futuro, em qualquer futuro, e o mesmo se pode dizer da sua família. Esta nossa mudança epocal, tempo de crise muito vasta, reflete a crise mais profunda que envolve a nossa cultura. Nesse contexto, deve ser enquadrada e ocorre a corrupção nos seus vários aspectos. Tudo isso compromete a presença da esperança no mundo, sem a qual a vida perde aquele sentido de busca e de possibilidades de melhoramento que a caracteriza. (...)
Com efeito, a corrupção tem a sua origem num cansaço da transcendência, como a indiferença.

Papa Francisco, Prefácio a Corrrosão, de Peter K.Turkson e Vittorio V. Alberti, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.10-11.


P.S.: a palavra corrupção não adquire, aqui, um sentido exclusivamente jurídico. Antes se apresenta como laceração, rutura, decomposição e desintegração, "exprime a forma geral da vida desordenada do ser humano decaído".

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Um longo rescaldo


Uma mudança estratégica pode ser, em si mesma, substantiva - certo. Estar disposto a concessões - se a ideia é mesmo negociar, convergir, fazer ver e situar-se com disponibilidade para alterar rumo a um país melhor (dentro de um determinado olhar para esse interesse nacional). Para o radicalismo, contudo, qualquer concessão é uma violação do código inscrito no mármore - ponto um. O que não quer dizer, porém, que se tenha mudado de ideologia. Como não mudou - a intervenção de Nuno Morais Sarmento, o novo vice, no Congresso, não deve ter deixado dúvidas a ninguém. Para quem se atenha a acompanhar as ideias, e fazer delas uma análise tão desapaixonada quanto possível, mesmo partindo de um paradigma de um pensamento liberal sobre o Estado e a economia, pode subscrever esta noção acerca do "novo PSD", como fez Rui Ramos, no Observador.
Se assim é, porquê, então, a fúria e o choque de Alberto Gonçalves, José Manuel Fernandes e Helena Matos, no mesmo sítio? Porque Rio não explicitará, com tanta contundência, a mesma agenda, não assinará um manifesto como Mudar, não será a encarnação libertária que a orfandade tão gritada aos quatro ventos - Rio por pouco não passou a perigoso comunista nesta visão das coisas - assume que existiu nos últimos anos (embora os mesmos, ou semelhantes sectores, sempre tenham negado a agenda e a sua consumação: então para quê tanto sobressalto agora?).
Os símbolos são importantes, e há divisões nunca totalmente anuladas. Uma delas, com barbas no PSD, passa por cindir as elites das bases. E mau grado, para se vencerem eleições, os compromissos serem muitos, e a vida custe a ganhar a todos, não podendo ninguém banhar-se na pureza de um sucesso imaculado, subjaz às afirmações e aos artigos de muitos exaltados destes dias, essa putativa vitória de um grupo ao Restelo, social-democrata, elitista mas não liberal. Do grupo, em real versão social-democrata, todavia, só vejo mesmo Pacheco Pereira - e só muito remotamente se pode dizer que o que ele representa ideologicamente terá alguma tradução prática no actual PSD. Mas ao excessivo, ao sobressaltado, ao ideólogo puro, a mera alusão, o símbolo ainda que tão afastado, basta: ui, os social-democratas a caminho do castelo! E, no entanto, isso são moínhos de vento. Ponto dois.
O ponto três é o modo e o porquê de José Eduardo Martins ter sido impedido de falar no Congresso do PSD. Os sites albergam facções. Radicais são radicais por ideologia, sim, bastante, muito mesmo, mas não menos convivem com e dão expressão a interesses. Ontem, o problema era Irina, hoje é Negrão e no Sábado, o Sol dirá.
Fora destes pontos, está que quando os radicais se juntam e apontam a um chefe, até quem olha a partir de fora se aproxima deste último. Ponto quatro: eis como os radicais ainda podem ajudar Rui Rio. Se juntarmos a isso uma comunicação social que confunde enunciação de temas - que não considero anódina em si mesma, porque o apontar o foco e a importância de um tema nada tem de irrelevante, mas que não significa uma mudança de soluções prévias - com a social-democracia ao fim da rua (como se bastasse dizer "Saúde", ou "Educação", para uma pessoa ser social-democrata), dá de facto um quadro mais centrista a um pós-congresso, onde como Menezes Leitão, numa das mais certeiras opiniões que, a meu ver se fizeram sobre o Conclave laranja, notou como uma despedida deliberada em dó maior, e com a especial saudação ao candidato que não ganhou, não visou propriamente dar facilidades a quem chegou. 

Mobilidade social, endividamento


Num regime em que o grosso do financiamento das universidades é feito através das propinas, e em que estas últimas sejam muito elevadas, obrigando ao forte endividamento do indivíduo, este pode ser condicionado toda uma vida por essa dívida, incluindo no tipo de emprego e de serviço a que pretenda dedicar-se (mesmo na lógica do serviço público, ou necessidade de carreira estritamente privada, no âmbito do Direito, por exemplo). O que não deixa de ser curioso é que com menos dinheiro, a mesma sociedade, nos EUA, em momentos diferentes do século XX, decidiu apostar mais numa universidade não tão dependente desta lógica de altíssimas propinas (endividamento privado) e, quando até mais rica, optou por este sistema (que não deve ser indiferente a uma mobilidade social que compara mal com vários Estados europeus). Optou, porque a lógica do não temos recursos pretende passar ao lado dessa mesma efectiva escolha (que significa concentração de recursos em outras àreas, apostas, interesses). 

Os limites da meritocracia



P.S.: grato ao Luís pela chamada de atenção para o vídeo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"Para sorrir, eu não preciso de nada"

Os dias da rádio: quando as tardes de Domingo eram "um acontecimento"



Para uma crónica de rádio na universidadefm:


Os dias da rádio

Quando passam 20 anos desde o último campeonato português de futebol sem a presença da Sporttv e, portanto, da última Liga sem que a totalidade dos jogos fosse televisionada, em especial dos clubes com a esmagadora maioria dos adeptos em Portugal (embora, valha a verdade, muitos desafios fossem já transmitidos na tv, por essa época de 1997-1998, realidade bem diversa da que ocorria no início dos anos 90); quando passam, pois, duas décadas sobre o derradeiro momento dos dias da rádio sintonizados, fortemente, nos relvados do país, celebrou-se, em Vila Real, na UTAD, no passado dia 15 de Fevereiro, o Dia Mundial da Rádio com aquele que provavelmente é – a meu ver, assim sucede - o melhor relatador ou narrador de futebol, em Portugal (na actualidade), João Ricardo Pateiro, da TSF, bem como um dos repórteres mais reconhecidos na área do Desporto, Teófilo Fernando (também da TSF) e a mais jovem, e emergente repórter, na última década, Claúdia Martins, a amarantina que está na Antena1.
João Ricardo Pateiro teorizou o relato como estando situado na zona de fronteira entre a informação e o entretenimento: se apenas informação, o modo prolongado (gooooolooo!), e a remeter para a espectacularidade, do grito do golo, não sucederia; se apenas entretenimento, o rigor e a isenção (requeridos) da e na informação transmitida, acerca de cada encontro de futebol, perder-se-iam às mãos, ou à voz, de um não jornalista (um locutor, um entertainer). Curiosamente, esta cedência a um entendimento (ou reconhecimento) do carácter menos sagrado do relato enquanto acto jornalístico tout-court, contrasta com a formulação, por parte do mesmo jornalista, do relato como peça de arte, para a qual se nasceria com especial vocação – ou (quase) nada feito. Se diferentes peritos, que alguns refutariam como declinação tecnocrática, diriam que o génio são 10 mil horas de ensaios e repetição, Pateiro não concebe o relato futebolístico como pura técnica capaz de ser ensinada, em absoluto, nas melhores faculdades de jornalismo ou comunicação social. Eis um ponto que assinalo enquanto ouvinte: o facto de já terem passado duas décadas sem as grandes tardes do relato futebolístico, de a rádio ter perdido o privilégio de ser o único meio a fazer-nos entrar o jogo em casa (ou no carro, ou onde quer que seja), fez com que muito menos gente, face a essa época, ouça os relatos, sinta essa pulsão de ser o (futuro) único contador de histórias a partir das Antas, de Alvalade ou da Luz, pelo que imagino que a potencial procura nesse específico âmbito, bem como a aprendizagem mais natural feita outrora desde o berço, tenda a perder-se ou mitigar-se, em boa medida. Quer isto dizer, seria aqui necessário, segundo creio, introduzir causas de natureza cultural – as tardes de Domingo já não são “um acontecimento”, para usar uma feliz expressão de um espectador deste colóquio sobre a rádio e o desporto, na UTAD – para explicar porque e como um grande relatador se forjou. Com talento, com certeza, com conhecimentos técnicos, sem dúvida, mas, igualmente, tributário de uma dada cultura em que nasceu e se inseriu (somos seres gregários e contra isso, nada). É esta diferença cultural que explica, em boa medida, penso, que João Ricardo, Nuno Matos, Alexandre Afonso, Pedro Azevedo ou o reguense Fernando Eurico sejam não apenas os nomes-fortes e bandeira das respectivas estações, no que ao futebol concerne, mas sejam, também, os melhores.
Claúdia Martins, um raro exemplo feminino num mundo ainda muito marcado a masculino, fez questão de sublinhar este facto para explicar como sentiu, de forma inequívoca, que um erro (profissional) seu seria muito mais penalizado (pelo público, ou pelos parceiros de ofício) do que o de um colega homem, dado o preconceito cultural que tende a considerar a mulher como incapaz de entender o jogo (da bola). Adicionalmente, convocou mais jovens mulheres jornalistas a juntar-se à causa para que a Primavera, a quem não basta uma andorinha, se possa fazer.
Quanto a Teófilo Fernando, entre outros apontamentos, referiu-se a uma específica estética TSF: a que consiste em apresentar peças, nomeadamente no jornal de desporto, como a duração de 1 minuto/1 minuto e meio, para que o ouvinte fique colado à rádio, sem distracções, e a chorar por mais. Do rali de Portugal, até à volta em bicicleta ao Algarve, passando pela antecipação do próximo Tottenham-Juventus.
Perante um público maioritariamente formado por alunos do curso de Comunicação, da UTAD, o diretor desta casa, a universidadefm, Luís Mendonça, deixou uma mensagem de alento e esperança, recordando as viagens a Timor e ao Kosovo, as dezenas de idas a Bruxelas, as experiências únicas que a paixão da rádio lhe permitiu viver, pelo que, disse, aqueles que sentirem, hoje, essa vocação devem contar que, mais cedo ou mais tarde, a oportunidade surgirá e que vai valer a pena. Um dia, quem sabe, terão o Rui Veloso, a pedir o carro de marca especial, do jovem futuro diretor, para dar uma volta a acelerar no circuito. Para já, ficaram, estes estudantes, com alguns dos melhores profissionais do país na sua área e um show à parte do talentoso vila-condense João Ricardo.

Boa semana.

Pedro Miranda

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Educação, no mundo








Moisés Naím, ElPais, 18-02-2018