segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O cérebro adolescente




Embora, não raramente, considere bastante exagerado o modo como se fala da idade adolescente - não a recordo como idade de crise nem de grandes "anormalidades" -, não deixo de estar atento ao que a ciência vai trazendo sobre a matéria.
Hoje o Público traz uma entrevista com a neuro-cientista Sarah-Jayne Blackemore, que deixa os seguintes dados:

a) não existem diferenças de género, nos cérebros adolescentes, que sejam evidentes;

b) assim, em realidade não há provas científicas que provem que as mulheres (adolescentes) amadureçam mais depressa do que os homens (adolescentes);

c) os adolescentes não conseguem evitar as mudanças que estão a ocorrer no seu cérebro; não são "culpados" dessas mudanças (se é que elas podem traduzir-se em algo menos positivo, como uma maior impulsividade);

d) somos mais pacientes com as crianças, mas muito menos com os adolescentes, em quem colocamos pressão bastante;

e) o ambiente muda o cérebro, pelo que é natural que o mundo super-tecnológico molde diferentemente os cérebros em formação. Diferentemente, não significa necessariamente pior (ou melhor). E mudanças tecnológicas que mudaram cérebros houve imensas, a começar com a invenção da escrita (que deixou de obrigar a tanta memorização, como se queixava Platão);

f) a esquizofrenia é mais comum em jovens que são emigrantes, mudando, sucessivamente, de cultura e de sociedades;

g) os adolescentes estão mais ligados, nesta idade, ao grupo de pares, aos amigos, ganham nova liberdade, estão a experimentar e a ter mais consciência de si mesmos e da sua identidade. É natural que aqui e ali possa apresentar alguma rebeldia para com os pais, neste ganho de autonomia e preparação de futura independência.





*Esta cientista tinha estado a dar conferência na FFMS: eis, acima, o vídeo integral. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

DA "HISTÓRIA NATURAL DO FUTEBOL"

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Os jogos com bola vêm do fundo dos tempos e a sua génese confunde-se com a da humanidade. Se percorrermos a história das civilizações humanas, encontramos quase sempre uma bola e um jogo. Um homem e uma bola é uma relação tão ancestral, tão natural e tão fatal que podemos considerá-la intrínseca à cultura humana, de que é um elemento permanente. Jogar com uma bola corresponde a um dos nossos instintos mais básicos. (...) Quase todos os povos do planeta jogaram à bola, em quase todas as épocas, embora com diferentes motivações. (...)
O futebol, assim designado pela primeira vez em 1486, em Inglaterra, por se jogar a pé e não a cavalo, como outros desportos da época (era, então, o "jogo a pé" e ainda não o "jogo com o pé") tem a sua história concreta, a qual se iniciou há cerca de cinco mil anos, nas primeiras sociedades agrícolas da Europa (...) Na altura da viagem de Colombo [cerca de 1500], jogava-se nas ilhas britânicas com uma bola pesada de couro recheada dos mais diversos materiais, ou então com bexigas de animais insufladas, que eram pouco resistentes aos pontapés (...) A borracha só começaria a ser manufacturada na Europa no início do século XIX (...) Os povos americanos, com a sua bola de borracha, saltitante, beneficiaram de muitas centenas de anos prévios ao aperfeiçoamento, o que iria gerar uma espécie de memória filogenética que estaria na origem da frequente excepcional qualidade técnica dos jogadores oriundos desse continente. Quando a equipa nacional do Uruguai, em 1920, se apresentou em Inglaterra e ganhou por 5-3, o orgulhoso país que acabara de inventar o futebol passou a interrogar-se sobre a origem de tais qualidades técnicas. Sim, eles tinham inventado o futebol, mas os outros tinham inventado a bola saltitante muitos séculos antes (...) O poeta Rainer Maria Rilke descreveu esta bola, hesitando eternamente entre a queda e o voo, à procura do seu ponto culminante antes de se inclinar na direcção do jogador. Era uma bola que servia para ser jogada, mas que também jogava com os jogadores, indicando-lhes sempre um novo movimento, uma nova atitude ou posição (...) Apesar de ser um objecto produzido industrialmente, fruto da tecnologia mais avançada da época, essa bola era um elemento orgânico, natural, sem artifício, com o seu simbolismo vegetal do caoutchouc, que reenviava à seiva, ao sangue e ao esperma (...) Em 1863 nascia oficialmente o futebol moderno, um jogo com bola que ainda hoje é o único a prescindir do uso das mãos. Por volta de 1876, 13 anos depois depois do nascimento oficial do futebol moderno, a manifestação das "habilidades" individuais daria lugar a uma série de passes e combinações no que era, finalmente, um jogo colectivo: o passing game. A partir daí, o futebol sofreria poucas mudanças estruturais.(...) E é verdade que os pés desenvolvem quase todo o jogo, com os seus golpes rápidos e inesperados, mesmo porque só eles, como diz Jean Giraudoux, podem dar à bola o máximo de possibilidades e efeitos. Porém, o jogo é um ofício de todo o corpo, já que não incita apenas ao uso dos pés mas, também, de todas as superfícies das pernas, do peito, da cabeça, do tronco, das coxas, dos joelhos (...) Ou seja, o que de início tinha a aparência de uma limitação, a privação das mãos, mesmo de uma violação da nossa natureza, acabaria por se revelar como a saudável libertação de um constrangimento, pois o corpo foi democratizado, liberto, e recuperou um saber instintivo ancestral. (...) A privação das mãos produz um claríssimo apelo ao apuramento dos sentidos (não se elogia "o cheiro" do golo de certos avançados, ou a "visão" de jogo do organizador?) e, sobretudo, ao gesto instintivo. O jogador, cujos pés são inteligentes, cujos joelhos são inteligentes, como dizia Henry de Montherlant, readquire com a prática do futebol, um instinto primitivo que estava sepultado muito fundo, dentro de si, e que a realidade não solicitava. Criou-se, assim, um vínculo ao natural e a uma certa forma de animalidade de que o futebol é depositário e que torna maravilhosamente presente uma certa liberdade infra-humana. E isso, como disse Jacques Ferran, "é regressar à natureza e mergulhar de novo na grande noite da espécie". (...)
Um sentido do destino plana sobre os jogos, lembrando por vezes com brutalidade que o mérito não é suficiente e torna-se necessário conjugá-lo com a sorte. (...)
É pois nessa complexidade e não na sua suposta simplicidade que repousa, em parte, o encanto do futebol, o qual continua a ser imprevisível e irregulável, apesar de todos os esforços que ao longo da sua história moderna têm sido feitos para extirpar essa saudável margem de impertinência. A dificuldade gera a incerteza e a irresolução, ou seja, a emergência da "música" do acaso, que continua a fazer de cada jogo um encadeamento aleatório e fulgurante de acontecimentos mal previstos: a ordem natural das coisas.
Por sua vez, a incerteza, consequência da dificuldade [em jogar com os pés], gerou a expectativa e a ansiedade, bem como a superstição e a simpatia mágico-religiosa que domina secretamente o jogo, e é o seu "tenebroso coração". (...) Apesar da sua aura científica, gestos como o aquecimento, as concentrações antes dos jogos, e mesmo certos aspectos do treino, têm a sua boa porção de rituais mágicos para atrair a boa energia e os favores dos deuses. Os jogadores não são "aqueles que vão morrer", como os antigos gladiadores, mas são "aqueles que se vão expor à sorte". (...)
Mais: [além de não poderes jogar com as mãos] abdicarás também de dons humanos como a linguagem e o pensamento conceptual, que, juntamente com a aquisição das mãos, fundaram a tradição e a cultura e nos elevaram a um nível superior ao dos outros animais. De facto, o futebol alheia-se da tradição e da cultura, isto é, dos domínios do consciente, operando uma regressão para os dons físicos naturais. Ele não se dirige ao que há de humano em nós, isto é, ao que resulta da nossa evolução civilizada. Pelo contrário, nele tudo remete para a nossa irracionalidade (seja a do praticante, ou a do espectador). Por isso é uma tão vibrante celebração da animalidade, a nossa, naturalmente: "esse simples prazer do corpo que se lança na aventura interdita da liberdade", como disse Eduardo Galeano. (...) Acontece que a essa recuperação instintiva corresponde uma diminuição da consciência, já que, na verdade, o futebol devolve o homem que o joga a um estado menor, elementar, fulgurante, ou seja, a uma primeira natureza que se opõe à segunda natureza do pensamento e da consciência. Assim, privado das mãos e da linguagem, o jogador regride a níveis muito baixos de consciência. E para que precisa ele dessa consciência se a sua função consiste justamente em encontrar acessos e vias para os quais ela não contribui? Mais: essa perda acentuada de consciência encontra a sua compensação num acréscimo de instinto; e o que é o instinto senão uma inteligência natural e nata, que é suposto o homem também ter possuído em idades mais recuadas? (...) A sua acção em campo, sarabanda de músculos e nervos a cada momento mobilizados por choques de alta tensão resulta de um comportamento que está enraizado na apreensão perceptual de cada situação. Por isso, ele integra qualidades da vida animal e surge muitas vezes aos nossos olhos como se estivesse possuído pela sua energia e pelos seus poderes físicos. (...) Ele encarna o que há de sensitivamente humano no animal e ao mesmo tempo de silenciosamente animal no homem, o que lhe permite aceder diretamente à totalidade originária, participar dela. É ainda o homem, evidentemente, mas sem a defesa da racionalidade, exercendo o direito ao seu instinto primitivo e, por isso, exprimindo o que há de puramente animal no homem. É o animal humano. (...) De um modo mais genérico, e enquanto os guarda-redes são felinos, os defesas são mulas, os médios potros ou cavalos e os avançados vivos e expeditos são ratos ou ratas. Há países da América Latina que chamam pescadinhas aos extremos fugidios, perdizes aos extremos rápidos e pasto ao terreno de jogo. Aos jogadores que se comportam com bravura extrema também se dá a elogiosa designação de "feras". (...) Os próprios clubes adoptam uma espécie animal como encarnação do espírito ancestral e exibem de bom grado a sua identificação com esse animal totémico. (...)
Concluindo: o futebol é uma vibrante celebração da animalidade, incluindo, naturalmente, a nossa. Não admira, por isso, que seja uma fonte de consolo para o homem moderno, esse animal evoluído mas desnaturado. Inesgotável fonte de vida irracional e inconsciente, ele continua a cumprir a sua última finalidade: (re) ligar o homem à Natureza. E o que é a Natureza senão o homem sem a defesa do conceito e da racionalidade?
Embora o desporto, na sua semântica actual, se constitua e regulamente como um fenómeno derivado da revolução industrial, as suas diferentes modalidades repartem-se entre as que são de inspiração industrial e base urbana, como é o caso do basquetebol, por exemplo, e as que tiveram uma origem mais longínqua e rural (futebol, râguebi, hóquei em campo, golfe, críquete) e cujas regras se foram obtendo a partir de uma vasta e anónima genealogia. A do futebol desenvolveu-se ao longo de cerca de cinco milhares de anos, dos quais apenas cento e poucos correspondem à sua fase moderna, iniciada em 1863, e pós-moderna, que ainda decorre. Os restantes pertencem às suas fases cultual, tradicional e pré-moderna, todas perfeitamente interpenetradas e articuladas, e ao longo das quais foi recebendo a sua substância e estrutura.
Culto ligado ao trabalho, reflectiu os sistemas de produção de cada época (tal como aconteceria, de resto, ao longo das três idades da sua vida moderna e tal como ainda hoje acontece). Foi-se articulando com a atitude do homem perante a natureza, o mito, a história, o sagrado, ou seja, com as diferentes mentalidades e concepções de vida, e também, naturalmente, com as diferentes noções de tempo e espaço, funcionando como uma micro-representação de cada uma dessas épocas. (...)
Manifestação coerente e regulada da vida colectiva, o futebol ainda hoje nos dá indicações sobre uma mentalidade desaparecida e de que ele é ainda uma expressão estilizada. Por um lado, é um elemento permanente da cultura dos homens, da qual se encarrega de projectar um reflexo, e, por outro, transporta em si uma realidade que subjaz ao tempo e corresponde a um esforço rude, residual, para manter a antiga visão das coisas. Como se a sua missão fosse preservar algo que é essencial ao homem, um tesouro mitológico, precioso, acumulado à custa de esforços infinitos.

Álvaro Magalhães, O futebol. Uma história natural, suplemento História, Jornal de Notícias, nº10, Outubro de 2017, pp.10-25.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Apoiar os meninos


A apoiar o Afonso, no Diogo Cão-Mesão Frio, sub15, campus da UTAD, (esta) manhã de nevoeiro, jogo retardado. No papel de duplo-pivot, interior esquerdo, no 4x2x3x1 da equipa, o camisola 13, mais delicado que agressivo, gostando de dar na bola com a parte posterior da bota direita, parando e rodopiando à Lucho, abeirando-se da área adversária, marcando da meia-lua, invalidado o golaço em mais um fora de jogo inexistente.

Dale Dover



Para a geração portista, anterior à minha, uma lenda: Dale Dover.

Pais e filhos


António Lobo Antunes: Falo de pessoas normais com qualidades e defeitos como somos todos nós. Dentro de nós há muita violência como há muita ternura, há muita maldade como há muita bondade. Nós somos muito complexos enquanto pessoas. Dentro de nós coexistem sentimentos às vezes contraditórios. Às vezes se um filho nos chateia muito, apetece dar-lhe duas chapadas e fazê-lo desaparecer, mas ao mesmo tempo não queremos que ele desapareça, porque temos muito amor pelos filhos.

Jornal de Negócios: Neste caso, aparentemente, a crueldade da tragédia ganha ao amor.

António Lobo Antunes: É a tragédia da relação de um pai com um filho. É sempre um tribunal inesperado, o julgamento de um pai pelo filho, do filho pelo pai, as incompreensões, etc. e depois ficamos em paz quando os pais se vão embora. Eu agora tenho imensas saudades do meu pai. Nunca me passou pela cabeça ter saudades quando ele estava vivo. E dei-me conta de que o amava. Depois vem sempre o remorso. Mas é um julgamento terrível. Nós estamos constantemente a julgar os pais, os nossos, que por sua vez também nos estão constantemente a julgar. E é cheio de incompreensões. Eu estou a falar em geral.

entrevista concedida por António Lobo Antunes a Celso Filipe, no Jornal de NegóciosWeekend, 07-12-2017, pp.4-9.

A guerra


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Jornal de Negócios: Neste livro, há desumanidade. Orelhas cortadas, violações, decapitações. Inevitabilidades da guerra são omitidas por vergonha ou medo. É um assunto mal resolvido em Portugal. 

António Lobo Antunes: Isso não sei dizer. Dentro de mim é mal resolvido porque continua a atormentar-me. As outras pessoas, não sei. Acho que agora as pessoas já nem pensam nisso, a maior parte nasceu depois [da guerra colonial].
Uma guerra não é um chá da Cruz Vermelha. Tem de ser eficaz, tem de vencer e aterrorizar o inimigo. Sempre aconteceu. Uma guerra é isto. Não são abraços, beijinhos, um chazinho. Dentro de nós existe uma grande crueldade. Quem não é capaz de matar? Toda a gente é capaz de matar, temos é medo. E ali, de repente, matar era porreiro porque não havia consequências. Não estou a dizer que era assim que se passava, ou que não se passava assim, isso não interessa, mas entre nós existe muita crueldade.
A cena de violação do major, isso vi eu.

entrevista concedida por António Lobo Antunes a Celso Filipe, no Jornal de Negócios, Weekend, 07-12-2017, pp.4-9.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A importância da tradição judaico-cristã


Frei Fernando Ventura, em Raízes, em conjunto com José Pedro Serra, sobre a herança do judeo-cristianismo. Falando de um tempo sem memória, do cristianismo como uma relação e não uma religião, do modo como somos amputados da dimensão emocional e sentimental remetida para uma espécie de fraqueza na qual não deveremos entrar. As pessoas não vão de cara alegre nos transportes públicos, nem, tão-pouco, assim vão às missas, nas quais entram com cara de enterro e parecem suportar todo o peso do mundo quando deveriam beber ali para o transformar. A importância a dar ao cristianismo não pode derivar somente de uma posição confessional privada, no que seria um grande erro. Por vezes, o respeito pela antiguidade clássica, e nomeadamente a sua arte, exprime-se em uma reverência - mesmo que, por vezes, postiça - que o judeo-cristianismo parece não alcançar em muitas das nossas comunidades. O judeo-cristianismo não é um elemento que possamos negar na nossa tradição. O cristianismo perdeu muito o sentido da festa - ritualmente e na vida. Tomar o cristianismo como uma moralidade é completamente fatal. Regras, exterioridade, ritos sobre estas. No paganismo, sentia-se uma alegria que às vezes falta aqui. E o cristianismo nasce na maior explosão de festa - que é a manhã de Páscoa. O Deus de Jacob não é um Deus distante: é um Deus da estrada, um Deus-cigano. De tal maneira Deus que se faz um de nós. "O contributo do judeo-cristianismo para a humanidade não tenho nenhuma dificuldade em aceitar" (José Pedro Serra). Independentemente da adesão existencial ao Deus-vivo, há duas ideias que nos embebem completamente e da qual não podemos já sair: a ideia da Transcendência (o Deus da Aliança) e a própria ideia de História (a história como ideia/concepção é uma coisa judaica; não conheço nenhuma concepção anterior aos judeus que conhecesse a ideia de história; durante séculos e séculos, em função do mito, via-se o tempo como circular, o que significava um terror na abertura ao tempo, e o medo do futuro com aquilo que ele tem de novo; era um horror à história, e com a consequência de uma segurança existir). Para os judeus, a história é lugar da revelação de Deus: o tempo e a história têm um sentido. Devemos ver com preocupação o afastamento da compreensão - da inteligibilidade, por parte de tantos contemporâneos - destas categorias. Um texto tão afastado, à partida poder-se-ia pensar, da fé judaico-cristã, e típico daquilo que viria a ser uma dada sensibilidade do séc.XX, como À espera de Godot, na verdade não se compreende sem as categorias judaico-cristãs da espera, da esperança (apesar dos jogos semânticos, a propósito da peça, com a palavra God, Godot seria, afinal, um mero ciclista que não teria jeito para andar de bicicleta e terminava sempre no mesmo lugar). Um aluno fantástico de Filosofia, na Universidade, perguntou a José Pedro Serra o que era/é um Evangelho. A nossa experiência desta memória judaico-cristã é, em realidade, muito marcada pela ignorância dos textos originais. Frei Fernando Ventura corrige a palavra Testamento para traduzir o original das duas grandes partes que compõe a Bíblia e traduz por Aliança (Antiga Aliança e Nova Aliança, respectivamente). O que está em crise no nosso tempo não é a fé, é a vida: a minha relação com o outro. O mito autodestrutivo de hoje: a autorrealização (tudo o que está para além de mim não me interessa). Temos relações com o outro, mas não somos com os outro. 
Dizer que a condição humana é trágica não é negar a Transcendência: é a emergência de um momento indomável onde tudo pode acontecer. Onde não temos muletas morais, onde não temos códigos de bom comportamento, onde ficamos a sós com a sombra da Transcendência. E tudo pode terminar bem se eu aspiro a um Absoluto (e toco), ou pode terminar mal no sentido de uma ferida enorme que não é sarada. 
No esquecimento da tradição judaico-cristã - uma ignorância indesculpável! - não estará, porventura, o anti-semitismo? No sentido de que tu (judeu) reclamas/exiges o que eu não consigo reclamar/exigir (a Transcendência)? Tu mostras-me um caminho que eu consigo apenas raspar. Mostras-me uma Transcendência que se calhar é mais cómodo eu não sondar. 
O outro deixa de ser alguém com quem eu me construo, mas alguém contra com quem me construo.