quarta-feira, 26 de julho de 2017

Descobertas de Verão

Verdades inconvenientes

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Entre a roupa doada para Pedrógão Grande, informa a Sábado, estão coisas como máscaras do Homem Aranha, do Zorro, vários fatos de carnaval, uma caixa de lengerie sexy, camisas de dormir em cetim, baby-dolls em rendas, com cuecas a condizer. Saiote de noiva. Vestidos de noite compridos, com lantejoulas e brilhantes, e sapatos de salto agulha. Roupa interior em segunda mão, suja e rota. Calcula-se que 10% do material enviado seja isto. Não, não é só o "bom povo", enganado por espertos, quando participa em campanhas solidárias e vê desvios pelo alheio; é, também, uma parte do "bom povo" que utiliza tais campanhas para se desfazer do lixo, desprezar o próximo, e mostrar a sua cara mais grotesca.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um mundo perdido

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Ler: No livro refere frequentemente os cheiros da montanha. Acha que para o homem moderno, que vive nas cidades, esse mundo de odores é um mundo perdido?

Paolo Cognetti: Sim. Todo o mundo de coisas que podemos fazer com as nossas mãos se perdeu. A relação que nós temos com o mundo através das nossas mãos também se perdeu na cidade


Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, p.44

Puro


Ler: Não queria muito ir por aí, mas tenho de falar dos livros de Elena Ferrante porque abordam o tema da infância e da amizade, neste caso, entre raparigas. E há nessa relação uma grande rivalidade e aqui, entre Pietro e Bruno, nunca se sente a mesma rivalidade violenta, uma luta. Será por serem dois personagens tão diferentes?

Paolo Cognetti: Não quero dizer nada que seja machista, mas acho que nas amizades entre raparigas há sempre grande rivalidade, inveja de alguma coisa, há sempre um ponto em que acontece alguma coisa. E vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro. Talvez seja uma ilusão, talvez não seja real. Mas sinto que há uma lealdade profunda entre Pietro e Bruno, algo que se quebra quando entra uma mulher em cena. Para esta história, imaginei este momento em que a mulher aparece e cria um momento difícil entre os dois amigos.

Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, pp.46-47.

A montanha, o espírito e a pureza

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Ler: Ao longo da História, a ideia da montanha sempre esteve associada à religião e ao divino. Acha que as pessoas hoje em dia vão para lá à procura do divino ou de si próprias? Acha que essa busca tem que ver com uma ligação religiosa que se perdeu com os tempos?

Paolo Cognetti: Penso que sim. As pessoas vão para lá à procura de algo espiritual, a que talvez não chamem «Deus», mas não é apenas a procura da proximidade com os animais, a natureza, a floresta. Há algo mais do que isso que oiço nas histórias que as pessoas que vão para as montanhas me contam, algo que sentem, ou julgam sentir ou que querem sentir. Algo espiritual, sim.

(...)

Ler: Acha que este mito, esta ideia de fugir da civilização é uma escolha a que só nós, os ocidentais, nos podemos dar ao luxo?

Paolo Cognetti: Acha que é um mito ocidental? Acho que é um mito universal, também existe na Índia [Pausa]. (...) Não diria que é algo próprio de uma civilização rica, mas também de uma civilização decadente, outrora rica, e que está em crise. Esta é a história do Ocidente. E em tempos de crise, as pessoas começam a ter necessidades diferentes, como a necessidade de abandonar tudo. Isto não acontece em sociedades que estão em crescimento, como acontece hoje na China, onde penso que ninguém agora tem vontade de ir viver para a floresta. [Risos] Também na Itália, nos anos 60 e 70 ninguém pensava nisso.


Ler: Mas este tipo de pensamento já existia no Ocidente em fases de ascensão económica, durante a Revolução Industrial, com a ideia de construção de comunidades fora do mundo, fora da sociedade. Será que no Ocidente não nos estamos sempre a pensar como estando num período de crise e decadência?

Paolo Cognetti: Penso mais no mito americano da fronteira que associa o Leste às cidades, ao desenvolvimento mas também à impureza, que haveria algo de original e puro que depois se corrompia na cidade. Por isso, era preciso caminhar para o Oeste à procura da pureza, da nossa própria pureza. Nesse mito americano, a pureza perdida pode ser encontrada no Oeste. Talvez as montanhas sejam o meu Oeste, a minha fronteira.

Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, pp.46-47.

Comunidade


Ler: Qual a razão desta visão tão negativa sobre a família?

Paolo Cognetti: [Risos] Esta é difícil. De certa maneira, é também uma questão política. A mim faz-me falta o sentido de comunidade, de uma vida política num determinado lugar, nas nossas cidades, nos nossos bairros, nos nossos locais de trabalho. Penso que só existem famílias, casais, o amor, pais e filhos, e menos amigos e companheiros, e sinto falta disso, de um tempo em que as relações fora do círculo familiar eram tão importantes, de forma a construir coisas nas nossas cidades, nos nossos países.

Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira AmaralLer nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, pp.45-46.

Um estilo "tipicamente masculino"


Depois há outra coisa tipicamente masculina, que é uma forma de não dizer as coisas. (...) Então este é um estilo contido, tímido e há sempre a sensação de que há algo muito importante que o narrador não diz, algo que devíamos saber e que ele não diz e acho que isso é muito próprio dos homens.

Paolo Cognetti, entrevistado por Bruno Vieira Amaral, Ler nº.146, Verão 2017, Vejo a amizade masculina como algo verdadeiramente puro, p.45.